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Arquivo para a categoria ‘Musicais – Brasil’

I’m not known for being too amused. See my face? I’m enthused.

Qualquer superprodução realizada no Teatro Abril vale a pena ser assistida. Foi lá que começou o grande boom dos musicais franqueados no Brasil, e foi também onde assisti meu primeiro musical ao vivo: O Fantasma da Ópera. Tenho a sensação maravilhosa dessa experiência guardada com muito carinho, apesar de já nem gostar mais do musical hoje em dia. Depois tive a oportunidade de assistir A Bela e a Fera (montagem de 2009), Cats e Mamma Mia!Só assisti todos esses exatamente por ser lá.

O único que de fato pulei foi Miss Saigon que detesto com todas as minhas forças. No fundo, ainda assim me arrependo porque tenho certeza que teria valido a pena só de ouvir Sabrina Korgut cantando “Eu Creio Sim”. Mas, de qualquer forma, o arrependimento não é maior do que a vontade de querer voltar no tempo para assistir Les Misérables. Esse sim merecia uma remontagem com boa parte do elenco original de 2001. #voltalesmis #esperancas #doyouhearthepeoplesing #t4faproveiteosucessodofilme

Retomando, não fiz diferente com A Família Addams. Só fui por ser no Teatro Abril. O musical em si nunca me disse muita coisa, mas pensei “vai que ao vivo eu gosto?”. Não gostei. Mas não foi pela montagem, e sim pelo material original. O texto de Marshall Brickman e Rick Elice é extremamente fraco. Wandinha está namorando um garoto “normal”, o leva para conhecer sua família, e o resto já é mais do que previsível. É uma espécie de A Gaiola das Loucas só que em vez de gay, dark. E ainda que compense com as músicas, atuações, etc, não adianta. Eu realmente tenho um sério problema com roteiros ruins.

Não sou mega apaixonado pela Família Addams, mas cresci assistindo Fox Kids e lá assistia a série, assisti os filmes, e gostava bastante. Então só de pensar que com a possibilidade de criar tantos roteiros bons em volta desse universo divertido, o resultado final é logo essa besteirinha de ser “normal” ou não, eu já brocho. Mas essa é só minha opinião, já que todos estavam morrendo de rir, se divertindo horrores, enquanto eu só esboçava um sorriso amarelo. Contei nos dedos as piadas que de fato me fizeram rir (sendo a do Disney Channel minha número um), mas novamente, é pessoal.

O musical estreou em Chicago, depois foi para Broadway com diversas modificações, em seguida teve uma produção em tour já bem modificada também, e é essa versão que veio pra cá. Ninguém pode negar que tentaram de tudo para salvar o espetáculo, mas mesmo com o texto modificado, não adiantou muita coisa. Continua ruim. O que salva mesmo são as músicas de Andrew Lippa que estão bem defendidas nas versões de Claudio Botelho. Com exceção de “Pulled” (logo minha favorita), todas as outras versões estão excepcionais. Gostei muito também de “Trapped” que não existia na montagem original, mas ainda assim, a maioria das músicas é esquecível. No meu Ipod só tem “When You’re an Addams”, “Pulled” e “Crazier than You” (que ainda prefiro como um dueto). Fim.

O elenco da Broadway era repleto de nomes incríveis e aqui não foi diferente. Daniel Boaventura (Gomez) rouba a cena e dá um show de interpretação. Mesmo não gostando das piadas, sua atuação é tão boa que me fez até gostar um pouco mais. Na cena do jantar era visível que todos do elenco estavam se segurando pra não rir, tamanha sua boa atuação. Super à vontade no papel, ele acaba sendo o grande protagonista de tudo, ofuscando por completo Marisa Orth (Morticia).

Claudio Galvan (Fester – por que não Tio Chico?) dá uma graciosidade extra pra trama (ou falta de) e o achei idêntico à imagem que eu tinha do personagem quando assistia o desenho (eu adorava quando ele sempre explodia). Iná de Carvalho (Vovó) possui as melhores piadas da peça, na verdade, ela por si só já te faz rir. Deveriam deixá-la em todas as cenas, assim eu conseguiria gostar bem mais. Paula Capovilla (Alice) dispensa muitos comentários, diva eterna e ponto numa participação mais que especial. Nicholas Torres (Feioso) consegue deixar um personagem tão chato extremamente adorável. Seu solinho é a coisa mais fofa do universo. Tão fofa que só revisando o texto percebi que escrevi “solinho”. Socorro!

Laura Lobo (Wandinha) foi uma bela surpresa. Já admirava muito seu trabalho por conta de O Despertar da Primavera, mas não paro de me surpreender com como cabe tanto talento num ser tão pequeno. Se eu esbarrasse com ela na rua, tentaria ajudar morrendo de medo de ter quebrado algum osso ou algo do tipo. Já no palco, se eu esbarrasse com ela, a força que ela possui em cena me deixaria de cama por três meses. Mesmo com a versão não tão boa, seu “Pulled” preenche o teatro com o mais puro talento. Essa cena por si só já me deixou feliz por ter ido assistir. E para fechar com chave de ouro, temos Beto Sargentelli (Lucas) que eu tive a sorte de assistir como Linus no Meu Amigo Charlie Brown. A partir dali eu já sabia que logo ele seria protagonista. Não deu outra. Sensacional como eu já esperava, e com uma sintonia incrível com Laura Lobo. Na minha opinião, o único casal que de fato se conecta. Até mesmo por ser o único casal em que ambos estão bem em seus papéis.

Aliás, num mundo paralelo em que eu fosse rico o suficiente pra ser produtor, faria questão de contratar um bom roteirista/compositor para criar um musical. Precisaria ser com três protagonistas, sendo uma mulher e dois homens. E nesse elenco, colocaria Giulia Nadruz, Beto Sargentelli e André Torquato. Certeza que não ficaria pedra sobre pedra. De preferência um roteiro original, mas até pensei no meu filme favorito de sessão da tarde, Três Formas de Amar (Threesome). Trata de três amigos que se conheceram na faculdade. A menina se apaixona pelo gay, o gay sente atração pelo hétero, e o hétero quer a menina. Mas por saber que essa relação é destrutiva, eles fazem um pacto prometendo que nunca irão se envolver. O filme é bem simples, mas eu amo a mensagem. Seria um musical leve, tranquilo, até mesmo porque o talento desses três juntos já faria dessa peça algo memorável. Não custa nada sonhar, né?

Como já mencionei, Marisa Orth está completamente ofuscada. 50% por conta do papel que é ingrato mesmo, 50% por mérito dela. Até gosto de sua atuação, não acho que ela seja tão má cantora (ela pelo menos não faz a “Claudette” nos agudos – ela simplesmente nem se atreve a tentar), mas não funciona. Não consegui conter o riso ao ver a cena de dança final. Era mais do que claro que os dançarinos do coro se seguravam pra não dançar muito para não ficar uma diferença gritante, mas não dava, eles conseguiam se sobressair naturalmente. Se Sara Sarres não tivesse deixado de ser alternante, não tenho dúvidas de que seria bem melhor. Só que todos nós sabemos por que a Marisa está lá, e não julgo, é mais do que compreensível. Não estou condenando a escolha para o papel, o maior erro mesmo foi a divulgação da peça não ter sido mais clara na questão de que havia alternante. Se fosse bem divulgado, as pessoas que fossem exclusivamente para assistir a Marisa iriam comprar para o dia dela. Não precisariam barraquear na bilheteria ou no Facebook como aconteceu. Mas como já são águas passadas, só deixo o aviso que não aceito xingamentos nos comentários aqui. Fãs da Marisa, podem continuar a amando que eu não ligo, ok? Grato.

No mais, a produção é perfeita em todos os detalhes, como sempre. Só o cenário que é reduzido (por ser a versão do tour), mas ainda assim, tudo é excepcional. Se quiser sentir um gostinho de Broadway, pode ir sem medo. E como já disso, isso em qualquer superprodução no Teatro Abril.

Como se não bastasse eu já não gostar da peça, existia um ser sentado atrás de mim que fazia questão de demonstrar que eu estava atrapalhando. Eu sei que sou alto, mas o teatro é que deveria ser nivelado. Eu sempre tento ficar sentado quase deitado, mas ainda assim não tava agradando. Ele continuava a fazer comentários sobre isso e às vezes até chutando a minha cadeira. Sem contar que também havia cabeças na minha frente. Fiquei imaginando se o Tropeço fosse assistir a uma peça ali, coitado, ia sofrer bullying com certeza.

Não satisfeito, fazia comentários super pertinentes como “nossa, que incrível, né?”, “gente, como fazem bem feito!”, “efeito ótimo, né? Excelente! Tô amando!”. Era tudo que eu precisava. Me senti de volta à Broadway, já que isso é tipicamente coisa de turista abobado e estúpido. E agora que a próxima produção confirmada é O Rei Leão, não quero nem ver quantos comentários desse tipo não serão escutados já no “The Circle of Life”. Eu e Scar eternamente no mesmo pensamento:

Se eu estivesse envolvido pela peça, com certeza nem ligaria para esse infeliz. Nem pensei em reclamar, já que falar com pessoas assim é o mesmo que nada. Assim como eu comentar sobre isso aqui também não adiciona nada ao meu texto, mas se o próprio roteiro da peça faz o mesmo, por que eu não o faria no meu post?

Finalizo dizendo que apesar de tudo, recomendo sim que assistam A Familia Addams. Eu não gostei, mas muitos amaram, morreram de rir, então eu sei que é pura questão de gosto. Juro que fui de coração aberto, mas não rolou. Nem acompanhei muito as críticas, mas acredito que a grande maioria tenha gostado. Só acho um abuso divulgarem como “o sucesso da Broadway” tendo em vista que estreou em 2010 e fechou em 2011. Como a Vovó diz a Wandinha: “defina normal”. Nesse caso eu diria: defina sucesso.

E com vocês, um gostinho de Laura Lobo e Beto Sargentelli:

A Família Addams
Teatro Abril
Quinta e sexta, 21h; sábado, 17h e 21h; domingo, 16h e 20h.
Ingresso: R$ 70 a R$ 250.

Quando eu crescer, quero ser André Torquato!

Fui assistir a Priscilla – A Rainha do Deserto mais animado do que nunca. Sabia perfeitamente que poderia estar cometendo um erro gravíssimo, já que a decepção costuma ser mais dolorosa quando há algum tipo de expectativa, mas não resisti. Foi mais forte do que eu. Não tinha muitas referências, nem se quer tinha visto muita coisa sobre a peça. Só havia assistido mesmo a um trecho de “I Will Survive filmado durante a coletiva de imprensa. Cheguei a comentar super empolgado com minha amiga o quanto a atriz que começava solando a música era boa. Ao chegar ao teatro, olhei a lista de elenco e notei que havia um substituto. Pego o programa correndo para comparar, pensando “qual a possibilidade de ser logo a moça do YouTube?”. Não deu outra, era  a própria. Pensei em dar uma brochada, mas nem deu tempo. No primeiro acorde de “It’s Raining Men”, com o teatro todo iluminado pelo reflexo do globo espelhado, e com as três divas descendo do teto, a euforia já toma conta da plateia e eu já sabia que iria me divertir como nunca.

Priscilla – A Rainha do Deserto é um jukebox musical recheados de hits dos anos 70/80, e conta com roteiro de Stephan Elliot (também roteirista e diretor do filme homônimo de 1994) e Allan Scott. É bem no estilo de Mamma Mia!, só que em vez de três possíveis pais para uma filha que usa seu casamento como pretexto para conhecê-los, Priscilla conta a história de três homossexuais (duas drags e uma transexual) que percorrem o deserto da Austrália com o pretexto de trabalhar num cassino, sendo o verdadeiro motivo mais uma vez um encontro familiar. O diferencial é que o roteiro de Mamma Mia! foi criado com o intuito de costurar as músicas do ABBA, enquanto em Priscilla já existia o roteiro do filme que foi adaptado de forma que fosse possível encaixar essas músicas já conhecidas do grande público.

Esses musicais, no geral, são para o mais puro entretenimento. Se eles não são biográficos e/ou no estilo de homenagem, é só pra ser divertido e ponto. As músicas por si só remetem a lembranças emotivas da platéia, logo, um roteiro meia boca já dá conta do recado. American Idiot, All Shook Up, Rock of Ages, entre tantos que têm um roteiro extremamente pobre, mas por possuírem músicas boas e já conhecidas, o público se sente satisfeito com a experiência. Nas telas, por outro lado, já temos exemplos de jukebox musicals que conseguem manter um bom roteiro como Moulin Rouge, Cantando na Chuva, até mesmo Happy Feet, mas em termos de teatro não consigo me recordar de um bom exemplo. O meu favorito é Fela!, mas ele já entra na categoria do biográfico. Existem notícias de que irão produzir Viva Forever! (com músicas das Spice Girls). Se um bom roteirista conseguisse de fato dar conta do recado, teria tudo pra virar meu musical favorito dentro desse gênero. Mas duvido bastante dessa possibilidade, e até lá, Priscilla ocupará esse posto. Muito embora tenha sim seus pequenos problemas, mas prefiro comentar mais pro final. Por enquanto vamos só falar de coisa boa? Vamos falar da Iogurteira Top Therm?

Começando pelo elenco que é sensacional. Sem dúvida alguma foram todos escolhidos a dedo. O trio principal formado por Luciano Andrey (Tick/Mitzi), Ruben Gabira (Bernadette) e André Torquato (Adam/Felicia) demonstra o quão evoluído estamos em termos de talentos pouco conhecidos do grande público. Eles se completam de forma mágica. “É o grande poder de três” atuando mais uma vez no Teatro Bradesco. O melhor é que eles, sutilmente e no salto, calam a boca de Miguel Falabella que proferiu a asneira ”Isso aqui não é Broadway. No Brasil, compra-se ingresso para ver famoso”. Sem mencionar que é 100% franquia. Não deve nada ao musical da Broadway. Mesmo cenário, mesmo figurino, tudo idêntico, e ainda com um elenco afiado desses que chega a dar muito orgulho do nível que o teatro musical atingiu no Brasil.

Menções honrosas para Simone Gutierrez e sua incrível interpretação (tanto na voz quanto na atuação) e os trejeitos em “Girls Just Wanna Have Fun!”, Lívia Graciano (vibrei com os solinhos em “I Say a Little Prayer”), Andrezza Massei que sempre rouba a cena independente do tamanho do seu papel, amo/sou pra vida. Leandro Luna que está fabuloso e simplesmente morri com Miss Segura o tempo inteiro. Fiquei mais do que feliz de descobrir que o Charlie Brown também é mais do que versátil, Tina Turner aplaudiria de pé! Lissah Martins (mais um falecimento quando ao sair de cena ela se despediu com ”aserehe, aserehe!”), Ditto Leite que representa bem o que Bernadette diz a Felicia sobre “ser menos é mais”. Durante sua performance em “A Fine Romance” eu simplesmente não pisquei! Lindíssima em cena, me lembrou até a diva Katylene. Quando a cena acabou, pensei em ficar triste e já com saudades, mas ela voltou para reprise com sua purpurina eterna, amo/sou [2]. E por fim, mas não menos importante, Pedro Henrique que é super profissional pra idade, ainda canta em inglês e super afinado. A parte que ele canta nem é da música original, algo super complicado pra alguém tão jovem executar, mas executa com perfeição.

Além do elenco, gostei bastante dos arranjos de Stephen Murphy, dos baphônicos figurinos de Tim Chappel e Lizzy Gardiner, do design de maquiagem de Ben Noir e Cassie Hanlon, da direção musical e regência de Miguel Briamonte, da orquestra no geral e de algumas coreografias de Ross Coleman e Andrew Hallsworth. A maioria é bem óbvia, simples, sem muitos destaques, mas só a coreografia das divas já me basta. É bom que dá até pra tentar aprender em casa (e já saí do teatro executando as que lembrava). Não entrarei em muitos detalhes, mas toda a parte técnica é impecável. O ônibus Priscilla em si é deslumbrante, um personagem à parte sem dúvidas. É uma produção 100% franquia, sendo assim impecável em todos os quesitos técnicos imagináveis.

Só que eu não conseguiria escrever esse texto sem enaltecer, idolatrar, beijar os pés, fazer todas as congratulações exageradas, espalhafatosas e detalhadas a André Torquato. Não que ele seja melhor que todos os supracitados, é questão de preferência e identificação mesmo. Não concordo com boa parte das atitudes da personagem, mas ainda assim, não deixa de ter uma certa proximidade por conta da faixa-etária. Então, na minha mais pura preferência e opinião, e levando em conta todo seu talento pra alguém ainda tão novo, é a peça dele. É o show dele. Eu não pago R$850 pra ver um show da Madonna, mas pagaria sim pra ver André Torquato (claro que em 10x sem juros no cartão, vendendo a alma pro diabo, e o corpo pra quem quisesse, mas esses são só detalhes).

É que assim, quando anunciaram o elenco, pensei “ué, esse não é o papel do Nick Adams?”. Pra quem não conhece:

OI, PRAZER.

Reação de quem não conhecia: ENTÃO TÁ NÉ. ADEUS MUSCULAÇÃO, ADEUS MUNDO, DESISTO.

Eu nunca havia assistido o musical até então, logo, estranhei o fato de colocarem um pirralho no lugar de um ser esculpido por Deus. Pensei que fizesse parte do roteiro da peça ele ser assim. De qualquer forma, por já conhecer o trabalho do Torquato em Gypsy e As Bruxas de Eastwick, tinha certeza que ele daria conta do recado. Só que ele simplesmente superou todas as expectativas. É seu primeiro papel como protagonista, e mesmo já tendo mostrado antes que dançava e cantava horrores, agora ele teve a oportunidade de mostrar seu lado de ator mesmo, nesse caso específico o lado cômico.E não poderia ter sido melhor.

Não posso falar muito já que não vi ao vivo com o Nick Adams, mas quem vê tanquinho, não vê atuação. Já assisti trechos dele em La Cage Aux Folles e do próprio Priscilla e não vi muita diferença. Acho que ele não daria conta de um papel hétero (a não ser que fosse pra ser enrustido gritante daqueles que todo mundo já sabe!), mas são só suposições. A gente nunca sabe. Mas eu penso assim, se a pessoa já é gostosa, canta e dança, já tá bom demais, não é? Não precisa mais do que isso. É injustiça com nós, reles mortais. Muito embora existam Igor Ricklis e Matthew Morrisons disponíveis para nos humilhar. E bem, exatamente levando isso em conta, acredito (novamente como suposição) que mesmo se assistisse ao Nick, iria preferir o Torquato. Por ser melhor como ator, e até mesmo pelo molejo brasileiro, algo que é difícil dos gringos serem melhores do que a gente. Só que claro, não adianta ter molejo sem ensaio, suor, talento natural e tudo mais que Torquato possui desde que era um feto em Gypsy e aprendeu a sapatear exclusivamente por conta da peça.

Analisando as personagens temos Tick que é tão receoso do que seu filho possa achar dele que acaba sendo o mais comedido, o mais “hétero” e sensível. Bernadette, a “bicha velha” que poderia ser julgada como a amargurada, chata, mas conhecendo-a de verdade se percebe de onde vem sua personalidade. A peça nem explora muito, mas já dá pra sentir um pouco por toda sua vivência. E então temos Adam, que é exatamente o oposto da Bernadette. É a típica bicha nova, que acha que já sabe tudo do mundo, que já pode sair dando pinta por aí onde bem entender, dai vai e pá, apanha. Não consigo imaginar como um ser como Nick Adams apanharia. Ele conseguiria destruir todo mundo ao maior estilo “tá achando que travesti é bagunça?”. E nessa cena em questão, ele deveria se passar por mulher. Impossível de convencer quando se é extremamente musculoso, ainda com um mini vestido à la Geisy Arruda com o dito cujo pulando pra fora. Acho que nem Kátia Cega deixaria passar. E aí vai mais um ponto positivo para Torquato que, pelo contrário, fica uma mulher perfeita, irreconhecível, linda e abalativa.

“Hot Stuff” ficou tocando na minha cabeça por dias. Já virou minha música de arrumação pré-balada, mas preciso sempre resistir à incrível tentação de pegar um vestido da minha mãe, cheirar um pó e partir pro cais do porto. Mas não é só nessa cena que ele dá um show, são em todas. Desde sua entrada triunfante em “Material Girl” até a grande homenagem à sua diva mor com “Like a Prayer”, Torquato está mais do que sublime. Não existe uma cena ruim, ou que seja apenas “ok”. É tudo incrível. Só que nada, nada no mundo, jamais irá barrar sua performance de “Sempre Libera”. Só essa cena já é digna de um Tony. É a cena mais memorável do filme, e o mesmo se repete na peça. Eu não conseguia me conter. É a cena mais gay, apoteótica, nonsense e incrível que já vi na vida. Amo/sou pra vida!

No fundo, bem lá no fundo, ainda acho injusto ele não estar em casa chorando por ter tirado uma nota vermelha em química ou cheio de dúvidas por não saber ainda o que cursar no vestibular. Mas tudo bem, tendo em vista que os palcos de fato merecem um talento como o dele. Ele nasceu pra isso e tem um longo e brilhante caminho a percorrer, do que agora faço questão de sempre acompanhar.

Então avaliando tudo que falei até agora, digo e repito que me diverti e amei o espetáculo. Saí bem feliz e isso que importa. Estou escutando a trilha da Broadway desde então (já fazem duas semanas que assisti), inclusive estava escutando enquanto escrevia, e isso é um sinal mais do que positivo. Como disse, é esse o maior objetivo de peças assim. Só que retomando o que comentei no começo, existem sim alguns pontos negativos que comento agora.

O roteiro não explora muita coisa. A ideia é de acompanhar a viagem de três pessoas, mas por se tratar de duas drags e uma transexual, claro que acaba envolvendo aspectos do mundo gay. Só que isso não faz dela uma peça que debata sobre a temática, nem leva a platéia para a reflexão, com conteúdo que seja modificador de opiniões, nem nada do tipo. Quando Felicia apanha, Bernadette a consola mas é basicamente isso. Nada muda, nenhuma lição é aprendida (e se foi aprendida, não foi mostrada ao público) e a percepção que tive é que ele continuou sendo a mesma bicha chata e impulsiva de sempre. Não temos muita informação sobre Tick, nem sobre o mecânico Bob, entre tantos outros pontos que passam batidos. Isso me faz pensar que seja até proposital porque dessa forma eles não tentam ser algo sério, que se fosse levado dessa maneira talvez poderia ainda beirar o ridículo em algumas cenas musicais. Ficaria uma espécie de Glee que convenhamos, já deu né? 

Novamente, a ideia principal é demonstrar que eles são seres humanos, são normais, e que serem duas drags e uma transexual é só um detalhe. A peça mais engradece o trabalho de uma drag queen, com Ruben Gabira dando uma aula nesse quesito. Bernadette é uma personagem que um ator ruim conseguiria destruir tornando-a caricata, mas ele não só consegue ser uma mulher do início ao fim, como nas cenas de dublagem demonstra com maestria a performance de uma boa drag. Então me irrita essa forçação de barra que algumas pessoas fazem ao comentar da peça, elevando a esse nível patético de Glee de ensinamentos sobre o preconceito, aceitação, blá, blá, blá. Eu já li isso em várias matérias e discordo. Entendo que é a forma que a imprensa possui de chamar o público, mas me irrita  porque fica parecendo que é vergonhoso assumir que é somente entretenimento, quando não é! Nem tudo nessa vida precisa ter uma mensagem profunda. Xanadu assume isso completamente e não há o menor problema. É apenas um gênero de comédia. E como já falei do gênero jukebox, a ideia é a mesma. Dentro desse gênero, excluindo os biográficos, até então não vi um se quer que tenha sido diferente. O roteiro não possui nenhum conflito, e o que seria considerado conflito (o medo que Tick sente quanto à aceitação de seu filho) é tratado de forma rápida e objetiva. A cena em si só mostra o quanto as pessoas são babacas de ficarem engradecendo o que não deveriam.

Eu não levei pra esse lado nem enquanto assistia à peça, muito menos depois de assistir. Mas fingirei agora que eu de fato levei e entendi como estão divulgando. Então partindo pra causa gay em si, existe a cena em que eles vão num bar no meio do nada em Broken Hill, todas montadas e abalativas. Chegando lá, sofrem um bullying básico no começo, Bernadette humilha a gorda piranha, eles se divertem, fim. Quando estão indo embora, olham que picharam o ônibus. Tick fica triste e Felicia e Bernadette cantam “True Colors” para animá-lo. Mais Glee que isso, impossível, mas vamos analisar a cena? As pessoas daquele ambiente não estão acostumadas com diferença, são cabeça fechada. Então ainda que fossem três mulheres super piranhas, ou qualquer grupo de pessoas que não fossem como eles, é bem provável que o ônibus também estivesse pichado no dia seguinte. Eu sou super a favor de você se aceitar, ser feliz pelo que você é, mas existem momentos e situações. E também não é forçando a barra que se consegue alguma mudança nisso.

Os corajosos que o fazem, independente do que seja, enfrentam algumas consequências. Isso até se um hétero fizer algo que seja considerado fora da normalidade, já é o suficiente para sofrer essas consequências. Sejam eles comentários maldosos até a agressão física. Se eles estão dispostos a pagar esse preço, bato palmas e admiro. Mas não dá pra ficar pagando o coitadinho depois. Tem que ser forte e resistir. Se algo te faz mais mal do que bem, não faz sentido você buscar aquilo! Por mais que você deseje muito, se não dá, não dá. E também tem que avaliar bem se isso de fato não está causando constrangimento nas outras pessoas. Existem bichas nojentas que ficam se esfregando na rua e acham que as pessoas estão olhando feio pelo fato deles serem gays, mas não, nem hétero fazendo aquilo é bonito. Existem coisas que você não pode fazer na rua, então não faça! Educação e bom senso devem andar juntos. E novamente, deve se levar em conta o ambiente e o momento.

Sei que muitos irão discordar, mas tudo bem. A maioria das pessoas pensa que “ninguém tem nada a ver com a minha vida!” e eu concordo. E de todo coração desejaria que o mundo inteiro pensasse assim. Mas não pensa, logo, eu sou obrigado a me adaptar. E nesse meio tempo, buscar métodos eficientes para a mudança, que não seja forçando a barra ou esfregando na cara dos outros algo que ainda os ofende. Eu realmente acho que daqui a alguns anos esse tema será igual ao racismo ou o próprio feminismo no passado. Infelizmente a sociedade é estúpida e precisa levar séculos pra aprender coisas tão simples. Talvez eu morra antes disso mudar, mas sei que um dia essa situação irá mudar sim. Mas por enquanto o importante é se aceitar, ser feliz como se é, mas sabendo que ainda não é época de ficar desfilando e esfregando na cara dos homofóbicos o quão bem resolvido nós somos. Enquanto eles, doentes, não são felizes consigo mesmos. E acho que essa é a melhor forma de demonstrar que somos superiores.

Tudo isso que falei nem é sobre a adaptação em si, só quis desabafar sobre alguns comentários que li. Mas agora, voltando a nossa versão, não acho justificável as músicas não serem versionadas. Eu adorei porque eu sei inglês, mas também acho um abuso divulgarem como “são músicas conhecidas, todo mundo já sabe”. Não, nem todos já sabem. E mesmo os que conhecem a música, não sabem necessariamente o que a letra diz. Eu posso muito bem conhecer a música “I Will Survive” mas nunca ter me tocado do que a letra quer dizer. E se eu achar que a letra tá dizendo que o menino não nasceu gay, que a culpa é do pai dele que contratou um tal de Wilson pra ser capataz? Eu quando pré-adolescente ouvia muitas músicas, mas não sabia inglês e não fazia ideia do que se tratava. Quer um exemplo?

Dançava como se não houvesse amanhã, e se não soubesse inglês, jamais sonharia no verdadeiro significado. Então voltando ao Priscilla, as músicas que não dizem sobre a história tudo bem, mas existem coisas ali que remetem ao momento da peça. Tanto que alguns trechinhos foram versionados, só que de maneira porca. Tá quase literal, é mais declamado que cantado, e é só uma introdução básica, logo em seguida já volta pro inglês. Se vai versionar, versiona tudo. Ou se é pra ser inglês e foda-se quem não sabe, que seja tudo também. Bilíngue que não dá. Ainda teria como colocar legendas, por que não? Se a pessoa não quer ler, que não leia, mas estaria lá disponível o recurso.

Se eu não soubesse inglês, as pessoas estariam rindo com “Don’t Leave Me This Way” e eu sem entender a graça. Também pensaria que “I Will Survive” era só um exemplo de performance da Bernadette, mas não sacaria que depois já se trata sobre a satisfação deles de finalmente encontrar pessoas que os aceitam, como o carinha dos turistas e o Bob. E nada barra “MacArthur Park”, onde me sai uma bicha correndo do ônibus, anunciando que sempre esperou por aquele momento e começa a cantar com cupcakes com sombrinhas. Pra quem não sabe inglês, fica uma coisa meio:

Não acho que a desculpa de que as músicas ficariam ruins versionadas seja válida. Claudio Botelho conseguiu versionar ABBA de forma que agradou mais que a maioria. E se a direção realmente não quissesse versionar, ainda acho que o uso das legendas era o mínimo. Não assisti New York, New York mas sei que eles usaram esse artifício e no mesmo teatro. E novamente, não adianta você conhecer a música previamente sem saber o significado, e aposto que esse é o caso de boa parte do público composto pelas velhinhas de vans e quem mais não teve a oportunidade de aprender inglês (que não é obrigação de ninguém mesmo).

Mesmo com esses mínimos poréns, eu, como plateia egoísta que sou, amei Priscilla – A Rainha do Deserto. A única afirmação sobre a peça que concordo inteiramente é de ser uma celebração da vida. Isso é sem dúvidas alguma. Qualquer pessoa que já tenha viajado com amigos que goste, seja pra onde for, sabe como é. É uma vibe de amor, de felicidade, e até quando algo dá errado, em breve se estará rindo daquilo. É exatamente essa vibe que você irá sentir assistindo a Priscilla. Pretendo e espero assistir mais uma vez. Preciso presenciar mais uma vez o show de André Torquato e claro, na esperança de assistir com a diva do YouTube Priscila Borges. Enquanto isso, todas aumenta o volume e se joga no play:

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Teatro Bradesco
Quintas e sextas às 21h; sábados às 17h e às 21h; domingos, às 16h e às 20h
Ingressos aqui (se não paga meia, prepara o bolso!)


Critics! Who’d make a living out of killing other people’s dreams?

Gostaria de anunciar que não escrevo mais críticas teatrais. Na verdade, nunca escrevi. Eu expressava sim minhas opiniões acerca de uma peça (e muito raramente de filmes), mas nunca segui as regras padrões que uma crítica deve seguir. Sempre deixei claro não ser crítico profissional, muito menos fiz qualquer esforço que seja para tentar me equiparar. Meus textos sempre tiveram um tom de crônica, sendo um relato bem longo, detalhado, com linguagem informal, cômica e com diversos relatos pessoais. O intuito principal era tentar convencer o leitor a ir assistir algo. Ainda que fosse negativa, deixava em aberto para o mesmo ir assistir e comprovar com seus próprios olhos. Tudo isso não é possível de ser feito numa crítica profissional jornalistica já que o maior objetivo é simplesmente falar de forma bem coesa “gostei (ou não), destaques (positivos e negativos), vá ver (ou não)” num pequeno espaço fornecido pelo jornal. Se a categoria aqui no meu blog se chama “crítica”, é mais um comodismo. Preguiça de definir de forma extensa. É mais prático taxar dessa forma, mas eu sempre tive em mente que não estava de fato seguindo os moldes padrões jornalísticos, nem de um ensaio propriamente dito (onde o espaço já seria maior).

Não estou dizendo com isso que irei parar de escrever aqui. Isso eu ainda pretendo, muito embora em menor frequência. Só que a partir de agora levarei meus textos mais para o lado reflexivo, em vez de uma análise técnica detalhada como sempre fiz. Sempre gostei de detalhar muito pois achava ser a melhor forma de exemplificar meus argumentos. Só que ainda assim, as opiniões se divergem muito nesse assunto. Tudo é subjetivo. Ser bom ou ruim fica sendo sempre opinião pessoal. Só que, todo crítico precisa ser no mínimo uma pessoa estudada. Alguém com um gosto mais apurado e que, antes de tudo, ame o gênero. O amor ao gênero o fará ir infinitas vezes ao teatro, e a cada assistida de um espetáculo novo, sua visão se apura e suas análises se desenvolvem melhor. E assim, irá demonstrar sua opinião de forma que consiga convencer o leitor daquilo. Mesmo que o leitor não concorde com o que está escrito, ele irá conseguir enxergar a razão do crítico. Há um baseamento no qual o leitor percebe como o crítico chegou naquela conclusão.

Eu gosto muito de Britney Spears, isso me desclassifica como alguém que poderia ter argumentos para escrever algo sobre uma peça de Sondheim? Se eu estou num churrasco com meus amigos e começa a tocar “quê isso novinha, quê isso?” e eu resolvo ir dançar até o chão com todos eles, perco ainda mais meus critérios sobre qualquer assunto que seja? Alguns podem achar que sim, mas discordo. Reconheço muitos defeitos nas músicas da Britney, e sei que funk também não têm lá uma qualidade musical aceitável, mas tudo é relativo. Você gostar de algo muitas vezes vai além do técnico. Eu sei que é ruim, eu sei que é fraco, eu sei que é pobre, mas existe uma conexão. Um afeto. Um sentimento bom que vem dali. As vezes até por ser tão ruim, acaba ficando bom. Só que o crítico profissional deve separar bem isso. Numa crítica esse aspecto pessoal fica de fora, dando espaço para um olhar mais analítico.

Como disse, se a pessoa está indo a um churrasco, na sua mente já existe uma categoria da qual ela sabe o tipo de música que irá tocar lá. Goste ou não, já existe um tipo definido. Agora se a pessoa está indo assistir um musical, ela precisa se atentar ao gênero teatro musical.  Já existe a expectativa de se ouvir músicas que sejam daquele âmbito, daquele padrão. Se o musical é “American Idiot”, já se sabe que o gênero fica mais pro rock. Se é “Legally Blonde”, claro que é mais pro pop. Então se o crítico tem um perfil mais clássico estilo Rodgers & Hammerstein, é quase certo que não irá gostar muito. No entanto, o trabalho dele é de analisar se dentro daquele gênero (quer ele goste ou não), funciona. Se as músicas se integram com o texto, se elas são esquecíveis ou marcantes, se são envolventes, se possuem boas letras, melodias, em resumo, se são consideradas de fato como showtunes.

Então quando existe um musical que resolve modernizar esse estilo próprio, a crítica pode elogiar pela novidade, como pode detonar por não seguir o tal padrão. Quem estaria certo e quem estaria errado? Até que ponto a inovação é ruim? Eu acredito que a resposta seja uma mistura dos dois. Quando a inovação está ali com um propósito claro, só os extremistas-clássicos irão achar defeito. Como por exemplo “O Despertar da Primavera” na Broadway, que usou o artifício de microfones de bastão, juntou rock com um texto dramático, tudo devidamente justificado. Foi aclamado pela crítica, sendo uma delas do NY Times que alegou que “a Broadway nunca mais seria a mesma”. Se houveram críticas negativas, foi da minoria extremista. Assim, se chega a conclusão que o crítico precisa acompanhar as inovações. Inovar é se arriscar, mas todas as grandes descobertas da humanidade dependeram disso. O gênero não haveria se tornado o que de fato é se tivesse continuado da mesma forma de quando se originou, como nas operettas, burlescoe etc.

O gênero se modifica a todo instante e as mudanças ocorridas no decorrer dos séculos são palpáveis. “the Book of Mormon” jamais teria sido montado alguns anos atrás, não haveria público para isso. Assim como “[title of show]” ainda não possui um vasto público aqui no Brasil. “Anything Goes” possui um texto tão datado que parte das piadas da remontagem são engraçadas exatamente por serem datadas! E como analisar a direção de John Doyle colocando atores pra tocar os próprios instrumentos em “Sweeney Todd” e “Company”? Que critério se usa para poder argumentar esses quesitos? Como já disse, o crítico é um ser pensante. Ele possui um conhecimento que o distingue do público. Existe uma parte teórica que foi estudada, assim como ele exerce uma atividade constante em assistir diversas peças que nem todos do público podem (seja por tempo, dinheiro, etc). O objetivo é que ambos, o crítico e gênero, se desenvolvam.

O crítico deve levar em conta todas essas considerações. Seus textos serão lidos tanto pelo público mais entendedor, quanto pelo público mais leigo. O público não precisa saber nada de uma peça antes de ir assistir, porém, pode perder muitos detalhes que seriam interessantes de serem absorvidos. Como por exemplo, alguém que venha a perder o contexto histórico de “Cabaret”. Acreditem, existem pessoas leigas em diversos assuntos. Essas pessoas compreendem o roteiro básico, como o envolvimento dos personagens, mas perdem todo um contexto que torna daquela obra mais especial. É o criticismo de “Cabaret” que torna daquilo um marco, além de todos os outros detalhes assistidos. Se alguém dessa platéia que se encontra nessa situação resolve dar uma pesquisada maior, pela leitura de uma boa crítica a pessoa consegue perceber coisas novas e se interessar ainda mais pelo gênero. O crítico sim, possui a obrigação de possuir o maior conhecimento possível acerca de uma obra. Todos os contextos, visões e detalhes possíveis precisam ser expressos para assim, conseguir chamar a atenção desses leitores interessados. Existem ainda os leitores que nem gostam de teatro, mas ao lerem aquela análise, possam se sentir tentados a darem uma chance.

Existe também o contrário, leitores que irão deixar de ir ao teatro a partir dali. O que é engraçado, já que novamente, é um assunto subjetivo. O crítico não ter gostado não implica que ninguém também não possa apreciar com outros olhos. Mas com tantas peças em cartaz, dado até mesmo os valores dos ingressos, essa análise é necessária. Eu nunca falo “não vá assistir!”, eu prefiro dizer “eu odiei por isso, isso, isso. Comprove você mesmo e comparamos depois”. Mesmo uma experiência ruim chega a ser válida, pois assim temos mais referências ao que de fato é bom. Sendo assim, com toda sua inteligência, o crítico precisa saber passar isso para o texto de forma correta. De nada adianta um professor muito inteligente, se ele não sabe dar aula, se ele não possui didática para isso. O crítico precisa saber externar seu conhecimento de forma clara que atinja qualquer tipo de leitor, inclusive os mais ignorantes. Muitas pessoas não gostam de musicais por acharem sem sentido o personagem começar a cantar “do nada”. Logo, só de ver que se trata de um musical, esse público já possui como expectativa uma crítica negativa. A ignorância está no aspecto delas não compreenderem que se trata de um gênero. Porém, um bom crítico consegue expressar bem, mesmo em suas críticas negativas, os fatores daquilo ser ruim (não só pelo fato de ser um musical) o que já abriria mais a mente deles.

Quando se fala em crítica no Rio de Janeiro, o primeiro nome que vem à cabeça é Barbara Heliodora. Amada por uns, odiadas por outros, temida por todos. Comentarei alguns trechos de suas críticas, assim como de outros críticos também, mas já adianto que não estou desmerecendo o trabalho de nenhum deles. É mais uma forma de debate e reflexão acerca de alguns de seus textos. Barbara Heliodora possui longos anos de estrada nesse ramo, e se é aclamada pelo que faz, é por ser boa. Não existe ninguém com maior conhecimento de teatro que a própria e eu não conseguiria escrever metade do que ela escreve. Seria até pretensão demais achar algo do tipo. Seu conhecimento Shakesperiano é de dar inveja em qualquer um, porém, no gênero musical,  consigo encontrar alguns detalhes que me fazem refletir. Usarei exatamente esses trechos somente com o intuito de exemplificar alguns aspectos que gostaria de comentar.

Na minha opinião, existem cinco tipos de críticas: a) as justas b) injustas c) duvidosas d) desinformadas e) desnecessárias. Explicando:

a) as justas

É quando a pessoa lê e concorda. As vezes ela nem viu a peça ainda, mas já consegue sentir ali uma veracidade. E depois de assistir, ainda que não concorde com todos os aspectos, compreende perfeitamente bem tudo que foi explicado ali. Exemplos:

“Um Violinista no Telhado” – Barbara HeliodoraSe você particularmente não gostou da peça, você sabe o motivo. Não gostar de drama seria um dos primeiros casos. Ou o elenco, direção, etc. Agora é inegável a qualidade que essa peça possui. É uma obra-prima. Não existem recursos para dizer que ela é ruim. A montagem poderia ser ruim, aí são outros quinhentos. É igual falar que “Hamlet” é ruim. É heresia falar algo do tipo, mas que existem montagens ruins, existem. Só que não é o caso aqui, não é o que ocorre com o nosso “Violinista no Telhado”. Muito pelo contrário. Ainda considero o melhor musical nível Broadway já montado aqui. Como a própria Barbara menciona, melhor peça da dupla até então. Ouvi de poucas pessoas o contrário, mas em todas elas foi perceptível a inferência do gosto pessoal, passando por cima da análise crítica que já mencionei.

“Tim Maia – Vale Tudo” – Tânia Brandão. Nessa eu me incluo comentando mais uma vez a inferência do gosto pessoal. Assisti o espetáculo, gostei, mas não fiquei tão encantado quanto todos. A razão é exatamente por não ser muito fã de MPB. Só que diferente de muitos, eu reconheço na peça tudo que Tânia Brandão cita em sua crítica. É inegável que é uma peça excelente, que Tiago Abravanel dá um show, que é um marco no teatro musical brasileiro. Eu posso não gostar do estilo, mas reconheço e entendo cada crítica positiva que a exalta. A própria Tânia com seus poréns, também faz o mesmo. Acho isso corretíssimo, aliás, a considero uma das críticas mais justas nesse aspecto.

Ser justo não quer dizer necessariamente só elogiar. Se a peça é pavorosa, é necessário detonar no mesmo nível. Logo, aqui também entrariam as críticas negativas para “Spider-Man: Turn Off the Dark”, “RENT: Remixed”, etc, etc, etc.

b) injustas

De nível Broadway temos “Caroline or Change”, “Parade”, “Bloody Bloody Andrew Jackson” e algumas até sobre “Next to Normal”. Se vocês os conhecem, sabem que são musicais que podem até possuir algumas falhas. Só que detonar a obra inteira já fica sendo um pouco demais, até mesmo levando em consideração a tal modernidade que elas trouxeram e que já citei. De musicais brasileiros eu não consigo pensar em muitos exemplos agora, mas com certeza o maior de todos seria “Os Fantástikos”.

Não assisti a peça ao vivo, mas assisti em vídeo. Possuía sim uns probleminhas, mas achei uma montagem justa. Isso em vídeo, ao vivo poderia gostar ainda mais. Deve ser levado em conta a época. Rio de Janeiro, 1996. Não havia se quer estrutura, era praticamente impossível montar isso aqui. Não tínhamos teatro musical como gênero já estabelecido. A montagem original ficou 42 anos em cartaz no Off-Broadway, atualmente com um revival que teve sua estreia em 2006 e sem data pra fechar. Isso prova que a obra em si é excelente, só não foi bem recebida aqui pelo momento. Assim como não havia um público formado, aparentemente também faltavam críticos que compreendessem o gênero em si. E por conta da idade, não encontrei nenhuma crítica na internet. Mas sei que elas, inclusive a da Barbara, detonaram. Sei por conta do relato do próprio Claudio Botelho no livro “Os Reis dos Musicais”.

Esse é o tipo de crítica que eu considero injusta exatamente por não ter levado em consideração todo esse contexto. Deveria ao menos exaltar a tentativa de fazer algo parecido, mas aposto que ocorria o contrário. Todos deviam criticar por estarem tentando copiar algo desse mercado americano (e que na época, deviam defender que não tinha nada a ver com o Brasil). Nenhum crítico pode querer detonar uma montagem de escola tendo em vista todos os recursos e estrutura que eles possuem. Eles nem devem ir assistir pra começo de história. Não é o caso aqui, mas era uma montagem simples também. Nada começa de um dia pro outro, existe todo um processo que deve ser respeitado. Hoje em dia, por já estar consolidado, não precisa pensar nesses poréns. Claudio Botelho e Kiara Sasso são nomes consagrados (Charles Möeller ainda estava nos figurinos). Gostar de musical não é mais tabu. Mas naquela época deveria ter sido pensado sim. Se houvesse uma remontagem, as coisas seriam diferentes. Na época eles não passavam de loucos tentando o impossível, e ainda precisavam ler esses tipos de críticas injustas que em vez de tentar criar um novo público, ainda os assustava.

Eu tomo isso como base sempre que algo muito diferente surge e as pessoas caem de pau em cima. Um dia, o diferente pode virar o comum, e lendo os registros antigos, iremos perceber novamente (como sempre percebemos) o quanto os críticos foram completamente relapsos num tópico tão básico. É questão de abrir a mente mesmo, só que esse é um aspecto difícil para alguns.

Existem também as críticas que exaltam produções que não merecem, mas essas eu prefiro deixar já na próxima categoria e explicarei o porquê.

c) duvidosas

Como já disse, falar o que é bom ou ruim é sempre subjetivo. Só que existem certas coisas que são indiscutíveis. Como por exemplo:

“Xanadu” por Barbara Heliodora: “Danielle Winits, Thiago Fragoso e Sidney Magal, assistidos de perto por Sabrina Korgut e Gottsha, formam um centro firme, nas vozes e atuações, (…)”.

Nessa frase temos cinco pessoas completamente distintas num mesmo grupo. São cinco atores e atrizes com experiências diversificadas. Uns com mais experiência em teatro musical, outros com mais experiências em outras áreas. Já considero errado se levar isso em consideração. Agora, quando nessa lista existe uma pessoa especial chamada Danielle Winits, não existe condição de querer equipará-la a ninguém. Caso não tenha assistido a peça, dê uma escutada básica aqui (caso aguente):

“Jesus, o que é isso?!” é a primeira coisa que você provavelmente irá pensar. Depois já é possível pensar em muitos adjetivos, muitos mesmo, mas nada que chegue perto de firme. Não tem nada de firmeza aí, muito pelo contrário. A voz parece que vai sumir a qualquer momento. Isso é um fato comprovado. Não tem quem consiga analisar isso como firme. Não chega nem a ser aceitável, é extremamente ruim e vergonhoso. Thiago Fragoso e Sidney Magal são aceitáveis quando não existem parâmetros. Quando são colocados no mesmo grupo que Sabrina Korgut e Gottsha, as coisas mudam. Considero até uma ofensa ao talento e técnica das duas. Seria igual falar “Barbra Streisand e Kelly Key possuem vozes firmes”. Simplesmente não dá.

“Os Produtores” também por Barbara Heliodora: “A montagem é uma réplica exata da encenação realizada em Nova York, com os vários cenários e os incontáveis figurinos compondo o universo do texto (…)”.

Foto da cena “I Wanna Be a Producer” na Broadway:

A mesma cena no Brasil – pule para o momento 03:15.


E aí eu pergunto: é idêntico mesmo ou só eu estou vendo essa tela pintada onde deveria ser um letreiro luminoso?

Ainda que eu nem tivesse assistido a peça aqui, eu já saberia que não teria condições de ser idêntico. A peça original estava num teatro propriamente dito, na Broadway, com uma qualidade técnica que é impossível de se ter numa casa de show como o Vivo Rio! O que eu vi foram cenários balançando de tão finos que pareciam feitos de papelão. E óbvio que são alterações necessárias para comportar tudo naquele ambiente pequeno. Não estou entrando nem em mérito de ser ruim ou não, mas idêntico não possui as condições mínimas de ser! Até mesmo quando a peça entre em tour, ela não consegue ser idêntica por esses fatores.

Então dentro da subjetividade, existem também os fatores objetivos. Já deixa de ser questão de opinião, vira um fato comprovado que nega o que foi dito. Por isso considero a crítica injusta sim, só que muito mais duvidosa. Eu fico na dúvida da razão do crítico ter dito algo tão descarado e mentiroso. Seria preferível ter omitido. Porque né, se for pensar nesses méritos ditos aqui, Falabella conseguiria a proeza de montar “O Rei Leão” idêntico ao da Broadway num teatro de arena estilo SESC.

d) desinformadas

Como já disse, o crítico precisar saber tudo e mais um pouco acerca do que vai relatar. É o mínimo necessário. Se não sabia antes de assistir, que ao menos se dê ao trabalho de pesquisar depois para assim não cometer certas gafes. Como por exemplo:

“O Despertar da Primavera”, também da Barbara. ”Para os que pensam no século XX como todo ele uma época de liberação sexual, é bom lembrar que Frank Wedekind escreveu sua peça em 1906 (…)”.

A peça foi na verdade escrita entre 1890/1891, já fica sendo um século anterior ao que ela mencionou. Em 1906 foi a primeira encenação da peça. A data inclusive se encontra até mesmo no programa, existem duas páginas exclusivas sobre a ordem cronológica da peça original até o musical. Era só ter dado uma lida, questão de minutos mesmo. E se não pegou o programa, é só jogar no Google. Wikipédia tá aí pra isso. O que não dá é cometer erros assim. Em termos de dramaturgia, isso é bastante tempo. São 15 anos de diferença. Se for analisar agora, 15 anos atrás M&B estavam começando ainda com “As Malvadas”. Analisa a situação agora e me diz se esse pequeno detalhe de tempo não é importante.

“Xanadu” por Teresa Mascarenhas, publicada no JB. “(…)como o número de sapateado, que deveria ser executado por Zeus, Sidney Magal (que no filme é feito pelo gênio Gene Kelly) mas o personagem acaba sendo dublado toscamente e substituído por um bailarino do coro”.

Conhecer o musical original não é obrigatório, assim como comparações com o filme, livro, etc. Não vejo problema quando se faz da maneira correta, que não foi o caso dessa comparação citada. Nesse caso específico, ela comparou uma cena do musical com a do filme. No filme, o personagem do Gene Kelly era sim quem sapateava. No musical não seria o Sidney Magal pelo próprio contexto do roteiro da peça. Naquela cena, está sendo mostrado o passado do personagem. Quem aparece em cena é uma versão mais nova dele, sendo assim executada por Fabrício Negri (como na Broadway era representado por Curtis Holbrook). Analisando pelo roteiro já bastava, mas se a crítica tivesse ao menos jogado no youtube, teria visto que a cena na Broadway também não é executada pelo personagem mais velho (que aliás, se chama Danny. Zeus é o personagem que só é interpretado no final, nessa cena em questão ainda é o Danny).

Da forma que está escrito fica parecendo que o diretor daqui cometeu um pecado mortal, quando na verdade já é algo que veio do original. Se o crítico nunca viu a peça original, o mínimo seria se dar ao trabalho de pesquisar antes de comentar. Ou ainda que fosse mais abrangente como quem diz “problema esse que não sei se foi inserido na adaptação ou se já vem da montagem original”. Não é possível falar com propriedade sobre algo que não se tem certeza, logo, é preferível pesquisar antes. Caso o crítico não encontre, deixe em aberto. Se nem for tão importante, omita. É preferível do que falar com uma falsa propriedade que pode ser rebatida pelos leitores.

e) desnecessárias

Existem aquelas “críticas” que não merecem ser lidas nem na fila de espera do hospital ou aguardando o cabeleireiro. O melhor exemplo é a de Dirceu Alves Jr. para ”O Despertar da Primavera”, postada na Veja SP.

“(…) Os diretores Claudio Botelho e Charles Möeller conquistaram prestígio ao defender a essência do gênero musical com inventividade, cuidado e boas atuações. Esta montagem, no entanto, marca uma derrapagem na trajetória da dupla. Trata-se de uma produção difícil de ser encenada. A começar pelas letras das canções, que não permitem o coloquialismo ao qual Botelho e Möeller estão habituados. (…) o espetáculo mostra-se irregular principalmente por causa dos atores. Enquanto Pierre Baitelli e Malu Rodrigues interpretam cheios de garra seu trágico casal, o restante se parece menos integrado”.

Um texto desses demonstra que se trata de alguém que definitivamente não entende do assunto. Ele fala da inventividade como algo positivo, em seguida considera o trabalho mais autoral e inventivo da dupla como algo negativo. Não existe se quer uma justificativa. Usa o argumento do coloquialismo que era trabalhado antes. Novamente, se ele quer algo inovador, a tendência é buscar coisas diferentes, não? Ainda assim, me indago se “essa merda de vida”, “se fodeu rapaz”, entre outros, realmente não entram na categoria coloquial. Por fim, falou do elenco. Um dos maiores triunfos da montagem foi exatamente o elenco jovem e talentoso. Nem Rodrigo Pandolfo se salvou na sua análise, logo, dispensa mais comentários. Em um parágrafo apenas ele conseguiu demonstrar que não entendeu foi nada do que assistiu.

Gostaria mais uma vez de deixar claro que não quis desmerecer nenhum crítico aqui citado, mesmo o Dirceu Alves Jr. que escreveu o parágrafo mais errado que já li na vida. Ele pode ter escrito outras críticas das quais nunca li, portanto, não entra aqui em questão o mérito de sua profissão, seu talento, nada. Usei um dos seus textos para exemplificar uma das categorias das quais quando leio uma crítica, arquivo mentalmente. Usei muitos exemplos da Barbara Heliodora também, que é tida como a maior crítica aqui do Rio de Janeiro (ou, acredito eu, nível Brasil). Não me sinto um herege ou nada parecido pelos comentários que fiz. Acredito ter explicado bem meus pontos de vista e era somente essa minha intenção.

Aqui no Rio saem várias críticas bem compridinhas até, e em vários sites, jornais, blogs, etc. O que já não é tão aparente em São Paulo, pelo menos na minha visão. Engraçado também que as críticas de lá parecem não possuir poder nenhum em cima da platéia. Minha teoria é que os pobres paulistas já devem estar acostumados com as atrocidades que são publicadas (em sua maioria pela Veja) então nem se dão ao trabalho de ler. Sempre que algo estreia por lá, tento dar uma procurada e encontro tão poucas e curtas que nem valem a pena ser lidas. Costumo mesmo ler as de Rubens Ewald Filho. Gosto de seus comentários, embora o próprio não se considere crítico de teatro, e sim, como todos sabemos, de cinema.

Dos musicais do West-End eu nunca leio, as vezes até esqueço que existe. Agora os da Broadway eu dou uma olhadinha aqui e ali. Houve uma época que eu era mais viciado nas do NY Times, mas não mais. Só existe um crítico que escreve pra uma coluna do NY Post que eu de fato gosto de ler: A coluna do Michael Riedel.

Ele é incrível. Detona, mas detona com base. Tudo que ele diz tem explicação e faz questão de mostrar isso. Ele pode ser extremamente ácido as vezes, e levar alguns fatores de backstage para suas críticas, o que eu já discordo um pouco. Porém, ainda assim, é o tipo de opinião que faz seu leitor refletir. Já deixa de ser também uma crítica jornalistica, já que o próprio possui uma coluna, um espaço que ele pode abordar mais profundamente e também com um lado reflexivo. Existem dois outros colunistas com ele, então ainda dá pra comparar sua visão com a dos outros.

O mais legal também é que nem ele se leva a sério. Num dos seus posts, ele comenta sua participação em “Smash”, onde foi citado como um “Napoleonic little Nazi”. O próprio diz que nem se ofendeu. Ele respondeu que como ofende as pessoas o tempo inteiro, nada mais justo que os papéis se invertam ocasionalmente. Ele também não tem ego inflado. Se tem que voltar atrás, ele volta. Ele já chegou a falar coisas que não se concretizaram, e então simplesmente comentou sobre até de forma positiva. Tem quem prefira ter sempre a razão, tem quem prefira ser contrariado. É isso que eu admiro. Não acho que o crítico tenha que ser o vilão, que fala mal pelo simples prazer de falar mal. Chega a ser masoquismo ficar se torturando de peça ruim em peça ruim só pra detonar tudo depois. Precisa ter o amor pelo gênero. É o amor que impulsiona tudo, inclusive a decepção e a raiva que se transmite para a crítica.

Nossos musicais já chegaram no nível Broadway, isso é inegável. Qualquer pessoa que já assistiu algo lá fora pode dizer isso. Sem contar outros fatores como “Judy Garland – O Fim do Arco-Íris” ter sua estreia aqui antes mesmo de estrear na Broadway. Fomos também o primeiro país a ter uma montagem internacional de “Priscilla” fora do eixo Broadway, West-End e os tryouts da Austrália. “A Família Addams” tão recente, fechou na Broadway e já está presente nos nossos palcos com diretores e equipe técnica do original. Isso é o brasileiro mostrando do que é capaz. Agora o que realmente falta é uma crítica mais especializada nos musicais exatamente para termos críticas mais justas sobre essas montagens que não param de surgir. Aqui infelizmente ainda existe o preconceito entre peças e musicais. Está sendo diminuído, mas ainda precisa mudar.

No Tony Awards, as premiações de peças são feitas antes dos musicais. O musical é a grande estrela. A marca registrada de NYC são os musicais. Aqui no Brasil as peças ainda possuem maior destaque, mas o errado é o fato das premiações de teatro praticamente esnobarem os musicais. Claudia Netto não ganhou um prêmio se quer por sua Judy Garland, mas exatamente dada a preferência pelas peças. Se existisse a categoria específica para musical, com certeza era dela. Mas enquanto não existir, a tendência é dar preferência e valorizar mais os atores e atrizes de peças não-musicais. Antigamente era compreensível, mas agora já temos bastantes espetáculos musicais que brigariam por um prêmio exclusivo da categoria. Se a gente for contabilizar todos que são encenados aqui no Rio e/ou em São Paulo durante um ano, já dá mais de 5 indicados. Por que não também valorizar esse ator, que além de ator, é cantor, dançarino, patinador, equilibrista, puppeteer, etc, etc, etc?

Finalizando, gostaria de enfatizar o que mencionei no começo. Nunca nem tentei me equiparar a um crítico profissional pois sei que não estou apto para o trabalho. Detesto a norma culta, não sei se tenho a capacidade de ser coeso e impessoal, muito menos sei se apresentei aqui todos os tópicos necessários para de fato escrever uma boa crítica. Coloquei meu ponto de vista acerca do assunto, mas nunca estudei de fato. Posso estar errado. Não tenho as técnicas necessárias, teria que estudar muito mais, etc, etc, etc. Tenho ciência absoluta disso, antes que qualquer pessoa venha com cinco pedras na mão. Como público que sou, tenho esse direito de opinar e refletir.

Aos que gostavam dos meus textos, mesmo sabendo bem como eles eram, meu mais singelo obrigado. Foi divertido enquanto durou. Se eu cheguei a essas conclusões todas, foi aprendendo no processo. A melhor forma de aprender é errando, debatendo, construindo ideias. Por isso mesmo que agora quero seguir um caminho diferente. Esse caminho mais reflexivo acerca do tema, da proposta, do que aquilo vem a adicionar na minha vida. Claro, faço questão de exaltar quem mereça. Jamais poderia refletir sobre “Judy Garland” sem exaltar Claudia Netto. Ou “Cabaret” sem as coreografias fantásticas de Alonso Barros. Só não irei ser tão detalhista quanto antes. Usarei bastante do artifício da omissão. Mesmo que goste, irei omitir. Agora “só” gostar não é mais o suficiente. Cheguei no nível de necessitar que ultrapasse essa barreira.

Sei que nesse novo caminho irei cometer erros, alguns acertos e possíveis debates (internos e/ou externos) mas acho que faz parte do processo. Eu realmente espero que gostem. Mas, se não gostarem, vocês sempre terão os críticos profissionais.

Cambaio (A Seco)

A companhia Empório de Teatro Sortido, que foi fundada com Música Para Cortar Os Pulsos, estreia no próximo dia 08/03 sua nova peça: Cambaio (a Seco).

Trata-se de uma releitura do musical escrito por Adriana e João Falcão, com músicas de Chico Buarque e Edu Lobo. A direção é de Rafael Gomes e, no elenco, Mayara Constantino, Geralgo Rodrigues e Guilherme Gorski dividem a cena com o grupo 5 a Seco – mais a participação da cantora Tatiana Parra.

Deixo a recomendação para os amigos paulistas. Só devo assistir quando vier ao Rio, mas já tenho certeza que será incrível. Isso pelo texto, direção, elenco, etc. Tive a oportunidade de assistir Cambaio na UniRio e amei, assisti a pouco tempo o Música Para Cortar os Pulsos e saí mega impressionado. Difícil essa montagem sair errada. Logo, já deixo aqui minha recomendação.

Emilinha e Marlene – As Rainhas do Rádio

O musical percorre a trajetória artística e o dia a dia das duas maiores estrelas da música brasileira, que em 1949 se tornaram concorrentes, quando a novata Marlene superou a favorita Emilinha Borba no concurso “Rainha do Rádio”. Inspirado na histórica rivalidade entre as duas cantoras e seus fãs-clubes, o espetáculo se desenvolve quando duas irmãs, após o falecimento da mãe, voltam à casa onde viveram e encontram registros do passado. Uma delas era fã de Emilinha e a outra, de Marlene.

Eu sou bem leigo no que diz respeito a música, quem dirá brasileira. Eu gosto de algumas (poucas), mas não sou e nunca fui muito grande entendedor. Eu sei ao menos admirar o que de fato eu considero muito bom, e o que não. Isso dentro dos meus conceitos e preferências. No caso de Emilinha e Marlene eu só sabia que ambas eram cantoras de rádio, e só. O espetáculo conta com mais de 50 músicas e eu mesmo só conhecia umas três ou quatro. Antes de ir pensei que pudesse me sentir deslocado, achar meio datado, ter certeza absoluta de que aquela geração não me pertencia. Eu estava enganado e não poderia ter gostado mais.

O texto de Thereza Falcão e Julio Fischer homenageia a Era de Ouro do rádio no Brasil, a lendária Rádio Nacional e todos que viveram aquela época (artistas e público).  Muitos cantam juntos e vibram (o que particularmente nem gosto – mas entendo), só que a grande sacada de ter colocado a história sendo contada pelas duas irmãs rivais é o que torna tudo bem aceito tanto pelo público saudosista, quanto para os leigos como eu. É uma espécie de “the Drowsy Chaperone”, onde o passado vai sendo revivido pelas fotos e lembranças das irmãs e nos trasportando para diferentes épocas. Por essas quebras do passado com o presente fictício, o texto não fica sobrecarregado nem arrastado, conseguindo abordar muito bem a vida de ambas.

Na sessão que fui, Stella Maria Rodrigues era Emilinha Borba (normalmente interpretada por Vanessa Gerbelli). Nem se quer anunciaram como é de costume, mas gostei bastante. Voz e interpretações perfeitas, muita gente deve sair sem nem saber que assistiu uma substituta. Em certos momentos em que ficava de frente para o público, eu olhava para seu rosto e para a foto de Emilinha pendurada na parede e me assustava com a semelhança. Só que me desculpem os fãs de Emilinha, saí do teatro Marlenista (o que hoje em dia seria chamado Team Marlene). Não só pela história toda da artista, mas ainda intensificada pela interpretação visceral de Solange Badim. Ela domina do início ao fim. Eu já sabia que ela era uma grande atriz por trabalhos anteriores, mas ainda assim ela tem a capacidade de me surpreender sempre. Que presença, que performance, que voz! Mesmo que eu nem gostasse do restante da peça, eu sei que só de tê-la assistido já teria valido a pena. Brava Solange Badim!

No ensemble encontra-se Cristiano Gualda, Mona Vilardo, Luiz Nicolau, Cilene Guedes, Ângela Rebello, Ettore Zuim (outro dublador descoberto pelos palcos – tô ficando bom nisso!), Lenita Lopez e Adriana Torres, todos empenhando diversos papéis no decorrer da história. Um ensemble incrível e sem desfalque. Só peço desculpas caso tenha trocado o nome de alguém. A peça já teve outras temporadas com elencos diferentes, pode ter tido algum sub que eu não sabia e não comprei o programa do espetáculo para verificar. Dei uma leve conferida no Google a acho que acertei. Acho. Caso tenha errado, me corrijam nos comentários. Assisti a sessão de quinta, 09/02. Então meus parabéns vão para quem estava no palco nesse dia.

A direção de Antonio de Bonis conduz muito bem o espetáculo. As marcações, saídas e entradas do elenco estão de forma harmoniosa e consegue costurar bem uma música na outra, assim como uma cena na outra. Pelo próprio texto, não dava pra ir muito além do que é feito. Conta com figurinos de Rosa Magalhães, iluminação de Jorginho de Carvalho e cenografia de Sérgio Marimba. Eu não sou a pessoa mais adequada de ficar avaliando a parte técnica se tratando desse universo do qual não pertenço, mas gostei de tudo. Eu gosto de coisas simples e bem feitas, logo, amei. Já a direção musical de Marcelo Alonso Neves eu posso dizer que é magnífica e esplendorosa, com músicos incríveis que conseguiram me empolgar por diversos momentos com músicas que eu nem conhecia (e me empolgar assim, de primeira, com músicas brasileiras que até então não conhecia, foi algo inédito para mim).

Mesmo se tratando de uma época completamente diferente de agora, muito dali ainda se encontra nos dias atuais. Ainda existem rixas de fãs de certos cantores em que se você é fã de um, não pode ser do outro. Britney Spears com Christina Aguilera (não sei se ainda existe, mas na minha adolescência era a mais forte), Lady Gaga e Madonna, Ivete Sangalo e Claudia Leite, até nos musicais, quem lembra de Kiara Sasso e Sara Sarres em “O Fantasma da Ópera?”. Não estou entrando no mérito de ser bom ou não, só estou dizendo mesmo da rivalidade. O que não deixa de ser uma grande besteira e a própria peça aborda mostrando que a rivalidade vinha mais dos fãs do que das artistas propriamente ditas. O que antigamente era ao vivo, hoje em dia ocorre nas discussões de redes sociais. Sempre afloradas em que fãs cegos na obsessão partem para ofensas pessoais quando alguém vai contra o que ele acredita. É coisa de louco mesmo, e pelo que vi na peça, é algo de longas datas já.

Me fez pensar também em como certas fases se vão e não voltam mais, e aí vai da pessoa em seguir em frente. Eu sou da geração Internet, onde o Orkut um dia já reinou com muitas discussões afloradas das quais não acontecem mais no Facebook. O download até certo tempo ainda era super tranquilo, Megaupload era o melhor site de compartilhamento e se encontrava tudo em menos de 5 minutos no Google. Esse ano desde que o Megaupload fechou, não baixei nenhum musical se quer. Os fãs ainda estão na esperança de que ele volte, ninguém tem opção melhor de se hospedar os arquivos grandes, e assim vamos levando. Pelo menos enquanto o Torrent ainda nos permitir. E assim foi o que aconteceu com os fãs assíduos das rádios naquela época, entre tantas coisas que hoje em dia ficam somente na memória.

“Emilinha e Marlene – As Rainhas do Rádio” é um deslumbre e fiquei muito feliz de ter ido assistir já tão perto de acabar. Na verdade só fui porque uma amiga ganhou uma promoção e me convidou, pois se não fosse isso teria perdido (ando numa fase sapato de pobre é tamanco, almoço de pobre é café). Teria perdido não só um trabalho tão bem feito, mas principalmente de conhecer a história de duas grandes artistas desse universo do qual a cada dia que passa, fico feliz de descobrir mais um pouco. No fundo sou preguiçoso, posso muito bem pesquisar mas não gosto. Eu prefiro quando alguém me incentiva, me recomenda, ou quando o trabalho em si é tão bom que ao sair do teatro já quero voltar correndo pra casa para pesquisar sobre. E foi o que fiz na madrugada de sexta por umas boas horas, pesquisando e curtindo a vibe daquilo que até ontem era completamente desconhecido para mim.

Seguem dois vídeos do espetáculo. No primeiro, o dia em que Marlene foi conferir a peça. 

O segundo uma das várias razões para eu ser Team Solange all the way.

Teatro Maison de France
Qui e Sex às 19h30 (R$60), Sáb às 20h30 e Dom às 18h30 (R$80).
Até a primeira quinzena de Março.

Retiro o que disse.


Minha animação mandou um beijo e foi para Xanacu. Danielle Winits é protagonista, e no agudo final só escuto Sabrina Korgut.  É isso mesmo produção? Acho que nossa Kira em vez de inventar um sotaque australiano, preferiu não ter voz. E o geral em si, não parece agradar muito.

Quem assistiu e quiser dar sua opinião, pode usar o espaço dos comentários. Eu tô achando que vou passar mesmo.

Não me julguem, mas…

Estou animado para assistir a versão brasileira de Xanadu.

É, existe um pequeno detalhe chamado Danielle Winits. Ainda mais que a mesma está ocupando patins já ocupados por Kerry Butler. Mas olha: Sabrina Korgut, Gottsha, Karin Hills, Fabrício Negri, Cristiana Pompeo e Sidney Magal.  Além de figurinos de Marcelo Pies, iluminação de Paulo César Medeiros e versões do Xéxeo.

Não dá pra se animar com esses nomes? Confesso também que ando na vibe ~~~have to believe we are magic, nothing can stand in our way~~~. Então é isso galera, bora acreditar. Vibes de amor, positividade e tudo de bom ’cause the greatest gift of all is coming, Xanadu!



Estreia prevista para dia 12 de Janeiro de 2012 no Oi Casa Grande.

It really was no miracle, what happened was just this.

“Oh Auntie Em, there’s no place like home!”. Assim termina o grande clássico que já encantou e ainda encanta gerações. Sendo um dos filmes mais assistidos de todos os tempos, “O Mágico de Oz” deu notoriedade ao grande talento de Judy Garland. Na época apenas com 16 anos mas já esbanjando um talento absurdo com uma voz poderosíssima. O que ninguém sabia até então foi o preço que ela pagou por conta disso e que, eventualmente, daria fim a sua vida. “Judy Garland – O Fim do Arco-Íris” retrata como foram seus últimos 6 meses, onde estava em turnê em Londres, e noiva de seu 5º marido Mickey Deans.

O texto é do autor britânico Peter Quilter, mesmo autor de “Gloriosa”. Só assisti essas duas mas você já percebe o dom que ele tem com peças autobiográficas. Existem diversas biografias da Judy, com trocentas páginas e os mais variados detalhes. Mesmo sem ter lido uma se quer, sei que ali no texto está todas as informações e referências necessárias para compreender o que de fato foi Judy Garland. Existem diversas cenas de discussões onde seu passado vem à tona, cenas bem intensas, pesadas, cheias de palavrões, mas não tem como querer camuflar isso. O espetáculo não teria o menor propósito nem sentido sem essas partes. As senhorinhas sentadas ao meu redor se sentiram meio ofendidas, coitadas, provavelmente não sabiam que ali não seria nada como em Kansas. Confesso que isso não me perturba nem um pouco, muito pelo contrário, conseguiu me emocionar das mais diversas formas. O único mínimo detalhe que me irritou mesmo é a repetição de “O Mágico de Oz”. Sempre que Dorothy era mencionada (já que é impossível separar essa personagem da vida da artista) logo em seguida vinha o nome do filme meio que duvidando da inteligência da platéia. Acho que até essas velinhas sabem quem é Dorothy, e se não sabem, ai o palavrão fica por minha conta porque puta que o pariu.

Só tenho 22 anos, sou um pirralho ainda no que diz respeito a muita coisa, uma delas sendo a própria filmografia da Ms. Garland. Só assisti “o Mágico” da Dorothy, “Meet Me In St. Louis”, “the Harvey Girls” e “A Star is Born”. Um dia pretendo assistir mais, e até aceito recomendações, mas acredito que esses já me bastam. São filmes que já assisti zilhões de vezes e verei sempre com um sorriso estampado pela beleza, talento, voz, interpretação, enfim, o esplendor que é Judy Garland. Claudia Netto ficou com a grande responsabilidade de representa-lá, e palavras não expressam o quanto sua performance é arrebatadora. Adoraria dizer que ela está idêntica a Judy, mas desculpa gente, não a conheci. Adoraria ter ido tomar um chá, ou quem sabe segurar uma lixeira enquanto ela vomitava dentro, mas nasci um pouquinho tarde demais e num local que tornaria tudo ainda um pouco mais difícil de se tornar realidade. O pouco que conheço são de filmes, onde ela interpreta personagens. Portanto não digo que ela está idêntica, mas a atuação da Claudia é tão primorosa que sim, ainda que Liza assista a peça e diga “minha mãe não era assim!” eu vou falar “aham Liza, senta lá” e preferir acreditar no trabalho da Claudia. Essa é a única Claudia que ninguém pode ousar mandar sentar lá. E tenho dito.

O que eu posso dizer também é que os trejeitos, a voz poderosa, o do pouco que eu sei, está sim no mesmo nível. Eu só realmente não entendo essa obsessão de ter que ser idêntico a alguém. É impossível ser igual, as pessoas são únicas e insubstituíveis. O trabalho do ator é representar, não ser cover. Claudia como a excelente atriz que é, representa fantasticamente bem. Até um pouco mais, ali ela vive. O mais incrível é que não é só interpretar Judy Garland. Tem Judy Garland sem drogas, Judy Garland com drogas, Judy Garland sem bebida, Judy Garland com bebida, Judy Garland com drogas e performando, Judy Garland sem drogas e performando, Judy Garland vulnerável, Judy Garland tentando não ser vulnerável, e por aí vai. Eu nunca vi nada parecido como a cena em que ela está no show completamente drogada e ligada no 220v. Eu fiquei cansado só de assistir a cena. Não consigo nem lembrar a música que ela estava cantando de tão hipnotizado que estava. É coisa de outro mundo mesmo. E dos filmes já citados que assisti, a minha cena favorita sempre foi “the Man that Got Away”. A letra e melodia são incríveis, a cena do filme em uma tomada só pegando todo o talento de Judy, é demais. Na peça, dentro do contexto, consegue ser ainda mais poderosa. Arrepios definem.

Patti LuPone, Audra McDonald, Barbra Streisand, Julie Andrews, e tantas outras divas que eu adoraria poder presenciar nem que fosse uma vez algum show ou peça ao vivo. E, quando eu menos espero, aqui no Brasil mesmo, assisto algo tão digno quanto por uma atriz que eu já conhecia de dois outros trabalhos, mas que jamais sonharia que ela tinha tudo aquilo dentro dela. “Over the Rainbow” que é uma música já tão conhecida, quase batida até, é outro momento antológico. Essa música me remetia a dois momentos muito importantes da minha vida, e agora, existe uma terceira. O momento que assisti a grande diva Claudia Netto cantando a alguns metros de mim. Novamente, palavras me faltam para um trabalho tão impecável e eu só posso mesmo é agradecer. Obrigado por ter me dado o prazer de assistir sua Judy. Obrigado por me fazer sentir coisas que não compreendo ainda e, quem sabe, talvez um dia compreenda. Obrigado por tocar no fundo da minha alma e me lembrar que ainda existe mesmo algo aqui dentro desse corpo. É mesmo uma honra para mim, pirralho aos 22, ter assistido uma apresentação dessas. Com certeza eu contaria aos meus filhos no futuro. Não pretendo ter e ainda que tivesse, aposto que eles não iam nem ligar – mas ainda assim, eu contaria.

Igor Rickli, recém-saído de Hair como nada mais nada menos que Berger, e agora já dividindo o palco com dois atores consagrados. Acho que isso já dá uma ideia de que ele não fica muito atrás não, muito pelo contrário, já mostra ao que veio. Se você contracena uma cena de briga com Claudia Netto e fica no mesmo nível, sim, merece meus mais dignos aplausos. E não é uma, são várias com uma intensidade incrível. Engraçado que eu li muito por cima os comentários sobre a peça na época da estreia, e ele sempre era tratado como vilão. Acabou o primeiro ato e eu estava super do lado dele, porque não tinha visto nada de errado até então. Pra aturar tudo aquilo que ele aturou, só com muito amor mesmo. Eu tava super confiante até que vem o segundo ato e fode tudo. O amor dele era mais por outra coisa que consegue mesmo destruir muitas relações. Detalhe que é muito do nada. Não tem nem uma transição, ele sempre foi aquilo mesmo e nos enganou, assim como deve ter sido com a Judy.

Só que ainda assim acho um pouco demais tomá-lo como vilão. Se é pra encontrar um culpado mesmo, seria a MGM. É uma situação bastante complicada. Ela achava que aquilo era amor, e se aquilo a satisfazia, não somos nós que temos que falar alguma coisa. Foi lhe oferecida uma outra oportunidade, e aposto que no decorrer da vida dela também, mas uma pessoa doente, não vê essas coisas com a mesma clareza. É muito triste pensar que tudo que ela queria era ser amada, ter uma vida tranquila, e ela seguiu o caminho que muitos fariam o impossível para conseguir. E, no fundo, nem mesmo o Mickey poderia dar o que ela queria. Por isso que eu tenho essa visão. Ainda o acho um filho da puta, mas ele não é o grande vilão da história. E agora voltando ao Igor, é sempre maravilhoso ver talento aliado a beleza. Até mesmo que se o Mickey fosse fisicamente como o Igor, aí meu filho, eu entenderia ainda mais a Judy.

O DE AZUL OU DE VERMELHO JUDY? AI QUE INDECISÃO!

Gracindo Junior já tem uma grande carreira mas eu nunca assisti nada dele no teatro (a não ser a participação em vídeo no “Por Uma Noite” – risos) e saí imensamente tocado com a sensibilidade e precisão do seu trabalho. Ele é Anthony, pianista dessa turnê, amigo de Judy, sendo um personagem fictício representando seu público gay e servindo também como uma espécie de narrador. Se você é homossexual e já assistiu qualquer coisa da Judy, já sabe bem como funciona. Existe uma química ali, alguma coisa que atrai, é quase uma coisa de alma. Se me perguntam eu não sei explicar, mas assistindo sua atuação, dá pra entender perfeitamente bem. Sua última cena com Judy é de quebrar o coração. Sua proposta é quase a vida perfeita e utópica que todos desejamos, mas que né, nem em Oz seria possível.

As músicas continuam em inglês, mas Claudio Botelho traduziu e adaptou o texto (podendo o detalhe da repetição ser dele já que desconheço o texto original) e modificou a escolha de algumas canções. Eu baixei a trilha original com a Tracie Bennett e realmente, existem músicas ali que nunca ouvi antes. A adaptação colocou músicas mais famosas para o público brasileiro e funcionou perfeitamente bem. No fundo, poucas são as músicas que entram com o contexto da peça. A maioria são pra ilustrar o show que acontecia na mesma época.

A direção, claro, é de Charles Möeller. Se ele consegue lidar com 67927632 hippies, 528572 crianças e o escambal no palco numa mesma peça, o que ele faz com apenas três atores já experientes é primoroso. A primeira transição do quarto do hotel Ritz para o Talk of the Town foi tipo “woaaaah!”. Acoplado ao Design de Som de Marcelo Claret que faz alguma coisa lá que o microfone fica mega potente, e a iluminação do Deus Paulo César Medeiros, a sensação é que você realmente adentrou ao show. É sublime, me arrepiava sempre.

Belíssimos arranjos e orquestração de Marcelo Castro, direção musical de Claudio Botelho e com músicos dignos mesmo de um Talk of the Town. Cenário detalhadíssimo e magnífico de Rogério Falcão (muito embora a Judy tenha certeza que o hotel diminuiu em!), figurinos des-lum-bran-tes de Marcelo Pies (sério, se eu fosse rico, andaria todo trabalhado no veludo do Mickey Deans), direção de movimento de Alonso Barros ♥ (os trejeitos, a mãozinha, tá tudo lá) e visagismo de Beto Carramanhos que não preciso falar muita coisa, assiste o final do vídeo que colo a seguir que você verá com os seus próprios olhos.

Os musicais encantam muitas pessoas pelo glamour e a grandiosidade no quesito técnico, e os próprios musicais de M&B nunca falham nisso. Os grandes clássicos da MGM tinham também essa marca registrada, era tudo muito luxo, poder, riqueza e sedução. Só que nada me encanta mais que um texto bem escrito e claro, bem executado pelos atores. Nesse caso é tudo muito forte, não tem como não se abater com a história dessa mulher. Eu saí do teatro meio sei lá, não chega a ser triste, mas é uma sensação diferente. Eu poderia até estar falando sobre outras coisas, mas na minha mente estava lá, refletindo, absorvendo, ainda impactado. Cheguei em casa e não conseguia dormir. Fiquei ouvindo Judy, Amy Winehouse, Florence and the Machine, Fiona Apple, etc, até cair no sono.

O que mais me fascinou é o fato dela não ser lembrada pelos problemas, pelas drogas, por ter se casado 5 vezes, por ser mãe da Liza Minelli, etc. Tem tudo isso que só faz até aflorar o respeito e admiração por ela, mas antes de tudo é o talento. Talento esse que está eternizado nos filmes e filmagens e que, ao assistir, eu simplesmente esqueço todo o resto. Eu já reassisti ”O Mágico de Oz” da Dorothy após a peça e na hora não me veio a mente que ela ali está sendo drogada para executar aquilo e todo o resto, só me veio mesmo a felicidade e a alegria de ver algo tão bonito. Porque apesar de tudo, é o mais puro talento.

Antes de ser um musical, “Judy Garland – O Fim do Arco-Íris” é o retrato da história de um grande ser humano que enquanto existir vida nessa planeta, estará viva também. Eu recomendo mesmo aos que vêem teatro só como forma de entretenimento. Se desafie a ir assistir algo diferente do seu preferencial, reflita depois. Com certeza você sairá tocado e isso te fará bem. A não ser que você seja o Homem de Lata. Aí é complicado mesmo.

A entrevista toda é muito boa apesar do Jô tentar estragar, mas caso sua internet seja muito lenta ou você seja bem preguiçoso, jogue nos 21 minutos. E aproveitando que já já vem o natal:

Teatro Fashion Mall, até 12/02/2012.
Qui 18:00 | Sex 21:30 | Sáb 21:00 |Dom 20:00

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