Emilinha e Marlene – As Rainhas do Rádio
O musical percorre a trajetória artística e o dia a dia das duas maiores estrelas da música brasileira, que em 1949 se tornaram concorrentes, quando a novata Marlene superou a favorita Emilinha Borba no concurso “Rainha do Rádio”. Inspirado na histórica rivalidade entre as duas cantoras e seus fãs-clubes, o espetáculo se desenvolve quando duas irmãs, após o falecimento da mãe, voltam à casa onde viveram e encontram registros do passado. Uma delas era fã de Emilinha e a outra, de Marlene.
Eu sou bem leigo no que diz respeito a música, quem dirá brasileira. Eu gosto de algumas (poucas), mas não sou e nunca fui muito grande entendedor. Eu sei ao menos admirar o que de fato eu considero muito bom, e o que não. Isso dentro dos meus conceitos e preferências. No caso de Emilinha e Marlene eu só sabia que ambas eram cantoras de rádio, e só. O espetáculo conta com mais de 50 músicas e eu mesmo só conhecia umas três ou quatro. Antes de ir pensei que pudesse me sentir deslocado, achar meio datado, ter certeza absoluta de que aquela geração não me pertencia. Eu estava enganado e não poderia ter gostado mais.
O texto de Thereza Falcão e Julio Fischer homenageia a Era de Ouro do rádio no Brasil, a lendária Rádio Nacional e todos que viveram aquela época (artistas e público). Muitos cantam juntos e vibram (o que particularmente nem gosto – mas entendo), só que a grande sacada de ter colocado a história sendo contada pelas duas irmãs rivais é o que torna tudo bem aceito tanto pelo público saudosista, quanto para os leigos como eu. É uma espécie de “the Drowsy Chaperone”, onde o passado vai sendo revivido pelas fotos e lembranças das irmãs e nos trasportando para diferentes épocas. Por essas quebras do passado com o presente fictício, o texto não fica sobrecarregado nem arrastado, conseguindo abordar muito bem a vida de ambas.
Na sessão que fui, Stella Maria Rodrigues era Emilinha Borba (normalmente interpretada por Vanessa Gerbelli). Nem se quer anunciaram como é de costume, mas gostei bastante. Voz e interpretações perfeitas, muita gente deve sair sem nem saber que assistiu uma substituta. Em certos momentos em que ficava de frente para o público, eu olhava para seu rosto e para a foto de Emilinha pendurada na parede e me assustava com a semelhança. Só que me desculpem os fãs de Emilinha, saí do teatro Marlenista (o que hoje em dia seria chamado Team Marlene). Não só pela história toda da artista, mas ainda intensificada pela interpretação visceral de Solange Badim. Ela domina do início ao fim. Eu já sabia que ela era uma grande atriz por trabalhos anteriores, mas ainda assim ela tem a capacidade de me surpreender sempre. Que presença, que performance, que voz! Mesmo que eu nem gostasse do restante da peça, eu sei que só de tê-la assistido já teria valido a pena. Brava Solange Badim!
No ensemble encontra-se Cristiano Gualda, Mona Vilardo, Luiz Nicolau, Cilene Guedes, Ângela Rebello, Ettore Zuim (outro dublador descoberto pelos palcos – tô ficando bom nisso!), Lenita Lopez e Adriana Torres, todos empenhando diversos papéis no decorrer da história. Um ensemble incrível e sem desfalque. Só peço desculpas caso tenha trocado o nome de alguém. A peça já teve outras temporadas com elencos diferentes, pode ter tido algum sub que eu não sabia e não comprei o programa do espetáculo para verificar. Dei uma leve conferida no Google a acho que acertei. Acho. Caso tenha errado, me corrijam nos comentários. Assisti a sessão de quinta, 09/02. Então meus parabéns vão para quem estava no palco nesse dia.
A direção de Antonio de Bonis conduz muito bem o espetáculo. As marcações, saídas e entradas do elenco estão de forma harmoniosa e consegue costurar bem uma música na outra, assim como uma cena na outra. Pelo próprio texto, não dava pra ir muito além do que é feito. Conta com figurinos de Rosa Magalhães, iluminação de Jorginho de Carvalho e cenografia de Sérgio Marimba. Eu não sou a pessoa mais adequada de ficar avaliando a parte técnica se tratando desse universo do qual não pertenço, mas gostei de tudo. Eu gosto de coisas simples e bem feitas, logo, amei. Já a direção musical de Marcelo Alonso Neves eu posso dizer que é magnífica e esplendorosa, com músicos incríveis que conseguiram me empolgar por diversos momentos com músicas que eu nem conhecia (e me empolgar assim, de primeira, com músicas brasileiras que até então não conhecia, foi algo inédito para mim).
Mesmo se tratando de uma época completamente diferente de agora, muito dali ainda se encontra nos dias atuais. Ainda existem rixas de fãs de certos cantores em que se você é fã de um, não pode ser do outro. Britney Spears com Christina Aguilera (não sei se ainda existe, mas na minha adolescência era a mais forte), Lady Gaga e Madonna, Ivete Sangalo e Claudia Leite, até nos musicais, quem lembra de Kiara Sasso e Sara Sarres em “O Fantasma da Ópera?”. Não estou entrando no mérito de ser bom ou não, só estou dizendo mesmo da rivalidade. O que não deixa de ser uma grande besteira e a própria peça aborda mostrando que a rivalidade vinha mais dos fãs do que das artistas propriamente ditas. O que antigamente era ao vivo, hoje em dia ocorre nas discussões de redes sociais. Sempre afloradas em que fãs cegos na obsessão partem para ofensas pessoais quando alguém vai contra o que ele acredita. É coisa de louco mesmo, e pelo que vi na peça, é algo de longas datas já.
Me fez pensar também em como certas fases se vão e não voltam mais, e aí vai da pessoa em seguir em frente. Eu sou da geração Internet, onde o Orkut um dia já reinou com muitas discussões afloradas das quais não acontecem mais no Facebook. O download até certo tempo ainda era super tranquilo, Megaupload era o melhor site de compartilhamento e se encontrava tudo em menos de 5 minutos no Google. Esse ano desde que o Megaupload fechou, não baixei nenhum musical se quer. Os fãs ainda estão na esperança de que ele volte, ninguém tem opção melhor de se hospedar os arquivos grandes, e assim vamos levando. Pelo menos enquanto o Torrent ainda nos permitir. E assim foi o que aconteceu com os fãs assíduos das rádios naquela época, entre tantas coisas que hoje em dia ficam somente na memória.
“Emilinha e Marlene – As Rainhas do Rádio” é um deslumbre e fiquei muito feliz de ter ido assistir já tão perto de acabar. Na verdade só fui porque uma amiga ganhou uma promoção e me convidou, pois se não fosse isso teria perdido (ando numa fase sapato de pobre é tamanco, almoço de pobre é café). Teria perdido não só um trabalho tão bem feito, mas principalmente de conhecer a história de duas grandes artistas desse universo do qual a cada dia que passa, fico feliz de descobrir mais um pouco. No fundo sou preguiçoso, posso muito bem pesquisar mas não gosto. Eu prefiro quando alguém me incentiva, me recomenda, ou quando o trabalho em si é tão bom que ao sair do teatro já quero voltar correndo pra casa para pesquisar sobre. E foi o que fiz na madrugada de sexta por umas boas horas, pesquisando e curtindo a vibe daquilo que até ontem era completamente desconhecido para mim.
Seguem dois vídeos do espetáculo. No primeiro, o dia em que Marlene foi conferir a peça.
O segundo uma das várias razões para eu ser Team Solange all the way.
Teatro Maison de France
Qui e Sex às 19h30 (R$60), Sáb às 20h30 e Dom às 18h30 (R$80).
Até a primeira quinzena de Março.

Li e reli tudo aqui e não encontrei o local onde esta sendo apresentado o musical
Tá logo abaixo do último vídeo, Teatro Maison de France. Rio de Janeiro.