Diário de um Deprimido – Pt IV: Voltando ao Brasil
“Suddenly my world has gone and changed it’s face, but I still know where I’m going. I have had my mind spun around in space yet I’ve watched it growing. If you’re listening God please don’t make it hard to know if we should believe in the things that we see. Tell us, should we try and stay, or should we run away, or would it be better just to let things be? Living here in this brand new world might be a fantasy. But it taught me to love. So it’s real, real, real to me. And I’ve learned we must look, look inside our hearts to find. A world full of love, like yours like mine, like home”.
- The Wiz
É, voltar foi muito mais difícil que tudo. Eu nem me imaginava voltando, então estar ali era a coisa mais estranha do mundo. No avião um cara muito simpático sentou do meu lado. Engraçado que isso normalmente não acontece, só quando eu tô chato querendo morrer pra acontecer né. Ele puxou maior assunto, falando que era estranho voltar pra casa porque ele ficou 6 meses sei lá onde, eu falei que entendia, que trabalhei na Disney, ele achou o máximo, puxou um papo mas eu não dei muita bola. No fundo agora pensando eu acho que ele viu meu estado lamentável e quis suavizar, porque ele foi muito, muito gente boa. Eu devia estar fedendo de quem não tomava banho fazia tempo, uma barba nojenta, a cara toda marcada. Eu fui ao banheiro, me olhei no espelho e comecei a tremer de medo. Eu não reconhecia aquele ser na minha frente. Eu tava muito, muito mal. O rosto todo seco, lábios rasgados, os olhos quase pulando pra fora, espinhas, cortes, sujeira. Sério, era muito triste. Lembro de estar na casa da minha amiga olhando no espelho e, mesmo sem entender o que se passava e o motivo de querer morrer, me achava lindo. Eu ganhei músculo trabalhando na Disney, tava pela primeira vez na vida me achando atraente. E agora eu estava ali, a própria destruição. Eu voltei ao meu assento desejando com todas as forças que aquele avião caísse. Fiquei horas pedindo pra isso, mas é, não funcionou.
Cheguei no aeroporto, peguei minhas malas e fui andando. O cara ainda se despediu de mim e eu ignorei. Eu tava alguns passos do portão e não queria ir. Meu corpo travou. Dava um passo parava, dava outro, parava. Mas fui. E lá estava minha mãe. Já quase chorando me abraçou e falou “Graças a Deus” e eu falando “me perdoa, me perdoa, me perdoa” e ela “a gente conversa sobre isso depois, vamos pegar seu irmão”. Coincidência do destino, meu irmão tava chegando de Manaus no mesmo dia pra morar de vez aqui em casa. Acabou que voltamos todos e eu tremendo, querendo falar merda e minha mãe me segurando pro carona (amigo nosso) não ouvir. Cheguei em casa, joguei minhas malas no chão e já fui tentar me jogar da varanda. Minha mãe me empurrou, trancou a varanda e me colocou no sofá e falou pra eu falar tudo. Eu tentei explicar, falei tudo meio desconexo, acredito eu, e eles tentaram me acalmar. Falando que a gente ia ver isso, que é experiência, riram quando eu falei do sabão, do veneno, porque realmente, é pra rir. E aí eles falaram “todo mundo vai pra NYC e volta com as mesmas histórias, a sua pelo menos foi diferente!”. Esse é o argumento mais patético que eu já ouvi na vida. Viver bem NYC como todo mundo ou quase morrer? Hm, que difícil decisão. Mas, por incrível que pareça, na hora funcionou. E fui dormir porque minha mãe insistia que tudo era só estafa. Que eu tava estafado e precisando dormir. Dormi.
Acordei e ela nos levou ao centro, ou sei lá como se chama aquilo, mas na parada do não sei o quê Bezerra de Menezes. É uma das variações do Espiritismo. Foi uma porrada na cara ir nesse lugar. Tanto em Orlando quanto em NYC só tem gente bonita. É raro ver gente feia, só aqueles gordos e tal, mas ainda assim não chega perto das pessoas feias daqui. E ali, bem, só tinha gente feia. Gente feia, pobre, mal vestida e buscando uma cura para as vidas infelizes delas. Sei que é terrível falar isso, mas é a verdade. Você não vê gente bonita ou bem de vida ali, só vê gente fodida querendo curar doenças por métodos fora da medicina (o que não concordo, mas vai de cada um). Eu fiquei chocado. Mais chocado ainda com o que eles pregam. Eu fui porque né, minha mãe jurava que podia ser espiritual. É a ignorância que rodeia minha família, não tem jeito. Óbvio, não aconteceu nada. Mas ela jurava que tinha me feito um bem incrível. Então voltei pra casa, falei no Facebook com Leo Polo e Laisoca, eles falaram que eu precisava procurar uma psicóloga, eu falei que ia, e tá. Ficou por isso mesmo. Inclusive imagino agora o choque deles ao ler as barbaridades que eu possa ter escrito. Fui dormir de novo, até ai tranquilo. Parecia que tudo foi só um pesadelo e pronto, ia ficar bem.
No dia seguinte foi como se eu acordasse pra realidade. Eu fiquei “gente, o quê foi que eu fiz? Eu estava em NYC, podendo realizar o sonho da minha vida, de férias! Por que eu não aproveitei? Porque eu me torturei? Como assim? Eu tava de férias gente!”. É que vendo meu quarto, minhas coisas, entrando na Broadway.com e vendo os musicais que não vi, sabendo que tinha que voltar pra UERJ, procurar um emprego, o choque de realidade faz você voltar a si. Foi horrível. Se antes eu queria morrer, agora eu tinha certeza absoluta que eu tinha que morrer. Minha mãe quis sair, fomos os três. Antes de chegar ao shopping que iriamos, esperando um semáforo, eu fugi pelos cantos. Saí correndo e eles nem perceberam, só depois que meu irmão eventualmente me encontrou. Eu tentei correr, ele correu atrás e começou a me encher de porrada. Ele falava alguma coisa, eu respondia alguma coisa e soco na cabeça. Era algo do tipo “vai continuar fugindo?” e eu “vou” e pá, soco. Eu não sentia dor. A dor por dentro era maior que qualquer outra coisa. Ele me batendo e minha mãe gritando. Cena deprimente. Dali fomos direto pro hospital. Na emergência eu contei minha história pra médica. Por coincidência do destino, ela era psiquiatra (e seria a vir a minha psiquiatra mesmo). Eu não podia ficar internado porque tinha um problema no meu cadastro. Futuramente iriamos descobrir que por eu ter trabalhado com carteira assinada, tinha perdido o direito do hospital. Mas ela falou pra me trancar dentro de casa, esconder os remédios e receitou como deveria fazer. Ela falou que tinha que marcar psiquiatra o mais urgente porque o remédio demora a fazer efeito e eu poderia fazer mais besteiras. Que eu fiz, óbvio.
Eu não lembro exatamente a ordem cronológica das coisas, mas foi foda demais. Eu realmente tentava morrer todos os dias. Era acordar, passar o dia inteiro tentado me matar, ir dormir pensando em como morrer no dia seguinte. Eu tentava me afogar na pia, amarrava um saco plástico na cabeça e prendia a respiração até ficar roxo, tentei me enforcar na varanda, todas elas davam errado. Seria mais prático me jogar, mas aí todos os amigos da minha mãe ficariam sabendo, e não queria isso pra ela. O fato é que o corpo humano preza pela sobrevivência. Existe o reflexo, que na hora H acaba arrancando o saco da cabeça, puxa a cabeça pra fora da pia, e na varanda foi sorte mesmo, a corda tava velha e arrebentou. Como eu não conseguia morrer de forma alguma, minha nova alternativa era fugir de casa e morrer eventualmente na rua. Só sabia que eu não queria mais ser o Charles, podia fugir e começar uma vida nova. Eu não poderia ser o Charles antigo. Era inconcebível eu, Charles Fouquet, ter ficado depressivo em NYC. Então eu fugia.
A primeira fuga eu fiquei perto da estação de trem daqui de casa. Eu tentei me jogar. Eu fechei os olhos, levantei as mãos e tava só esperando vir o impulso e cair, mas na hora que eu quase tava indo, apareceu um velhinho falando “faça isso não meu jovem”. Eu saí. Ele vira e fala “quer uma maça?”, eu rindo digo que não. Ele “tá, mas não faz mais isso”. Ironia né gente, saí da Disney onde dar maças não é algo muito legal e aqui, um velhinho, querendo me salvar com uma. Eu andava, andava, cheguei a cair no chão de um bar que tinha um pedaço de garrafa quebrado, tentei cortar meus pulsos com aquilo mas não era afiado o suficiente. Dei uns cortes mesmo assim pensando que poderia infectar, sei lá, tava doido. Ficava pensando em como eu era um tempo atrás e minha situação agora. Eu tinha sido o fuckin’ Goofy na Disney, todo mundo me amava, e agora eu tava no chão de um bar tentando me cortar com uma porra de garrafa de cerveja. Quem me visse na rua, nem diria. Continuei andando, dormi num banco que tinha e quando acordei, meu irmão tava passando bem na hora e me levou pra casa. Ele ficava falando, tadinho “por que você faz isso? para, para com isso!”. As pessoas me olhando na rua sendo carregado por ele. Ele “viu? tá todo mundo olhando”. Eu completamente louco “quero mais é que vejam, sou eu, a estrela que chegou de NYC!”. Ele “é assim que eu gosto de ver!”. Eu tinha chegado no nível que falar asneira “feliz” era melhor que fugir. Depois disso, claro, fui trancado completamente e fiquei sob vigilância.
Eu cheguei a achar os remédios e tomar todas as pílulas, o que resultou num coma em que dormi três dias direto, mas só. Os remédios basicamente só te dão muito sono e agem em partes do cérebro que causam a depressão, só que requer muito tempo pra funcionar. É coisa de meses. E a pessoa precisa querer se curar, o que não era meu caso. Eu queria morrer mesmo. Eu só conseguia pensar que eu estive em NYC e não assisti os musicais, não tirei foto com os atores, não peguei autógrafos, etc. Eu acho que mesmo que eu não documentasse minha história aqui, vocês saberiam que eu estava doente por lá. Eu só assisti coisa de turista idiota. Eu não assisti Catch Me If You Can, How to Succeed in Bussiness, Anything Goes, Book of Mormon, entre tantos outros que eu sem dúvidas faria questão de assistir e sim, todos eles estrearam enquanto eu ainda estava lá! Em vez disso ainda repeti dois musicais que nem precisava tanto repetir sabe, eu não entendia, e não conseguia imaginar mesmo eu vivendo com esse peso nas costas. Os arrependimentos eram vários. Uma amiga minha de Manaus me viu vagando pelas ruas de NYC e mandou mensagem no Facebook me chamando pra sair, recusei as baladas com Fabinho, deixei de rever a Sara da Disney que morava lá, deixei de conhecer uma brasileira fã de musicais que mora lá, perdi a amizade do menino do lastfm, deixei de conhecer pessoas legais (lá como vocês perceberam, o pessoal na platéia puxa assunto), quando fiquei na rua cheguei a twitter e um amigo falou que eu podia ficar na casa de uns conhecidos dele super fofo, meus amores do Rio iam me pegar no aeroporto e eu não vim no dia certo, tudo e muito mais pesava na minha cabeça.
Muita gente pode achar essa parte idiota. “Nossa, como assim por ele não ter assistido peças ele quis morrer?” e bem, agora eu também acho isso. Mas antes de tudo depressão é uma doença. Não precisa de motivo, a pessoa fica mal por qualquer motivo que seja, e se algo assim acontece, só agrava. Quem leu o segundo capítulo viu o quanto isso era a minha vida. Sonho a gente não julga, cada um tem o seu. Tem gente que mora no interior da puta que o pariu e o sonho é um dia ver o mar. Tem gente que sonha em casar, ter filhos, blá blá blá, tem quem ache legal, tem quem ache patético. Mas cada um faz o que bem quer da sua vida. O meu maior sonho havia sido destruído e eu fui o responsável em destruir. Eu poderia ter vivido tudo que sonhei e não vivi. Qual era o sentido de continuar a viver se eu não tinha mais nenhum sonho? Nada que me fizesse acordar de manhã e ter um propósito em continuar? Dinheiro pra quê? Estudar pra quê? Nada mais importava. Eu pelo menos sou sincero comigo mesmo. Eu acho errado você viver por viver sem ter um objetivo de vida, algo a ser alcançado. Ser só mais um que nem vive né, sobrevive. Então se eu achava que já era, que não tinha mais jeito, eu tentei fazer o que estava ao meu alcance que era partir pra outra vida. Essa já era. Nessa eu já havia falhado e não tinha mais jeito.
Não conseguia me matar, não dava pra fugir, foi aí que parti pra parte mais estúpida ainda da história. Comecei a procurar na internet formas de voltar no tempo. Acreditem, tem sites com bruxarias ensinando como voltar. Se você procurar no google encontrará algumas e sim, fiz todas. Claro que na magia eu ainda pedia pra voltar pra novembro que ai eu viveria tudo da Disney de novo, ainda melhor, e ai teria um NYC lindo. Esse é o nível que minha doença atingiu gente. Eu fazia com toda fé do mundo todas essas magias, ficava horas repetindo alto, escrevendo, acendendo vela, patético patético. Mas só mostra o quanto sua mente consegue fazer idiotices quando se tem algo a afetando. Eu passava madrugadas andando de um lado da cozinha pro outro desejando voltar no tempo. Eu fechava os olhos, clamava, eu precisava disso. Viver como estou vivendo agora não dava. Eu perdi toda a noção de tempo que eu tinha. As horas voavam. Eu olhava no relógio e rapidinho passava uma hora. E nada de voltar. Eu estava perdendo a faculdade e isso me entristecia, mas depois vinha o foda-se de quem pensa “o que é a faculdade comparado com tudo que eu já perdi?”.
Minha mãe jogava na minha cara “viaja e fica doido! odeio NYC, odeio Disney” só que ela não entendia que eu sempre fui “doido”. Não foram os lugares que me deixaram assim. A única forma de eu não ficar do jeito que fiquei, era não saindo de casa. Não vivendo. Ela achou que fiquei assim porque comi mal, não me cuidei. Eu realmente comi muito mal, mas não acho que falta de comida te dê vontade de querer se matar. Ela ficava “sabia que você não tava pronto pra viver sozinho” sendo que eu vivi por dois meses e meio muito bem. Inclusive, eu aprendi a valorizar o trabalho dela. Na Disney eu não jogava minhas roupas no chão e elas apareciam magicamente limpas, eu não tinha comida no prato quentinha, comida de graça, moradia de graça, eu tava por conta própria e me virei muito bem. Eu aprendi a dar o valor, mas ela insiste em continuar querendo fazer tudo. Eu deixo, mas com certeza eu sei que já tenho maturidade suficiente para morar só, mesmo que ela não queira acreditar nisso.
Meu pai veio do interior ajudar, largou o trabalho e veio. Veio com boas intenções e o fato dele largar tudo, mostra que ele é sim um bom pai. Tiveram altas brigas aqui em casa porque minha mãe pensava de um jeito, meu irmão de outro e meu pai de outro. Então era tenso. Meu irmão achava que era charme da minha parte. Fui muito mimado quando criança, logo, porrada era a solução. Minha mãe queria que eu ficasse em casa tomando os remédios e me obrigando a procurar alguma religião, fosse onde fosse, eu precisava. Meu pai concordava com a religião, mas achava que indo pra faculdade eu ia ficar bem com meus amigos e etc. Era briga todo dia, e eu pensava “foda-se, vou voltar no tempo e tudo isso não irá ocorrer no meu futuro”. Eu não sei quanto tempo meu pai ficou, mas eventualmente acabou indo embora. Ele fez coisas boas, devo reconhecer. Foi ele que correu atrás na faculdade pra uma psicóloga. A minha faculdade tem setor de psicologia para casos extremos como o meu, de pessoas que nem conseguem entrar na faculdade seja por síndrome de pânico, depressão, etc. Marcamos um horário e eu só saia de casa pra isso. Meu irmão me levava ainda pra eu não fugir. Eu falava que não precisava, mas ele ia mesmo assim (e óbvio que precisava).
Se existe um lugar horrível de se ir, onde a vibe é uma coisa absurdamente estranha e você se sente mal só de estar lá, esse lugar se chama psiquiatria. Indo lá você vê cada coisa, mas cada coisa. Eu me sentia normal perto dos casos que vi. Minha mãe é um saco, ela se acha o ser mais evoluído do mundo, então ela ficava dando conselhos e falando merda pro pessoal de lá enquanto eu tinha que esperar. Eu morria de raiva porque ela não entende que é uma doença e que palavrinhas positivas não ajudam! Eu me odiava, odiava mortalmente estar naquele lugar. Inclusive, na TV estava passando um desenho do Pateta e meu pai vai e fala “olha o Pateta!” e ri. É, eu realmente fui mais Pateta do que imaginei. A minha psiquiatra era curta e grossa, o que deixava minha mãe puta porque ela queria contar histórias longas e ela cortava sempre. Eu ria por dentro. Ela é curta e grossa porque ela sabe que não adianta ficar de blá blá blá, tem é que tratar. É remédio? Toma. É terapia? Toma. E assim vai indo. No meu caso eram os dois, sendo minha terapia a psicóloga.
Eu odiava mortalmente ir na psicóloga. Era um saco. Eu mentia boa parte do tempo, até mesmo que né, eu ainda pretendia morrer (ou voltar no tempo). Não tinha pra que contar a verdade. Mas de vez em quando eu falava, não mudava nada. O problema é que essa psicóloga é na UERJ. Pra quem não sabe, não existe lugar mais deprimente que a UERJ. É o lugar de maior índice de suicídio do Rio de Janeiro! Pessoas que nem estudam lá, vão lá pra se jogar porque não tem proteção. Ir lá também me lembrava que havia perdido as aulas, me fazia sentir falta dos meus amigos e não bastasse isso, é tudo cinzento e mal frequentado. Eu não sou de julgar muito as pessoas, mas tem gente que pede. Eu tenho poucas roupas, antes da viagem eu só tinha roupa que minha mãe me dava e ela tem um gosto meio duvidoso, mas era o que tinha. Ela ainda me dava em média 5 peças ao ano, ou seja, já repeti e ainda repito muita roupa. Antes da faculdade eu nem me ligava muito nisso, chegando lá que você vira mesmo um ser pensante e conhece amigos que te dão aquele toque esperto. Foi quando eu saí do mundo virtual e ganhei uma vida, logo, comecei a me importar com coisas que antes não. Mesmo com poucas roupas, mesmo repetindo, eu dou meu jeito de ficar aceitável. O problema é que as pessoas lá não se importam com isso. Fazem as combinações mais bizarras do mundo. Shortinho jeans, vestidinho de cortina (não tão boas quanto as da Noviça), é sério. Se não acredita, vai no 11º andar da UERJ. Aquilo é o Apocalipse, é completamente deprimente. Se eu já achava deprimente ir lá pra ter aula, quem dirá ir pra uma psicóloga (diga-se de passagem, estagiária que tem supervisão de outra pessoa).
Meu pai chegou a voltar aqui de novo, e ai me deu aquela forcinha amiga para ir na faculdade. O que ele não entendia é que se eu nem atendia o telefonema dos meus amigos, se eu ignorava todo mundo na internet e meu mural era só pessoas perguntando onde eu estava, é porque eu definitivamente não tava preparado para enfrentá-los. Mas meu pai tinha um poder sobre mim, eu não conseguia dizer não. Não sei explicar, não era medo, mas eu não conseguia dizer não pra ele. Então no primeiro dia que ele me deixou na porta da faculdade, eu simplesmente virei e fui passear pelos arredores. Na verdade eu pretendia fugir de novo mesmo, mas acabei voltando pra casa. Eu rodei o Rio de ônibus. Sabe o que é pior que andar de ônibus? É andar de ônibus sem destino. Sério, que desespero. Fui parar em cantos do Rio que eu nunca havia pisado antes. Mas no final do dia, voltei pra casa. Minha mãe me viu pela varanda e meu irmão foi me buscar. Meu pai achou normal, e no dia seguinte fez questão de entrar comigo até o meu andar. Acho que era difícil pra ele entender que eu não queria estar ali, mas tá. Já que estava, encontrei meus amigos. Eles chocados de me verem lá, mas ao mesmo tempo felizes. O mais engraçado é que eu não tinha noção de tempo mesmo, já faziam dois meses que eu não ia pra lá. 2 meses. Conversei com eles por alto, ainda provavelmente contando coisas desconexas e claro, eles cagaram se eu não vi musical tal, se eu deixei de fazer coisa tal, eles só queriam que eu voltasse pra faculdade. Eu falei pra eles que eventualmente voltaria, inclusive, conversei com alguns professores que falaram que eu podia ainda recuperar o semestre. Alguns não deixaram, mas os que eu já conhecia e gostavam de mim, sim. O que é muita coisa porque dois meses de faculdade já dá pra reprovar, mas eles foram super fofos. Pronto, meu pai tava feliz. Já poderia voltar pro interior de novo.
No dia seguinte eu fui de novo e me senti muito mal. Estar ali me lembrava que eu perdi dois meses da minha vida me torturando. Me lembrava que não tinha pra que ficar estudando, eu não tinha mais propósito de vida. Sem contar que estava todo mundo bem. A doença te faz imaginar se as pessoas vão sentir sua falta quando você morrer. Eu pensava que iriam, mas ali eu tinha certeza que não. Foram dois meses que se passaram, e tava todo mundo bem. Porque é assim mesmo, ninguém para de viver por outra pessoa. A vida continua. Fica o recado pra quem gosta de fazer drama por fazer, não adianta. As pessoas podem até sentir sua falta, mas elas vão continuar vivendo. Não fique imaginando como seria se você não estivesse lá pra se sentir querido, faça a diferença enquanto você pode, somente. Eu estava numa aula, a professora fez chamada (aliás, uma professora super fofa) e falou “você só veio visitar né?” e eu respondi que sim. Ela começou a dar aula, o assunto era Shakespeare e eu amaria estar estudando aquilo, me senti mal e fui pro banheiro com vontade de me afogar naquela privada nojenta. Era horrível. Eu sabia que eu não podia mais voltar naquele lugar tão cedo. Foi quando eu fugi de casa definitivamente. Pra não voltar. Acabei perdendo mesmo o semestre todo, e para mim, que chorava com notas do processo seletivo e tudo mais, era algo muito triste. Eu nunca havia reprovado nenhuma matéria lá, e agora iria em todas que meu amigo querido me inscreveu (quem fez minha inscrição foi um amigo, eu nem sabia que matérias estava cursando mas tava triste da mesma forma).
No primeiro dia da minha fuga definitiva fiquei ali por perto da faculdade mesmo. Dormi no ponto de ônibus e só um grupo de moleques me abordaram mas falei que não tinha nada e eles foram embora. Pior é que eu tinha celular, Ipod, mas nem me revistaram nem nada. Depois até um pastor apareceu me dando papelzinho de igreja. Isso 05 da amanhã, tudo escuro e aquele cara de roupa social na rua dando panfleto de igreja, whathefuck? Na parte da manhã quando a universidade abriu eu dormi no hall de algum andar que não o meu, depois fui dar uma andanda pelos arredores. Encontrei amigos no bar, fiquei bebendo com eles, depois comecei minha saga pelo Rio de Janeiro. Se eu achei que tinha andando muito em NYC, aqui eu quebraria esse recorde. Eu fui andando do Maracanã até Botafogo que foi onde parei e dormi com uns mendigos. Eu cheguei falando que havia sido expulso de casa pra um velho lá, ele perguntou a razão, falei que era gay e minha família não aceitou. Pronto, me aceitou pro “grupo”. Nem pensei na hora que ele podia era comer meu cu né, mas nem, ele até me deu uns jornais pra eu dormir e falei que não precisava. Me lembrei do dia da igreja no Brooklyn, aqui foi mais doloroso porque os nossos mendigos não são tão felizes quantos os de NYC. Não os culpo né, aqui nenhuma igreja nos aceitaria naquelas condições.
No segundo dia fui até o Leblon, já com a roupa toda suja do asfalto. Fiquei andando muito, depois fui pela praia e quando vi já estava em Copa. Fiquei na pedra do arpoador até escurecer. Lá foi mais tenso, tinha muito moleque de rua. Desses que eu sairia correndo no meu estado normal, mas, eu já estava que nem eles. Só faltava cheirar cola mesmo. De qualquer forma eles nem se quer falaram comigo. Voltei a andar e comecei a voltar pra zona norte. O mais triste é que minha memória é bizarra, eu me apego muito aos detalhes então eu passava na frente de lugares que eu gostava de visitar, frequentar, ou já vivi algum momento bacana e ficava lembrando, pensando o quanto eu queria poder voltar a ser eu, o quanto eu sentia falta de ser alguém. Porque quando você mora na rua, você não é ninguém. As pessoas não te olham, você é um nada. Eu acho que mais fundo do poço do que isso não dá. Pelo menos espero porque nossa… que coisa horrível. Dessa vez andei até a Lapa e fiquei por lá na madrugada.
No terceiro dia sem tomar banho, com a mesma roupa suja, imundo e nojento, e, diferente de NYC, aqui é quente. Então você se sente nojento, lá eu não faço ideia de quantos dias fiquei sem tomar banho mas nem sentia direito. Foi ai que eu comecei a quase pensar em voltar pra casa. Eu não sou de sentir fome, mas dois dias sem comer tava foda então acabei mendigando pela Lapa e consegui uns restos de comida. Quase cogitei pegar do lixo, mas lembrei de quando eu era gente e o quanto eu achava aquilo horrível, então fui pedindo mesmo no carão até que um dono de cachorro-quente me deu um. Depois fui fazendo o caminho de volta pra Zona Norte, mas por caminhos que eu não conhecia. Eu ia reconhecendo só depois onde estava. Chegando pela Tijuca eu vi a empregada de uma amiga, que aliás, é uma querida. Conversava muito com ela. Ela me viu, deu tchauzinho e passou. Depois perto da praça Saens Pena eu tô na minha e vem uma menina com uma aparência meio parecida com alguém que eu conhecia “vem cá, você viajou pros Estados Unidos recentemente?” eu disse que sim e ela “eu sou irmã da Mari”, levei um susto. Não bastasse ter conhecido a Mari na rua, conheci a irmã dela da mesma forma. Eu respondi “nossa, que bacana” e ela “poxa, a Mari morre de saudade de você, disse que não consegue falar contigo, liga pra ela” e eu “claro, assim que der eu apareço lá” (sim, pensando negativamente. Sim, já fui lá. Tô dizendo que essa porra funciona!). Fiquei passado com aquilo, mas ainda assim, não voltei pra casa. Lembrei que perto da casa dessa minha amiga (da empregada) tinha uma pracinha, não deu outra, foi meu terceiro local de sono.
O mais bizarro ocorreu no meio da madrugada. Eu acordei e tinha um velho deitado perto de mim. Tá, ignorei. Quando eu olho direito, a camisa dele é de Dreamgirls. Provavelmente algum dono de locadora deu pra ele, sei lá, mas aquilo me fez pensar. De que adiantava eu conhecer tanto os musicais, ter assistido tantos, amar tanto. Olha a situação que eu me encontrava! Eu tava na rua, sozinho, sem perspectiva nenhuma de vida. Mas se eu voltasse a ser eu, eu também não teria nenhuma já que arruinei o único objetivo da minha vida. Mas bem, eu poderia tentar ser uma nova pessoa, não? Eu fiquei pensando muito, mas nada foi mais eficaz que esse velho ter vindo falar comigo. Ele acordou e falou “e aí meu filho?” e eu me assustei. Ele era negão, mas com alguma coisa na pele, alguma doença, que ela era toda manchada de branco. Parecia um pó de tanto que tinha. Eu respondi “oi”. Ele falou “tem como você me dar esse banco? eu costumo dormir ai, te vi e deixei, mas agora queria deitar no meu canto”. Eu “claro, já tava de saída”. Levantei e dei o banco pra ele. Ele respondeu “É bom mesmo você estar de saída”.
Eu vi aquilo como um “volta pra casa moleque idiota”, mas acho que na verdade ele só tava falando “não fica mais na minha área”. Na verdade, pode ser até um “sou da rua, maluco, falo coisas aleatórias”. Quase cantei “It’s All Over” mas resolvi ir embora, até mesmo que precisaríamos de mais mendigos pra música ficar completa. Pensava “minha mãe vai me espancar, fato” mas eu iria voltar. Pior que nem consegui. Chegando perto de casa eu cai no chão. Meus pés começaram a tremer. Desmaiei. Eu acho que foi por falta de comida, mas quando acordei já estava em casa. Depois iria saber que um vizinho meu, que estudou no colégio comigo quando eu era criança, me achou jogado no chão e me carregou pra casa. Meu amiguinho de colégio gente, me carregando nos braços depois de três dias sem tomar banho e vagando pela rua. Já o agradeci, mas não posso vê-lo por aí que me vem a cena na cabeça que deve ter sido lamentável.
Minha mãe quase teve um troço nessa minha saída. Ela tava tomando remédios fortes também pra aguentar, desesperada, não sabia o que fazer. No que eu acordei eu vi meu irmão chorando. Foi provavelmente a coisa mais tensa que eu já vi na vida. Eu nunca, nunca tinha visto meu irmão chorando. E ele tava chorando pedindo pra eu não fazer mais aquilo, que ele também tinha problemas mas não contava pra gente, que dava pra resolver, etc, etc, etc. Pensei “se eu tivesse um coração, ele estaria se quebrando nesse momento”. Tudo foi indo. A partir daqui minha mãe melhorou e passou a me tratar como doente mesmo, que é o que eu era. Eu não tomava banho sozinho, ela que me dava na bacia, como se eu fosse idoso ou criança. Meu cabelo foi raspado porque já tava imenso e nojento, ria por dentro imaginando “minha fase Britney louca”.
Louco, quem? E bem, com o tempo foi indo, mas tiveram decaídas, tiveram melhoras em alguns sentidos. O processo é complicado. Um dia eu entrei no computador e vi o tanto de coisa que eu tava perdendo, inclusive, uma proposta de emprego que eu teria aceito na hora se eu estivesse bem. Era basicamente o sonho de um emprego, salário maravilhoso, enfim, conseguia me imaginar nele lindamente e feliz com tudo. Foi quando eu me revoltei e comecei a quebrar tudo. Peguei a foto da minha família, da Kerry Butler, a impressora, joguei tudo no chão. Minha mãe vem pra me bater, eu pego a caneca do Pateta linda que comprei na Disney, jogo no chão. Pego um caco e começo a cortar o pulso. Dessa vez fundo, de doer mesmo, até que ela pega um cabo de vassoura e começa a quebrar em mim. Eu gritava, ela continuava batendo. Eu pela primeira vez senti uma dor grande. Ela destruiu o cabo inteiro em mim. Eu fiquei na cama imóvel, todo dolorido, chorando. Eu fiquei dolorido por uns dois dias, mas eu tava surtado, ela não tinha outra alternativa. Se ela tivesse sedativo, talvez né. Mas o sedativo dela foi a porrada.
Fomos no psiquiatra de novo, ela dobrou a dosagem. A partir daqui eu virei um vegetal. Eu só queria ficar deitado por conta da medicação. Minha vida era dormir e psicóloga. Nem musicais eu queria assistir. Eu me forçava a ver o programa da Priscila Nocetti, de funk, pra rir da tosquice, mas me recusava a ver musicais. Teve um dia que coloquei no Amaury Jr. e tava falando de Broadway, mudei pra Globo e Hugo Bonemer no Faustão, isso no dia do Tony Awards. Pensava em como iria amar ver aquele Tony pois eu poderia ter assistido todos aqueles musicais ao vivo e bem, não tinha. Então ignorava. No auge da loucura fazia mais vídeos como o que já postei e colocava no Facebook, ou postava alguma coisa por lá falando asneiras. Tinha gente que gostava, mas eles não sabiam a verdadeira história por trás daquilo. Eu não entendia, mas vinha um impulso e dava vontade de me filmar fazendo aquelas merdas. Meu irmão falava “você zoa a Tulla Luana e tá fazendo igual” e eu cagava horrores, mas eu era a própria Tulla. Eu estava doente mesmo, só que infelizmente o caso dela é ainda pior e o marido dela em vez de fato ajudá-la, fica usando pro que faz.
Quando você tá depressivo, tudo que um dia já fez sentido, não faz mais. Até andar do seu quarto pro banheiro não faz sentido. Levantar pra quê? Eu olhava meus dvds, meus objetos pessoais e ficava “quê que eu vou fazer com isso?”. Eu ainda tinha dólares que sobraram, altas moedinhas pra trocar no câmbio e você acha que eu ligava? Minha mãe que eventualmente trocou. Eu tinha $15 só de moeda, tem noção? Eu me imaginava gastando elas por NYC, mas é, não deu. Eu já tinha perdido tanta coisa, que perder mais uma, ou mais outra, não mudava mais nada. Ficar triste com alguma coisa é normal gente, mas não ver sentido em levantar da cama, andar de um canto pro outro, de ter objetos que você gosta, não. Esse é um dos principais sintomas que um depressivo sente, e a partir daqui já deve se procurar um tratamento.
E assim, depois de não conseguir morrer mesmo, nem voltar no tempo, de morar na rua e não ter achado uma saída, e mais o escambal de coisas que eu fiz, vi que não tinha jeito se não viver. Então foi quando eu passei a levar a psicóloga mais a sério. E foi a partir daí que a coisa começou a mudar de cara.
C0ntinua…

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