Diário de um Deprimido – Pt II: Os musicais na minha vida
“So it’s times like these I wonder how I take it. And if other families live the way we do. If they love each other or if they just fake it, and if other daughters feel like I feel too. Cause some days I think I’m dying, but I’m really only trying to get through (…) Every day is just another, and another, and another…”.
- Next to Normal
O ano é 2004. Eu tinha 14 anos e estava estudando no Colégio Militar de Manaus no 1º ano do Ensino Médio. Era tranquilo, eu me divertia bastante, gostava de algumas poucas pessoas apesar de me dar bem com a grande maioria. Só odiava mesmo ter que obedecer as regras estupidas (das quais eu quase sempre quebrava) tipo cortar o cabelo de 15 em 15 dias, ter que ficar em pé no sol as 06 e pouca da manhã as vezes por nada e as vezes para ouvir informações das quais eu não poderia cagar mais, e principalmente, a farda. Ela é horrível, ela pinica, ela é nojenta. Odeio mortalmente e não esqueço a sensação do último dia em que a tirei sabendo que nunca mais a usaria.
Conseguia ser ainda pior nos dias de educação física. Ter que vestir aquilo depois de tomar um banho muito mal tomado no vestiário e ir para aula. Socorro. Mas tá, tirando isso e outros poréns, dava pra sobreviver e tenho histórias engraçadas e algumas boas recordações pra contar. Só havia um problema crucial: eu era o viado da classe. Nessa época ninguém levava a sério bullying, ser chamado de viado era só uma brincadeira de criança. Eles faziam, eu fingia não levar a sério e negava, e ficava por isso mesmo. Se tivesse sido só isso, tudo bem, mas foi um pouquinho longe demais uns meses depois do começo das aulas. Esse ano já estava sendo difícil por estar no 1º ano. Toda aquela preocupação com o processo seletivo da faculdade, não sabia nem que curso iria fazer, as matérias do colégio haviam dobrado, não entendia física, química, filosofia, minha melhor amiga da época havia viajado de volta pro Rio e fiquei absurdamente triste. Isso já bastava para deixar qualquer criança wannabe pré-adolescente triste, mas agora vem a transição da tristeza pra depressão.
Exatamente uma semana antes das primeiras provas do bimestre, saindo de uma aula de educação física (tinha que ser né), eu estava no banheiro me trocando. Quando já tava saindo, um garoto forçou a entrada. Eu fraco como era, cai sentado no vaso. Ele agarrou meu pescoço e falou “quieto!”. Eu estava chocado e juro que nem sabia o que ele queria. Eu era bem inocente, isso até ele botar o pau pra fora e me forçar a fazer sexo oral. O resto dispensa detalhes. Ele acabou, eu completamente chocado e com nojo, ele vira e fala “se você contar pra alguém eu digo que foi você que queria”. E foi embora. Eu fiquei lá por horas. Não tive coragem nem de sair, nem fui pra aula. Eu esperei dar o hora da saída e aí sim fui embora. Por mais que eu já fosse gay mesmo, eu não me aceitava. Na minha mente aquilo era algo errado. Eu cresci frequentando a Igreja Universal do Reino de Deus. Lá quem é homossexual tem um encosto no corpo, mais precisamente uma pombagira da qual deve ser expulsa. Sente o climão.
Eu, criança inocente, morria de medo de incorporar na frente do meu pai. Portanto, nas partes que deveria expulsar o demônio, eu ficava mentalmente bloqueando aquilo. Eu tremia de medo, e quando acabava, suspirava aliviado. Só que em casa, as vezes, me vinha o arrependimento. Ficava pensando que era preferível meu pai ver que saiu um demônio que existia ali do que de fato continuar com ele e ir pro inferno. Mas não dava, não tinha coragem. Eu me condenava, de vez em quando via fotos de homens de cueca na internet (não via nem pelado porque até então achava o pênis algo feio, juro) mas logo em seguida fechava tudo e negava mentalmente. Eu sempre fui gay, vendo fotos de homens de cueca eu achava “injusto” o fato da mulher, de calcinha, não ter nada ali. Faltava alguma coisa, faltava o volume. Então imagina. Uma criança que não se aceitava, que ainda achava pênis algo feio, ser forçado a fazer uma coisa dessas e claro, o garoto nem bonito era. Tem hétero que acha que por você ser gay, você vai querer qualquer um. Mas não queridos, temos muito bom gosto. Mesmo que eu já me aceitasse, eu nunca iria olhar pra aquele infeliz.
Eu não tinha ninguém pra contar isso. Isso implicava puxar o assunto da homossexualidade do qual eu não estava preparado a lidar ainda. Eu entrei em depressão profunda. Eu não conseguia comer direito, dormir, estudar, nada. Eu virei um nada que andava e respirava, isso ainda com muito pesar. Como eu disse, isso uma semana antes das provas. Claro que eu não consegui estudar direito, me sentia mal por isso, me ferrei em quase todas elas, e foi só piorando. Eu cheguei a ficar uma semana inteira sem dormir, eu deitava e não conseguia. Sabe aquele pesadelo de que você tá na escola pra apresentar um trabalho e esquece tudo que deveria falar? Aconteceu comigo. Eu decorei tudo, aprendi tudo, mas na hora veio o branco. Só fiz chorar e chorar e ninguém do meu grupo entendendo aquela cena. A partir dai foi piorando, piorando, e depois de muito sofrer, eu tive que tomar uma atitude. Escolhi o dia errado, num domingo, mas não tava dando mais. Meus pais estavam acordando e eu chorando falei que precisava ir no médico, que não tava bem.
Na TV da sala estava passando programa da igreja com aqueles anúncios “se você tá mal, tá com problemas, blá blá blá, venha agora buscar a libertação” e eu, no nível doentio, falei “mudei de ideia, vamos pra igreja!”. Minha mãe puta grita “nãããão, vamos ao hospital!” e meu pai nem um pouco feliz com aquilo tudo, nos levou. Só tinha a emergência aberta. Óbvio. O médico em 5 minutos falou que era depressão receitando “ele deve ir ao psicólogo e tomar esses remédios”. Remédios tarja preta, dos quais tomei assim que cheguei em casa e depois de tanto tempo sem dormir, apaguei. Eu nem lembro o que falei pro médico pra ele saber do que se tratava, mas quando você tá depressivo, você não pensa direito. Então acho que a falta de conexão nos fatos já mostra mais ou menos por onde seguir.
Eu fui tomando o remédio por um tempo, mas não durou muito. Os remédios antidepressivos dão sono e eu tinha que tomar um deles ao acordar, ou seja, ficava com sono no colégio. Meu pai, muito espertamente, me alertou sobre isso, o quanto iria afetar meu desempenho escolar, que tarja preta é viciante e eu não ia querer parar mais, então sabiamente, decidimos parar de tomar o remédio. Ir a igreja ainda era o melhor remédio. Quanto ao psicólogo, também não era necessário. Afinal, eles nunca se deram ao trabalho de procurar um. E eu que não ia ficar reclamando, né? Eu em, psicólogo é coisa de gente doente. E eu não era doente. E tinha dias que dava pra conter, tinha dias que eu só queria morrer. Eu não tinha coragem de me matar, mas o pensamento era constante. Na igreja, pensamento suicida também é coisa de encosto. Basicamente, tudo que é de errado na vida, é encosto. Portanto, se eu já tinha certeza que tinha um dentro pelo fato de ser gay, depois disso tudo eu sabia que existia era uma legião. Com o passar do tempo eu fui melhorando mesmo, afinal, a gente tem que viver né.
O mais engraçado é que eu não esqueço do meu professor de História na época, Cap. Samuel. Ele era super foda, severo, logo eu tirei na prova 0,8. Sim, 0,8 de 10. Isso conseguia me deixar mais mal ainda. Eu eventualmente melhorei a nota, mas mérito também de um trabalho que era basicamente assistir A Noviça Rebelde e falar sobre o pano de fundo do nazismo. Na época eu até falei “ué, tinha nazismo nesse filme? não é o da negona que vira freira?” (sim, achava que A Noviça Rebelde era Mudança de Hábito). Eu assisti com umas amigas (viado nesse idade definitivamente não tem amigos homens) que cometeram o pecado de pular as músicas, logo, o filme era um saco. Quando eu cheguei em casa, assisti novamente sozinho. No dia seguinte, claro. Não tinha nada pra fazer mesmo. Detalhe: VHS duplo! Tinha amado, mas não iria contar pro grupo né. Fiz o trabalho e comentei também sobre a importância da música na história. O professor amou e me deu 10. Pediu até pra ficar com o meu trabalho e de mais duas amigas do mesmo grupo. Depois de tanta tristeza, esse foi o primeiro momento que eu fiquei mais felizinho.
O tempo foi passando, superei aquilo, apesar de achar minha vida vazia. No fundo eu ainda queria morrer. Todos os meus amigos estudando para o processo seletivo e eu jogando Pokémon para ocupar minha cabeça e não pensar besteira. O ano era 2006, 3º ano do Ensino Médio. Foi quando comecei a dar uma pesquisada bem de leve sobre musicais depois de relembrar de A Noviça Rebelde no cursinho de inglês. A gente estava assistindo algum Shrek, acho que o 2, apareceu Julie Andrews nos créditos e eu pensei “De onde conheço ela mesmo? Ah, a Noviça!”. Lembrei de como eu tinha gostado do filme e fui pra pesquisa de outros. Comecei no básico e clichê, Moulin Rouge, O Fantasma da Ópera (viciei de cantar todas as músicas sem parar), Cats, esses DVDs fáceis de se arrumar, e da forma mais aleatória, cheguei no que mudaria e finalmente daria sentido para minha vida. O nome do musical? RENT.
O post do download tinha essa foto. Era musical, achei a capa colorida, baixei. Não esqueço que um dos motivos de ter baixado era por ter achado a capa colorida. O nome disso é marketing visual, e claro, uma criança retardada. Mas ainda assim, foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido naquele momento. Era tudo que eu precisava. O filme acabou e eu estava aos prantos, mas com uma sensação tão boa dentro de mim. Sensação essa que se repetiria sempre que eu assistisse, ouvisse as músicas. Eu respirava aquilo, só falava disso para meus amigos. O mais engraçado é que tava todo mundo estudando para o processo seletivo já sabendo o que iria cursar, sem tempo de pensar em outra coisa ou respirar e eu lá, só assistindo RENT como querendo absorver a mensagem do filme e assim, finalmente me aceitar.
O filme realmente me fez ficar bem comigo mesmo, então tomei o primeiro passo que todo homossexual deveria tomar: me aceitei. E fiquei feliz, como nunca havia ficado antes. Não contei pra ninguém, não era necessário ainda. Só de estar bem comigo mesmo já bastava. Comecei a assistir mais e mais musicais. Fiquei viciado. Era um caminho sem volta. A cada musical bom que eu assistia, eu ficava melhor. Eu ia pra aula e ansiava voltar pra casa para assistir. Depois dos filmes, veio Broadway. Foi pesquisando sobre RENT que eu vi que era baseado numa peça, só que não encontrava pra baixar. Então comecei com os que encontrava. Claro, clichês também. Wicked, Avenue Q, com qualidades péssimas e baixados no Emule. Emule! Quanto ódio eu sentia daquele burrinho idiota. Vocês que reclamam quando um vídeo treme muito não fazem ideia do que era assistir os vídeos do Emule. Como não encontrei o de RENT, baixei ao menos a trilha.
Ouvindo aquilo eu conseguia visualizar tudo em minha mente. O que era diálogo no filme, ali era música. Cenas que não existiam, ali presentes em músicas. Músicas maravilhosas, vivas. O que já era muito bom, chegou num nível absurdo de perfeição. Hoje com Youtube, bootlegs e o escambal, a gente pode assistir praticamente tudo numa boa. Naquela época não era tão de fácil acesso, então rolava um pouco de imaginação. Eu ia ouvindo tudo e criando um mundo mágico na minha mente. Era incrível. E agora, mais do que nunca, eu respirava aquilo. Só vivia para aquilo. Eventualmente baixei o vídeo, amei ainda mais. Caçava vídeos de outros elencos, me apaixonei pelo elenco original, todo aquele processo natural e a cada dia que passava eu agradecia mentalmente Jonathan Larson.
Minha família se mudou para Manaus porque meu pai é militar, tinha umas dívidas aí e quando militar muda assim de estado, ganha um dinheiro bem bacana por conta disso. A ideia era ele ir, ficar lá por dois anos e voltar. Ele foi, se empolgou e queria colocar meu irmão no Colégio Militar (sendo que tem um aqui no Rio, nunca entendi, nunca entenderei) e minha mãe não quis me separar dele, disse que eu ia jogar isso na cara um dia (aham, tá) então fomos todos. Eu era criança, não entendia dessas coisas direito, se não teria falado que não precisava. Mas enfim, eles quem mandavam na época. Fomos em 1999, eu entrei num colégio Batista (dá pra acreditar?), depois fui pro Militar em 2000 (lá só pode a partir da 5ª série) e me formei em 2006. Meu pai se aposentou não lembro em que ano e voltou pro interior de São Paulo, onde ele nasceu e está trabalhando até hoje. Eu, meu irmão e minha mãe continuamos em Manaus. Motivo? Não sei, só sei que eu aparentemente era o único que não queria ficar lá.
Além de achar que ali minha vida não mudaria muito, ainda existiam agora os musicais. Os musicais estavam bombando no Rio e em São Paulo. Eu via os vídeos na internet, áudios, eu precisava daquilo na minha vida. Eu cheguei a ir assistir O Fantasma da Ópera, meu primeiro musical brasileiro ao vivo, e fiquei deslumbrado. Eu considerava na época o melhor musical do mundo (sem nem conhecer os outros – sim, eu era realmente um típico fã do Fantasma) e depois fui assistir My Fair Lady (onde fiquei na casa da minha ex-namorada virtual atual amiga que amo horrores – e sim, pode dar risada) só que era tenso ficar viajando de Manaus para esses lugares, sem contar que eu já poderia estar na minha cidade natal, por que não estar lá que deveria ser a pergunta. Eu cheguei a passar no vestibular lá em Ciências da Computação, mas larguei. Se eu cursasse, significaria ficar pelo menos mais 4 anos por lá e eu não queria isso. Enchi o saco da minha mãe e finalmente em 2008 nós viemos ao Rio enquanto meu irmão ficou na casa de um amigo-irmão nosso. Ele também namorava (e ainda namora) uma menina de lá, ainda dos tempos de colégio, então dá pra entender a razão dele querer ficar. Além da faculdade, é claro (só que não porque ele eventualmente largou pra ter que trabalhar). Eu queria vir porque eu necessitava uma vida nova e eu sentia que vindo pra cá, isso iria acontecer.
Aconteceu. Sair de uma cidade como Manaus e voltar ao Rio é uma mudança brusca. Chegando aqui eu já sai do armário pra minha mãe, que ficou chocadinha (não sei como) mas levou de boa. Essa vida nova seria assim, eu seria eu mesmo com todos que conhecesse, sem ter que me esconder nem nada. Ela pediu pra ao menos não ser tão assim com nossos parentes, respeitei e se eles tocassem no assunto, eu ignorava. Infelizmente nem pude sair ao vivo para minhas poucas amigas de Manaus, a viagem foi completamente de última hora e nem deu pra ter uma despedida. Foi tenso ter que encaixotar tudo que eu tinha de um dia pro outro assim, do nada, sem nem poder dar tchau. Mas era o jeito. Nós tentamos vir pela aeronáutica, o nome da minha mãe saiu, o meu não. Ela veio, eu vim de avião normal sozinho e detalhe, com o LP do Drowsy na mão. Tava com medo de quebrarem. O coitado do meu irmão teve que ficar mandando nossas coisas pelo correio, uma caixa por mês, isso até sei lá quando. Ele teve que começar a trabalhar pra poder pagar isso. Enquanto meu pai não faz nem ideia do que é fazer uma mudança. É muito fácil se mudar sozinho com umas mudas de roupas pra um lugar, cansar, ir pra outro. Agora mudança mesmo ele nunca esteve presente.
Se vocês estão acompanhando bem, 2007 eu não fiz nada em Manaus (me formei em 2006) e 2008 foi quando eu voltei ao Rio. Tecnicamente seria o ano em que eu estudaria horrores para o vestibular, mas não tinha nem como. Eu não tinha computador, eu não tinha livros, nem dinheiro para um cursinho. Na verdade eu não tinha dinheiro nem pra pegar ônibus na rua. Nós viemos sem nada, aqui em casa morava um tio, uma tia e seus 4 filhos (um casal da minha idade, um casal de menores) e morei com eles esse ano inteiro porque eram eles que compravam a comida. Todo dinheiro que minha mãe recebia, era pra pagar o apartamento. Aliás, esse apartamento daqui é quase um membro da nossa família também. Metade das brigas que já houveram entre minha mãe e meu pai envolvem essa porra. O lance é, nós fomos para Manaus para assim pagar as dívidas daqui. Chegando lá, meu pai já havia gasto todo o dinheiro sabe se lá com o quê. Até hoje não sabemos. E com o passar do tempo, ele simplesmente deixou de pagar. Ou seja, foram 9 anos de dívidas. O apartamento chegou a ir em leilão e tudo mais, mas depois de muito correr atrás, conseguimos recuperar. Só que hoje em dia tem que pagar uma mensalidade nova e uma antiga, e isso até sabe se lá quando né. Na época o dinheiro só dava pra isso, não sobrava pra mais nada. Ainda estávamos pagando minha passagem por fora. Então eu simplesmente não tinha como estudar muito, mas eu dei meu jeito.
Primeiro eu vi as opções que eu tinha. Eu gostaria de ter tentado Artes Cênicas, Publicidade e Marketing, mas as vagas eram mega concorridas e eu sabia que não tinha chances sem estudar. Achei a solução dos meus problemas: Letras em Inglês/Literaturas na UERJ. É a universidade mais próxima da minha casa, não é um curso tão concorrido e se eu não passasse nela, não passaria em nenhuma outra. Passei. Passei na 3ª reclassificação, mas passei.
As aulas só começariam no segundo semestre de 2009, então para me ocupar inventava o que fazer. Minha mãe viu no jornal um curso de teatro gratuito num SESC aqui perto de casa. De graça, por que não? Fui lá. Eu ia a pé, 40 minutos andando, mas ia. Era um curso intensivo, quase todos os dias de Janeiro. No final dele, tínhamos que criar uma peça e encenar. O diretor/ator/organizador da porra toda do curso gostou do nosso grupo então acabou nos dando uma peça pronta, de sua própria autoria, baseado no projeto que a gente tinha apresentado. Segundo ele, ele se empolgou numa madrugada e botou tudo ali. Ele no mínimo fumou, recebeu alguma entidade, porque ele escreveu uma peça assim, tensa. Nem me darei ao trabalho de explicar, mas o meu personagem não falava durante a peça toda, a não ser quando a menina morta tocava no meu ombro e eu gritava numa língua que não existe. Eu lembro até hoje do começo. “Tumabalai acande saiz saiz saiz pelami…”. Eu achava aquilo patético, mas me joguei. Era a proposta do autor né, me dei ao trabalho ainda de decorar bonitinho e fiz.
Deles eu sinto saudade e guardo a boa memória. Nós ficamos bem amigos e íamos na onda juntos. Posso dizer que eles foram meus primeiros amigos do Rio sem ser de Orkut. Claro que eventualmente eu saí do curso, alguns continuaram, fui assisti-los em outra peça mas na saída só alguns me deram bola, outros nem tanto, e ai morreu assim como a Anna, personagem da peça. A velhinha faz teatro na UERJ então já esbarrei com ela umas duas vezes depois e ela é uma figura. Os outros, espero que eles estejam bem d felizes. E claro, como esquecer? Para coroar essa minha atuação, eu ainda tinha que voltar para a cena final usando uma cabeça de boi.
Aquilo, pelo menos pra mim, não era teatro. Eu entendo que é pra galera que não tem outra saída, que é pra eles terem uma noção, terem esse toque com a magia que infelizmente é de pouco acesso para todos. Eu tenho plena noção disso e por isso mesmo saí. Eu pensei que pelo menos no dia da apresentação eu saberia o que é usar uma maquiagem especial, um aquecimento especial, uma preparação, mas nada, foi super jogado. Quando me toquei já estava num palco, a platéia toda preta e flashes e mais flashes. Não sabia nem pra que direção eu tinha que focar meu olhar. As pessoas me elogiaram depois, eu agradecia com sorriso amarelo e foi isso. Existe filmagem disso, mas eu não tenho e nem faço questão de ter. A minha concepção de teatro era diferente, e por isso saí. Eu ainda preferia peças lineares, que você entende sabe? Não gosto de loucuras que supostamente são inteligentes, mas não, são babaquices. Eu cheguei a ir assistir outras peças de lá, mas chegou num nível que não dava mais. Quando a pessoa extrapola no “ah, a arte, o amor, elevação da alma, bullshit, blá blá blá” é porque é pra dar um fim mesmo.
Relembrando. Basicamente eu tive 2007 em Manaus parado, 2008 e o inicio de 2009 de nada no Rio de Janeiro. 2 anos e meio em que eu poderia ter feito muitas coisas, mas não tinha dinheiro nem pra sair de casa. Eu não morri de tédio graças novamente a eles, os musicais. Eu entrei num vício a ponto de assistir um por dia. Eu não tinha como sair mesmo, tinha poucos amigos (aliás, parte deles que conheci no Orkut e por conta dos musicais), então essa era a minha diversão. Falando em Orkut, foi onde encontrei várias pessoas tão viciadas quanto eu. E rolava cada discussão calorosa por lá, e a gente, criança ainda, fazia a festa. Eu sinceramente não sei como atores renomados, já trabalhando no ramo com um tempo considerável, se davam ao trabalho de brigar com a gente. Mas eles brigavam, a gente continuava brigando e bem, hoje em dia acho patético, mas na época me divertia. São fases da vida. E novamente, atores que brigam com crianças seja onde for, bora acordar!
Muita gente me fala “nossa, como você conhece musicais!” e bem, tá ai a resposta disso. Aposto que vocês não tiveram dois anos e meio de puro ócio para assistir tudo. Eu tive. Eu conheço todos os musicais que já passaram no Tony Awards entre 2003 até 2010, e a partir de 2007 até 2010 eu vi todos que já estiveram em cartaz e possuem vídeo. Isso sem contar os clássicos e os outros aleatórios que eu ia assistindo. Outro detalhe que hoje em dia é diferente e vocês devem agradecer muito ao meu amiguinho Leonardo Polo (na época, moderador da comunidade mais badalada, Wicked – Brasil) foi que ele quem ensinou os gringos a uparem os VOBs dos DVDs. Eles burramente achavam que isso tirava a qualidade do vídeo e até a gente de fato mostrar que não tirava levou um tempo. Naquela época, a troca era pelo correio. Tinha que mandar e esperar um mês pra chegar, muitas das vezes o correio entrando em greve ou simplesmente perdendo as encomendas. Hoje em dia todo mundo só troca upando os VOBs. Aliás, nem troca, tem quem compartilha, tem quem só baixa. E fim. Vale lembrar que a internet naquela época ainda era lenta e a ansiedade fazia parte do negócio, mas quando completava, era uma felicidade só.
Dedico agora um espaço especial para Kerry Butler. Dentro de muitos atores/atrizes que admiro, e são muitas mesmo, ela é minha favorita. Caso já tenham esquecido, foi ela que eu mencionei que passou na minha frente no Spider-Man. Pois bem, nessas assistidas todas de musicais, cheguei em Hairspray. O filme atual não chega aos pés do musical original. O que é uma tristeza, mas enfim, foi por ele que conheci o talento da Kerry. Impossível não amar sua Penny. Mas ainda assim, normal. Isso até eu assistir Little Shop of Horrors. Foi ali que eu tive certeza que ela seria minha diva. A personagem dela apanha do namorado sadomasoquista e tem um sonho simples que pode ser escutado aqui:
A atriz do filme é sensacional, mesmo, choro de rir com ela. Mas a voz dela beira pro cômico, o que deixa mais engraçado do que triste. Aqui com a Kerry não, é triste e ponto. É levado a sério e admiro isso porque é como eu vejo a cena. Pode ser um sonho simples, até beirar pro patético para alguns, mas é o sonho da personagem e ninguém tem que se meter com isso. Assistindo esse vídeo então eu morro. Ela canta sem figurino, sem cenário, nada, e se emociona. Não sei explicar direito, mas senti arrepios vendo esse vídeo como nunca antes e desde então assisto tudo que tem seu nome no meio. Até leituras, demos, workshops, caço tudo. No fundo sei que existem melhores, sei que ela derrapa em certas ocasiões, mas o nome disso é afeto. Uma vez que você adquire, fica difícil de perder. Eu sinto algo diferente quando é com ela. Quem é fã de musical, sempre terá aquela pessoa especial. Aquela que você fica feliz mesmo de ver fazendo figuração seja onde for, e a minha é ela. Ironia do destino ou não, ela possui um CD solo inteiramente com músicas da Disney. Recomendo para quem interessar “Part of Your World” e “Bare Necessities”, tem no youtube, é lindo.
Eu não era muito ligado aos musicais daqui, eu assistia, mas eles não me tocavam tanto quanto aos que eu assistia em vídeo. Meu primeiro musical depois de voltar a morar aqui foi Beatles num Céu de Diamantes. Eu vi do balcão (único lugar que poderia pagar), tinha acabado de sair do SESC então a iluminação ainda tava meio ruim lá na sala Fernanda Montenegro, então a experiência foi OK. Claro que eu vi depois mais umas várias vezes e amei, mas de primeira foi só OK. Mas lembro de ter saído de lá impactado com Marya Bravo e pensando “sim, vale a pena conhecer mais os talentos brasileiros”. Minha perspectiva foi mudar mesmo com Avenida Q. Foi a primeira adaptação que eu realmente paguei pau loucamente, tanto que fui zilhões de vezes, fui fã freak total e nem preciso falar muito se você acompanha o blog desde sua criação. Claro que antes disso eu assisti outras peças (não tantas quanto gostaria pelo dinheiro) mas essa foi a primeira mesmo que eu pirei.
Depois dela viriam outras, não dá pra citar muito, mas vamos pular pro O Despertar da Primavera. Impossível não se emocionar horrores com aquilo. Até pela temática que né, não vivi tão hardcoramente quanto eles porque não tem comparação, mas me identifiquei como todo jovem. O mais engraçado é que não esqueço, na saída da estreia, estava cumprimentando Charles Möeller e a própria diva Marya Bravo vem falar comigo “você é o Charles Fouquet? Nossa, amo seus textos! Eu e o Gualda até te chamamos de Charles Fuck It”. Cristiano Gualda é outro que né, pago pau. Mas voltando a cena. Eu sem resposta ainda, aí o Möeller responde “Né? Ele é incrível e…” bem, não escutei mais nada. Eu estava com a primeira atriz que me fez querer buscar conhecer melhor os atores-cantores brasileiros com o diretor das peças que me fizeram sentir o que eu até então só sentia nos vídeos. Os dois, ali, na minha frente, me elogiando. Aquilo me fez pensar muito. Eu fiquei “Nossa, eu quase morri quando na verdade tudo que eu precisava era me achar. Encontrar um lugar onde eu me encaixasse, onde as coisas fizessem sentido”. E no fundo, foi isso mesmo. Os musicais me trouxeram muitas coisas boas. Naquele público eu me sentia normal. Eles falavam a mesma língua que eu. Eles me entendiam. Eu os entendia.
Quando o Despertar estreou, as aulas na UERJ já haviam começado, que aliás, não poderia ter sido mais feliz. Eu estava com saudade de estudar, saudade de conhecer pessoas não-fãs de musicais também, saudades de ter uma vida né. Foi incrível porque bem, é Letras né. O que mais tem lá é mulher e viado, então eu sabia que eu poderia chegar chegando e não foi pra menos. Na semana do trote eu já era o calouro sensação. No dia do show de calouros eu simplesmente cantei Toxic da Ms. Spears e ganhei uma standing ovation. Eu fiquei famosinho por conta disso, me sentia prefeito ao chegar porque dava tchau para todos. Foi tudo incrível. Inclusive, aproveitei disso para ficar panfletando sobre o Despertar lá. Tinha gente que me odiava por conta disso, mas eu nem ligava. Eu sentia que eu tinha e precisava mostrar pra todo mundo o quão incrível aquilo era. Isso tudo até um fatídico dia.
Combinamos um encontro dos fãs pelo Orkut (que favela que isso soa agora) e foi muita, muita gente. Acredito que umas 30. O dia em si foi lindo, tava tudo ocorrendo bem, até momentos antes do 2º ato que eu reparei que minha máquina fotográfica havia desaparecido. Procurei desesperado, mas nada. Alguém roubou. O mais triste da história toda é saber que a pessoa que levou, era do nosso grupo. Eu era meio bobinho, acreditava no melhor das pessoas mesmo sem as conhecer direito. Isso só fez me lembrar que existem pessoas escrotas em todos os lugares mesmo. Fiquei depressivo novamente. Eu sei, agora eu mesmo acho patético o fato de ter ficado depressivo por conta de uma máquina, mas a depressão é algo que a gente não tem controle. Eu explicarei mais sobre isso futuramente, mas na época eu realmente fiquei muito mal. Eu cheguei a ganhar uma câmera nova pela minha linda Marcia Parenti, da qual formei uma família de coração só com viciados em musicais e eles sim, amo mesmo. Mas ainda assim eu continuei meio mal. A partir daqui não enchia mais o saco de ninguém para ir ao teatro. Eles que se fodessem sem saber o que estavam perdendo. Fiquei chateado de ter perdido as fotos, mesmo com uma máquina nova não sentia mais vontade de ficar tirando foto, e assim foi indo.
Em 2010 eu consegui superar e foi quando eu criei o Ano Fouquet. Meu aniversário é dia 20 de Outubro, então seria 20/10/2010. Ainda depressivo, vi o vídeo de Caroline Figueiredo no Jardim Botânico. Chorei de rir, óbvio, mas dali eu tirei o empurrão que precisava pra superar de fato e ficar bem. Ficava me desejando luz, luz, luz, caminhos abertos, positividade e o escambal. A mesma ficava twittando sempre que a hora se repetia nos minutos, tipo 09:09 #luzluzluz, 10:10 #luzluzluz, etc. Foi dai que nasceu o Ano Fouquet e ele não poderia ter sido melhor. Na verdade verdadeira, a ideia do Ano Fouquet era perder a virgindade. Eu já tinha 20 anos, tava na hora, né? Não perdi antes por falta de oportunidade dado todas as circunstâncias que vocês viram aqui, mas daquele ano não passaria. A brincadeira acabou ganhando níveis muito mais interessantes além de ser só perder a virgindade. Foi o ano que eu passei inteiramente bem, sem recaída nenhuma. Tive momentos ruins, óbvio, mas nada de depressão profunda. Comecei a trabalhar, ganhar meu próprio dinheiro, fui pra São Paulo duas vezes ver os musicais de lá e rever meus amigos, além de ter me dado a oportunidade de fazer o intercâmbio pra Disney do qual já relatei aqui e foi incrível, melhor experiência da minha vida até agora.
Confesso que não foi fácil. Eu comecei trabalhando como monitor do CNA, ficava tirando dúvidas e tinha dia que nem ia ninguém e ai eu ficava estudando, ou lotava horrores a ponto de nem perceber o tempo passando. Eu sou uma pessoa paciente, lido bem com pessoas. Tinha casos extremos de burrice, mas eu ria mentalmente, respirava fundo e tava ótimo. Eventualmente virei professor. Eu aceitei porque significava mais dinheiro que eu precisava, mas foi meio tenso porque foi repentino. Eu nunca havia dado aula na vida e pá, já tinha uma turma, já estava dando aula, sem supervisão, sem nada. Com o tempo ganhei o auxílio, mas lembro de chegar em casa depois de dar minha primeira aula querendo nunca mais pisar naquela sala, chorando. Por mais patético que seja, eu encarei aquela sala como um palco. Eu, quando professor, era um personagem. E funcionou. Os alunos passaram a gostar de mim, e eu deles. Eu tinha o respeito até do mais fortão da sala, que aliás, um querido. Eu agora me acho um bom professor, foi só o susto do começo que aliás, foi uma experiência incrível. Suei muito pra chegar lá, mas consegui. E sim, também perdi minha virgindade. Mas comparado com tudo que eu vivi, isso foi o de menos. E não é que valeu a pena esperar? Agora ao menos posso falar que foi com o Buzz Lightyear.
Mas, vale lembrar que muita gente faz o intercâmbio da Disney pra aproveitar lá, fazer altas putarias, botar os pais de graça no parque. E eu, nem preciso dizer que tinha um objetivo diferente. Meu objetivo era apenas ganhar muito dinheiro para gastar tudo em NYC com ingressos. Era isso que eu queria. Só que chegando lá você eventualmente aproveita tudo ao máximo. Eu estava na Disney, revivendo minha infância tão linda. Se parar pra pensar, meus primeiros musicais foram os filmes da Disney e eu nem sentia que eles eram musicais. Meu trabalho era de personagem, personagens que eu amava brincar de ser, me divertia horrores, sentia que estava ganhando pra me divertir. Fiz amizades fantásticas e ainda tive um summer lovin’. Em Orlando foi tudo, tudo perfeito. Mesmo os momentos ruins foram bons. Foi a primeira vez que eu me senti vivo. Eu mal entrei na internet e quando isso acontece, é sinal claro de que você está usufruindo 100% da experiência.
Assim como expliquei meu amor por Kerry Butler, acho que devo aqui voltar um pouco em 2010. Ainda no Brasil. Preciso falar de Giulia Nadruz. Foi no Ano Fouquet também que conheci minha diva brasileira. E foi quase da mesma forma da Kerry. Antes de estrear Gypsy, assistindo os vídeos dos ensaios, tem um que a Renata Ricci aparecia cantando um trechinho da música da vaquinha. Eu fiquei em choque em como a voz dela havia melhorado horrores! Melhorou mesmo agora que vi Bruxas, mas bem, não era a voz dela no vídeo. Ela teve algum problema com a voz, resfriado, algo do tipo durante os ensaios e quem cantava era Giulia Nadruz, sua sub. Descobri isso pelos comentários no site M&B. Uma pessoa que cantando um trechinho de 10 segundos e olhe lá, da música da vaquinha, e já chamando minha atenção assim estava pedindo para ser stalkeada. Joguei o nome no youtube e apareceu isso:
E, novamente, mesma coisa. É só ela, num ensaio, e você já vê o grande talento que ela possui. Pronto, virei fã eterno. Terá sempre meu afeto. Ano que vem ela fará sua primeira protagonista em Fame. Primeira protagonista de muitas, com certeza. Aliás, se eu fosse diretor, montava uma peça pra ela e o Beto Sargentelli. Esse é o casal top da nova geração que irão arrasar horrores. Assim como avisei pra Giulia que ela seria protagonista mais cedo mais tarde, disse a ao Beto. Não deu outra, ele é o Lucas na Família Addams. E voltando a Giulia, o mais engraçado é que ela estudava Direito com uma amiga minha que fazia UERJ. Não sei se eu acho mais engraçado o fato dela ser humana gente como a gente, ou de fato, ela ter pensado em fazer Direito. Tipo, oi?
Inclusive, meu último musical antes da viagem, de despedida, foi o Hair. Olha quem estava lá (reparem minha camisa):
Muito resumidamente, esse é o panorama da minha vida até a viagem. Achei necessário voltar no tempo para mostrar a importância dos musicais na minha vida. Vocês sabiam que eu os amava, mas não sabiam o motivo. E agora sabem. Antes deles, minha vida nem tinha sentido. E claro, gostaria também de mostrar que eu já havia tido depressão um dia e exatamente por não ter tratado, ela voltaria sem dúvidas. Eu não tentei me matar porque não vi uma pecinha, fiquei triste, sou dramático, fim. Não. É psicológico. Mesmo sem motivo, isso poderia voltar. Só não esperava que fosse voltar logo no lugar que eu mais almejei ir na vida. Mas foi, e por conta disso tudo que eu vivenciei lá conseguiu ser mais cruel do que qualquer outra coisa que eu já passei até então.
Continua…







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