Ladies and gentlemen, damas e vagabundos, quer queiram quer não, Hedwig!
Caso não conheça o filme ou a peça e não goste de spoilers, não leia!

“Hedwig & the Angry Inch” conta a saga de Hansel, menino nascido em Berlim Oriental exatamente no mesmo ano da construção do muro de Berlim. Abusado sexualmente pelo seu pai e criado por sua mãe radical, Hansel se entretia ouvindo a rádio das forças americanas onde descobriu diversos grandes artistas do rock. Após alguns anos conhece Luther, um sargento americano que se diz apaixonado a ponto de querer casar e levá-lo aos Estados Unidos. Para isso Hansel precisa passar por uma operação de mudança de sexo que dá errado lhe deixando com uma “polegada furiosa”. Após um ano de casamento, Hansel- agora Hedwig – é abandonada por Luther no mesmo dia da queda do muro. Sozinha forma a banda “the Angry Inch”. Num emprego temporário conhece Tommy, que vai a um de seus shows e se encanta por Hedwig. Se apaixonam e passam a compor juntos e Hedwig lhe ensina tudo que sabe criando assim Tommy Gnosis, que rouba suas canções e vira uma estrela do rock enquanto Hedwig mais uma vez é passada para trás.
A peça é uma espécie de monólogo/show onde Hedwig em forma de canções transmite toda sua história enquanto segue Tommy em sua turnê, sempre tocando em locais pertos de onde ele está. E é num desses shows que a nossa platéia se encontra. Em “The Origin of Love”, canção mais linda do espetáculo baseada no discurso de Aristófanes em “O Banquete” de Platão, Hedwig transmite sua visão sobre o amor de que todos estamos sempre à procura de nossa outra metade que nos complete. A peça conta com texto de John Cameron Mitchell (autor/Hedwig original da peça e do filme onde também é diretor/gênio) e letras e músicas de Stephen Trask. Se alguém ainda não assistiu a obra-prima que é o filme, assista-o agora!
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Quando anunciaram o elenco da montagem brasileira eu tinha certeza que Paulinho Vilhena e Pierre Baitelli iriam alternar a personagem, mas não, a montagem brasileira que conta com direção e adaptação de Evandro Mesquita é a primeira no mundo a possuir duas Hedwigs em cena e é exatamente isso que começarei comentando. É simplesmente desnecessário! Eu sou super a favor de direções que inovem, que fujam dos moldes das peças originais, mas nesse caso só faz deixar a peça confusa e sem ritmo. Como é provável que irá aparecer alguns comentários tentando defender isso, já rebato alguns argumentos.
1) A peça fala sobre encontrar a outra metade que lhe complete, lida com a dualidade, por isso duas Hedwigs.
Olhando pela visão inicial da peça a outra metade de Hedwig seria Tommy, não ela mesma. Se a idéia é de que ela se auto-completa, mais um motivo pra ser só uma. Se um ator fosse Hedwig a peça inteira e outro fosse o Tommy que no final virasse Hedwig também, ou se um representasse o lado Hedwig e o outro o lado Hansel, ou se um ficasse montado o tempo todo enquanto outro não, enfim, se existisse algo que diferenciasse uma Hedwig da outra seria até aceitável, mas não, é simplesmente gratuito. Até a atitude de ambos é a mesma, logo, isso não se aplica.
2) O Evandro Mesquita falou no Jô que “uma drag queen é tão espaçosa, ela tem essa coisa de bipolar, de mulher, de homem” que achou bacana colocar logo duas.
Imagina então Evandro Mesquita dirigindo “A Gaiola das Loucas”, “Priscilla: A Rainha do Deserto”, não teria teatro pra caber tantos atores pois metade do elenco teria de ser duplicado! A personagem é multi-facetada, concordo, mas um ator consegue dar conta de tudo. Teatro é isso, não é mesmo minha gente? Se cada ator fosse representar uma faceta de Hamlet, precisaria de o quê, 5 atores? Outra desculpa completamente descartável e novamente, bipolaridade seria representar dois lados opostos, que não é o que ocorre.
3) É bom ser com duas porque enquanto uma fala a história, o outro pode interpretar.
Então o John Cameron Mitchell não interpretava né, ele só lia o texto e pronto, acabou? Pra contar uma história não precisa mais de interpretação, é isso mesmo? É só bater o texto? Pelo amor de Deus! Essa é sem dúvidas a pior desculpa de todas! Um ator de verdade consegue “só falando” passar mais emoção e verdade do que outro tentando representar a cena.
Seria muito mais fácil assumir logo que Pierre sozinho não vende ingresso e Paulinho sim, o que infelizmente é a nossa realidade. Sendo assim ambos representam a mesma personagem, com a mesma atitude, sem diferenciar nada. O que diferencia é um fator externo: o fato de Pierre ser um fantástico ator enquanto Paulinho é um péssimo.

Existem pseudo-atores, existem atores e existe Pierre Baitelli. É aquela atuação que sempre que você vê, você se impressiona. É única, não saberia nem explicar direito, mas as nuances, os detalhes, a entrega total, é de um talento que transcende! Lembro como se fosse ontem quando anunciaram que ele seria o Melchior do Despertar. Como não o conhecia um amigo me colou um vídeo dele em Capitu, e do momento que dei play até o final nem consegui piscar. Depois veio o Despertar em si com brilhante Melchior. Pierre nunca havia feito um musical então o vocal não era muito lá essas coisas (apesar de não fazer feio pra quem nunca cantou) mas a evolução até o final da temporada foi algo impressionante! Experiência essa que o levou a Hedwig, e uma Hedwig excelente!
Os trejeitos de mulher, a mega atuação, a comicidade e dramaticidade, tudo de um nível absurdo! A cara que ele faz ao ver a notícia da queda do muro na televisão tem uns 10 segundos, mas é tão lindo e impactante que serve de exemplo para todos os elogios que já fiz. Quando ele começa a dançar naquele salto então, não tem pra ninguém! O vocal exige muito mais dele do que exigia no Despertar então tem lá seus momentos, mas a atuação por si só sobrepõe tudo e você fica hipnotizado. Consegue ser mais mulher do que muitas que eu conheço (e muito linda por sinal) etambém interpreta o papel do Tommy e é simplesmente incrível a desconstrução e construção que ele faz ali num mínimo espaço de tempo. Só é uma pena que depois que ele vira Tommy, não temos mais sua sensacional Hedwig.
Em contrapartida, voltando a mesma lista, temos nos pseudo-atores (ou até antes) Paulinho Vilhena! Ele é o erro que só faz essa concepção com duas Hedwigs ficar pior do que a idéia em si já é. Uma atuação mega exagerada, caricata, faz da Hedwig total uma dessas travas que não é bagunça! Não consegue ser engraçado, muito menos te convence nas cenas dramáticas. Quando Hedwig briga com o Tommy eu só conseguia era rir de tão ridiculo. O vocal então, pft, a sorte é que ao menos ele sabe que não canta e não se atreve a estragar tanto assim. Eu tentava bloquear mentalmente para poder tirar o que tinha de bom mas não tem como, o que compromete muito a peça pois não dá pra se envolver. Fica sempre naquele meio termo pois o que você acha de bom em um, acha de ruim no outro, e como eles dividiam falas quase que o tempo inteiro, não tem como dissociar.
Quando anunciaram que Eline Porto iria fazer eu fiquei “ué, mas não tem mulher no elenco!”. Eu havia assistido o filme a muito tempo, eu era praticamente criança. Joguei no Google e pra minha surpresa descobri que Yitzhak era uma mulher!
Só no final isso é revelado (e eu muito lerdamente deixei passar batido) mas na peça é explicado que ela era uma drag que fugiu ilegal com Hedwig sob a condição de nunca mais “ser mulher” novamente e ficar sendo o marido de Hedwig. Mais um item que faz dessa peça algo tão genial.
Eline Porto também fez o Despertar como ensemble, logo foi uma fantástica surpresa descobrir sua belíssima voz! Quando ela canta “I’ll Always Love You” eu só não cai pra trás porque né, eu já estava sentado. O único porém é que para por ai. A caracterização do personagem não é boa e ela não convence de homem um segundo se quer.

Precisaria de um visagismo mais impactante mas ainda assim o papel não é para ela. Certeza que irei vê-la em muitos outros musicais e ela será um arraso, mas cantando com sua voz normal porque como homem não rola… É o típico força a voz = homem, e nem precisava forçar tanto porque no fundo é uma mulher mesmo, não é? Só precisava tentar dar uma camuflada mas também pode ser coisa da direção, fica difícil de saber ao certo.
Falando nisso, já comentei a idéia geral da adaptação de Evandro Mesquita, mas a direção também não é boa. Ele foca no show de rock e esquece total do sentimentalismo. “Wig in a Box”, “the Origin of Love”, “Wicked Little Town”, entre outras, são músicas de uma beleza incrível que aqui são como mais uma música qualquer de show. As versões também não ajudam, todas estão praticamente no seu sentido literal. É mais um caso de “métrica pra quê, eu faço caber. Sejafalandorápidopradartempo ou prooolooongaaaando síííílaaaabaaaas, que no fiiim tuuudo riimmaaaa”. Quando assisti ao ensaio fiquei chocado em como era ruim mas pensei “ele tá trabalhando ainda nas versões, com certeza’. Não, é a mesma coisa. O mais ridiculo é o excesso de coisas em inglês, e coisas desnecessárias. Tipo “dia 13 de agosto de nineteen sixty-one“, pra quê? Eu pergunto novamente: pra. quê? “Wicked Little Town” (a versão de Hedwig) tá toda em inglês, tem músicas que eles cantam direitinho dai quando repete o refrão cantam em inglês, sério, não entendo e nunca vou entender o motivo de fazerem isso.
A tradução do texto é de Jonas Calmon Klabin e apesar de ter umas sacadas brasileiradas bem bacanas, a linguagem é um tanto quanto duvidosa e mais uma vez, o uso do inglês o tempo inteiro! Uma pessoa falando em português and suddenly, just like that, começa a speak english, and I ask myself, why? Do they really think that’s cool? Eles não percebem o quão tosco isso é? Sem contar que fazem tanta questão de colocar coisas em inglês quando o próprio nome da peça está errado. Inch equivale a 2,54 centímetros e se tratando do tamanho de um pênis (ou do que sobrou dele), não vem querer me dizer que um centímetro e meio não fazem diferença! Voltando ao nineteen sixty-one, num certo momento Yitzhak canta Tik Tok da Keesha. Sendo assim a peça se passaria mesmo nos dias atuais, certo? Logo, Hedwig teria que ter 49 anos! No mínimo não deveria ter colocado nada muito atual para a data ficar incerta ou fazer adaptações (que irá ocorrer na retomada do musical ainda com John Cameron Mitchell na Broadway ano que vem!) relacionadas.

Falando desse jeito todo parece que eu até saí péssimo de lá, mas não, isso ocorreu na época dos ensaios e por muito pouco nem volto, mas a curiosidade de ver a melhora é sempre grande e no fundo, não deixa de ser mais uma experiência teatral, não? Fui esperando o pior e valeu a pena por dois fatores fundamentais: Pierre Baitelli e os músicos! Alexandre Griva (Bateria), Fabrizio Lorio (Teclado), Patrick Laplan (Baixo) e Pedro Nogueira (Guitarra). São eles os responsáveis pela sua empolgação! As músicas são fantásticas e de uma energia incrível que eles transmitem perfeitamente e super se empolgam junto também! (até mesmo que não tem como não se empolgar). Iria num show deles fácil fácil. Mérito também da direção musical de Danilo Timm e Evandro Mesquita (pelo menos isso!)
Conta com cenografia de Suzane Queiroz que é bem impactante e inteligente, ao abrir a cortina você já se surpreende. Todos os objetos cênicos são cobertos de fita, claramente remetendo a “Exquisite Corpse”. O telão com ótimas projeções que junto da iluminação de Luiz Pulo Nenen dão o tom da peça (e assim como o original, usa luzes fortes para representar o show do Tommy e acho a idéia fantástica). Figurinos de Marta Reis muito bem caprichados, dignos e fiéis aos originais ainda com um toque de novo. A idéia da camisa que simboliza o corpo pelado para a cena com Luther foi genial. O Visagismo de Max Weber com Pierre Baitelli é ótimo, só reforço mais uma vez que a de Yitzhak deveria ser mais intensa e a peruca ruiva usado pelo Paulinho é terrível…
Nossa montagem de Hedwig teria tudo para ser perfeita, porém antes ela teria que passar por outra operação e cortar fora Evandro Mesquita e Paulinho Vilhena, que tenho certeza que o resto se acertaria. Se só de falar mal de Paulinho Vilhena já seria o suficiente pra receber comentários piores do que tacar pedra na cruz, ainda com Evandro Mesquita junto, já viu… Então fãs e admiradores que não aceitam opiniões diferente da de vocês, podem me xingar à vontade, but before you do, you must remember one thing!
Serviço:
Teatro das Artes (Shopping da Gávea)
Horário: Quartas e Quintas às 20h; Sextas e Sábados às 23h30
Preço: R$60,00 – Quartas e Quintas; R$70,00 – Sextas e Sábados
Até 06 de novembro! (sim, essa é a última semana para conferir! Quem se interessou, corra!)
















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