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Arquivo para a categoria ‘Sobre’

Critics! Who’d make a living out of killing other people’s dreams?

Gostaria de anunciar que não escrevo mais críticas teatrais. Na verdade, nunca escrevi. Eu expressava sim minhas opiniões acerca de uma peça (e muito raramente de filmes), mas nunca segui as regras padrões que uma crítica deve seguir. Sempre deixei claro não ser crítico profissional, muito menos fiz qualquer esforço que seja para tentar me equiparar. Meus textos sempre tiveram um tom de crônica, sendo um relato bem longo, detalhado, com linguagem informal, cômica e com diversos relatos pessoais. O intuito principal era tentar convencer o leitor a ir assistir algo. Ainda que fosse negativa, deixava em aberto para o mesmo ir assistir e comprovar com seus próprios olhos. Tudo isso não é possível de ser feito numa crítica profissional jornalistica já que o maior objetivo é simplesmente falar de forma bem coesa “gostei (ou não), destaques (positivos e negativos), vá ver (ou não)” num pequeno espaço fornecido pelo jornal. Se a categoria aqui no meu blog se chama “crítica”, é mais um comodismo. Preguiça de definir de forma extensa. É mais prático taxar dessa forma, mas eu sempre tive em mente que não estava de fato seguindo os moldes padrões jornalísticos, nem de um ensaio propriamente dito (onde o espaço já seria maior).

Não estou dizendo com isso que irei parar de escrever aqui. Isso eu ainda pretendo, muito embora em menor frequência. Só que a partir de agora levarei meus textos mais para o lado reflexivo, em vez de uma análise técnica detalhada como sempre fiz. Sempre gostei de detalhar muito pois achava ser a melhor forma de exemplificar meus argumentos. Só que ainda assim, as opiniões se divergem muito nesse assunto. Tudo é subjetivo. Ser bom ou ruim fica sendo sempre opinião pessoal. Só que, todo crítico precisa ser no mínimo uma pessoa estudada. Alguém com um gosto mais apurado e que, antes de tudo, ame o gênero. O amor ao gênero o fará ir infinitas vezes ao teatro, e a cada assistida de um espetáculo novo, sua visão se apura e suas análises se desenvolvem melhor. E assim, irá demonstrar sua opinião de forma que consiga convencer o leitor daquilo. Mesmo que o leitor não concorde com o que está escrito, ele irá conseguir enxergar a razão do crítico. Há um baseamento no qual o leitor percebe como o crítico chegou naquela conclusão.

Eu gosto muito de Britney Spears, isso me desclassifica como alguém que poderia ter argumentos para escrever algo sobre uma peça de Sondheim? Se eu estou num churrasco com meus amigos e começa a tocar “quê isso novinha, quê isso?” e eu resolvo ir dançar até o chão com todos eles, perco ainda mais meus critérios sobre qualquer assunto que seja? Alguns podem achar que sim, mas discordo. Reconheço muitos defeitos nas músicas da Britney, e sei que funk também não têm lá uma qualidade musical aceitável, mas tudo é relativo. Você gostar de algo muitas vezes vai além do técnico. Eu sei que é ruim, eu sei que é fraco, eu sei que é pobre, mas existe uma conexão. Um afeto. Um sentimento bom que vem dali. As vezes até por ser tão ruim, acaba ficando bom. Só que o crítico profissional deve separar bem isso. Numa crítica esse aspecto pessoal fica de fora, dando espaço para um olhar mais analítico.

Como disse, se a pessoa está indo a um churrasco, na sua mente já existe uma categoria da qual ela sabe o tipo de música que irá tocar lá. Goste ou não, já existe um tipo definido. Agora se a pessoa está indo assistir um musical, ela precisa se atentar ao gênero teatro musical.  Já existe a expectativa de se ouvir músicas que sejam daquele âmbito, daquele padrão. Se o musical é “American Idiot”, já se sabe que o gênero fica mais pro rock. Se é “Legally Blonde”, claro que é mais pro pop. Então se o crítico tem um perfil mais clássico estilo Rodgers & Hammerstein, é quase certo que não irá gostar muito. No entanto, o trabalho dele é de analisar se dentro daquele gênero (quer ele goste ou não), funciona. Se as músicas se integram com o texto, se elas são esquecíveis ou marcantes, se são envolventes, se possuem boas letras, melodias, em resumo, se são consideradas de fato como showtunes.

Então quando existe um musical que resolve modernizar esse estilo próprio, a crítica pode elogiar pela novidade, como pode detonar por não seguir o tal padrão. Quem estaria certo e quem estaria errado? Até que ponto a inovação é ruim? Eu acredito que a resposta seja uma mistura dos dois. Quando a inovação está ali com um propósito claro, só os extremistas-clássicos irão achar defeito. Como por exemplo “O Despertar da Primavera” na Broadway, que usou o artifício de microfones de bastão, juntou rock com um texto dramático, tudo devidamente justificado. Foi aclamado pela crítica, sendo uma delas do NY Times que alegou que “a Broadway nunca mais seria a mesma”. Se houveram críticas negativas, foi da minoria extremista. Assim, se chega a conclusão que o crítico precisa acompanhar as inovações. Inovar é se arriscar, mas todas as grandes descobertas da humanidade dependeram disso. O gênero não haveria se tornado o que de fato é se tivesse continuado da mesma forma de quando se originou, como nas operettas, burlescoe etc.

O gênero se modifica a todo instante e as mudanças ocorridas no decorrer dos séculos são palpáveis. “the Book of Mormon” jamais teria sido montado alguns anos atrás, não haveria público para isso. Assim como “[title of show]” ainda não possui um vasto público aqui no Brasil. “Anything Goes” possui um texto tão datado que parte das piadas da remontagem são engraçadas exatamente por serem datadas! E como analisar a direção de John Doyle colocando atores pra tocar os próprios instrumentos em “Sweeney Todd” e “Company”? Que critério se usa para poder argumentar esses quesitos? Como já disse, o crítico é um ser pensante. Ele possui um conhecimento que o distingue do público. Existe uma parte teórica que foi estudada, assim como ele exerce uma atividade constante em assistir diversas peças que nem todos do público podem (seja por tempo, dinheiro, etc). O objetivo é que ambos, o crítico e gênero, se desenvolvam.

O crítico deve levar em conta todas essas considerações. Seus textos serão lidos tanto pelo público mais entendedor, quanto pelo público mais leigo. O público não precisa saber nada de uma peça antes de ir assistir, porém, pode perder muitos detalhes que seriam interessantes de serem absorvidos. Como por exemplo, alguém que venha a perder o contexto histórico de “Cabaret”. Acreditem, existem pessoas leigas em diversos assuntos. Essas pessoas compreendem o roteiro básico, como o envolvimento dos personagens, mas perdem todo um contexto que torna daquela obra mais especial. É o criticismo de “Cabaret” que torna daquilo um marco, além de todos os outros detalhes assistidos. Se alguém dessa platéia que se encontra nessa situação resolve dar uma pesquisada maior, pela leitura de uma boa crítica a pessoa consegue perceber coisas novas e se interessar ainda mais pelo gênero. O crítico sim, possui a obrigação de possuir o maior conhecimento possível acerca de uma obra. Todos os contextos, visões e detalhes possíveis precisam ser expressos para assim, conseguir chamar a atenção desses leitores interessados. Existem ainda os leitores que nem gostam de teatro, mas ao lerem aquela análise, possam se sentir tentados a darem uma chance.

Existe também o contrário, leitores que irão deixar de ir ao teatro a partir dali. O que é engraçado, já que novamente, é um assunto subjetivo. O crítico não ter gostado não implica que ninguém também não possa apreciar com outros olhos. Mas com tantas peças em cartaz, dado até mesmo os valores dos ingressos, essa análise é necessária. Eu nunca falo “não vá assistir!”, eu prefiro dizer “eu odiei por isso, isso, isso. Comprove você mesmo e comparamos depois”. Mesmo uma experiência ruim chega a ser válida, pois assim temos mais referências ao que de fato é bom. Sendo assim, com toda sua inteligência, o crítico precisa saber passar isso para o texto de forma correta. De nada adianta um professor muito inteligente, se ele não sabe dar aula, se ele não possui didática para isso. O crítico precisa saber externar seu conhecimento de forma clara que atinja qualquer tipo de leitor, inclusive os mais ignorantes. Muitas pessoas não gostam de musicais por acharem sem sentido o personagem começar a cantar “do nada”. Logo, só de ver que se trata de um musical, esse público já possui como expectativa uma crítica negativa. A ignorância está no aspecto delas não compreenderem que se trata de um gênero. Porém, um bom crítico consegue expressar bem, mesmo em suas críticas negativas, os fatores daquilo ser ruim (não só pelo fato de ser um musical) o que já abriria mais a mente deles.

Quando se fala em crítica no Rio de Janeiro, o primeiro nome que vem à cabeça é Barbara Heliodora. Amada por uns, odiadas por outros, temida por todos. Comentarei alguns trechos de suas críticas, assim como de outros críticos também, mas já adianto que não estou desmerecendo o trabalho de nenhum deles. É mais uma forma de debate e reflexão acerca de alguns de seus textos. Barbara Heliodora possui longos anos de estrada nesse ramo, e se é aclamada pelo que faz, é por ser boa. Não existe ninguém com maior conhecimento de teatro que a própria e eu não conseguiria escrever metade do que ela escreve. Seria até pretensão demais achar algo do tipo. Seu conhecimento Shakesperiano é de dar inveja em qualquer um, porém, no gênero musical,  consigo encontrar alguns detalhes que me fazem refletir. Usarei exatamente esses trechos somente com o intuito de exemplificar alguns aspectos que gostaria de comentar.

Na minha opinião, existem cinco tipos de críticas: a) as justas b) injustas c) duvidosas d) desinformadas e) desnecessárias. Explicando:

a) as justas

É quando a pessoa lê e concorda. As vezes ela nem viu a peça ainda, mas já consegue sentir ali uma veracidade. E depois de assistir, ainda que não concorde com todos os aspectos, compreende perfeitamente bem tudo que foi explicado ali. Exemplos:

“Um Violinista no Telhado” – Barbara HeliodoraSe você particularmente não gostou da peça, você sabe o motivo. Não gostar de drama seria um dos primeiros casos. Ou o elenco, direção, etc. Agora é inegável a qualidade que essa peça possui. É uma obra-prima. Não existem recursos para dizer que ela é ruim. A montagem poderia ser ruim, aí são outros quinhentos. É igual falar que “Hamlet” é ruim. É heresia falar algo do tipo, mas que existem montagens ruins, existem. Só que não é o caso aqui, não é o que ocorre com o nosso “Violinista no Telhado”. Muito pelo contrário. Ainda considero o melhor musical nível Broadway já montado aqui. Como a própria Barbara menciona, melhor peça da dupla até então. Ouvi de poucas pessoas o contrário, mas em todas elas foi perceptível a inferência do gosto pessoal, passando por cima da análise crítica que já mencionei.

“Tim Maia – Vale Tudo” – Tânia Brandão. Nessa eu me incluo comentando mais uma vez a inferência do gosto pessoal. Assisti o espetáculo, gostei, mas não fiquei tão encantado quanto todos. A razão é exatamente por não ser muito fã de MPB. Só que diferente de muitos, eu reconheço na peça tudo que Tânia Brandão cita em sua crítica. É inegável que é uma peça excelente, que Tiago Abravanel dá um show, que é um marco no teatro musical brasileiro. Eu posso não gostar do estilo, mas reconheço e entendo cada crítica positiva que a exalta. A própria Tânia com seus poréns, também faz o mesmo. Acho isso corretíssimo, aliás, a considero uma das críticas mais justas nesse aspecto.

Ser justo não quer dizer necessariamente só elogiar. Se a peça é pavorosa, é necessário detonar no mesmo nível. Logo, aqui também entrariam as críticas negativas para “Spider-Man: Turn Off the Dark”, “RENT: Remixed”, etc, etc, etc.

b) injustas

De nível Broadway temos “Caroline or Change”, “Parade”, “Bloody Bloody Andrew Jackson” e algumas até sobre “Next to Normal”. Se vocês os conhecem, sabem que são musicais que podem até possuir algumas falhas. Só que detonar a obra inteira já fica sendo um pouco demais, até mesmo levando em consideração a tal modernidade que elas trouxeram e que já citei. De musicais brasileiros eu não consigo pensar em muitos exemplos agora, mas com certeza o maior de todos seria “Os Fantástikos”.

Não assisti a peça ao vivo, mas assisti em vídeo. Possuía sim uns probleminhas, mas achei uma montagem justa. Isso em vídeo, ao vivo poderia gostar ainda mais. Deve ser levado em conta a época. Rio de Janeiro, 1996. Não havia se quer estrutura, era praticamente impossível montar isso aqui. Não tínhamos teatro musical como gênero já estabelecido. A montagem original ficou 42 anos em cartaz no Off-Broadway, atualmente com um revival que teve sua estreia em 2006 e sem data pra fechar. Isso prova que a obra em si é excelente, só não foi bem recebida aqui pelo momento. Assim como não havia um público formado, aparentemente também faltavam críticos que compreendessem o gênero em si. E por conta da idade, não encontrei nenhuma crítica na internet. Mas sei que elas, inclusive a da Barbara, detonaram. Sei por conta do relato do próprio Claudio Botelho no livro “Os Reis dos Musicais”.

Esse é o tipo de crítica que eu considero injusta exatamente por não ter levado em consideração todo esse contexto. Deveria ao menos exaltar a tentativa de fazer algo parecido, mas aposto que ocorria o contrário. Todos deviam criticar por estarem tentando copiar algo desse mercado americano (e que na época, deviam defender que não tinha nada a ver com o Brasil). Nenhum crítico pode querer detonar uma montagem de escola tendo em vista todos os recursos e estrutura que eles possuem. Eles nem devem ir assistir pra começo de história. Não é o caso aqui, mas era uma montagem simples também. Nada começa de um dia pro outro, existe todo um processo que deve ser respeitado. Hoje em dia, por já estar consolidado, não precisa pensar nesses poréns. Claudio Botelho e Kiara Sasso são nomes consagrados (Charles Möeller ainda estava nos figurinos). Gostar de musical não é mais tabu. Mas naquela época deveria ter sido pensado sim. Se houvesse uma remontagem, as coisas seriam diferentes. Na época eles não passavam de loucos tentando o impossível, e ainda precisavam ler esses tipos de críticas injustas que em vez de tentar criar um novo público, ainda os assustava.

Eu tomo isso como base sempre que algo muito diferente surge e as pessoas caem de pau em cima. Um dia, o diferente pode virar o comum, e lendo os registros antigos, iremos perceber novamente (como sempre percebemos) o quanto os críticos foram completamente relapsos num tópico tão básico. É questão de abrir a mente mesmo, só que esse é um aspecto difícil para alguns.

Existem também as críticas que exaltam produções que não merecem, mas essas eu prefiro deixar já na próxima categoria e explicarei o porquê.

c) duvidosas

Como já disse, falar o que é bom ou ruim é sempre subjetivo. Só que existem certas coisas que são indiscutíveis. Como por exemplo:

“Xanadu” por Barbara Heliodora: “Danielle Winits, Thiago Fragoso e Sidney Magal, assistidos de perto por Sabrina Korgut e Gottsha, formam um centro firme, nas vozes e atuações, (…)”.

Nessa frase temos cinco pessoas completamente distintas num mesmo grupo. São cinco atores e atrizes com experiências diversificadas. Uns com mais experiência em teatro musical, outros com mais experiências em outras áreas. Já considero errado se levar isso em consideração. Agora, quando nessa lista existe uma pessoa especial chamada Danielle Winits, não existe condição de querer equipará-la a ninguém. Caso não tenha assistido a peça, dê uma escutada básica aqui (caso aguente):

“Jesus, o que é isso?!” é a primeira coisa que você provavelmente irá pensar. Depois já é possível pensar em muitos adjetivos, muitos mesmo, mas nada que chegue perto de firme. Não tem nada de firmeza aí, muito pelo contrário. A voz parece que vai sumir a qualquer momento. Isso é um fato comprovado. Não tem quem consiga analisar isso como firme. Não chega nem a ser aceitável, é extremamente ruim e vergonhoso. Thiago Fragoso e Sidney Magal são aceitáveis quando não existem parâmetros. Quando são colocados no mesmo grupo que Sabrina Korgut e Gottsha, as coisas mudam. Considero até uma ofensa ao talento e técnica das duas. Seria igual falar “Barbra Streisand e Kelly Key possuem vozes firmes”. Simplesmente não dá.

“Os Produtores” também por Barbara Heliodora: “A montagem é uma réplica exata da encenação realizada em Nova York, com os vários cenários e os incontáveis figurinos compondo o universo do texto (…)”.

Foto da cena “I Wanna Be a Producer” na Broadway:

A mesma cena no Brasil – pule para o momento 03:15.


E aí eu pergunto: é idêntico mesmo ou só eu estou vendo essa tela pintada onde deveria ser um letreiro luminoso?

Ainda que eu nem tivesse assistido a peça aqui, eu já saberia que não teria condições de ser idêntico. A peça original estava num teatro propriamente dito, na Broadway, com uma qualidade técnica que é impossível de se ter numa casa de show como o Vivo Rio! O que eu vi foram cenários balançando de tão finos que pareciam feitos de papelão. E óbvio que são alterações necessárias para comportar tudo naquele ambiente pequeno. Não estou entrando nem em mérito de ser ruim ou não, mas idêntico não possui as condições mínimas de ser! Até mesmo quando a peça entre em tour, ela não consegue ser idêntica por esses fatores.

Então dentro da subjetividade, existem também os fatores objetivos. Já deixa de ser questão de opinião, vira um fato comprovado que nega o que foi dito. Por isso considero a crítica injusta sim, só que muito mais duvidosa. Eu fico na dúvida da razão do crítico ter dito algo tão descarado e mentiroso. Seria preferível ter omitido. Porque né, se for pensar nesses méritos ditos aqui, Falabella conseguiria a proeza de montar “O Rei Leão” idêntico ao da Broadway num teatro de arena estilo SESC.

d) desinformadas

Como já disse, o crítico precisar saber tudo e mais um pouco acerca do que vai relatar. É o mínimo necessário. Se não sabia antes de assistir, que ao menos se dê ao trabalho de pesquisar depois para assim não cometer certas gafes. Como por exemplo:

“O Despertar da Primavera”, também da Barbara. ”Para os que pensam no século XX como todo ele uma época de liberação sexual, é bom lembrar que Frank Wedekind escreveu sua peça em 1906 (…)”.

A peça foi na verdade escrita entre 1890/1891, já fica sendo um século anterior ao que ela mencionou. Em 1906 foi a primeira encenação da peça. A data inclusive se encontra até mesmo no programa, existem duas páginas exclusivas sobre a ordem cronológica da peça original até o musical. Era só ter dado uma lida, questão de minutos mesmo. E se não pegou o programa, é só jogar no Google. Wikipédia tá aí pra isso. O que não dá é cometer erros assim. Em termos de dramaturgia, isso é bastante tempo. São 15 anos de diferença. Se for analisar agora, 15 anos atrás M&B estavam começando ainda com “As Malvadas”. Analisa a situação agora e me diz se esse pequeno detalhe de tempo não é importante.

“Xanadu” por Teresa Mascarenhas, publicada no JB. “(…)como o número de sapateado, que deveria ser executado por Zeus, Sidney Magal (que no filme é feito pelo gênio Gene Kelly) mas o personagem acaba sendo dublado toscamente e substituído por um bailarino do coro”.

Conhecer o musical original não é obrigatório, assim como comparações com o filme, livro, etc. Não vejo problema quando se faz da maneira correta, que não foi o caso dessa comparação citada. Nesse caso específico, ela comparou uma cena do musical com a do filme. No filme, o personagem do Gene Kelly era sim quem sapateava. No musical não seria o Sidney Magal pelo próprio contexto do roteiro da peça. Naquela cena, está sendo mostrado o passado do personagem. Quem aparece em cena é uma versão mais nova dele, sendo assim executada por Fabrício Negri (como na Broadway era representado por Curtis Holbrook). Analisando pelo roteiro já bastava, mas se a crítica tivesse ao menos jogado no youtube, teria visto que a cena na Broadway também não é executada pelo personagem mais velho (que aliás, se chama Danny. Zeus é o personagem que só é interpretado no final, nessa cena em questão ainda é o Danny).

Da forma que está escrito fica parecendo que o diretor daqui cometeu um pecado mortal, quando na verdade já é algo que veio do original. Se o crítico nunca viu a peça original, o mínimo seria se dar ao trabalho de pesquisar antes de comentar. Ou ainda que fosse mais abrangente como quem diz “problema esse que não sei se foi inserido na adaptação ou se já vem da montagem original”. Não é possível falar com propriedade sobre algo que não se tem certeza, logo, é preferível pesquisar antes. Caso o crítico não encontre, deixe em aberto. Se nem for tão importante, omita. É preferível do que falar com uma falsa propriedade que pode ser rebatida pelos leitores.

e) desnecessárias

Existem aquelas “críticas” que não merecem ser lidas nem na fila de espera do hospital ou aguardando o cabeleireiro. O melhor exemplo é a de Dirceu Alves Jr. para ”O Despertar da Primavera”, postada na Veja SP.

“(…) Os diretores Claudio Botelho e Charles Möeller conquistaram prestígio ao defender a essência do gênero musical com inventividade, cuidado e boas atuações. Esta montagem, no entanto, marca uma derrapagem na trajetória da dupla. Trata-se de uma produção difícil de ser encenada. A começar pelas letras das canções, que não permitem o coloquialismo ao qual Botelho e Möeller estão habituados. (…) o espetáculo mostra-se irregular principalmente por causa dos atores. Enquanto Pierre Baitelli e Malu Rodrigues interpretam cheios de garra seu trágico casal, o restante se parece menos integrado”.

Um texto desses demonstra que se trata de alguém que definitivamente não entende do assunto. Ele fala da inventividade como algo positivo, em seguida considera o trabalho mais autoral e inventivo da dupla como algo negativo. Não existe se quer uma justificativa. Usa o argumento do coloquialismo que era trabalhado antes. Novamente, se ele quer algo inovador, a tendência é buscar coisas diferentes, não? Ainda assim, me indago se “essa merda de vida”, “se fodeu rapaz”, entre outros, realmente não entram na categoria coloquial. Por fim, falou do elenco. Um dos maiores triunfos da montagem foi exatamente o elenco jovem e talentoso. Nem Rodrigo Pandolfo se salvou na sua análise, logo, dispensa mais comentários. Em um parágrafo apenas ele conseguiu demonstrar que não entendeu foi nada do que assistiu.

Gostaria mais uma vez de deixar claro que não quis desmerecer nenhum crítico aqui citado, mesmo o Dirceu Alves Jr. que escreveu o parágrafo mais errado que já li na vida. Ele pode ter escrito outras críticas das quais nunca li, portanto, não entra aqui em questão o mérito de sua profissão, seu talento, nada. Usei um dos seus textos para exemplificar uma das categorias das quais quando leio uma crítica, arquivo mentalmente. Usei muitos exemplos da Barbara Heliodora também, que é tida como a maior crítica aqui do Rio de Janeiro (ou, acredito eu, nível Brasil). Não me sinto um herege ou nada parecido pelos comentários que fiz. Acredito ter explicado bem meus pontos de vista e era somente essa minha intenção.

Aqui no Rio saem várias críticas bem compridinhas até, e em vários sites, jornais, blogs, etc. O que já não é tão aparente em São Paulo, pelo menos na minha visão. Engraçado também que as críticas de lá parecem não possuir poder nenhum em cima da platéia. Minha teoria é que os pobres paulistas já devem estar acostumados com as atrocidades que são publicadas (em sua maioria pela Veja) então nem se dão ao trabalho de ler. Sempre que algo estreia por lá, tento dar uma procurada e encontro tão poucas e curtas que nem valem a pena ser lidas. Costumo mesmo ler as de Rubens Ewald Filho. Gosto de seus comentários, embora o próprio não se considere crítico de teatro, e sim, como todos sabemos, de cinema.

Dos musicais do West-End eu nunca leio, as vezes até esqueço que existe. Agora os da Broadway eu dou uma olhadinha aqui e ali. Houve uma época que eu era mais viciado nas do NY Times, mas não mais. Só existe um crítico que escreve pra uma coluna do NY Post que eu de fato gosto de ler: A coluna do Michael Riedel.

Ele é incrível. Detona, mas detona com base. Tudo que ele diz tem explicação e faz questão de mostrar isso. Ele pode ser extremamente ácido as vezes, e levar alguns fatores de backstage para suas críticas, o que eu já discordo um pouco. Porém, ainda assim, é o tipo de opinião que faz seu leitor refletir. Já deixa de ser também uma crítica jornalistica, já que o próprio possui uma coluna, um espaço que ele pode abordar mais profundamente e também com um lado reflexivo. Existem dois outros colunistas com ele, então ainda dá pra comparar sua visão com a dos outros.

O mais legal também é que nem ele se leva a sério. Num dos seus posts, ele comenta sua participação em “Smash”, onde foi citado como um “Napoleonic little Nazi”. O próprio diz que nem se ofendeu. Ele respondeu que como ofende as pessoas o tempo inteiro, nada mais justo que os papéis se invertam ocasionalmente. Ele também não tem ego inflado. Se tem que voltar atrás, ele volta. Ele já chegou a falar coisas que não se concretizaram, e então simplesmente comentou sobre até de forma positiva. Tem quem prefira ter sempre a razão, tem quem prefira ser contrariado. É isso que eu admiro. Não acho que o crítico tenha que ser o vilão, que fala mal pelo simples prazer de falar mal. Chega a ser masoquismo ficar se torturando de peça ruim em peça ruim só pra detonar tudo depois. Precisa ter o amor pelo gênero. É o amor que impulsiona tudo, inclusive a decepção e a raiva que se transmite para a crítica.

Nossos musicais já chegaram no nível Broadway, isso é inegável. Qualquer pessoa que já assistiu algo lá fora pode dizer isso. Sem contar outros fatores como “Judy Garland – O Fim do Arco-Íris” ter sua estreia aqui antes mesmo de estrear na Broadway. Fomos também o primeiro país a ter uma montagem internacional de “Priscilla” fora do eixo Broadway, West-End e os tryouts da Austrália. “A Família Addams” tão recente, fechou na Broadway e já está presente nos nossos palcos com diretores e equipe técnica do original. Isso é o brasileiro mostrando do que é capaz. Agora o que realmente falta é uma crítica mais especializada nos musicais exatamente para termos críticas mais justas sobre essas montagens que não param de surgir. Aqui infelizmente ainda existe o preconceito entre peças e musicais. Está sendo diminuído, mas ainda precisa mudar.

No Tony Awards, as premiações de peças são feitas antes dos musicais. O musical é a grande estrela. A marca registrada de NYC são os musicais. Aqui no Brasil as peças ainda possuem maior destaque, mas o errado é o fato das premiações de teatro praticamente esnobarem os musicais. Claudia Netto não ganhou um prêmio se quer por sua Judy Garland, mas exatamente dada a preferência pelas peças. Se existisse a categoria específica para musical, com certeza era dela. Mas enquanto não existir, a tendência é dar preferência e valorizar mais os atores e atrizes de peças não-musicais. Antigamente era compreensível, mas agora já temos bastantes espetáculos musicais que brigariam por um prêmio exclusivo da categoria. Se a gente for contabilizar todos que são encenados aqui no Rio e/ou em São Paulo durante um ano, já dá mais de 5 indicados. Por que não também valorizar esse ator, que além de ator, é cantor, dançarino, patinador, equilibrista, puppeteer, etc, etc, etc?

Finalizando, gostaria de enfatizar o que mencionei no começo. Nunca nem tentei me equiparar a um crítico profissional pois sei que não estou apto para o trabalho. Detesto a norma culta, não sei se tenho a capacidade de ser coeso e impessoal, muito menos sei se apresentei aqui todos os tópicos necessários para de fato escrever uma boa crítica. Coloquei meu ponto de vista acerca do assunto, mas nunca estudei de fato. Posso estar errado. Não tenho as técnicas necessárias, teria que estudar muito mais, etc, etc, etc. Tenho ciência absoluta disso, antes que qualquer pessoa venha com cinco pedras na mão. Como público que sou, tenho esse direito de opinar e refletir.

Aos que gostavam dos meus textos, mesmo sabendo bem como eles eram, meu mais singelo obrigado. Foi divertido enquanto durou. Se eu cheguei a essas conclusões todas, foi aprendendo no processo. A melhor forma de aprender é errando, debatendo, construindo ideias. Por isso mesmo que agora quero seguir um caminho diferente. Esse caminho mais reflexivo acerca do tema, da proposta, do que aquilo vem a adicionar na minha vida. Claro, faço questão de exaltar quem mereça. Jamais poderia refletir sobre “Judy Garland” sem exaltar Claudia Netto. Ou “Cabaret” sem as coreografias fantásticas de Alonso Barros. Só não irei ser tão detalhista quanto antes. Usarei bastante do artifício da omissão. Mesmo que goste, irei omitir. Agora “só” gostar não é mais o suficiente. Cheguei no nível de necessitar que ultrapasse essa barreira.

Sei que nesse novo caminho irei cometer erros, alguns acertos e possíveis debates (internos e/ou externos) mas acho que faz parte do processo. Eu realmente espero que gostem. Mas, se não gostarem, vocês sempre terão os críticos profissionais.

Férias… quase na hora de voltar…

Sim, leitores, nós não abandonamos o 9PFT, o Blog simplesmente está curtindo um período de descanso… em breve estaremos de volta… Fiquem ligados pois esse ano não faltam musicais no brasil e lá fora.

Abreijos,

Charles e Leandro

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Novo Link

Queridos Leitores,

Para dar início a comemoração das 100.000 visitas ao nosso Blog, resolvemos tomar vergonha na cara a adquirir o domínio. Agora vocês podem acessar nosso Blog pelo link de sempre ou pelo novo link: www.9pft.com

Porque somos tossers felizes, não importa o elenco!

Bem mais fácil, né?

Abreijos,

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Parabéns para a GEENTEE!!! Um ano de 9PFT!!!

Hoje nosso Blog completa seu primeiro ano de existência. E para comemorar, reuni fotos de vários bolos Broadway que já valem como ideia para a minha próxima festa surpesa, tá?

Agradecemos as quase 60.000 visitas que tivemos ao longo deste ano. Cada um que passou por aqui, deixou comentários ou não. Falou conosco nos encontros ou não, adorou o que escrevemos ou não! Participaram dos comentários, ajudaram a criar polêmicas, contribuiram para mantermos o diálogo e o debate sobre o Teatro Musical, que tanto admiramos, deram dicas, nos apresentaram a outras pessoas que pensam como a gente ou totalmente diferente da gente. Agradecemos a alguns críticos de teatro por deixarem lacunas em seus textos para gente que não tem rabo preso escrever o que bem entende e a outros por estarem do nosso lado mostrando que estamos no caminho certo e que precisamos aprender muito ainda. Agradecemos especialmente aqueles que sempre nos apoiaram: Família Von Kutt, Bibi, Leo Ladeira, Leco, Moeller, Tania, Galera de Sampa que sempre aparece por aqui, Galera do Shopping Barra Square (que anda meio sumida), aos atores/cantores e as cantrizes que sempre nos recebem muito bem ao final dos espetáculos e passam por aqui para deixar um recado. Aos fãs de musicais que assim como nós, são chatos e exigentes mesmo! [ORQUESTRA COMEÇA A TOCAR] Quero aproveitar então para mandar um beijo pra minha mã…

 

Não podia deixar de ter um bolo Avenue Q, visto que o Blog começou no concurso de Blogs promovido pela produção da peça e depois passou a ser um Blog com resenhas e críticas de teatro, especialmente musicais, nosso gênero favorito.

Mas como grandes [tossers] que somos, pra quem não sabe ainda, [tosser] é como são chamados os fãs de [title of show]. E como um bom [tosser] nosso bolo favorito para a comemoração deste incrível ano é:

“Let our Blog be the rice krispy treat!”

E que o Segundo Ano seja melhor que o primeiro!!!

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Willkommen, bienvenue, welcome.

Sejam bem-vindos (sim, ainda estou ignorando a nova regra ortográfica) ao 9 People’s Favorite Thing, um blog onde irei relatar basicamente sobre coisas que eu amo (e são tudo pra mim, hahahaha, desculpa, não resisti) e que gostaria de compartilhar com outras pessoas. Basicamente são espetáculos teatrais (na sua grande maioria, musicais), filmes, séries, música, enfim, o que der vontade de escrever mesmo…

O nome é baseado em uma música do espetáculo [title of show], onde resumidamente, conta a história do processo de criação de um espetáculo musical. E no final, quando tudo está pronto e bate o nervosismo em um dos personagens, o outro vem com essa canção e diz para acalmá-lo: When we set out to write this musical, we said we’d write a show that we wanna see. We knew we’d never please everyone, remember that day at Gristedes. You said to me:  I’d rather be nine people’s favorite thing than a hundred people’s ninth favorite thing.

(Tradução: Quando decidimos escrever esse musical, dizemos que escreveriamos um espetáculo que nós iriamos querer assistir. Sabiamos que nunca agradariamos a todos, lembre-se daquele dia no supermercado Gristedes,  o que você disse pra mim: Eu prefiro ser a coisa favorita de 9 pessoas do que a nona coisa favorita de 100 pessoas)

E é exatamente isso que eu quero para esse blog, não sou crítico profissional (muito pelo contrário, mais informal do que eu, impossível) nem sou melhor do que ninguém para que o que eu escrever aqui seja tomado como verdade absoluta. Sou simplesmente mais um no meio de tantos que gosta de escrever e compartilhar minha visão sobre as coisas, e se eu conseguir atingir essas “9 pessoas”, já estou mais do que feliz.

Quanto ao musical, caso alguém tenha ficado curioso, infelizmente não teve muito sucesso pois em tempos de crise, um espetáculo sem cenário, com 4 atores e um tecladista, não teria como ir pra frente, por mais genial que fosse (digo, é). Mas eles conseguiram muito mais do que eles queriam, como você pode conferir no vídeo abaixo que foi feito logo após o fim do espetáculo (na Broadway, ainda resta uma esperança de voltar em algum outro circuito um dia).

(e sim, eu apareço no vídeo, hahahahahaha)

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