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Diário de um Deprimido – Pt I: Primeira semana em NYC

Quase um ano depois, já tendo passado por várias coisas das quais vocês lerão, aqui está minha saga em NYC. Foi necessário voltar no tempo e contar um pouco da minha vida, contar como foi depois da viagem, e como tem sido agora para tudo que foi dito fazer sentido. É um texto bem longo, dividido em 7 capítulos, mas leiam com calma. Um capítulo por dia, dois, não precisa ser tudo de uma vez, até mesmo que ficarei um tempo sem postar. Gostaria que todos lessem, mas eu sei que pelo menos as pessoas que importam irão ler. Postei todos os capítulos de uma vez só (quebrando até a ordem natural do blog) porque queria me livrar de uma vez dessa história, além de se tratar de um assunto delicado onde não dá pra ficar brincando de fazer suspense.

Dedico esse texto a todos os meus amigos queridos que eu amo, aos leitores do blog sejam antigos ou novos, pessoas que eu possa ter ofendido ano passado ou em qualquer outra ocasião por conta do blog, aos que amam artes em geral e fazem questão de lutar por esse amor (tendo pelo menos um nível bacana de bom senso), aos que de sua forma tentam fazer do mundo um lugar melhor e principalmente aos que possam estar passando por problemas parecidos. Espero que esse texto seja uma forma de mostrar que o seu caso também tem jeito, mesmo que você não acredite nisso agora.

Quem não leu minha saga na Disney e não quer, só precisa saber uma coisa: tive os melhores dois meses e meio da minha vida, aprendi muito, cresci muito e no finalzinho conheci um garoto que me apaixonei perdidamente. Seu nome era Cody. Quando me dei conta, já estava indo para NYC, lugar que sempre sonhei em conhecer e de onde continuo o relato.

“Concrete jungle where dreams are made of, there’s nothing you can’t do. Now you’re in New York, these streets will make you feel brand new, big lights will inspire you…”

- Empire State of Mind

18 de Fevereiro 2011

No avião sentei do lado de duas meninas que fizeram também o programa da Disney, só que eu tava tão destruído que não puxei papo nem nada. Só dormi. O voo foi super rápido, nem senti, parecia que tinha piscado e ao abrir os olhos já havíamos chegado. Toda aquela correria para pegar as malas e dava pra ver todo mundo da Disney ainda com cara inchada, destruídos, era uma cena deprimente. As minhas chegaram logo e enquanto a Raissa esperava as dela, fui procurar como fazer para sair dali e irmos para o hotel dela. Nisso encontro o Lívio, de Fortaleza, que falou que tinha uma espécie de ônibus que levava para hotéis em geral por um preço super barato. Se não me engano era coisa de $20. Fui voltar para falar com a Ra e encontrei Bianca, também de Fortaleza, toda triste me abraçando, falando pra gente sair juntos etc. Eu super abalado ainda só falando “aham, tá, bora, tá” e abraçando. Confesso que aquele abraço ao menos me deu uma força para continuar andando até o ônibus, porque tava meio foda a situação.

O motorista do ônibus, um gordo escroto do caralho, ainda quis inventar treta porque o ônibus tava lotado e no caso eu e Ra iriamos em pé e que isso não podia blá blá blá, mas dai o negão que nos vendeu a passagem falou que podia sim e acabamos indo em pé mesmo. Eu não sei que caminho ele pegou, mas era uma região meio pobre. Casinhas pequenas, poucas pessoas na rua, bem estilo daqueles filmes americanos que você vê crianças negras pulando corda na rua. Levou um tempo, tempo em que liguei pra minha mãe só pra avisar que estava em NYC e texting o Cody loucamente. Chegamos num lugar já mais com cara de cidade grande. Pegamos outro carro que nos deixou na porta do hotel. Primeiro choque fora da bolha da Disney: o motorista do novo carro grita enquanto eu admiro o hotel ainda meio chocado “Pega suas malas, tá achando que eu sou o quê? Seu chofer?”

Eu havia combinado de ficar com a Ra nos primeiros dias que depois iria ficar na casa de uma amiga. Eu já poderia ir direto para minha amiga, mas a) já havia combinado b) no fundo não queria ficar já sozinho de começo c) tava morrendo demais pra pensar nisso. Esse era o hotel:

Ele é super bem localizado, fica na 51 (ou seja, dá pra ir andando até a 42). Eu não sei quanto custa porque o meu combinado era dar $60 pelos três primeiros dias (que era o preço que eu ia pagar no albergue antigo que simplesmente fechou antes de chegarmos lá!) mas tinha cara de ser meio carinho (até mesmo que o Johnny, um amigo nosso da Disney, acabou ficando uns dias lá pra ajudá-la).

Jogamos nossas malas no chão. Primeira coisa que eu fiz foi tirar da bolsa o porta retrato com a foto de Loren e Cody e colocar em cima da bancada. Depois mostrei pra Ra o vídeo que eles fizeram, eu chorando novamente, ela provavelmente com uma cara de “errr, quê?”. Fomos então atrás do hotel onde a mãe dela havia ficado uns dias atrás para pegarmos umas coisas pra Ra. Eu devia tá com jet lag, todo fodido, mas queria andar pra espairecer. Fui com ela andando pelas ruas, observando tudo. Não tava frio como todo mundo falou que estaria. Detalhe, eu ainda estava com a blusa do Goofy do dia anterior. Não tive nem a decência de trocar. Andamos até o hotel, pegamos as coisas e nem fomos de volta ao nosso hotel, fomos logo para Times Square. Nesse momento já estava escuro. Nos perdemos, óbvio, e fomos perguntando. Ainda pegamos o metrô para nos aventurarmos. Maior erro. Eu tava completamente sem cabeça de tentar entender aquilo e ninguém tava sabendo explicar direito, então perdemos um bom tempo ali. Juro que eu olhava o mapa do metrô e só via pontinhos e mais pontinhos. Desistimos, descemos numa estação qualquer e uma moça falou “segue em frente, logo ali é a 42 com a Broadway”. Eu ouvi isso e fiquei meio descrente. Antes disso eu já estava cantando “Empire State of Mind” pra tentar me animar. Não tava funcionando muito. Depois que ouvi isso comecei a cantar “Broadway, Broadway, agora eu vou” com “Come and meet those dancing feet, on the avenue I’m taking you to, 42nd Street”. Era uma forma de tentar me animar, porque lá dentro, nada acontecia.

Chegamos. Eu só lembro de andar um pedaço e o primeiro teatro que eu vejo bem na esquina ao lado era o Nederlander. Eu como bom RENThead, fiz questão de chegar perto. Coloquei minha mão nele e tirei. Olhei para ela que estava preta, suja de poeira. Mas era a poeira do Nederlander. Abri um sorriso. Olhei em volta vendo fotos do Million Dollar Quartet e pensando “não sei se verei isso, mas acho que vou só pra entrar nesse teatro” até que escuto Raissa “vem Charles!”. Continuamos andando. Quando me dei conta, já estava na frente do St. James com American Idiot me iluminando. Eu travei. Juro. Na minha mente antes da viagem eu me imaginava correndo pra dentro do teatro, perguntando na bilheteria como era o esquema de loteria, student, etc, etc. Só que ali, realidade, era eu travado. Parei a ponto da Raissa gritar de novo e eu continuar andando, sendo que na minha cabeça eu queria entrar ali. Mas vozes vinham com “é caro, você não vai conseguir, vai embora”. E eu fui.

Quando me dei conta de novo já estava na escadaria da TKTS, olhando tudo aquilo em minha volta. Era estranho. Eu queria estar vivo, pulando de um lado pro outro, batendo fotos, mas eu estava simplesmente inerte. Encontramos Carina e Johnny, ficamos admirando ao redor. É complicado explicar o que eu sentia ali. Dava tempo de correr, ver um musical, mas não tinha forças, coragem, não tinha nada. Então fiquei só admirando mesmo.

Primeiro contato com Times Square.

PHOTOBOMBING ATRÁS.

Meu sorriso diz muita coisa se você prestar atenção. É um sorriso amarelo, de quem quer ser feliz, mas não consegue. Raissa ainda foi em alguma loja pra olhar roupa, eu já estava quase caindo de sono e sem entender direito o que se passava comigo.  Pior que eu tinha dinheiro pra ver a peça que eu quisesse naquele momento, mas enfim, voltamos pra casa. Só fiz jogar minha roupa no chão, pegar o Stitch e abraça-lo como nunca. Mandei uma mensagem para o Cody do tipo “essa vai ser a noite mais difícil da minha vida” da qual recebo a resposta quase que imediata “a minha também, já estou com a Loren me entupindo de sorvete”. Pensei em chorar, mas o sono falou mais alto.

19 de Fevereiro 2011

Acordei super cedo. Eu dormi, mas é como se não tivesse. Meu corpo ainda estava meio mole. O mais incrível era o cérebro exigindo que eu me levantasse, que eu fosse aproveitar, afinal, eu estava em NYC! Não podia me dar ao prazer de ficar triste. Então acordei a Raissa que falou “então vai logo tomar banho!”, fui. Eu arrastava meu corpo. Até ligar o chuveiro, passar sabão no corpo, tudo era tarefa pesada. Minha mala tava uma zona, o que me estressava horrores. Eu queria arrumar, mas não tinha força nem de tomar banho, quem dirá arrumar duas malas. Só troquei a blusa, fiquei com a mesma calça, sapato, casaco, tudo. E me fodi lindamente. O frio estava bizarro. Saindo do hotel já quase voei com o vento. Não dava nem pra andar direito. Entramos rapidamente no metrô, dessa vez já tendo uma base maiorzinha que a Raissa tinha visto na internet. Eu ainda sem nem saber por onde estava andando. Perdidão, depressivo e com frio, que aumenta ainda mais a tristeza de qualquer um. Se você acha que gosta de frio por conta do nosso calor, viaja pra NYC no inverno e vem me contar como foi.

Fomos tentar a loteria do American Idiot. Tinha um grupo enorme de pessoas estranhas, roupas estranhas, cabelos estranhos, no maior estilo wannabe punk. Perguntei se ali era a loteria, não, elas só estavam esperando o Billy Joe chegar. Fomos pra loteria, tentamos. Nem filmei, nem tirei foto, nada. Tava frio, eu só queria ganhar aquela porra. E claro, perdemos. Só que infelizmente eu nem me dei ao trabalho de entrar, ver se tinha como comprar estudante, se os ingressos dos perdedores eram muito ruins, nada. Eu aceitei o fato de que já era, virei pra Raissa e falei que ela podia fazer o que quisesse. Fomos então ao Met, passando antes pelo Central Park. Estava muito frio, então só pisamos mesmo, tiramos poucas fotos e já fomos correndo pro Met (entrada de $1, calorzinho, me gusta).

Primeira ida ao Central Park

Pose pra foto bonitinha.

Realidade.

A Raissa tava encantada, vendo tudo, analisando tudo. Eu tava mais vendo meu celular do que qualquer coisa. Eu fiquei sim trocando SMS com o Cody. Ela me condenava, me xingava, e com razão. Eu devia tá aproveitando aquilo, mas não, tava trocando mensagens. Agora o que eu posso fazer? Eu gosto de visitar museu, ver artes, mas pra isso você precisa estar no mood. Mood esse que eu não me encontrava. E confesso também, gosto muito, mas não amo. Não fico analisando pinturas com embasamento nenhum. Sou um ignorante do caralho no assunto. Acho bonito, acho legal de ver, mas só. De preferência ouvindo músicas relaxantes no Ipod (que agora é Ipod, antes era MP3). Naquele momento mesmo o que eu queria era estar assistindo um musical, passeando, mas tava frio, tava ali né. Me animei mesmo quando vi o quadro do Sunday in the Park with George e o auto-retrato do van Gogh. Eu tirei foto, mas a Ra perdeu.

Mas também foi bater a foto, ficar felizinho e voltar pro celular. Também gostei de ver marinheiros visitando o museu bem ao estilo On the Town, tirando isso, fui uma péssima companhia para Raissa. Ela cansou de ficar andando também e falou “quer tentar a loteria do American Idiot da sessão da noite?” eu disse que sim, óbvio. Fomos. Nos perdemos no metrô, perdemos o horário. Andamos um pouco pela rua, voltamos pra casa. Eu pensei em arrumar a mala, quem disse? Deixei lá jogadas e fiquei deitado. Mesmo sem dormir, ficar deitado era tudo que eu queria. E mensagem atrás de mensagem. Eram besteirinhas sabe, mas aquilo me deixava feliz no momento. Eu sentia que ele tava triste, mas ele tava em Orlando. Eu tava em NYC, podendo realizar o sonho da minha vida, e tava lá, trocando mensagens bobinhas. O mais engraçado é que da vida na Disney em si, eu já tava meio cansado mesmo. Já tava em overdose de Disney. Foi o tempo necessário. O trabalho era muito divertido, mas bem cansativo. Eu no fundo já queria ir pra NYC mas não contava com esse apego enorme a uma pessoa já tão na reta final. E assim foi mais um dia de derrota. O pior era o cérebro cobrando uma coisa, o coração dizendo outra e o corpo não correspondendo a nenhum dos dois.

20 de Fevereiro 2011

Esse seria o dia que iria mudar tudo. Finalmente iria ao teatro! Já havia comprado ainda no Brasil os ingressos para assistir Angels in America.  Minha esperança era entrar, assistir algo fantasticamente foda (que é o caso dessa peça) e pronto, voltar ao normal. Voltar ao meu eu de sempre. Voltar a ser Charles Fouquet. Fui tomar banho (me sentido exatamente como no dia anterior), peguei os papéis que precisava para retirar os ingressos e fui. Raissa foi comigo porque eu ainda não sabia andar direito, e ela via o estado deplorável em que eu me encontrava, logo, ela foi me deixar na porta mas antes passando perto do Hudson River e num mercadão de coisas usadas que tinha perto.

Andando pela rua já era engraçado de ver os teatros com altas pecinhas Off-Broadway. Teatros esses minúsculos que se alguém me falasse, eu não acreditaria. Peças e mais peças das quais eu não fazia ideia do que se tratavam, quem estava no elenco, etc. Um fato até então novo para mim. Até que quando menos espero, passo por outro teatro pequeno e opa, é aqui? Sim, era ali. Signature Theatre Company, o teatro de Angels in America. Mais que depressa fui tirar fotos na frente, fazendo a linha Charles Fouquet total. Ou tentando. Raissa também perdeu essas fotos, mas era eu na frente do teatro fazendo pose de anjo, essas coisas bregas e felizes que eu costumava fazer. Exemplo:

Fui super cedo pra garantir, detalhe que só fiz falar o nome mesmo da Carol (que comprou no cartão dela), sem apresentar nada, e a moça me deu o ingresso. Depois ainda fui fazer hora ali por perto, fui numa pizzaria que um pedaço de pizza gigante era $1, comi logo duas pra encher e assistir bem o primeiro ato que por si só já é enorme. Raissa falou “Você não tá feliz de ver seu primeiro musical na Broadway?” eu respondi “Não é musical, é peça. E não é na Broadway, é Off-Broadway”. E ela com uma cara de “Mas você não comprou o ingresso pra ver caralho? Você não gosta disso? Tá triste por quê?” e eu forçando estar bem, mas aparentemente, deixando suspeitas.

Angels in America é uma peça genial que não tem como resumir muito (afinal são quase 7 horas de duração) mas mostra uma visão dos EUA em meados dos anos 80, Aids atacando loucamente, nada se fazia para combatê-la e tudo isso tendo como perspectiva a visão gay e num ambiente apocalíptico. Ou seja, péssima escolha para meu momento. É dividida em duas partes, a primeira parte tem 3 atos e a segunda 5. Ela é enorme, mas é fantástica e eu amo. Quem puder assistir (e acho que super deveria) existe a série da HBO. Tem pra baixar, tem o DVD pra comprar e bem, só sente o elenco: Justin Kirk, Patrick Wilson, Meryl Streep, Al Pacino, Mary-Louise Parker, etc, tá boa? Dispensa mais comentários. Pois bem, vamos a peça.

Eu fiquei fazendo hora como já disse, e faltando uma hora pra entrar, eu resolvo fazer o quê? Ligar para o Cody. Por que eu fiz isso meu Deus? Não sei, mas fiz. Liguei, fiquei lá conversando com ele, nem lembro sobre o quê, mas ouvir a voz dele me deixou feliz. Ficávamos provavelmente lembrando de coisinhas idiotas que fazíamos, como sentiamos falta disso, etc. Faltando 20 minutos pra começar, desliguei. Entrei. Peguei o playbill, sentei. Teatro mega pequeno, tava a poucos metros do palco. Era tão pequeno que até da última fileira você veria perfeitamente bem. Eu tava no meio. Abri o playbill pra descobrir que o elenco era diferente. Eu comprei esse dia pois seria o closing da peça, mas não era mais. Foi estendido com um elenco novo. Só não entendi porque mudaram o elenco antes dessa data, mas eu tava tão foda-se que isso era o de menos. Antes tinha o Christian Borle (Emmet do Legally Blonde) e o Zachary Quinto (Sylar do Heroes) que eu conhecia, dessa vez só tinha no lugar do Borle, o Michael Urie (Marc de Ugly Betty). Eu tava meio away. Sentei na cadeira como quem vai assistir uma palestra chata da UERJ. E aí a peça começou.

Começa com um velho judeu discursando sobre alguém que acabou de falecer. E eu lá, tentando entender o que diabos ele estava falando. Na verdade era uma atriz fazendo o papel do velho. Mas foda-se, não tava entendo nada. Não lembrava quase nada da série, e de qualquer forma, naquele momento eu não lembrava era quase nada da minha vida em si. A peça prosseguiu e eu só queria entender o que eles estavam falando. Aquilo não era pra ser em inglês? Só lembro de passar mais um tempinho, ter um velho gritando no telefone (e na minha memória vir o Al Pacino) e depois entrar em cena o Michael Urie e eu “uau, meu primeiro famoso na Broadway… digo, Off-Broadway”. Contentamento que durou 3 segundos, e aí ele voltou a ser “normal”. Estava ele sentado no banco, falando sobre uma tal de little Sheba. O que diabos era isso gente? Eu bem lembrava e agora não tava entendendo… Pois bem, mais um pouco depois apareceu a equivalente a Mary-Louise Parker, amo/sou. Ela é incrível. O elenco inteiro era, mas ela me cativou mesmo dada todas as circunstâncias que eu me encontrava. Quando eu me dou conta de mim, havia acabado a primeira parte. É sério isso gente? Eu não senti nada e já acabou a primeira parte? Socorro, simplesmente socorro.

Levantei e dei uma saída como querendo acordar. Comprei M&Ms, mastigava com vontade e pensando “o que foi isso que aconteceu?”. Voltei. Ao meu lado uma velhinha, quase perguntei pra ela “isso aqui é a vida real?” mas ela tava muito entretida lendo seu playbill. Voltou com a segunda parte, eu comecei a entender mais a língua falada, era inglês sim. Só que por algum motivo eu foquei nas transições. Amava como eles mudavam o cenário, a música de transição, a iluminação. Era incrível, uma peça a parte. Tão a parte que tirando a cena do banheiro onde o equivalente ao Patrick Wilson conhece o (ex)namorado do Aidético Urie, e quando o mesmo Aidético Urie conhece a equivalente a Mary Louise-Parker ambos em suas alucinações, que aliás, eu acho que era nesse ato, o resto nada mais me lembro.

Fui comprar Coca, sim, uma Coca ia me acordar. Terceira e última parte, aqui vamos nós. As alucinações que o “Urie” estava sentindo, eu também estava. Só podia. Umas ceninhas aqui, outras ali, se duvidar dei uma cochilada mas não esqueço da entrada do anjo. A sensação de tudo estar tremendo, a iluminação linda, e um anjo descendo do teto com as asas abrindo lentamente e deixando o “Urie” perplexado. Fim do primeiro ato.

Saí de lá meio sei lá. Impactado com a cena do anjo, mas tipo, era basicamente tudo que eu tinha pra falar caso me perguntassem da peça. Eu realmente não tinha absorvido nada, absolutamente nada. Fui parar num Subway que tinha ali perto, enquanto comia alguma coisa, liguei para Leo Polo e Laisoca. Dois amigos de São Paulo e eu só falei que tava triste, eles tentaram me animar, mas no fundo não adiantou muito. Eu tava triste. Triste por tudo que antecedeu minha ida ao teatro e agora ainda mais por estar perdendo algo tão incrível, que eu sabia que era incrível, e por alguma razão não estava fluindo. Fiquei olhando o Hudson River até dar a hora do segundo ato. Acho que foram duas horas, não lembro, mas passou rápido. Claro que eu liguei pro Cody novamente, dessa vez falando que nem o teatro tava tão legal e que queria estar com ele. Ele respondeu que mal havia chegado lá, mas já sabia que nada seria igual aquilo que tivemos. Eu pensei em chorar, mas tava muito frio pra isso. Fiquei esperando no hall do teatro. Não tinha ninguém da minha idade ali. Só haviam velhinhos super bem vestidos, tinham tantos que eu tive que levantar pra oferecer meu lugar. Nesse lance, o carinha responsável dos playbills puxou assunto comigo. Um fofo. Ele também era mega fã de teatro e acabou conseguindo por intermédio de um amigo ficar ali responsável pelos playbills, dar informações, etc. Foi até que eu perguntei se não tinha programa, ele só fez apontar pra uma mesinha que tava na minha frente e eu sei lá como, não vi. Levantei e tinha lá uma caixinha pra colocar o valor e pegar o programa. Na hora eu achei que era sei lá, doação, então só fiz pegar dois de graça e voltei. Ele ficou com uma cara meio errada, e só bem depois eu me toquei que provavelmente eu deveria ter pago mesmo.

Deu a hora pro segundo ato. Eu tentei bravamente assistir, mas meu cérebro já ficava me perturbando lembrando que eu já havia perdido o começo, que eu não ia entender nada mesmo, que não adiantava lutar e, assim, eu acabei sucumbindo. Assisti algumas cenas, mas não tenho mais como falar direitinho porque não lembro. Eram 5 atos, só levantei num dos intervalos pra comprar mais M&M e o que eu lembro é de acordar, ver alguma cena, lembrar mais ou menos da cena na série, e apagar. Eu vi a equivalente a Meryl Streep perdida, vi a cena que os manequins ganham vida (nessa eu fiquei “wtf?” até lembrar), duas cenas de nudismo (uma com o “Patrick Wilson” que era super bonitinho e outra com o Urie) por aí vai, até a belíssima cena final da Keira Keeley (a equivalente da Mary Louise-Parker). Ela estava num cubo, voando, eu sem entender nada mas me forcei a ouvir o discurso dela. Pra quê? Baldes de choro. Baldes. As alucinações dela eu lembro de todas, ela é realmente foda pois eu até acordava nas suas cenas. Imagina escrever uma crítica de uma peça e falar “sei lá quem é tão incrível que eu até acordava nas suas cenas”. Se a peça for muito ruim, seria um elogio. Mas aqui eu que tava fodido mesmo. E essa cena final dela acabou comigo. Logo em seguida tem a última cena do Central Park, e eu mais uma vez chorando. Chorando porque essa parte eu lembrava, chorando pelo contexto, chorando por ter perdido essa experiência linda, chorando porque não entendia o que tava acontecendo, enfim, tava chorando sem parar.

Saí de lá tão atordoado que o menino dos playbills veio falar comigo, eu falei que tava muito tocado e que era normal, dai ele me deixou. Sempre me imaginei na saída dos teatros de lá falando com os atores, pedindo autógrafo, foto, coisas básicas. O mais incrível é que eles saem muito rápido. Eles saem com um minuto da peça tendo acabado e a maioria ainda pega o metrô. Todo o elenco já estava saindo. A própria Keira e o Urie passaram do meu lado e eu não fiz absolutamente nada. Não consigo mentir, então dar parabéns pela peça não era a coisa certa. Por mais que as poucas cenas que eu tenha visto tenham sido incríveis, e eu já sabia que eles eram incríveis, mas não consigo. Simplesmente sai de lá. A Bianca de Fortaleza tinha chamado pra uma balada depois, mas que clima que eu teria? Nenhum. Fui pra casa no metrô chorando, me perdi, cheguei tardão em casa, morrendo de frio e sem entender nada ainda. Raissa pergunta como foi a peça, eu digo “foda” e deito. Minha cabeça tava girando, eu realmente não acreditava que tudo que eu tinha pra falar da minha experiência assistindo fuckin’ Angels in America era que eu vi o Michael Urie pelado, o anjo lindo descendo do teto e uma atriz foda que eu não conhecia voando num cubo. Mesmo. Eu, que sempre abominei pessoas que dormem em teatro, havia dormido. Eu que abomino pessoas que reparam nesses detalhes idiotas e óbvios, havia reparado mais neles do que tudo. Eu que sempre tive o pesadelo de não entender uma peça ou perdê-la pelo motivo que fosse, havia não entendido e perdido. Eu, que sabia que aquela peça era o máximo e contava com ela para voltar a ser o Charles de antes, havia achado a experiência fria e só piorado mais ainda a situação. Era pra ter sido um dia perfeito, eu passei o dia fazendo o que eu mais amava, no teatro, e tinha sido errado. Tudo errado. Eu, que provavelmente pensei mais coisas e apaguei no sono, agora partindo pro próximo dia.

21 de Fevereiro 2011

Acordei e Raissa nem estava mais no quarto. De qualquer forma eu iria me mudar para casa da minha outra amiga que tá morando lá. Com muita coragem eu fechei a mala, organizei o pouco que tinha que organizar e fiquei esperando dar a hora de sair. Raissa voltou da rua, falou que tinha ido passear, que tava nevando, e que pra não perder o dia dela, não dava pra me ajudar a levar as malas. Porque super dava pra ir de metrô, mas tranquilo, fui de táxi. Juro que nem fiquei triste nem nada, não por isso. Eu já tinha outros motivos para estar triste. Peguei o táxi segurando duas malas, uma mochila nas costas e um Stitch gigante nos braços. O taxista não tava entendendo minhas anotações, mas depois de um tempo ele descobriu e chegou no endereço certo. Passei o cartão pra pagar, bem coisa de filme mesmo. O divisor da parte da traseira para a dianteira feita vidro, no vidro o leitor do cartão de crédito, tv, ficaria deslumbrado se não estivesse deprimido. Paguei com a taxa mais barata porque lá você é obrigado a pagar taxa de tudo, e pronto, estava lá. Muita neve na rua, a porta do prédio dela parecendo a entrada do dormitório da Elle Woods. Pensei “tá na hora de mudar o rumo dessa viagem!”

Subi e lá estava minha amiga me esperando. Eu a conheci tem um tempo, ela morava em SP e eu a ajudei quando ela tava produzindo uma montagem de escola do Drowsy Chaperone. Na verdade seria Legally Blonde, rolou babados e confusões por conta da Vendramini que jurava que tinha os direitos, não tinha, blá blá blá, dei a ideia do Drowsy que vingou. Ajudei em altas paradas e até emprestei meu LP. Ela me passou as regras da casa, me deu a chave com chaveirinho do Wicked e tudo, sério, uma linda. Devo muito a ela e um dia hei de pagar. Ela falou que não teria tempo de sair comigo e eu, óbvio, disse que não precisava. E não precisava mesmo, eu estava ali mais para não pagar hotel ou albergue, só precisava de um canto para dormir a noite.

Dava tempo de assistir uma peça ainda, e Re Pluto Luz mandou mensagem me chamando que ela iria assistir Avenue Q. Pra quem não leu as aventuras da Disney, uma amiga que fiz lá que também era doida por musicais. Fui correndo. Sim, já assisti no Brasil. Sim, poderia ter ido ver qualquer outra coisa. Sim, ainda fui na TKTS, gastei $60 e isso é caro pra um ingresso que dava pra comprar mais barato por student rush. Mas eu já não sabia o que era pensar. E ver a Re, que eu gostava, sentar com ela na platéia e tudo mais, talvez fizesse uma diferença. Eu me animei antes da peça, conversei com ela, seu ex-namorado (atual na época), tinha mais duas amigas dela que eu conhecia de vista da Disney, fomos todos assistir. O ex-atual na época ainda pagou uma bebida pra mim. Lá eles vendem uns drinks com os nomes dos personagens que você pode beber durante  a peça, a minha era a Kate Monster.

Começou, tava feliz, amo Avenue Q, tava bebendo, com pessoas que eu gosto. Não tinha como dar errado. Pois deu errado. A sensação que eu tinha era de que eu estava assistindo, mas não estava. Não era a bebida, ela nem era tão forte a esse ponto (estamos falando de Kate Monster, não Bad Idea Bears!). Era eu mesmo. Meu cérebro me lembrando que eu já tinha feito merda. Que nada iria barrar aquilo. Que enquanto eu pensava isso, eu já estava perdendo mais e mais, e assim foi indo. Quando me dei conta, já tinha até acabado e estávamos saindo. Mais uma vez sem stage door (muito embora só conhecesse a Kate que já havia feito ensemble em Xanadu), autógrafo, nada. Estava eu no metrô voltando pra casa triste. O que eu lembro era que o palco era minúsculo, que no Brasil era tudo muito maior e o tal “tudo há de passar” parecia cada vez mais longe.

22 de Fevereiro 2011

Marquei de ir com a Raissa no Central Park dar uma passeada. Fui buscá-la no hotel dela. Eu tentei explicar pra ela que eu tava triste, que tava tudo dando errado, mas eu devia estar tão perturbado que ela não conseguia entender. Ela chegou até a falar no metrô “talvez você não ligue tanto mais assim pros musicais” e eu olhei com cara de “bitch, please!” e ela falou “ué, pode ser e isso é bom!”. Não era isso, claro que não. Era o contrário. Era por eu ter assistido de forma errada que eu tava mal, só que eu não sabia direito na época, além de misturar tudo com o Cody e por aí vai. Tirei uma foto antes de sair e olhando eu me indago:

QUEM TÁ DOENTE AQUI? QUEM? QUEM?

Sério gente, olha minha cara que destruição. Mesmo assim sorrindo, tentando ser feliz. Sem nem entender direito o que se passava. Demos uma passeada maior que a outra vez, e quando me dei conta, pá, estava na parte do Angels in America.

JUSTIN KIRK, MERYL STREEP ETC ESTIVERAM AQUI.

Não bastasse meu cérebro me torturar, ir nesses lugares era a lembrança daquele episódio. Mas ignorei, e fui curtindo o parque. Ria por dentro em como eu já fui super feliz no Ibirapuera por exemplo, e ali, Central Fuckin’ Park, eu infeliz. Tiramos mais algumas fotos e percebam que só fiz colocar um casaco preto velho que eu tinha por cima do outro pra ver se conseguia ficar mais quente:

DELÍCIA, DELÍCIA, ASSIM VOCÊ ME MATA.

Então neve, eu tô mal, cê entende?

WE'RE ALL MAD HERE MY DARLING.

SENDO ASSIM, ME JOGO NA COCAÍNA.

Aham fia, imagina e acredita.

Comemos na rua, andamos pela 5ª avenida, fui em algumas lojas com ela, liguei pra Carol pra tentar explicar o que acontecia comigo e ela super entendeu e ainda me deu mais dicas de como arranjar os ingressos (como o lance do horário das loterias que variam de peça pra peça), tentamos então a loteria de American Idiot e Wicked, não ganhamos em nenhuma das duas. Nisso o Fabinho (também Goofy) queria porque queria me ver. Marquei com ele na porta do Wicked. Foi bacana vê-lo, fiquei feliz que ele se deu ao trabalho de correr atrás pra ver como eu estava. Claro que eu menti, mas enfim. Faz parte da doença. Então ele falou que ia no show da Lady Gaga no Madison Square Garden que era em frente ao hotel dele, que ainda tinha ingressos, se eu queria ir. Recusei. Sim Little Monters, me odeim nesse momento. Claro que da lista dos arrependimentos, esse tá bem no fim da lista até. Mas eu normal teria ido só pela experiência nova.

Nariz vermelho de frio, sim ou claro?

O Fabinho também ficou deprê nos dois primeiros dias, mas superou. E ironicamente, eu dava força pra ele via celular. Quando perdemos a loteria ainda fomos até a Times Square, passamos na Toys R’ Us, a loja de brinquedos enorme que tem até uma roda gigante dentro, conversando e eu querendo me sentir bem por estar conversando com ele, mas nada. Me despedi e fui com a Ra, Carina, Johnny e um amigo gringo deles Ben comer na Chinatown.

O próprio Ben ficava falando coisas do tipo “Dude, you’re in NYC” então eu devia estar um saco mesmo. Eles estavam felizes de estar conhecendo um restaurante em Chinatown, comendo aquilo e eu tava super foda-se né. Na volta o Fabinho me chamou para ir em uma balada e eu falei que iria. Minha amiga me ligou falando que tinha acabado a luz lá, logo, fui pro hotel da Raissa que iria pegar alguma roupa emprestada do Johnny e iria direto. Quem disse? Depressão bateu no momento que pisei lá e dormi. Dormi no chão, mas dormi. Deitado naquele chão, morrendo de frio pois não tinha cobertor, ignorando as ligações do Fabio que tadinho, só queria me ajudar, foi ali que eu vi que eu tinha que mudar aquilo. Dormi muito mal, mas dormi. E no que acordei fui tentar virar o jogo.

23 de Fevereiro 2011

Peguei o laptop da Raissa e fiz a lista dos musicais que iria assistir. Sai cedo e fui logo tentar os students que poderia. Fui no teatro de La Cage aux Folles e comprei pra matinê, ingresso de estudante por acho que $30. Depois fui no Spider-Man que como estava em preview, era só chegar cedo e ficar numa fila que arranjava também por $30. Dava pra comprar dois e iria dar de presente pra Raissa. Estou eu, na fila, morrendo de frio e rindo de duas japonesas na minha frente que estavam tirando foto no orelhão e quem passa na minha frente? Kerry Butler. Simplesmente Kerry Butler. Irei falar mais sobre ela futuramente, mas pra quem não sabe quem é, ela é simplesmente a atriz que eu mais admirava no mundo inteiro. Ela era tipo meu Jesus particular. E ela passou na minha frente. Linda como eu sempre imaginei. Pequenininha. Eu fiquei tão em choque que nem pensei em sair da fila, ir abordar, pedir foto, nada. Fiquei estático. Quando voltei a mim mesmo, fui olhar e ela já havia sumido na multidão. Essa foi a primeira vez que eu voltei a ser eu mesmo. Foi como uma luz. Melhor, uma #luzluzluz. Por mais que eu estivesse arrependido de não ter ido atrás dela, era ela. E ela era humana! E passou na minha frente! Fiquei abobado que o frio passou, eu queria pular, queria cantar, queria tudo. Comprei os ingressos e saí feliz. Minha vida seria outra.

Voltei pra casa da minha amiga, mesmo que faltasse só questão de horas pra La Cage começar. No caminho de casa (para chegar tinha que descer numa estação e andar umas 9 quadras) eu vi uma loja de casacos usados por tipo $10, $20. Claro que deviam ser roubados ou sei lá, lembrei do Collins em RENT, mas entrei. Comprei um lindo que tinha super minha cara. Cheguei em casa e foi o tempo de ligar pro Cody, comer uma coisinha e me tocar que o casaco não ficava bom em mim. Sim, eu devia ter experimentado na loja, mas enfim, na volta fui lá trocar. Procurei, procurei e não tinha nenhum legal. Eu ia me atrasar, então acabei pegando um azul horrendo mas que tinha gorro, ou seja, me protegeria de tudo. Ainda comprei uma luva super pesada. Só que depois eu me toquei que a luva era luva de gente que escala montanha! Ela era incrivelmente quentinha, mas eu também não podia nem pegar as coisas do meu bolso porque eu não sentia mais nada. Só que preferi assim. O frio que as mãos sentem é bizarro, parece até que os dedos vão quebrar. Eu me sentia um robô com tanta roupa, mas era necessário. O frio infernal que eu sentia antes agora não era tão ruim assim já que eu tinha um casaco horrendo, porém quentinho. Fui feliz pro La Cage.

Na porta do teatro ficava um dos atores todo montado fazendo altas piadinhas com o pessoal na porta. Ele estrategicamente me pulou, afinal, meu casaco não precisa de que ninguém faça piadas. Ele por si só já era uma piada. Entrei, o lugar era numa espécie de camarote no canto esquerdo. Local perfeito. Antes da peça começar, a mesma drag sentada no palco ficava contando milhões de piadas engraçadíssimas. Me acabei de rir e naquele momento esqueci de tudo, realmente entrei na vibe. A peça começou e eu tava super feliz, as drags lindas, poderosas, maravilhosas, pernas fantásticas, toda uma vibe de descontração. Uma bola de plástico voava pela platéia, um detalhe tão simples mas tão engraçado e que super dava pra ter tido aqui no Brasil. No elenco havia Harvey Fierstein e Wilson Jermaine Heredia (Angel de RENT), o mais engraçado era descobrir isso pelo playbill. Eu fiquei dois meses e meio longe da internet, tava me sentindo essas pessoas normais que vão ao teatro sem saber nada e confesso, era engraçado me sentir assim. Lembro da primeira entrada do Harvey, meu coração batendo super rápido e eu pensando “É o Harvey Fierstein a alguns metros de mim!”. Minha primeira lenda da Broadway ao vivo. Junto com o Wilson, que eu também amo. Foi lindo.

O primeiro ato inteiro foi incrível. Eu realmente entrei na vibe gostosa que o musical tem. Fiquei pasmo com “I Am What I Am” do Harvey. Incrível como aquela voz rouca do cacete conseguiu me arrepiar. Foi quando eu relembrei o que assisti no Brasil e dei uma leve gargalhada. No intervalo conversei com um carinha que tava do meu lado, ele era fã de musicais também e falou que tava lá porque já tinha visto com o elenco antigo e queria ver com o novo. Eu falei rapidamente que eu era do Brasil, primeiro musical na Broadway, que até então era tudo Off-Broadway ou no Brasil e tava amando. Ele disse que preferia o elenco antigo, eu disse que só de ouvir e ver pelo youtube já concordava com ele. Recomeçou o segundo ato e foi em “The Best of Times” que eu tive a primeira sensação de Broadway na veia. Essa música é sensacional, e a energia do elenco, as vozes, me arrepiou e fiquei feliz. Era isso que me faltava e eu finalmente estava tendo.

Acabou, aplaudi, fiquei feliz e sai feliz. Só que resolvi que não queria stage door. Já tinha perdido tantas fotos, pra quê né? Então fui andando até o Mc Donalds da Times Square mas ai resolvi voltar. Poxa, perdi umas fotos, mas pra quê perder todas? E tinha o Harvey, o Wilson. Voltei. No meio do caminho, parei, e aí fiquei nessa bipolaridade até falar “não, agora eu vou!”. No que eu tô voltando passa por mim Michael Riedel. Ele é crítico do NY Post, odiado por todos, nível Barbara Heliodora levado ao extremo. Juro que queria correr nele e falar que era fã, que no Brasil eu era tão odiado quanto ele lá, se duvidar até mais porque nem profissional eu era, e quando me dou conta ele já passou e, óbvio, resmungando. Ele postou sobre aqui na coluna dele. Perceba como ele não tem papas nas língua, fala mesmo e ainda mescla bafão de backstage com a crítica. Não é à toa que a galera odeia.

Voltando ao stage door eu fiquei lá esperando e já tinha saído boa parte do elenco. Ainda vi uns mais principais saindo e falando com as pessoas, ai avisaram que o Harvey não iria sair, então só queria foto com o Wilson mesmo. Ele super fofo falou com todo mundo, tirou foto com todo mundo, realmente ficou só ele lá no fim das contas e depois voltou porque ainda tinha a sessão da noite. Ele foi meu primeiro autógrafo e minha primeira foto na Broadway:

Foto essa muito da bizarra, eu sei. Espinha na cara, com esse casaco nojento, cachecol super mal colocado, eu estava tão mal por fora quanto por dentro. Meu exterior só fazia refletir, mas enfim, meu primeiro registro. Depois disso fui no Mc Donalds mesmo, jantei e fui encontrar a Raissa para assistirmos Spider-Man: Turn off the Dark. Eu achava que estava bem, tava feliz, mas não adiantava. Meu cérebro me recriminava por tudo de antes. Mesmo. Eu tentava não pensar no lado negativo e focar no lado positivo das coisas, mas só vinha os negativos. E tava controlando, até ver a Raissa. No que ela me viu com aquele casaco e toda situação que vocês já viram na foto, ela fez uma cara do tipo “que porra é essa?” e mesmo sem falar uma palavra, eu caí num transe fodido. Entramos, sentamos e eu tava mal. Não adiantava, eu tava tremendo, querendo sair correndo dali, mas a peça começou e eu tinha que me forçar a assistir.

A peça só me piorou porque ô coisa ruim. Como falei , era época de previews, hoje em dia já é completamente diferente do que era (não assisti vídeo ainda e pretendo, mas só de ler no Wikipédia já mudaram tudo) porque olha, na época era patético e vergonhoso. Mesmo doente eu tenho propriedade em dizer que era muito ruim. A própria Raissa olhava pra trás com uma cara de “quê?” nas cenas mais tensas. Como por exemplo na cena que o Peter Parker sofre bullying com uma música que era algo com bullying with numbers. Eles iam batendo e contando. Sério. Ou quando o avô dele morre sem você nem ter criado um afeto por ele, e o próprio Peter nem chora por 30 segundos. Ele pensa em chorar e pronto, sai correndo. Ou o estopim que é a vilã principal, uma aranha deusa lá que tem nos quadrinhos, se indagar “por que ele gosta da Mary Jane e não de mim? Claro, ela tem pés! Preciso de sapatos!”. E aí entrava uma música sobre sapatos com outras aranhas (ou eram pessoas? nem lembro) colocando sapatos nas patinhas dela e cantando sobre as marcas. Sim, nesse nível. Eu não sabia se gargalhava ou se sentia vergonha alheia. Deve ter no youtube ao menos áudio disso. Se alguém quiser se dar ao trabalho de procurar, garanto risadas fáceis.

No intervalo uma moça ao meu lado viu que eu tava mal (agora só piorado) e perguntou se eu estava gostando. Falei que não e ela “é, nem eu. Só os efeitos mesmo que são legais”. Eu respondi “Pois é, o povo tá aplaudindo porque eles estão voando. Grande coisa, vão assistir um Cirque Du Soleil”. Ela riu e pronto, fim de papo. O segundo ato continuou com absurdo atrás de absurdo, eu desisti de querer prestar atenção e até fechei os olhos em algumas cenas. Tem uma música bonita com a Jennifer Damiano, mas mérito da voz dela, somente. Outra cena absurda foi quando ela tá toda pilhada dançando na boate ao som de “Elevation”. Sério U2? Sério que vocês fizeram isso? Isso com certeza cortaram, é o cúmulo do abuso. O cenário é realmente bem inteligente, tem umas sacadas muito boas para os objetos, mas o roteiro era horrível, os figurinos idem, e não sei quem achou a ideia engraçada do Duende Verde tocar piano numa das cenas. A peça acabou, eu tava podre, minha cabeça queria explodir, Raissa não entendia nada. Ela puxou papo falando mal da peça, eu respondia algumas coisas, saímos e fomos em alguma loja que não lembro (sim, sem stage door de novo) e foi quando eu falei “Raissa, eu tô mal” e ela “o que é?” “eu não sei, tá tudo estranho, tô muito mal”. Ela me olhou como quem não poderia ajudar e continuamos andando. Não esqueço de quando dei tchau no metrô. Ela pegava um que não servia pra mim. Então dei tchau. Ela deu tchau como quem sente pena, mas que não sabe o que fazer. Não a vi mais desde então.

Fui pra casa sabe se lá como. Cheguei em casa, deitei no sofá. Minhas pernas tremiam, eu coçava sem parar. Coçava minhas pernas sem entender o que era aquilo. Coçava meus pés. Coçava minhas pernas. Era como se tivesse alguma coisa ali. Coçava com muita raiva. Fiquei nisso até adormecer por algumas horas. Acordei desesperado, me dando conta que aquilo não era um sonho, e continuei a coçar. A partir daqui por mais que eu quisesse, não dava mais pra lutar. Eu não tinha mais jeito mesmo.

24 de Fevereiro 2011

Acordei e fiquei andando de um lado pro outro. Eu gostava de pensar andando, então nesse caso o meu martírio também tinha que ser assim. Eu levantava do sofá, ia até a cozinha, olhava o calendário e percebia que já havia gasto uma semana em NYC e não tinha feito nada produtivo, além de ter destruído os momentos bons. Queria voltar no tempo. Mentalizava dia 18 com todas as forças. Ficava andando de um lado pro outro, até cansar e voltar pro sofá. Devo ter ficado nisso por algumas horas. Me toquei que já era, não tinha jeito. Só havia uma solução. Eu ia morrer. Peguei uma faca e tentei cortar meu pescoço. Doía demais e não tinha coragem. Cheguei a fazer uns cortes, mas desisti. Não ia rolar. Prendi a respiração. Desisti umas duas vezes até que pensei “É agora!”, segurei e mesmo quando o desespero final bateu, não sucumbi. Continuei segurando. Fui perdendo as forças, fechando os olhos e cai no chão. E foi assim que eu morri.

Continua…

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