Diário de um Deprimido – Pt III: O restante de NYC
“Problem is the subject, there’s no pleasant way to treat it. Problem is the author’s lost control. How I wish it didn’t have to be so, but we cut the losses starting now. (…) Find another genius, I can’t be one or become one. I can’t even tell how I’d begin. Help Luisa, help me, help me mama, help me someone. Here’s a place where I have never been. Guido out in space with no direction, Guido at a loss for what to say, Guido with no intervening actors, Guido at the mercy of detractors, Guido here with no one else but Guido!”
- Nine
24 de Fevereiro 2011
Prendi a respiração. Desisti umas duas vezes até que pensei “É agora!”, segurei e mesmo quando o desespero final bateu, não sucumbi. Continuei segurando. Fui perdendo as forças, fechando os olhos e cai no chão. E foi assim que eu morri. Fui levantando pensando “Ué, não morri?” até que o otário aqui lembrou que ao cair no chão, minha mão obviamente saiu do meu nariz, logo, voltei a respirar involuntariamente. Na hora eu fiquei puto, agora dou risada da burrice. De qualquer forma continuei tentando o dia inteiro de todas as formas possíveis. Não comentarei pra não dar ideia, até mesmo que são ideias estupidas de como você não conseguiria morrer nem com muita força de vontade. Depois de desistir, continuei andando de um lado pro outro feito louco e me forcei a dormir o dia inteiro. De vez em quando eu ficava mais triste ainda vendo na internet ou no celular o que as pessoas mandavam. Mari Rio e São Paulo estavam em Miami e me mandaram uma foto delas lindas por lá e falando “Aposto que você está arrasando em NYC! XOXO”. Rob, meu attendant favorito, mandando “Espero que esteja tirando muitas fotos!”. No Facebook, algumas pessoas que já haviam voltado ao Brasil dizendo que estavam com saudades. Mensagem toda hora do Cody. E por aí ia, e eu ignorando tudo e triste, em como queria de fato estar correspondendo aquilo.
25 de Fevereiro 2011
Acordei e estava chovendo. Pensei “hoje seria um dia de preguiça se eu tivesse vivendo essa porra da forma correta”. Quando você viaja, precisa aproveitar todos os dias. Mas chuva é desculpa pra curtir algo mais light e relaxar. Só que ai resolvi dar um fim de uma vez. Na janela da casa da minha amiga tem aquelas escadinhas de ferro tipo West Side Story, sabe? Subi e fui até o telhado. Sim, na chuva. E ah, eu estava vestindo apenas uma camisa branca e de cueca, também branca. Cheguei lá no telhado e o chão era todo branco. Me senti Britney Spears em “Everytime”. Tinha um pombo morto na escada e eu falei “já já te encontro amigo”. Fiquei encarando o chão da rua várias vezes, querendo me jogar, mas no fundo vinham as lembranças da Disney. Como tinha sido bom, como queria rever as pessoas no Brasil e não iria mais, então antes que alguém me visse, desci. Dai depois eu subi de novo, fiquei mais um tempo, dai desci. Devo ter feito isso umas três vezes. Na última pensei “bora pra rua que lá eu encontro outro lugar”. Vesti meu casacão azul nojento e fui.
Estava chovendo mas eu nem sentia graças a ele. Ele é horrível mesmo visualmente, mas nesse quesito de conforto ele é perfeito. Só depois que eu fui sentir frio porque ele já estava todo molhado, mas ainda assim, eu com roupas normais ali iria congelar vivo. Aliás, podia ter morrido assim, né? Nem pensei. Mas eu tive outra ideia ”genial”, morrer de fome. Por tanto a partir daquele dia não iria mais comer nada. Eu passei o dia inteiro andando. Minha amiga morava na 151, eu fui andando até a 42. Dei uma sentada na escadaria da TKTs e depois continuei andando até nem saber mais onde eu estava. Eu passei na frente do albergue da Raissa, do hotel da Carina, restaurantes brasileiros, passei numa rua que tava tendo gravação de um filme, vi cachorrinhos fofos e madames passeando com eles. Eu me sentia em um filme e bem, eu andei tanto que todos os filmes que eu assisto hoje que se passam em NYC, eu acabo reconhecendo o lugar. Depois de andar todo o lado East, eu andei todo o lado West. Foi um dia andando em Manhattan. Seria legal se eu estivesse bem né, só que não. Eu andava sei lá com que intuito, parecia que pra pensar eu precisava andar. Só que pensar doente = pensar merda. Então só vinha porcaria. Eu tentei me jogar na frente de carros, eu encarava os negões do rap pra vê se eles partiam pra cima. Eu entrava até em becos que eu nunca pensei que seria possível sair vivo andando por eles, e nada. Eu passei por lugares que eu teria que procurar no mapa pra chegar porque eu super iria visitar, mas acabei simplesmente esbarrando. O Lincoln Center belíssimo que estava com War Horse em cartaz, o Bryant Park que vive tendo apresentações da Broadway por lá. Tinha um mini-carrossel também, paguei e fui chorando, relembrando da minha felicidade na Disney e pensando que ali já pisaram tantas pessoas que eu admiro, mas que naquela hora não me diziam mais tanto quanto antes. Vi museus, o touro da Wall Street, eu vi tanta coisa que nem sei.
Depois de passar o dia inteiro na chuva, com fome, andando já com as pernas doendo, resolvi voltar. Só que ai eu ainda estava lá pelos 30 e poucos do lado West, tive que andar até o 151 e migrar pro lado East. Cheguei em casa e apaguei.
26 de Fevereiro 2011
Segundo dia da greve de fome e contando. Foi quando eu resolvi consultar meu cartão de pagamento da Disney e eu ainda tinha bem uns $900. Pensei “se é pra morrer, vou morrer feliz”. Sai e comprei ingresso pra Mary Poppins e American Idiot, duas peças que eu queria muito assistir. Fiquei passado com a facilidade que consegui os ingressos. Comprei ambos student por menos de $40. Fiquei mais revoltado ainda comigo pensando que eu poderia simplesmente ter perguntado no primeiro dia e nada, nada daquilo estaria acontecendo. Eu teria visto American Idiot mega bem, teria voltado ao meu eu e pronto, nada de ter que morrer. A Raissa iria voltar para o Brasil naquele dia, ou eu teria dado pra ela um dos ingressos. Eles também não cobram a carteirinha na hora de entrar. Fui pra escadaria da TKTS e fiquei lá até dar a hora do Mary Poppins. Devo ter ficado na internet. Quando deu a hora, fui ao teatro. Ele é imenso, o meu setor era no penúltimo. Lojinhas em todos os andares vendendo vários produtos lindos dos quais tenho certeza que teria comprado metade. A bonequinha, o livro bíblia, a bolsa, guarda-chuva, etc, etc, etc. Mas não né, morto não leva nada disso mesmo.
Entrando no meu setor eu já comecei a chorar. Eu olhei pro palco e aquele fundo azul com a foto da casa e escrito “Number 17 Cherry Tree Lane” bem ali. Chorei por uns 10 minutos. Mary Poppins foi um dos primeiros vídeos que eu assisti em bootleg e viciei bastante de assistir quase todo dia. Naquela época nem sonhava em assistir ao vivo e agora eu estava ali. Só quando sentei peguei o playbill, pra quê? Mais baldes de choro. O elenco principal era o mesmo do vídeo! Laura Michelle Kelly e Gavin Lee. Eles são sensacionais e tipo, o vídeo é mega antigo do musical ainda em Londres com elenco original! Eu sinceramente não sei como eles aguentam fazer o mesmo papel por tanto tempo, mas ali estavam os dois. Tinha também o Andrew Keenan-Bolger que eu amo, tem um blog foda. A Ms. Andrew também era a mesma do original só que da Broadway. Acho que só eles mesmo, mas super já me bastavam.
Começou e eu chorei do inicio ao fim, com picos maiores em “Jolly Holiday” que é minha música favorita e me remeteu aos passeios no Ibirapuera em que eu era feliz e nem sabia. “Feed the Birds” porque ela por si só já me fazia chorar mas consegui me superar em “Anything Can Happen” que inclusive, tinha essa frase na capa do meu diário da Disney. Mas não dá né, você querendo se matar e vem uma música positiva falando que “anything can happen if you let it”. Eu ficava chorando e fazendo não com a cabeça. Dou até risada do quão patético isso deve ter sido pra quem tava do meu lado e viu. O musical é lindo, uma puta superprodução. Maravilhoso mesmo. Mesmo doente eu reparei que eles trocaram uma canção. O que era “Temper Temper”, a cena assustadora (para as crianças) dos brinquedos virou “Playing the Game”. Tem no youtube, mas é um saco. Conseguiram colocar algo para eu odiar. Mas olha, Laura Michelle Kelly merece baldes de amor. Ela é melhor que a Julie Andrews, pelo menos eu achei. Ela flutua no palco, nunca vi ninguém fazer nada parecido. É sério, ela não anda, ela flutua.
No final eu não tinha nem forças pra levantar de tanto que chorei. A moça dos playbills veio falar comigo (que nem o do Angels in America) pra perguntar se eu tava bem. Não ia responder “não moça, eu queria me matar mas essa maldita peça fica aí dando mensagem positiva, fico puto” então respondi que havia trabalhado na Disney a pouco tempo e aquilo só fez me lembrar os bons tempos que tive lá, blá blá blá. Ela falou que também já foi CP (olha a coincidência) e que entendia, uma fofa. Só que não era bem essa razão pra eu estar daquele jeito, mas enfim. Ela me ajudou e me levou até o elevador pelo menos.
Na saída tinha um grupo de pessoas protestando por alguma coisa. NYC é assim né, a cada momento acontece alguma coisa e você não faz ideia do que seja, mas fica parado assistindo. Depois fui pro stage door que fica atrás do teatro. Fiquei analisando de longe já que não pretendia tirar foto. Mas eu vi o Gavin Lee e não resisti, fui falar. Eu quando era super fã mandei carta pra ele, ele respondeu com foto autografada dizendo “Hope you get to watch Mary P. one day!”. Super lindo. Comentei isso com ele, ele sorriu e falou “See? Dreams really do come true!”. Eu respondi que sim, pensando “nem sempre”. Saiu o Kenan-Bolger, falei que era fã dele pelo Battery’s Down, mas depois cheguei no blog dele e o admirava mais ainda. Ele ficou muito, muito feliz de saber isso. Ele disse que nunca ninguém do Brasil falou que o conhecia assim. Eu comentei que eu e mais uma amiga assistimos todos os episódios do Battery’s Down e amávamos ele. Ele ficou mais feliz do que eu de conhecê-lo. Ele até perguntou “quer uma foto então?” e eu falei que tinha esquecido minha câmera, mas que eu assistiria de novo e super iria tirar uma foto com ele. Ele apertou minha mão agradecendo e foi cumprimentar as outras pessoas. A Laura Michelle Kelly eu não aguentei, sai de perto e fiquei vendo de longe, chorando. Não sei nem o que falaria normal pra ela, quem dirá doente.
Voltei a escadaria da TKTs e ficava me martirizando mentalmente, entrando na internet e postando porcarias (teve uma época que eu postei que tava feliz mas é porque eu queria que as pessoas pensassem que eu havia ao menos morrido feliz) mas o tempo passava rápido até e quando me dei conta, já faltavam 15 minutos pra American Idiot.
O teatro lotado de coisas escritas nas paredes total wannabe RENT sendo que fato que aquela porra nem teria uma vida muito longa em cartaz, garotas punk mal vestidas e de cabelo roxo e eu pensando que iria rir tanto daquilo se eu não tivesse numa situação pior que elas. Olhei a lojinha e vi que tinha o programa vendendo. Lembrei da Carol que assistiu na época que nem tinha programa ainda e super daria pra ela de presente, mas né, não tinha mais como já que não voltaria pro Brasil. Então resolvi beber. Lá tinha um bar lindo e eu pedi a bebida “American Idiot”. Sou tão original. Não faço ideia do que era, mas era bem forte. Gastei $30 só nela. Bebi metade e já tava altinho, afinal, dois dias sem comer né. Quando eu terminei já tava bêbado mesmo, gritando junto das meninas do punk no final de cada cena e até quando aparecia o John Gallagher Jr. (Moritz original do Spring Awakening) e o Billy Joe. Fiquei amiguinho de umas doidas lá e só dava a gente na vibe linda. Nem chorei porque tava muito animado. Sempre me imaginei chorando com “Boulevard of Broken Dreams” porque eu normalmente chorava já ouvindo o CD mas ao vivo, nada. Sendo que mais na Boulevard of Broken Dreams que eu ali, não dava.
Foi incrível, eu amei e fiquei alucinado. Bêbado a gente ama tudo, óbvio, mas American Idiot era um musical que eu já amava. Eu voltava do trabalho escutando no ônibus e fazendo bateria imaginária e cantando super empolgado. Quando a cortina subiu e eu vi aqueles televisores, pirei loucamente. A cada música eu ficava mais e mais empolgado e pensando “caralho, como eu queria que a Raissa tivesse visto isso!”. Quando acabou eu pulei stage door, tava sem condições de enfrentar minhas ex-amigas (sim, não queria mais papo com elas depois – foi coisa de momento) para conseguir foto com Billy Joe. Até mesmo que ele não tava bom de St. Jimmy. E se você consegue ser ruim comigo bêbado e depressivo na platéia, é porque realmente tá braba a situação. Pulei também porque era capaz de oferecer favores sexuais para o Gallagher Jr. Não dava né.
Sai cambaleando e fui pra casa. Detalhe, meu ticket do metrô tinha expirado. Comprei um não sei como porque né, trêbado, e fui. Poderia ter sido assaltado fácil nesse dia, passando o meu cartão várias vezes e não conseguindo o ticket, mas foi tudo tranquilo. Em casa apaguei, mas antes pensando em como eu teria amado aquele dia se eu estivesse bem. “Se”. Palavra constante dos meus dias.
27 de Fevereiro 2011
Acordei e fui tentar dar um fim definitivo logo nessa história toda. Tava sofrendo muito, era melhor agilizar o processo. Fui na farmácia comprar algo que eu pudesse tomar e morrer. Só que eu sou tão burro que a única coisa que vinha a cabeça era arsênico e por conta de Chicago, não sabia mais nada que pudesse matar logo. E né, você não encontra arsênico assim pra vender. Procurei, procurei, e o mais perto que eu achei eram pílulas pra pessoas com insônia. Comprei umas 200 junto de bebida alcoólica. Eu tomei umas 50 de começo. Falava que não podia tomar mais de uma, então tomar mais 49 deveria dar alguma merda. Depois de engolir muito você cansa também. Tomei com cerveja porque dizia que não era recomendável misturar, logo, pensei que piorava ainda mais o efeito. Vim descobrir aqui no Brasil que cerveja tira o efeito de qualquer remédio. Quédizê… Mal sabia que estava sendo salvo de coisas piores pela minha ignorância. Obviamente não funcionou direito.
Minha amiga chegou em casa cedo porque era domingo. Perguntou o que eu ia almoçar e não dava pra responder “nada, tô morrendo de fome” então falei que ia no Mc Donald’s. Ela pediu pra eu comprar o almoço dela também então lá fui eu. Não teve jeito, tinha que comer também. Almoçamos juntos, é o tipo de coisa que eu teria amado de fazer se estivesse bem. Eu prezo por essas coisas, esses pequenos momentos juntos. Nós conversamos relembrando algumas coisas do passado, eu contei pra ela sobre os musicais no Brasil, ela me contou sobre a escola de musicais lá e o quanto ela tá aprendendo, essas coisas. Isso até ela perceber os cortes no meu pescoço, perguntar o que era aquilo e eu inventar algo que nem lembro mas que deve ter funcionado porque ela não tocou mais no assunto. Ficamos vendo TV.
Fabinho cansado de tentar me chamar pra balada e eu só recusando, ligou perguntando se eu não queria ir no hotel dele que ele iria embora no dia seguinte, dai tava todo mundo arrumando mala, conversando. Fui né. Não tava fazendo nada mesmo. Ele tava hospedado no hotel com as lindas das gêmeas que amo, entre outras pessoas bacanas que eu conheci muito por cima durante o programa, mas acabei conhecendo mais aqui no Brasil e são super bacanas. Saímos pra passear, conversar, ele viu os cortes e eu inventei alguma desculpas que não lembro. Conversando com alguém (que agora eu não lembro também) que havia ido no Tussauds ele falou “nossa, eu queria muito ir lá. Meu sonho, mas não tenho mais dinheiro”. Eu já havia destruido todos os meus sonhos, mas dinheiro eu tinha. Falei “Quer? Eu tenho dinheiro, te dou de presente”. Ele ficou meio sem jeito de começo, mas aceitou e ficou todo feliz. Fomos no Mc onde ele ainda levou o laptop pra roubar Wi-Fi e ficar no Skype com a mãe dele. Nem preciso dizer o quanto eu me senti um lixo nessa hora.
Voltei pra casa, minha amiga estava assistindo o Oscar. Não fazia ideia de que era dia do Oscar. Fiquei lá com ela, assistindo muito por cima já que normalmente já odeio o Oscar, dada as circunstâncias então. Fui dormir.
28 de Fevereiro 2011
Fomos no tal Museu de Cera. Na verdade eu só queria dar o dinheiro pra ele ir, mas ele não tinha ninguém pra acompanhar e ficar tirando foto sozinho lá dentro é tenso. Eu normalmente já acharia idiota, depressivo então achei a coisa mais besta do mundo. Eu não estava tirando fotos nem com pessoas reais das quais eu admiro em formas que palavras não expressam direito e agora estava indo tirar fotos com bonecos de cera de pessoas famosas que em sua maioria não me dizem muito e bem, pra quê eu iria querer essas fotos se eu ia morrer mesmo? Mas enfim, fui por ele. Ele amou, e ficava me empurrando pra tirar algumas e eu ia de qualquer jeito só pra não dar muito na cara.
Sim, mesma roupa desde do dia do Spider-Man. Repare no canto da calça ela já toda desgastada e suja. Não tinha coragem nem de mudar. Mas enfim. No meio do museu tinha um cineminha 4D do Mágico de Oz. Antes de entrar no cineminha tinha a Dorothy linda na estrada de tijolos amarelos. Existiam uns bonecos que eu tiraria foto com certeza tipo o dos Produtores, Judy Garland, da “Rafiki” do Rei Leão, mas bem, naquele momento não poderia cagar mais. O cineminha foi lindo, é patético, mas eu chorei baldes. Assisti de mãos dadas com ele e bem, ele tava indo pra casa. Eu não iria. Quando ela falou “there’s no place like home”, pronto, desabei. Ele pensou que eu tava chorando porque ele ia embora, mas né, tadinho, não. Eu nem lembrava mais como era minha casa, mas eu sabia que eu não iria voltar.
Saímos de lá e ele já tinha que ir embora, se não eu teria o levado em algum musical. Nisso eu comecei a passar mal, minha barriga doía muito. Eram as pílulas fazendo efeito tardio. Tomei um negócio lá que o Fabinho me deu, me despedi e foi isso. Fui encontrar uma outra pessoa. Essa pessoa eu conheci no Lastfm há uns anos atrás. Lastfm é um site que registra o que você escuta no computador, dai você acaba conhecendo pessoas que têm gosto parecido, essas coisas. Nem uso mais, mas na época ele veio me pedir uns CDs de musicais raros, falando que estudava musical em NYC, eu ajudei, claro. Nos falamos por um tempo, adicionei no Facebook, ficou por isso mesmo. Ele viu que iria pra lá em Orlando e queria me conhecer. Eu até comentei no dia que fui no Blizzard Beach que ele disse que eu até poderia ficar na casa dele. Nunca nem esperava que fosse o conhecer ao vivo, mas marcamos e eu fui.
Ele é um querido. Ele mora lá tem um tempão já, aprendeu inglês lá, então tem o sotaque fofo quando fala português. Ele falou que poderiamos tentar assistir alguma peça, eu falei que sim, mas antes ele queria jantar. No que a gente tava no Mc comecei a passar muito mal. Tentei segurar, mas não deu. Eu precisava vomitar. Fui no banheiro, forcei vômito mas não ia. O coitado ficou me esperando do lado de fora com uma cara do tipo “não se preocupa, é normal”. Eu já causando uma péssima primeira impressão. Mas tá, fomos tentar loterias. Eu não lembro quantas tentamos, mas a última foi de Book of Mormon. Perdemos em todas, eu falei que ia pra casa que tava quase morrendo. Eu ficava sentando em todos os cantos, até na rua eu sentava enquanto eles anunciavam os nomes. Detalhe que passou na minha frente a Nina do Battery’s Down e eu fui atrás pra tirar foto e ele “pra isso tu tá bem, né?”. Sendo que pensando agora, nem eu entendo porque eu queria foto com ela! Eu não tirei nem com quem eu pagava pau loucamente, pra quê eu queria uma sub-celebridade de uma web-série musical que nem sucesso fez? Coisas de uma mente doente.
Fui correndo pra casa muito mal. Nem tinha coragem de olhar para cima pra ver as pessoas me olhando feio. Deitei porque a sensação de querer vomitar passava assim. Fui algumas vezes ao banheiro tentar vomitar, não adiantava. Não conseguia. Então me forcei a dormir e acordei no meio da madrugada. Acordei chorando sem entender porque aquilo tudo tava acontecendo, e ainda mais revoltado comigo mesmo porque o fofo desse menino falou que eu podia sim ficar na casa dele. Ele só queria me conhecer ao vivo, falar comigo direito, que eu poderia ficar lá. Foi ai que peguei meu diário e fui ler tudo que eu escrevi da Disney até aquele momento. Chorei mais ainda relembrando tudo de bom que eu vivi e ai pensei “nossa, já vivi tanta coisa bonita, por que eu tô fazendo isso? como assim? não, bora virar esse jogo!” e pronto, estava disposto a viver bem. Era tempo de esquecer que eu já havia desperdiçado duas semanas (duas semanas!) e viver bem as próximas duas.
01 de Março 2011
A Nat Teco antes de ir pra NYC estava fazendo um tour com a fofa da mãe dela por outros estados e nesse dia ela iria pra lá. Combinei de encontrá-las, já disposto a tal virada. Deu tudo certo, as encontrei no Mc, comemos, passeamos, conversamos e fomos já garantir o musical do dia. Com a maior facilidade do mundo, conseguimos para Billy Elliot. Detalhe, estudante podia comprar para dois. Mais uma vez, me senti mal de não saber isso e não ter levado a Raissa (único musical que ela viu na Broadway foi Spider-Man, tenso).
Não irei repetir que é a mesma roupa porque bem, eu só usava ela mesmo. Eu nem me dava ao trabalho de abrir a mala. Nesse dia eu ainda mudei a camisa de baixo para a que tem “luz luz luz” que minha amiga me deu no meu aniversário, pra ver se dava algum efeito. Antes eu estava usando uma branca cheia de buraquinhos de faca e manchinhas de sangue. Eu não abria o casaco mesmo, ninguém iria ver. Passamos o dia passeando, elas compraram umas coisinhas, eu ia acompanhando. Cheguei a passar mal de novo, mas de leve, tomei um negócio da mãe da Nat e passou. Fomos ao Billy Elliot.
Eu considero que esse foi o primeiro musical que eu realmente assisti. Todos os outros como vocês repararam, eu tava todo errado. La Cage nem tanto, mas ainda estava indo na esperança da salvação. Nesse eu fui porque eu queria ver a obra e ponto. Por mais que eu ainda estivesse doente, óbvio, eu estava me forçando a não ser e funcionou temporariamente. Faz parte da doença achar que você está bem, e se você acha, você está. Fim. Nesse dia eu assisti a peça como deveria. E que bom que eu fiz isso, porque foi a melhor coisa que eu assisti ao vivo até agora. Uma pena que tenha fechado recentemente, merecia muito mais tempo em cartaz.
É o que uma verdadeira adaptação deveria ser. O filme é ótimo, mas a peça não é só ele jogado no palco. Os dois por si só são fantásticos. Me arrepiei diversas vezes, as músicas são perfeitas, o elenco era incrível. O pai ainda era o Gregory Jbara (elenco original). Tinha a Carole Shelley (Madame Morrible original), Emily Skinner (de Side Show, etc) e o Will Chase (último Roger de RENT). Sério, foi incrível. A coreografia, iluminação, atuações, fiquei encantado com tudo. Só perdi algumas piadas por conta do sotaque, mas nem me importei.
Eu estava tão eu que me revoltei com a moça que deveria auxiliar o pessoal onde era o local de se sentar, entregar playbills, etc. No balcão tem setor esquerdo e direito, só que no ingresso não dizia. Eu perguntei e ela fazia com a mão “é por ali”. Eu não entendi e perguntei de novo, ela super grossa “é por ali, só ver a numeração”. Eu fui falar de novo e ela começou a falar em espanhol comigo, pensando que eu era burro e não tava entendo o inglês dela. Pra quê? Respondi “Você não precisa falar espanhol comigo, eu entendo perfeitamente bem inglês. Só gostaria de saber se é no setor esquerdo ou direito”. Ela falou “Esquerdo”. Pronto, era tudo que eu precisava. “Era só isso. E só pra você saber, no Brasil se fala português, não espanhol. E você não está me fazendo um favor, é o seu trabalho me dar as direções. Boa noite”. Sério, não tem coisa que me revolta mais que isso. Favor é uma coisa, fazer o seu trabalho obrigatório é outra.
Na saída fomos fazer stage door mas metade já tinha ido embora. Eles saem voando e a Nat foi comprar o programa, nesse meio tempo eles já tinham ido pra casa. Fica a dica pra quem pretende um dia fazer stage door bonitinho, tem que correr! Deu só pra tirar foto com o “Billy” e com o Will Chase. O mais engraçado é que as crianças saem e as mães já vão colocando no carro, na van, onde for. O Billy saiu e ninguém sabia se podia tirar foto com ele ou não. Todo mundo querendo mas sem jeito, até que a mãe falou “pode sim gente” e ai foi geral.
Momentos depois sai o Will Chase todo lindo, arrumado, de terno, com a mulher dele e já vai indo embora. Eu quase deixei ele ir, mas pensei “que se foda” e corri atrás pra pedir foto. Cheguei e falei “Hi, could we take a picture?”, ele falou que claro, dai eu pegando fôlego penso alto “wow, I just chased Will Chase”. Ele fez uma risada de tuberculoso, aquela para piadas idiotas sabe. Falei que ele tava incrível em RENT, ele agradeceu e foi embora. Não tinha como eu falar que ele tava incrível no Billy Elliot porque o papel do irmão, no musical, é muito ingrato. Ele só canta uma música, as cenas são intensas e tudo mais, e ele realmente é foda, mas eu quis falar de RENT meio que pra falar que eu sei que ele é mais foda ainda que aquilo. Deve ter soado idiota, tipo ir assistir Kiara Sasso no Mamma Mia! e falar que ela era uma ótima Christine, mas enfim, nem me toquei na hora.
E falando em Kiara, o elenco de Mamma Mia! tava por lá nesse período. Pessoas me twittando isso e eu pensando “por que eu estaria interessado nisso estando aqui?”. Eu cheguei a ver a Ki de longe, mas se ela me visse, daria umas gargalhadas. No dia que eu a vi tava sentado no chão, todo sujo e ferrado. Mas bem, voltando. Saindo de lá ainda fizemos horinha na Times Square.
Fui com elas até o hotel, comemos miojo e ficamos conversando. Conversamos tanto que acabei ficando por lá. Assistimos na TV Selena, o que acredito ser o primeiro filme da carreira da Jennifer Lopez ainda criança. Chorei baldes de rir com a tosquice e, antes de dormir, ouvi a mãe da Nat roncando. Ela avisou que roncava e eu falei que não me importava. E não me importo mesmo. Vocês acreditam que o ronco dela me fez sentir mais saudades do Cody? Ele também roncava e eu raramente ouvia (quem ouvia mais era meu roomie que até já foi dormir na sala por isso, tadinho) mas quando ouvia, eu gostava. E chorei de saudade, da forma mais bizarra possível.
02 de Março 2011
Acordei e fui pra casa. Fiquei pensando em como o dia anterior tinha sido incrível. Até a Nat reclamando do hotel, falando que fedia, que era sujo, a gente comendo miojo pra se esquentar, tudo isso fazia parte do que eu imaginava ser a experiência NYC. Fiquei passeando depois que acordei e resolvi ir patinar no Rockafella Center. Foi lindo. Quem quer que tenha escolhido o repertório parece que tinha feito pra mim. Só tocou músicas que eu amo, incluindo, é claro, Xanadu. Teria filmado esse momento lindo se meu cérebro tivesse funcionando da forma certa. Eu amo patinar, naquele ambiente foi mais lindo ainda.
Saindo de lá fui tentar a loteria de Wicked. A Nat já havia comprado pra aquele dia, eu falei que ia tentar a loteria, se não ganhasse eu assistia outra coisa. Fui super sem vontade, coloquei meu nome e tá, fiquei esperando. Enquanto o cara lia os nomes eu tava tão descrente que comecei a mandar mensagem pro Cody no celular. “For Good” estava tocando na minha cabeça, então tava escrevendo “because I knew you, I have been changed for good”. Breguice define. Cheguei a pensar “vai Deus, me dá um sinal que você existe. Se eu ganhar essa porra, eu não me mato mais”. No que eu tô mandando a mensagem escuto meu nome. Ele ainda acertou meu sobrenome, falou direitinho. Eu fiquei paralisado. Ele repetiu. Só levantei o braço e fui andando. Todo mundo me olhando com cara de “que porra é essa? ele nem gritou!”. Enquanto todos os asiáticos continuavam ganhando e gritando. Porque é, tentar loteria de Wicked é ver todos os japocas ganhando e rindo com aquela risadinha típica que cansei de ouvir na Disney.
Fui no Mc lá perto esperar a Nat e roubar Wi-Fi. Nisso entrou um mendigo pedindo dinheiro. Um cara do Mc já ia expulsá-lo mas eu simpatizei com ele, chamei até minha mesa e perguntei se ele queria um lanche. Ele falou que aceitava. Comprei e fiquei comendo com ele. Umas pessoas me olharam feio, mas não podia ligar menos. De quebra dei pra ele $30 que estavam no meu bolso. Ele falou “nossa, você vai pro céu” e eu ri respondendo “pode ter certeza absoluta que não”. Acho engraçado analisar isso agora. Eu tinha dinheiro adoidado já que só estava gastando com comida e ingresso, não tava comprando programa, roupa, nada. E ainda assim eu tentava loteria. Não comprava o ingresso de uma vez. Ainda dava meu dinheiro pra mendigo. Senso, cadê? Depois sai, dei uma volta, voltei lá só pra encontrar a Nat e fomos juntos pro teatro. Ele é provavelmente o maior e mais lindo em termos de decoração que eu fui lá. Da entrada ao último andar tudo customizado, lojinhas com zilhões de coisas, era tanta coisa que eu não vi nem metade. Teria tirado foto de tudo, se… Bom, vou parar de falar isso né. Acho que vocês já entenderam. Mas sério, incrível de ponta a ponta. Eu estava na primeira fileira central. Nem acreditava. Não dava nem pra ver o mapa todo de tão perto.
Eu amava Wicked como a maioria. Foi um dos primeiros que vi da Broadway em vídeo, aquele famoso vídeo horrível com Idina/Kristin. Passei por todas as fases. Achar o elenco original melhor que todos, ai assistir com vários outros elencos e continuar achando isso, até você se deixar levar por outras e ver que existem sim melhores. Ai você percebe que a Idina puxa ar a cada oportunidade que tem, a magia é quebrada. Eu particulamente prefiro Eden Espinosa e Megan Hilty, foi o vídeo que eu mais vi. Mas tem Julia Murney, Shoshana Bean, entre zilhões de muito boas. E ai cheguei na fase de só achar bacaninha, não tão foda quanto antes. Até chegar a fase de achar mediano até, e pronto, fica na memória. Eu mesmo nem lembrava que o segundo ato é tão chato, só lembrei na hora. Eu entendo a vibe de quem ama, mas a minha passou. Curto algumas músicas só, mas já deu.
Eu ficava reparando nos detalhes do cenário, na iluminação fantástica, no ensemble. A parte técnica é dar inveja em qualquer um. Dá pra ver cada coisinha, cada engrenagem, a cor das coisas. Eu prestei atenção em tudo, menos na peça em si. Prestei em algumas partes, nas músicas que gosto, mas a maioria eu tava nos detalhes. Assisti com duas subs de Elphaba e a Glinda. A Glinda era sensacional, a Elphaba era meio ok. Queria até saber o nome da Glinda, mas já me livrei do playbill. Só o Fiyero que eu conhecia, o lindo gostoso tudo nessa vida Kyle Dean Massey. Nele eu reparei e muito. O mais curioso que eu pensava, além de desejar o Kyle na minha cama, era como o ensemble tava presente. A maioria deles deve tá nessa peça há anos, mas foda-se, eles dão 100% deles a ponto de cada um fazer uma caretinha específica, um trejeito aqui e ali, eu vi um comprometimento muito lindo. Na primeira fila você pode reparar bem nesses detalhes e olha que eu não conhecia nenhum deles. Aqui no Brasil a gente conhece até quem é o pit singer, e as vezes reparo e vejo a cara de “preferia tá em casa coçando o saco”, meio chato mas vai de cada um.
A Nat não conhecia a peça ainda (sim, ainda tem gente que não conhece) então expliquei pra ela o que ela não entendeu, as referências, etc, enquanto comíamos pizza. Nem fomos no stage door porque tava um frio dos infernos. Deixei passar um picolé de Kyle. Fui embora pra casa. A depressão tava voltando sei lá com que razão. Mas eu estava disposto a lutar contra.
03 de Março 2011
A merda é, disposição você pode ter, mas é uma doença. Você pode ter toda boa vontade do mundo de querer ficar feliz, mas sozinho, sem ajuda, não dá. Iriamos no Mamma Mia! nesse dia, mas como disse, perdi a luta. A depressão havia voltado e eu queria morrer de novo. Sim, nem eu acreditava, mas não tinha controle. Então resolvi sair na rua em busca de uma loja que eu tinha visto vendendo o DVD do RENT Live da última performance na Broadway. Ia mandar de presente pra Loren (minha amiga australiana que ainda tava na Disney). Eu ainda tinha muito dinheiro, sai gastando. Penei mas achei a lojinha. Ironicamente, era perto do teatro do Mamma Mia! e nossa, inflação fodida. O DVD tava uns $50, mas foda-se né, comprei. Preço pra enganar turista idiota, mas não me importava mais. Fui ao correio, tava fechado. Iria mandar no dia seguinte (só que não). O mais engraçado foi antes que eu entrei numa loja que era de vídeos pornográficos, dai tava entrando e o cara “ID”. Eu “oops, I thought this was a normal store”. Ele “this is normal, you idiot”. Me expressei mal, e ele tinha razão. Passei no Walgreens e comprei veneno de barata pra mais tarde, além de coisas inúteis como post-it (até hoje não entenderei porque comprei isso) e um cartão de aniversário do Toy Story que tocava “You’ve got a Friend in Me”. Também não sei porque comprei, mas acabei dando pra Biancão no aniversário dela. Pois bem, fiquei perambulando pela rua mais uma vez e quando cansei (algumas horas depois) fui pra casa. Detalhe, isso ignorando as mensagens da Nat e da mãe dela que estavam desesperadas atrás de mim, achando que eu tinha sido sequestrado e o escambal, a própria mãe dela falou que quase foi na polícia mas nem sabia o que falar, como me encontrar, nada. Me dói o coração pensar que ainda as deixei preocupadas, mas infelizmente não querer falar com ninguém também faz parte da depressão.
04 de Março 2011
Esse era o último dia que eu tinha pra ficar na casa da minha amiga, teria que ir embora no dia seguinte. Então pronto, esse era o dia de morrer. Fui pegar o veneno e surpresa, era em pó. Sério, queria ver a cara que eu fiz ao ver aquele pó branco do caralho. Mas enfim, fui no mercadinho, comprei sorvete, misturei o tal pó com o sorvete e fui comer. Nem preciso dizer que foi a coisa mais nojenta que eu já comi na vida. Nem sei dizer que sabor tinha, mas comi o sorvete inteiro com ânsia de vômito. Feito isso, fui andar pela rua. Eu pensei que ia surtir efeito, morria pela rua, fim da minha história. Mas fui andando e nada, e nada. Cheguei a passar mal, mas não perto de morrer. Comecei a ficar desesperado, não sabia o que fazer. E numa dessas loucuras mentais que eu tinha, voltei a cair em mim. Lembrei que havia esquecido no congelador da minha amiga o resto do sorvete. Que ela poderia pegar, comer e se ferrar também. Perceba o que escrevi no meu último registro no diário, que foi exatamente o que eu pensei:
Era exatamente o que eu era. Um monstro. Gelei horrores e voltei correndo. Cheguei e ela nem tinha voltado pra casa ainda. Joguei tudo fora, arrumei minhas malas e não sabia ainda o que faria, mas teria que fazer alguma coisa. Sai na rua, mais uma vez tentando me jogar na frente dos carros, encarando os negões, nada. O remédio de barata também não fez efeito nenhum. Meus amigos depois que eu voltei e contei riram disso dizendo que não mata. Gente, como é que eu ia saber? Barata é o bicho que você pisando, esmagando, fazendo o cacete, não morre. Só morre com veneno. Como pode esse veneno não ser poderoso a ponto de matar um ser humano também? Me indago. Mas bem, voltei pra casa, deitei e fiquei pensando o que faria. Não tinha muita solução, mas eu teria que inventar alguma.
05 de Março 2011
Sai de lá super cedo. O irmão dela tava chegando do Brasil e por isso eu tinha que sair. Sem contar que nessa brincadeira foram mais de duas semanas, tempo mais que suficiente pra conhecer a cidade toda, ver todos os musicais e ir embora mesmo. Ela foi incrível em me hospedar, teria realmente realizado o maior sonho da minha vida. Eu agradeci muito de mal jeito e fui embora. Eu fui um péssimo, péssimo hóspede. Por mais que ela não tivesse tempo pra ver a situação que eu me encontrava, eu no meu estado normal teria dado um dinheiro pra ela, uns presentinhos, uns mimos como deixar uns bombons na mesa, recadinhos bonitinhos, essas coisas sabe. Ela tava me proporcionando o sonho da minha vida, mas não, fui um cuzão suicida. Um dia hei de retribuir, isso com certeza.
Tive uma ideia. Falar com o menino do lastfm se eu poderia ficar na casa dele. Peguei o táxi e fui pro hotel da Nat pra pelo menos deixar as malas lá. Ela nem estava então perguntei no saguão se eu poderia deixar minhas malas, ele falou que não. Só se o hóspede estivesse. Mandei mensagem, elas estavam no tour do backstage do Wicked. Eu fiquei umas duas horas pesando no que fazer, escrevendo no diário e tal e tá, ai ela chegou. Chegou meio puta, totalmente compreensível, pois ela tinha planejado passar o dia na rua e teve que voltar. Eu nem lembro o que eu inventei, mas falei que iria dar um jeito de encontrar um outro lugar logo. Então subimos, deixei minhas malas, tomei um banho rápido pois tava podre e saí.
Esse menino trabalhava no restaurante atrás da escadaria da TKTs. Fui lá. Ele segurando 5 bandejas e equilibrando feito ninja me olhou assustado do tipo “que stalker do caralho é esse?”, eu falei que queria falar com ele, ele falou que já tava pra sair e que me encontrava na escada. Eu fiquei lá pensando “gente, que porra é essa que eu tô fazendo?”. Era bizarro, era o Charles antigo brigando com o Charles depressivo. Sempre. Mas o mais forte era a dor no peito. Dor metafórica junto da dor literal do veneno e todo o junk food acumulado. Ele saiu, eu expliquei que tava na rua, sem rumo, não havia conseguido mudar as passagens (eu cheguei a tentar mesmo com a STB mas eles nem responderam), se ele podia me abrigar. Até mesmo que dia 11 seria a primeira preview do Catch Me If You Can e eu queria muito ver minha diva Kerry Butler. Ele ficou meio assim, mas no final falou “fazer o quê, né?” e combinamos de nos encontrar no dia seguinte que eu iria pra lá.
Eu me senti mal porque no fundo eu sabia que se eu o tivesse conhecido antes, e normal, não depressivo, eu super ficaria na casa dele de boa e até virariamos bons amigos. Ele mesmo havia falado isso no nosso primeiro encontro que eu sai correndo pra casa na tentativa de vomitar. Mas enfim, era mais tempo que eu tinha. Nos despedimos e eu resolvi tentar assistir alguma coisa. Tentei umas três loterias. Book of Mormon, American Idiot e Priscilla. Perdi todas, logo fui comprar Chicago em pé que a Carol havia recomendado e falou que era bom. Indo pro teatro quem eu encontro na rua? Mari Rio! Pra quem não leu a saga da Disney, ela também era personagem, Minnie, uma fofa, e eu a conheci perdida na rua. Ela queria ir na Best Buy e eu queria ir pro Florida Mall. Ela estava com uma amiga Raissa, eu estava com uma amiga Raissa. Eu era perfomer, eu também. E ela queria ir de onde eu havia saído e querendo ir para onde ela havia saído, eu idem. Foi super engraçado e a gente sempre comenta como foi lindo o nosso primeiro encontro, super ao acaso. E agora, mais uma vez, nos encontrando ao acaso. Ela havia acabado de chegar em NYC e só ficaria dois dias (teriam sido três se o voo não tivesse atrasado) dai falei “tô indo pro Chicago, ingresso baratinho em pé, vamos?” e acabamos indo num grupo de 4 ou 5, também de pessoas da Disney mas que eu não conhecia. Conheci pouquíssimas pessoas dessa última data (eles foram depois, logo, voltam depois). Eu nem ficaria perto dela, mas ela pediu de uma menina lá também brasileira que trocou comigo e ficamos perto.
Chicago é tudo nessa vida. O elenco era de total desconhecidos pra mim, e no fundo não muito bom. Só a Mama mesmo era boa, o resto era mediano. No que acabou “All that Jazz” a usher falou “tem uns lugares ali vazios, vocês podem sentar mas se chegar o dono, vocês saem”. Perfeito. Pagamos super barato pra ver em pé e assistimos sentados praticamente do inicio. Valeu a experiência porque bem, é Chicago e não era com a Danielle Winits. Já tava mais do que ótimo. Sem contar que estava com minha amiga linda ali do lado. Depois que acabou ela falou “vem visitar minha casa!”, eles haviam alugado uma casa mesmo e tinha bem umas 10 pessoas lá dentro. Loucura total. Ligamos pra Mari SP que foi lá nos ver. Eu amo essas duas, a gente se divertiu muito na Disney e bem, foi com elas que eu passei as últimas semanas que foram, sem dúvidas, as melhores. Mesmo sem o Cody, tenho certeza que as coisas que nós passamos já me bastaria pra ficar bem, bem feliz.
A casa deles ficava do ladinho do teatro do Avenue Q e onde seria (e agora já é) o revival de RENT. Pedi pra Mari Rio tirar uma foto que mandaria pra Loren e ela “ai, eu tô toda apertada pra ir ao banheiro e você ainda pede foto, tá, vou fazer só por você” e eu rindo (e realmente, nunca vi fila tão grande quanto a do banheiro feminino em Chicago!).
Na verdade a dediquei porque ela havia me dedicado na Disney com essa foto e a mesma legenda que coloquei, só mudando o nome, é claro.
Ela é incrivelmente linda e fofa, não dou conta. E lá, ainda mais de saber que não a veria mais. E quanto as minhas fotos postadas aqui, a maioria eu tirei com o celular de lá, nem sabia como ficaria a resolução mas gostei bastante do resultado vendo agora. Melhor que do Ipod.
Voltei para o hotel da Nat. Ele era do ladinho do teatro do Spider-Man e adivinhem quem tava bem ali no stage-door? Jennifer Damiano. Fui falar com ela super por falar. Elogiei, disse que a amava desde Next to Normal, dai ela perguntou se eu gostei da peça e eu óbvio, disse que não. Ela riu e falou “bem, está em previews, tem muita coisa que ainda pode mudar, mas obrigada pelos elogios”. Sério, uma fofa. Depois saiu o ensemble que tem uns integrantes do elenco original de Spring Awakening, a galera cagando pra eles e a maioria fumando. Dei uma risada e fui embora. A Nat e sua mãe haviam assistido La Cage por indicação minha e haviam adorado também. E assim mais um miojo, conversa e dormir.
06 de Março 2011
Fui de manhã encontrar a Mari e o seu grupo em alguma avenida ai, mas detalhe, debaixo de muita chuva. Acho que foi o dia que mais choveu lá, ainda mais que no dia que eu andei Manhattan inteira. Como era o único dia de alguns deles lá (que né, deram super azar, coitados) eles saíram mesmo assim e eu acompanhei. Foi basicamente Central Park, a Apple Store e a loja de brinquedos famosa por conta daquele filme Quero Ser Grande com o Tom Hanks.

NOW THAT IS RAININ' MORE THAN EVER, KNOW THAT WE STILL HAVE EACH OTHER, YOU CAN STAY UNDER MY UMBRELLA <3
Minha cara diz tudo, a Mari bem disse que me achou estranho lá e realmente, era visível. Que cara horrível. Mas bem, feito isso me despedi porque tinha que fazer a mudança para a casa do menino. Ela lindamente “te vejo no Rio!” e eu “é, é…” pensando “não”. É engraçado porque na Disney ela falou que iriamos ver um musical juntos e eu disse que iriamos, mas pensando negativamente, e acabou que fomos. Dessa vez ela falou que me veria no Rio, eu pensei negativamente, e já saímos várias vezes. Mari, meu bem, pense que eu ficarei rico que a resposta vai ser “tá, tá” pensando um não bem lindo.
E aí, é claro que tinha que chover logo nesse dia. É claro. O menino saiu do trabalho, passou lá no hotel e eu falei que podia pagar o táxi, mas o coitado falou “não, dá pra ir de metrô”. Fomos. Pegamos uma chuva linda, carregando duas malas gigantes na chuva, aquela coisa. Ele ficava rindo da minha mala rosa e falando “não tinha pra homem não?” e eu só falava “depois te explico”. Eu tava morrendo. Novamente, uma pessoa depressiva fica fraca, sem coragem nem de andar. Carregar mala não é lá uma coisa legal de se fazer, e na chuva, e no metrô, só piora. Lembro que passou um cara gordo negão e mendigo, vestido de James do Pokémon e ele falou “engraçado pensar que isso é um ser humano né. Que ele tem sentimentos como você. E no seu caso, quase você fica que nem ele, na rua”. E realmente.
Ele mora no Brooklyn, eu falava isso e todo mundo ficava “oh meu Deus, que longe!”. Bitch, please. Eu moro em Piedade, fuckin’ Mercy. Eu levo uma hora e meia pra chegar em qualquer lugar decente do Rio de Janeiro. Lá pegando o metrô não dava nem meia hora da Times Squares. A casa dele é super bonitinha. Eu cheguei e o ajudei a limpar a sala, mas eu tava forçando tanto a barra de querer ser legal que ele falou “não precisa, eu te aceitei aqui em casa porque eu quis” e ficava cantando a música da Cinderela do Into the Woods. Eu no meu estado normal adoro arrumar as coisas, tenho um certo TOC quando a pessoa em si está incomodada, então eu arrumo pra ajudar e fico bem. Tenho isso também com louça dos outros, se eles reclamam, eu lavo e gosto de lavar. Agora a minha mesma eu não gosto. E juro que não é pra agradar, eu realmente sinto prazer em lavar quando ela é desejada por alguém. Bizarro, né? Mas enfim, depois que arrumamos fomos num japonês ali perto, conversamos, ele me contou a história da vida dele (linda por sinal mas né, não irei compartilhar – nem o nome dele eu tô divulgando), eu contei a minha (provavelmente muito mal contada), foi bacana.
Voltamos e ele me mostrou uns vídeos super legais dele em apresentações, vídeos de amigos, tudo bem amador, mas ele é incrivelmente talentoso e os amigos dele (em sua maioria) também. Fiquei passado. Foi quando eu comecei a pensar o quanto eu gostava daquilo quando ia na Carol. Ela me mostrando vídeos, falando sobre musicais. Eu tava ali com alguém que me entendia e tinha tudo pra ser um puta amigo meu. Sem contar que ele morava em NYC, ele poderia me mostrar a cidade na visão de um morador. Ele ainda me convidou para assistir a apresentação de uma amiga dela não sei que dia, falei que ia amar. Eventualmente eu falei “nossa, você é muito bom” e comentei que havia assistido Chicago e gostei de ver que tinha gente de todas as idades, todos os jeitos, que tinha a cara dele. Ele riu feliz. Eu falei “eu não costumo errar, já tô te vendo em cartaz em Chicago e eu vou baixar o vídeo e te assistir” dai ele respondeu “não, você vem e fica na minha casa de novo”. Meu coração chorou nessa hora. Ele pelo visto tinha simpatizado comigo, pra já estar me chamando para ir pra lá de novo. Sério, chorei muito dormindo pensando o quanto queria ser amigo dele e me divertir. Só que já era tarde. Eu já tinha que morrer mesmo.
07 de Março 2011
Ele não me deu uma cópia da chave da casa, logo, se ele saísse, eu tinha que sair junto. Eu tava muito acabado, falei pra ele que queria arrumar minha mala e que não me importava de passar o dia trancado em casa. Ele questionou, mas eu falei que tava tranquilo, ele deixou e foi. Eu dormi. Dormi o dia inteiro e quando não tava dormindo, tava apenas deitado. Vi um pouco de TV, altas programas lixo, mas tava adorando. O sofá dele era maravilhoso. Eu me indago se era a doença tão agravada que ficar deitado ali parecia o paraíso ou se realmente o sofá dele é coisa de outro mundo. Ele chegou e viu que não tinha arrumado. Falei que passei o dia dormindo. Ele riu e ficou por isso mesmo.
08 de Março 2011
Dessa vez pedi pra ficar de novo, mas arrumei a mala. Muito mal arrumada, mas arrumei. Enquanto ele almoçava eu fui num mercadinho e comprei altos pacotes de M&Ms, Ferrero Rocher, o cacete de chocolate. Quando voltei ele falou “nossa, você é tão americano”. Na verdade eu não sou de ficar comendo essas coisas, mas tava obcecado com chocolate. E se era pra morrer, tinha que comer o que gostava antes pra despedida. A merda é que eu não sabia que chocolate deixa a pessoa feliz. Sim, eu sei, já tá mais que atestada a minha burrice com informações que deveriam ser importante na vida de qualquer um. Fiquei vendo TV de novo. Foi exatamente nessa época que o Charlie Sheen ficou doidão. Mostrava ele falando umas coisas nonsense pra câmera, eu não tava entendo nada, juro que nem sabia que era drogas, mas senti a conexão. Ficava falando com ele “sim cara, também tô nessa vibe”. Dou risada agora, mas na época era sério. Eu realmente sentia que havia feito um contato com ele ali. Eu me via naquela TV. Fiquei vendo uns programas toscos também, adorava. “Qual é a Música?” internacional, “Casos de Família”, etc. Consegue ser mais engraçado ainda lá. Os comerciais por si só também são completamente sem noção. Conseguia de vez em quando esquecer o quadro lastimável que me encontrava e me divertia com eles.
Antes de ir dormir, tomei as pílulas pra dormir que sobraram. Tomei 100 dessa vez. Nas últimas já cansado de engolir, mas forcei a barra e fui. E dessa vez não tinha bebida alcoólica, então elas fizeram o que tinham que fazer. De madrugada aconteceu uma coisa muito bizarra. Eu achei mesmo que estava morrendo. Eu via claramente vultos, sombras negras, com umas orelhas pontudas, vindo me buscar. Me tremia de medo, levantava cambaleando pra tentar passar a mão e ver se era ilusão ou realidade, chorando, desesperado. Eu não conseguia nem levantar direito, tava tudo dormente. Anestesiado. Levantei e era como se não soubesse mais andar. Não consegui dar mais que três passos, desisti e voltei a deitar. Deve ter sido só delírio mesmo, mas na hora foi bizarramente assustador.
09 de Março 2011
Falei que ia ficar de novo, ele falou “não vai mesmo! sai! vai ser feliz!” e me expulsou. Eu não queria sair por um simples motivo: eu não tinha forças para andar! Meu corpo tava todo mole ainda por conta das pílulas. Foram 100 pílulas pra dormir. Meu corpo inteiro estava dormindo, menos minha cabeça. Eu pisava no chão e não sentia. Era bizarro, mas enfim, tive que sair. Eu acabei indo pro Central Park. Dormi lá nas pedras, acordei horas depois então fiquei andando por lá. Incrível como é um parque completamente diferente sem a neve e o frio. É lindo demais. Não que eu tenha aproveitado muito dada minhas circunstâncias, mas era o típico momento “estaria amando se não fosse a depressão”. Eu sentava nas folhas e ficava tentando lembrar o motivo disso tudo ter começado, tentando fazer meu cérebro aceitar que tava tudo bem, que tinha coisas erradas mas que dava pra ter jeito, mas embolava tudo. Eu lembro que tinha hora que eu achava que tava super bem e do nada voltava a tremer, me culpar por tudo e ficar terrivelmente mal.
Não tem mais como eu ficar colocando as datas a partir daqui porque eu não fiz registro nenhum, consegui lembrar de cabeça só até aqui. O resto eu lembro de eventos paralelos, mas o dia exato não tenho como ter certeza. Falarei por alto os pontos mais marcantes que são impossíveis de esquecer, mas foi muito mais tenso que tudo. Principalmente porque o menino me expulsava de casa e já queria que eu fosse embora o quanto antes. Eu esquecia o chuveiro pingando (tinha que fechar muito pra não pingar e quase sempre eu esquecia), acabava me perdendo e chegava em casa tarde então ele reclamava que trabalhava, que queria dormir cedo, tudo compreensível. Eu era super relapso com as coisas, não fazia de maldade, eu não tinha mais controle. Eu era também uma presença ruim, ele queria que eu fosse embora e ponto. Eu chorava, ele deixava eu ficar mais um pouco e dizia “você é fã de musical mesmo em, dramááático”. Depois voltava atrás e assim foi indo até chegar o ponto crítico dele me expulsar mesmo. Falou que eu tinha que encontrar um lugar. Eu realmente estava num nível lastimável.
Era engraçado que enquanto ele achava que eu ainda era normal, ele me chamava pra assistir uns vídeos e ele que me apresentou Jessie J antes dela ficar mais conhecida. Dai eu ouvia “there’s nothing wrong with being who you are”, “I’m sorry that I let you down, blá blá blá, nobody’s perfect” e eu só queria chorar com aquela positividade toda no momento errado. Ele ficava dançando Britney, aliás, Britney é a diva dele. O CD novo foi lançado quando eu estava lá e ele só escutava isso. Não me incomodava, óbvio, eu gosto. Mas até quando ela falava “I can’t take it take it take it no more” eu falava “é Britney, nem eu”. E ele dançava as coreografias pra tentar me animar e eu ficava rindo. Ele é muito fofo e querido, dá um aperto lembrar todas as merdas que eu fiz com ele.
Esses são os episódios que lembro sem saber a ordem cronológica exata:
Cheguei a assistir novamente Mary Poppins (com uma sub de Mary que era ok só) porque a Nat foi ver e acabei indo de novo. Também repeti American Idiot (o último elenco antes de fechar, mas com sub do Johnny). Foi bacana ver American Idiot sóbrio, mas eu já tava tão ruim também que “normal” eu não me encontrava ali. Bêbado ao menos eu me diverti com as punkettes. Depois disso não vi mais nada porque a) consegui perder minha carteirinha de estudante numa dessas viagens andando pela rua b) assistir as peças me lembrava do Charles antigo, então ficava pior ainda c) tava muito ocupado com coisas mais pertinentes, tipo tentar me matar. Lembro de passar na frente do teatro do How to Succeed, ver uma foto linda do Christopher J. Hanke e ficar “ai caralho, ele tá no elenco, argh” e sair gritando, xingando, me batendo. Ele foi um dos meus Marks favoritos de RENT, e Mark é o meu personagem favorito de todos os tempos. Então é. Também passei na frente do teatro do Anything Goes e acenei pro cartaz da Sutton Foster. Passei no do Catch Me If You Can e conversei com a Kerry que dava entrevista no telão. Coisa que só gente normal faz. Agora passar pela cabeça que eu estava ali sofrendo até então exclusivamente pra ver essa porra de peça que atrasou e ficou pro dia 11 não vinha né?
Num dos dias resolvi me jogar na frente do metrô. Fui no Mc Donald’s, comi pensando “essa será minha última refeição”. Queria morrer feliz né, um Big Mac pra compensar pelo menos. Só que mesmo sendo um Big Mac, claro que o gosto era ruim. É a pior sensação que existe você saber que em alguns momentos tudo irá acabar e aquilo ali, de fato, é a última coisa que você vai experienciar na sua vida. Não acabou, claro, mas na minha mente era claro que iria. Era como se eu estivesse no corredor da morte, esperando a cadeira elétrica que inclusive, se fosse me dada a alternativa de usar, naquele momento, eu iria. Mas não tinha, logo fui ao metrô. Era uma forma de ter certeza absoluta que iria morrer e ninguém se daria ao trabalho de ver quem eu era. Não andava com meu passaporte mesmo, seria indigente lindamente. Fui. E ficava naquela “no próximo eu me jogo”, e passava um, passava outro, e mais outro. Eu naquela aflição querendo, mas quando vinha a luz lá no fundo, tremia na base e não conseguia. Pisei firme. “É agora!”, tava indo quando olho pro lado e vejo o Jeejay. Sim, mais um amigo da Disney. Mas ele era da família Fortaleza, queridos que eu amo demais e convivi quase que diariamente lá. Levei um susto e fui falar com ele. Ele estava indo visitar o prédio do Friends, dai falei “ah tá, vou com você então”. Fomos.
Sim, isso é o prédio de Friends. Eu olhei e fiz “pft”, mas né, pra quem é fã deve ser legal dizer que foi. O que não é o meu caso. Fiquei mais feliz de ver que ali pertinho existia uma rua de um cara extremamente foda. Apesar de depressivo tá gente, acontece, mas ele é foda sim.
Esse já era o último dia dele lá, então era só fazer isso mesmo que era perto do hotel dele. Fui, ajudei a carregar as malas e tal, e pronto, me despedi do meu amiguinho que achei que nem veria mais. Ainda não vi mesmo, mas pelo menos sei que agora eu posso!
Num dos outros dias eu fui gastar mesmo todo o dinheiro. Ficar sem dinheiro algum seria a forma de morrer, porque não teria pra onde correr, ficaria desesperado e pronto, a coragem viria. Como gastar o dinheiro que sobrou? Andando na rua eu descobri. Sardi’s.
É um restaurante famoso por ser frequentado por atores da Broadway, com caricaturas autografadas dos mais famosos nas paredes. Engraçado que eu pensei “duvido que vou chegar lá e vai ter mesmo algum ator por lá” e no que eu tô chegando perto, sai o Robin de Jesus (Sonny do In the Heights). Então tá né. Entrei e tinha mesmo mais um, o Matt Cavenaugh (falarei Grey Gardens porque é a melhor coisa que ele já fez, mas era o Tony do revival lixo de West Side Story, entre outras coisas ruins que ele fez mas foda-se que ele é lindo) e se tinha mais, nem reconheci. Mas era horário de almoço também. Nem liguei, me revoltei mais com outra coisa. Era “barato”! Eu jurava que era mega chique, com pratos impossíveis de serem pagos e tinha até sanduíche naquela porra! Mais que prontamente, eu, com meu belíssimo casaco azul nojento, cara de doente mendigo, provavelmente fedendo e o escambal, pensei “vinho, vinho é sempre caro”. Não deu outra. Pedi um que nem sabia pronunciar o nome, mas custava $99 enquanto comia um prato X que custava uns $33 ou $44, não lembro agora mas era número repetido também. Tava ótimo, eu fico altinho super rápido com vinho então funcionou que uma beleza. Passei o cartão e pronto, conta praticamente zerada. O melhor era a cara dos garçons, quando eu entrei todo mundo meio “quê que essa porra quer aqui?” e no que eu pedi o vinho, pronto, só sorrisos e bons tratos. Cheguei a dar gorjeta de $25. O que sobrou eu saquei e fui distribuindo entre mendigos e artistas de rua/metrô. Eu acho que ainda tinha uns $100 e quebradinhos, saquei os $100, fiz a felicidade da galera e deixei os quebradinhos na conta.
Pronto, agora dava, chegou o momento. Já tava noite, fui lá perto da casa do menino mesmo no Brooklyn. Procurei um lugar alto pra me jogar. Encontrei uma estação de metrô aberta. Três lances de escada de ferro pra pegar o metrô. Subi até a última e fiquei me segurando. Isso já era bem de noite, não tinha ninguém pra me impedir. Pensei por meia hora, naquele vou não vou, mas acabei indo. Me joguei. Dizem que quando você quase morre, você vê sua vida toda num flash. Eu não vi isso, eu na verdade vi tudo que eu poderia ter vivido mas não iria mais. Pois bem, agora o momento risada: eu cai em cima dos sacos de lixo! Eu me machuquei, claro, mas foi tão estupido que eu nem senti e eu mesmo fiquei rindo. Fiquei lá deitado nos sacos de lixo por um tempo, até um carro de polícia passar por perto e eu sair correndo pra não perguntarem o que eu tava fazendo ali (e detalhe, sem documentos). Continuei andando, meio que mancando por conta da pancada, mas rindo. Rindo da burrice. Eu pensei que só tinha sei lá, uns dois sacos, mas era uma pilha que suavizou a porra da queda. Nisso eu fiquei vagando a noite adentro, rua mega deserta, deitei num banco de praça e apaguei.
Acordei no dia seguinte com o sol na minha cara. Como havia tido a coragem de me jogar ali, pensei que agora dava pra ir no metrô. Eu até lembrei que teve um dia que a mãe da Nat e ela foram assistir Priscilla e eu fiquei no quarto deitado olhando pela janela. De lá eu morreria com certeza que era mais de 10 andares, mas não dava pra traumatizar as duas assim né. Então eu fui pro metrô. Ainda pensei assim “agora não deve aparecer outra pessoa da Disney né, seria o cúmulo da coincidência”. Não, não apareceu ninguém da Disney. Mas olha quem deu as caras:
Lin-Manuel Miranda. Simplesmente o gênio Lin-Manuel Miranda. Compositor de In the Heights (além de ser ~le Usnavi~), Bring It On, melhor participação da história de House e desenvolvendo um musical sobre Alexander Hamilton que vai ser foda demais.
Ele ficou me olhando de canto de olho, como quem diz “sei que você sabe quem eu sou” mas enfim, o segui até a estação que ele desceu. Depois disso fui saindo de metrô e entrando em outro, e em outro, e em outro. Não sabia onde estava, até que desci em Cone Island. Né, simples assim. Só fiz rir que ainda fui parar num lugar musical-related (onde se passa Love Never Dies, a continuação do Fantasma). Eu teria visitado muitos lugares assim. Como o Jeejay visitou o prédio de Friends, eu teria ido a Avenue B fazer pole dancing no poste em homenagem a Mimi, entre tantos lugares que eu poderia ter visitado. A parte de Coney Island que eu visitei era meio macabra, parecia filme de terror pós ataque zumbi. Então voltei no metrô, continuei migrando, migrando, migrando, quando vi já tava perto da Times Square de novo. Fui pra lá e virei a noite com uma mulher que tava com um cachorro na escadaria. Ela não era mendiga, só tinha encontrado o cachorro perdido e não sabia o que fazer. O albergue dela não aceitava, não tinha ninguém pra perguntar, entregar, dai fiquei fazendo companhia até amanhecer. Só que eu acho que ela era tapada, se ela levasse pra policia, eles não dariam conta? Enfim, nem tive a ideia na hora também. E não sei se ajudariam, mas fiquei lá “viajando” naqueles degraus vermelhos.
Eu ficava visitando lojas de musicais também pra sofrer mais ainda vendo o que eu provavelmente compraria, mas não iria mais. Tinha uma cheia de partitura que sei que a maioria do povo morreria pra ter:
Já estava com uma carinha de garoto de rua mesmo. Nessa dai também tinha playbills raros, LPs, é maravilhosa. Se não me falha a memória, o nome é Colony. Mas é perto da escadaria da TKTs é tem um letreiro enorme. Também fui ao Top of the Rock no Rockafella. Que vista linda! Só me senti insignificante no meio de tantos pontinhos, e com maior vontade de me jogar lá de cima, mas tudo bem.
Depois do veneno de barata em pó, comprei um em líquido. Peguei e coloquei num copo. Tomei ainda com a espuminha e apesar do gosto horrível, pior era a ardência nos olhos. Pensei que ficaria cego porque queimava muito, tomei um copo inteiro e não deu pra tomar mais. Mas foi só a ardência, não passei mal nem nada. Não sei se tivesse tomado o tubo inteiro teria sido diferente, mas cego eu com certeza ficaria. Depois eu fiz pior. Peguei sabão líquido, removedor de manchas, tudo que tinha na área de limpeza e misturei num copo e foi. Só de lembrar meu estômago embrulha, o gosto é muito forte e isso foi pior que tudo. Eu não posso nem sentir cheiro de produto de limpeza que eu passo mal. Eu fiquei com uma ânsia de vômito horrível, meu estômago ficava se embrulhando e eu caguei horrores (no sentido literal) e sim, meu cocô era azul. Depois disso eu desisti de ingerir qualquer coisa porque já tava sendo idiota demais.
Eu não lembro mais, além de ficar andando pelas ruas falando sozinho, tentando entender aquilo tudo, ficava voltando no tempo mentalmente pra analisar e só piorava. Eu cheguei a passar na frente do teatro do Angels in America e ficava falando sozinho “foi aqui que tudo começou, mas por quê?” e continuava a pensar sem entender. Pior foi quando comecei a ligar pra minha mãe/pai falando que ia morrer. Claro que eles ficaram desesperados sem entender nada, falando pra eu voltar pra casa logo e eu falava que não. Eu cheguei a ficar horas com eles no telefone só falando besteira. Minha mãe na primeira vez que eu liguei de NYC falando que tava meio triste falou “volta pra casa logo” e eu “não, eu vou ficar bem”. É, não fiquei. Eu cheguei a ligar pra Raissa também antes disso, ela me aconselhou e tudo mais, mas na hora você fica surdo. Não adianta. Quando eu liguei pra ela eu estava na cozinha, de cueca, com uma faca apontada pro peito e segurando o celular. Desliguei e fui tentar, Cody ligou. Eu ignorei pensando “filho da puta cretino viado de merda escroto olha a hora que ele liga e é tudo culpa dele!” mas eventualmente, não fiz nada. E falei com ele momentos depois como se estivesse bem. O lado foda dessa doença é isso, a pessoa nunca vai assumir que está mal. Cabe aos outros verem, o que dificulta muito o processo de recuperação.
Meu último dia eu lembro perfeitamente. Eu havia combinado de ir pegar minhas malas na casa do menino, mas não fui. Já tinha colocado na cabeça que ia morrer mesmo, ele que jogasse as malas fora. Não ligava mais. Fiquei vagando pelos parques que tinham ali perto. Aliás, ele mora na rua Lafayette. Eu sempre imaginava o negão viado do True Blood quando chegava. Comecei a ficar com fome e só tinha $1 no bolso. Fui numa lojinha e tinha um mini Cheetos de 40 cents. Comprei dois e comi como se fosse o melhor prato que já comi na vida. Eu lambia os dedos e foi a primeira vez que eu me senti homeless mesmo. Já havia dormido na rua e tudo, mas lamber os dedos de Cheetos é definitivamente o ápice da pobreza. Sentei num desses parques e fiquei lá agonizando, me martirizando, pensando mil maneiras de como finalmente terminar aquilo, ai me vem um cara e perguntar “posso tirar uma foto?” e eu “whatever”. Ele tirou, me deu um cartãozinho e foi embora. O site é Humans of NY. Ele tem esse projeto de tirar fotos de pessoas aleatórias na rua. Olha o resultado da minha:
A palavra depressão vem na hora. É o retrato da depressão. É o retrato de uma fase nebulosa da minha vida. Eu sinto calafrios se eu encarar bem o meu rosto. Depois disso começou a chover. Eu fiquei a madrugada na chuva. Eu cheguei a entrar numa loja e o cara falou “vai comprar o quê?” e eu “não, eu tô aqui pelo frio e…” “não, você não pode ficar aqui”. E lá voltei pra chuva. Eventualmente sentei no chão numa cobertura de uma lojinha, chorando. Um outro homeless me viu e falou que tinha uma igreja ali aberta. Fomos os dois e tinham vários, vários outros lá. O frio é tanto que eles abrem as igrejas pra acolher o pessoal que mora na rua. Eu me comovi ficando ali, porque aquelas pessoas faziam piadas, ficavam rindo. Era uma forma de tentar esquecer aquela forma lamentável que elas viviam. Alguns com cachorros fofos, outros com a pele tão ruim de dar pena, e outros que nem eu, que nem pareciam que eram moradores de rua.
No que vai amanhecendo vai todo mundo indo embora, e os mais preguiçosos podem ficar até o culto começar. Eu fui um desses, dai veio um padre ou sei lá o quê e falou que eu poderia assistir, mas ficar deitado ali não mais. Eu acabei ficando pra assistir e fiquei ainda mais comovido. As negonas cantando música gospel bem no estilo que a gente vê nos filmes mesmo, sério. Elas gritam, te arrepiam, é incrível. Foi ali que eu falei “ah caralho, foda-se, vou voltar pro Brasil que ao menos deixo minhas roupas e coisas pro meu irmão”. Eu iria voltar no dia 18, mas a tensão foi tanta que acabei voltando dia 16. Eu lembro de ligar pra American Airlines, mudar minha passagem, o menino ficar resmungando “é, não dava pra mudar a passagem, sei” sendo que eu só tinha visto com a STB, nem pensei em ligar diretamente pra American. Então pedi um táxi pra lá e comecei a chorar como nunca. Fiquei com as malas na rua, chorando, andando de um lado pro outro. O menino sai e fala “para de agir feito louco! não na minha rua! até agora tinha te achado normal, mas agora…” e eu falei “tá, vou ali pra outra rua” e ele “não foi isso que eu quis dizer! Só calma, relaxa”. Tava no celular chorando com minha mãe, dei o celular pra ele que ficou falando com ela (momento akward total), o táxi chegou, fui pro aeroporto.
Eu tinha dinheiro ainda na carteira, que deu pro táxi e ainda sobrou uns trocados dos quais comprei tudo em M&Ms na lojinha do aeroporto e comia como se não houvesse amanhã. Na hora de passar com a bagagem de mão o cara jogou fora altas paradas que eu tinha colocado lá dentro. Protetor solar, tudo que era líquido e eu “pode jogar” com cara de que se foda. O único que me fez refletir foi meu KY. Quando eu vi ele caindo na lata de lixo foi em slow motion enquanto lembrava os bons momentos que tivemos. Mas tá, passado isso fiquei ligando pra minha mãe, pai, enchia o saco a ponto da minha mãe falar “tá, chega, amanhã a gente se vê e conversa!”. Pra ela fazer isso é porque realmente… Eu cheguei cedo no aeroporto, devo ter ficado lá por umas 8 horas e não parava quieto. Andando de um lado pro outro, os guardinhas até ficavam me olhando estranho, talvez pensando que eu era um homem-bomba ou sei lá o quê. Mas eventualmente chegou a hora e lá fui eu pro avião.
Continua…
























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