
Como vocês mesmos já podem ver, o marketing visual da peça é terrível. Se fosse pra analisar só pela foto, eu sem dúvidas nem iria, mas ainda assim ignorei esse detalhe e fui assistir “Por Uma Noite” por três motivos. Primeiro porque sou fã de musicais, tentar conferir os musicais em cartaz aqui é o mínimo. Segundo porque conta com Jules Vandystadt e Rodrigo Cirne, atores que integravam Beatles num Céu de Diamantes e por ledo engano pensei que isso traria alguma credibilidade ao trabalho. E por fim, porque por incrível que pareça tinha muita gente falando nele atualmente (o marketing *cof falso cof* nesse sentido é ótimo) e me perguntando se eu já tinha assistido, se era bom, etc. Para essas pessoas eu venho agora e respondo: não, não é bom. Está muito longe de se quer ser ao menos ruim…
Depois de ouvir os três sinais mais ensurdecedores que eu já ouvi num teatro, começa a rodar um vídeo tocando “Oh What a Night” e mostrando a ficha técnica do espetáculo, conseguindo ser mais brega que a abertura do programa do Amaury Jr. Ainda assim, tinha esperanças… vai que essa breguica era proposital? Mas não, com um minuto de peça rolando você já sente o nível do amadorismo.
O elenco estava passando o texto como se estivessem num ensaio, lá pro 5º corridão numa madrugada… e a suposta sinopse é que um grupo de jovens músicos integrantes da orquestra “Fantasma da Ópera” se envolve na encenação de um musical consagrado, graças a John, que coloca em prática a realização do seu sonho. Clichê, sim. Mas consegue ser muito pior do que vocês imaginam…
O roteiro é uma desculpa ridicula para tocar músicas conhecidas de musicais. Logo depois da primeira cena falada, alguém fala “ah, você ia arrasar cantando essa música, tenta ai” então a menina vai e começa a cantar Somewhere Over the Rainbow. Depois de um tempo tudo se apaga, e aparecem 3 dançarinos vestidos de Espantalho, Leão e Homem de Lata, e a mesma menina reaparece terminando de cantar a música. Sim, wtf? E o “musical” é isso o tempo inteiro, música atrás de música com desculpas terríveis pra se tocar a tal música.
Coisas como “ontem sonhei com Pequena Sereia” (toca Under the Sea), e casos mais bizarros ainda como “minha avó morava em Baltimore com minha mãe, que queria ser uma estrela e fracassou e blá blá blá” e vem a faxineira (sim, a faxineira) e fala “posso cantar Good Morning Baltimore para saudar Baltimore e sua avó, mãe, whatever, blá blá blá?”. O mais ridiculo e nonsense sem dúvidas foi quando um carinha dá em cima da mulher, e ela até então não quer… então ela começa a cantar And I Am Telling You. Claro, uma música em que a mulher fala que não vai embora mesmo que o cara não a queira, super no contexto da peça, em? Depois que ela termina de cantar, eles se beijam e começam a ficar. Oi? Sem contar que ela é branca. Não chegou a ser de um todo ruim vocalmente, mas essa não é uma música para uma branca cantar, assim como outras e essa menina sempre estava no meio…
Pior que as desculpas esfarrapadas, eram os que nem desculpa dentro de um contexto tinham. Conseguiram usar Seasons of Love e The Nicest Kids in Town como músicas de passagem de som, testar mixagem, coisas do tipo… é irritante porque o texto falado quando não era pretexto pra desculpa, eram piadas piores que do Zorra Total. Todas, todas as “piadas” são iguais. Sempre eram perguntas que davam espaço pra garota que faz papel de burra retrucar alguma idiotice ou algo do tipo. Os personagens se chamavam Olivia, John, Julie… ou seja, zilhões de piadas sem graça com Olivia Newton-John, John Travolta e Julie Andrews. E todos zoavam o John por ele ser pobre e não ter dinheiro nem pra comprar um sanduiche. Quando ele conta sobre a história da mãe dele (que é patéticamente ridicula), todos ficam com pena e uma das meninas (acho que a burra) ainda fala “quer um sanduiche? dois sanduiches?”, argh!
Mesmo os próprios Jules e Cirne conseguiram ficar péssimos. A diretora deve ter falado “Jules, sabe aqueles idiotões de high school que fazem de tudo pra aparecer? Então, seja exatamente isso com uma pitada de garoto pobre sonhador” e pro Cirne ela falou “você vai aparecer na peça depois de uma hora de duração, pra não fazer nada demais e ainda fazer piadas dizendo que você não pode ajudar com dinheiro, mas que no resto você tenta”. Entendo que pra ator, trabalho é trabalho. Mas depois de uma belíssima temporada de Beatles em Lyon, cair nessa montagem fim de carreira é demais…
Preciso dizer algo sobre cenário, figurino e iluminação? Tudo no melhor estilo “montagem de final de curso” e ainda assim, levando em consideração que é um curso muito ruim… 2 telões com imagens patéticas (quando tocou Fantasma da Ópera, ficava mostrando a máscara com zoom in, zoom out) e quase sempre as pessoas tampavam os telões com uma cortina preta. O fundo branco com aquela iluminação de festa de 15 anos e bem, se você já foi (nem que seja obrigado ou por consideração ao seu amigo aspirante a ator) a uma montagem amadora, sabe bem do que estou falando!
Uma cena que merece destaque é Under the Sea. Provavelmente uma das cenas mais ridiculas e de vergonha alheia que eu assisti na vida. É encenada pelo Jules e pelo carinha que queria a menina que eu mencionei no And I Am Telling You. Eles tiram a camisa, revelando camisetas de listras brancas/azuis sem manga, super apertadas. A coreografia dessa cena é tão, mas tão, mas tão bizarra que nem focar nos maravilhosos braços do Jules eu conseguia… só conseguia sentir muita vergonha alheia. E outra cena que merece destaque é quando entra um dançarino de b-boy, com um rádio, e eu crente que ia tocar In the Heights ou algo do tipo, não. Ele dá play no rádio e imagina o que começa a tocar? Dancing Queen! wtffffffffff? O carinha fazendo maior street dancing, ao som de Dancing Queen!
Não costumo ignorar nome de atores, direção, iluminação, enfim, todos que participam num espetáculo. Mas nesse caso eu nem me dei ao trabalho pois eles também não se deram ao trabalho de fazer uma coisa decente. Se fosse uma montagem de fim de ano de um curso, tranquilo… as pessoas vão sabendo o que esperar. Mas estão fazendo um marketing dessa peça como se fosse O musical, e não é. É uma arapuca e das caras. O ingresso está custando R$50 a inteira! Quem tem amor a vida, coloque mais 10 reais e vá assistir O Despertar da Primavera (aliás, foi o que eu fiz logo em seguida. Fui na sessão de quinta, que é às 17hrs e sai correndo pro Villa-Lobos limpar minha alma!)
O espetáculo tem seus momentos Wikipédia, onde começa a falar sobre o que um ator deve ser, que o palco é um templo que deve ser respeitado, essas coisas. Meus caros, desculpem, mas vocês estão indo completamente contra isso. O que vocês estão fazendo é uma ofensa ao teatro musical brasileiro, e eu não consigo imaginar o que Barbara Heliodora diria se fosse assistir…
Se por ventura você é uma pessoa que gosta de tosquices, gosta de amadorismo, gosta de sentir vergonha alheia, gosta de gastar dinheiro à toa, e de rir de montagens péssimas, ele se encontra no teatro das Artes, no shopping da Gávea. Terça e Quarta às 21hrs, quinta às 17hrs. Se você sabe o que é musical, tem um mínimo de bom gosto e tem amor a vida e ao seu dinheiro, fique bem longe.