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Música para cortar os pulsos

A sinopse é simples. Isabela teve seu coração partido por Gabriel, acaba se envolvendo com Felipe, mas é em Ricardo que encontra o homem perfeito. Quase perfeito, já que Ricardo é gay e por sua vez apaixonado por Felipe. Felipe só quer se apaixonar por alguém, embora nem tenha ainda certeza sobre os seus sentimentos. As cenas na sua maioria são monólogos intercalados em que vemos todo o decorrer dessa história, sentimentos, emoções, frustrações, etc. Até ai nada muito fora do normal, mas é a forma que esses assuntos são explorados que fazem da peça tão memorável e peculiar.

Não se trata de um musical, mas a música é parte fundamental do texto. Texto esse recheado de trechos de letras conhecidas (sejam de MPB, filmes, ópera, etc) que junta uma história na outra numa intertextualidade incrível. Muitas delas são tocadas entre uma cena e outra e, diferente de muitas peças que colocam músicas aleatórias para transição de cena, ali não. Ali existe um propósito, uma emoção que naquele momento está sendo explorada. Mesmo sem nem conhecer a música original (o que seria até meu caso já que escuto mais musicais do que tudo) é perceptível a ideia por trás daquilo. Como a própria peça mostra, existem músicas que por si só já dizem tudo.

Enquanto assistia me lembrei de “Três Formas de Amar” (Threesome), um dos meus filmes favoritos de sessão da tarde. A história é parecida por conta do “Bizarre Love Triangle”, mas ele trata de uma fase mais adulta até por envolver sexo, faculdade, futuro, e tudo mais que não é abordado na peça. Mas ainda assim, sem envolver esses assuntos, o texto da peça consegue ser muito mais maduro que o filme. A razão disso? No filme existe sim muito sentimento, mas ele não é muito bem explorado. Na peça é mais que explorado, cada ferida é uma fratura exposta. É realmente como se cortassem os pulsos e mostrassem na sua cara todo o sangue jorrando dali. Cada personagem por si só já carrega tanto em si, juntando os três é uma tempestade de sangue para todos os lados.

O texto e direção são de Rafael Gomes (com assistência de direção e preparação de atores de Thiago Ledier). Não basta ter escrito um texto tão incrível, a direção sensacional também é dele. Um jogo cênico lindo, difícil até de ser colocado em palavras. São pouquíssimos adereços usados, mas todos tão bem explorados, marcações tão precisas. Prefiro até não me atrever a comentar muito, mas de uma coisa eu tenho certeza: se ele em seu primeiro trabalho já fez algo tão grandioso, mal posso esperar pelos próximos que irão surgir. E claro, por mais que o texto seja incrível, se ele não é bem executado tudo é perdido (uma dura realidade). O que não é o caso aqui, o elenco vence o desafio de interpretar personagens aparentemente tão simples, mas tão profundos como no fundo todos somos. Eles são Victor Mendes (Ricardo), Fábio Lucindo (Felipe) e Mayara Constantino (Isabela).

Victor Mendes faz o tipo adorável. Sabe aquelas pessoas que você gosta de graça? Pois é. Uma atuação tão convincente e bonita que acho difícil alguém sair do teatro sem estar apaixonado por seu personagem. Na minha opinião todo gay tinha que ser como ele no quesito respeito. A relação que ele tem com Felipe é muito bonita, o respeito ainda mais. Infelizmente é o que a gente menos vê hoje em dia, e digo por experiência própria. Quem é hétero machão acha que todo gay o deseja, mas se baseando nos que são completamente promíscuos e esquecendo que existem pessoas decentes. Além do fato de que ser gay não diz necessariamente que aquela pessoa vai desejar todo e qualquer homem, e sim somente alguns em especial (no caso de apaixonado, apenas um). Mas um dia, quem sabe, ambos os lados aprendam.

Fábio Lucindo do momento que abriu a boca eu já tinha uma certeza: é dublador! É a forma que cada palavra é dita, com sentimento, precisão. Fator que cada bom dublador possui em si. Eu tentei forçar pra ver se alguma voz ecoava em minha mente, mas preferi bloquear e focar na peça que estava muito boa. Pois agora consultando o Wikipédia descubro que ele é nada mais nada menos que  a voz do Ash de “Pokémon”, Arnold de “Hey Arnold”, Kuririn de “Dragon Ball”, Dareen de “Ginger”, entre tantas outras vozes famosas da minha querida infância. Outro motivo para “Três Formas de Amar” ficar ecoando ainda mais na minha cabeça pois sempre o assisto dublado (e por incrível que pareça, a voz do personagem gay no filme é muito parecida com a de Victor Mendes!). São poucos filmes que assisto assim, mas por ter o assistido pela primeira vez no Corujão e ter gostado tanto, as vozes em português falam mais alto ao meu coração. Mérito, é claro, ao grande trabalho de seus dubladores. Dublador nada mais é que um ator que trabalha com a voz, Fábio vai além e consegue interpretar também com gestos, expressões, dando uma performance incrível e viva.

Apesar de ter amado os dois, seria injustiça da minha parte não destacar o trabalho de Mayara Constantino. Ela possui o fator Diva. Diva no meu sentido, aquele de que a pessoa tem um fator extra especial difícil de ser explicado, porém muito bem sentido. É o arrepio diferente, a sensação de saber que você está presenciando algo fora do normal. A personagem dela seria um saco se ela não defendesse com cuidado. Ela não apela pro melodramático, nem faz de forma “leve” ignorando a importância que aqueles sentimentos possuem. É na medida certa. Eu saí hipnotizado e apaixonado por ela. Se “Next to Normal” fosse peça, ela seria a Natalie mais perfeita do mundo. Digo isso pois não sei se ela canta também, mas do jeito que ela é, não duvido nada. Mas nas partes de atuação, tenho certeza absoluta. Nunca pensei que teria uma Diva sem ser de musical, mas estou feliz de agora ter. Existe uma cena em que ela faz o papel de uma apresentadora de TV entrevistando Isabela. Essa cena por si só já demonstra tudo que estou falando agora e mais um pouco. É sublime. Tenho certeza que ainda terá um futuro brilhante pelos palcos, TV, etc, etc, etc.

Cenografia simples e eficaz de André Cortez. Um texto rico desses não precisa de parafernálias e efeitos grandiosos, então até sua simplicidade tem um motivo. A mesma coisa para o figurino de Anne Cerutti. Roupas que adolescentes (de bom gosto) usam. São cores até comuns. Azul, vermelho, verde. E pode ser loucura da minha parte, mas até o formato  das roupas já demonstram que são personagens interessantes. Não é Billabong, nem essas marcas que “Malhação” tenta vender. São roupas que se eu pudesse, só me vestiria daquele jeito. E por fim mas não menos importante, Iluminação de Marisa Bentivegna. Super precisa, inteligente, dando o tom certo nas horas certas (como a confissão de Ricardo ou os momentos em que as lâmpadas são utilizadas).

Não tenho nada pra falar que não tenha gostado, mas me assustei quando a peça acabou. Foi tão abruptamente. E eu queria tanto que aquilo continuasse, que eu soubesse o que viria depois dali. Mas sei que ir além daquilo não era mais possível, e que no fundo é isso que faz daquilo tão bom. A indentificação com a peça é imediata, com certeza todo mundo se identifica com alguma coisa dali. Eu me indentifiquei em quase tudo, é o clichê de se ver nos outros, de achar que aquilo foi feito pra você. Me arrepiei em diversas citações que eu tinha certeza que eram pra mim. Eu era uma Isabela machucada com um Cody de Gabriel, era um Ricardo que não podia ter quem queria, e não deixo de ser um Felipe que no fundo só quero mesmo amar. Mas eu não chorei. E ao sair do teatro aquilo me assustou. Eu costumo chorar com coisas menos intensas que aquilo e ali eu não chorei? Eu costumo chorar só de imaginar algo tocante, e ali, vendo praticamente a história da minha vida (vida deles, do mundo inteiro) eu não chorei. Aquilo me encucou. Até eu refletir e conseguir entender (ou achar que entendi) a razão disso. Depois de tanto sofrer como eles, chega uma hora que chega. A própria peça fala sobre isso e, sem saber, minha hora já havia chegado e eu nem percebi. Eu havia finalmente superado meu Gabriel particular. Quem diria? E foi aí, aí sim, que eu chorei. Isso no ônibus, voltando pra casa. Um choro de felicidade e ao mesmo tempo sem certeza do que se tratava. Como a própria Isabela diz na peça, muita gente toma remédios pra angústia, ansiedade, mas como elas sabem que aquilo de fato é uma angústia e não outra coisa? Ou que é uma ansiedade e não algo que a confusão da sua cabeça não entenda?

Na minha última consulta com a psicóloga eu falei sobre o teatro, a forma em como eu o via e como encaro agora. Ela ficou me questionando a razão de quando eu saio muito mal de peças ruins a ponto de sentir dores físicas (como dor de cabeça). Eu respondi que não sabia, que no meu ver era normal. Eu me irritava tanto com a ruindade daquilo que me atingia fisicamente. Ela pediu pra eu refletir sobre isso, e agora,  tendo assistido a peça acho que descobri. Eu nunca vi teatro como entretenimento, eu sempre fui ali em busca de algo. Do auto-entendimento tão necessário e buscado na minha adolescência, do prazer maior obtido e desejado por conta de uma doença que te impede disso nos momentos “normais”, tantos motivos não convencionais. Pensei que agora seria só entretenimento, mas aparentemente ainda estão ali outros fatores. Foi só assistindo a peça que eu tive certeza que algo que já me incomodava há mais de um ano havia desaparecido. Na próxima sessão eu falarei sobre isso e aposto que no fundo ela vai ter mais certeza ainda que sou louco mesmo. “Como assim a pessoa só tem certeza de algo que sente vendo isso refletido em outras pessoas?”. Mas não me importo, acho que mais louca é ela de estudar psicologia e ainda estagiar no lugar mais depressivo do Rio de Janeiro.

“Música para cortar os pulsos” é provavelmente a melhor peça atual voltada ao público jovem. Claro que serve para adultos também, idade é estado de espírito. Não é nada infantil como “Confissões de adolescente”, nem chega ao extremo “O Despertar da Primavera”. É o que os nossos jovens sentem hoje, ainda que muitos passem por cima desses sentimentos e adultos que nunca foram verdadeiramente jovens julguem como “besteira e paixonite de adolescente”.  Minhas palavras não fazem juz a magnitude do espetáculo, mas peço que vá e confira com seus próprios olhos. Aqui no Rio só tem mais uma semana em cartaz. Aos leitores de outros estados, visitem o blog oficial da peça que lá eles colocam a agenda. Pelo que diz lá estará em breve em Curitiba, Florianópolis, Joinville e Porto Alegre. Acredito que ainda irá render muitos bons frutos daí e só faço desejar sucesso a esse projeto tão bonito. E que não só viaje muito, mas fique mais tempo em cartaz nos estados também.

Antes da peça começar, no meu assento havia um papelzinho escrito “Não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não. Lamentando o eterno movimento dos barcos”. Nem conhecia a música, a ouvi agora por conta do Google e só posso dizer que mais propício, impossível. Mais uma música adicionada para playlist da vontade de cortar os pulsos (dessa vez no sentido figurado, não se preocupem!).

Espaço SESC Copacabana
Qui, Sex e Sáb 21:30h / Dom 20h
R$20 (R$10 a meia)
Somente até dia 12 de Fev. 2012

Dica: O texto da peça está sendo vendido na saída do espetáculo! Não comprei pois estava sem dinheiro, mas pedi para uma amiga comprar quando ela for assistir essa semana. Esse é um texto digno de se ter guardado então já leve um dinheiro extra.

  1. 06/02/2012 às 10:14 AM | #1

    Quero ver só por causa das coisas q vc escreveu ^_^ Acho q a gente é bem parecido em várias coisas hehehehehe Loop eternoooooo <3

  2. Leandro
    06/02/2012 às 11:41 AM | #2

    Cheguei aqui pq eles deram RT, e lendo a sua crítica, eu me emocionei como me emocionei em todas as vezes que assisti a essa peça, cada vez me vendo refletido em um personagem (ora no Ricardo, ora na Isabela, ora no Felipe, e ora até como Rosalind).
    Ótima crítica e tem horas que a gente precisa saber que outras pessoas sentem como a gente sente. E eu fiquei feliz por saber que mais alguém sentiu essa peça dessa forma, como um daqueles tapas na cara que ao mesmo tempo fazem carinho.

  3. Barbara
    06/02/2012 às 11:42 AM | #3

    Incrivelmente boa sua analise da peça. Vi a peça em São Paulo há uns meses, e acredite.. fiquei igualmente impressionada e tocada.

    Beijo ;)

  4. Lydia
    06/02/2012 às 1:26 PM | #4

    Muito legal sua análise, realmente é uma ótiam peça ;D

    por meio dela conheci a música “Please, please, please, let me get what I want- The Smiths”( http://letras.terra.com.br/the-smiths/37073/) . Não conhecia essa que você citou no final também.

  5. Gabriel Sotero
    09/02/2012 às 5:16 PM | #5

    Se eu já queria ir, agora virou necessidade :D

    Ótima crítica, como todas…

    Você sabe quanto está o texto?

    • Charles Fouquet
      09/02/2012 às 5:25 PM | #6

      Não, nem fui lá ver, mas acredito que não passe de R$15.

  6. Gabriel Sotero
    10/02/2012 às 11:25 PM | #7

    Obrigado :D

    Vi a peça e adorei! Excelente, de verdade.
    E é IMPOSSÍVEL não se ver ali. Eu, então, me vi em diversos momentos…

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