Diário de um Deprimido – Pt I: Primeira semana em NYC
Quase um ano depois, já tendo passado por várias coisas das quais vocês lerão, aqui está minha saga em NYC. Foi necessário voltar no tempo e contar um pouco da minha vida, contar como foi depois da viagem, e como tem sido agora para tudo que foi dito fazer sentido. É um texto bem longo, dividido em 7 capítulos, mas leiam com calma. Um capítulo por dia, dois, não precisa ser tudo de uma vez, até mesmo que ficarei um tempo sem postar. Gostaria que todos lessem, mas eu sei que pelo menos as pessoas que importam irão ler. Postei todos os capítulos de uma vez só (quebrando até a ordem natural do blog) porque queria me livrar de uma vez dessa história, além de se tratar de um assunto delicado onde não dá pra ficar brincando de fazer suspense.
Dedico esse texto a todos os meus amigos queridos que eu amo, aos leitores do blog sejam antigos ou novos, pessoas que eu possa ter ofendido ano passado ou em qualquer outra ocasião por conta do blog, aos que amam artes em geral e fazem questão de lutar por esse amor (tendo pelo menos um nível bacana de bom senso), aos que de sua forma tentam fazer do mundo um lugar melhor e principalmente aos que possam estar passando por problemas parecidos. Espero que esse texto seja uma forma de mostrar que o seu caso também tem jeito, mesmo que você não acredite nisso agora.
Quem não leu minha saga na Disney e não quer, só precisa saber uma coisa: tive os melhores dois meses e meio da minha vida, aprendi muito, cresci muito e no finalzinho conheci um garoto que me apaixonei perdidamente. Seu nome era Cody. Quando me dei conta, já estava indo para NYC, lugar que sempre sonhei em conhecer e de onde continuo o relato.
“Concrete jungle where dreams are made of, there’s nothing you can’t do. Now you’re in New York, these streets will make you feel brand new, big lights will inspire you…”
- Empire State of Mind
18 de Fevereiro 2011
No avião sentei do lado de duas meninas que fizeram também o programa da Disney, só que eu tava tão destruído que não puxei papo nem nada. Só dormi. O voo foi super rápido, nem senti, parecia que tinha piscado e ao abrir os olhos já havíamos chegado. Toda aquela correria para pegar as malas e dava pra ver todo mundo da Disney ainda com cara inchada, destruídos, era uma cena deprimente. As minhas chegaram logo e enquanto a Raissa esperava as dela, fui procurar como fazer para sair dali e irmos para o hotel dela. Nisso encontro o Lívio, de Fortaleza, que falou que tinha uma espécie de ônibus que levava para hotéis em geral por um preço super barato. Se não me engano era coisa de $20. Fui voltar para falar com a Ra e encontrei Bianca, também de Fortaleza, toda triste me abraçando, falando pra gente sair juntos etc. Eu super abalado ainda só falando “aham, tá, bora, tá” e abraçando. Confesso que aquele abraço ao menos me deu uma força para continuar andando até o ônibus, porque tava meio foda a situação.
O motorista do ônibus, um gordo escroto do caralho, ainda quis inventar treta porque o ônibus tava lotado e no caso eu e Ra iriamos em pé e que isso não podia blá blá blá, mas dai o negão que nos vendeu a passagem falou que podia sim e acabamos indo em pé mesmo. Eu não sei que caminho ele pegou, mas era uma região meio pobre. Casinhas pequenas, poucas pessoas na rua, bem estilo daqueles filmes americanos que você vê crianças negras pulando corda na rua. Levou um tempo, tempo em que liguei pra minha mãe só pra avisar que estava em NYC e texting o Cody loucamente. Chegamos num lugar já mais com cara de cidade grande. Pegamos outro carro que nos deixou na porta do hotel. Primeiro choque fora da bolha da Disney: o motorista do novo carro grita enquanto eu admiro o hotel ainda meio chocado “Pega suas malas, tá achando que eu sou o quê? Seu chofer?”
Eu havia combinado de ficar com a Ra nos primeiros dias que depois iria ficar na casa de uma amiga. Eu já poderia ir direto para minha amiga, mas a) já havia combinado b) no fundo não queria ficar já sozinho de começo c) tava morrendo demais pra pensar nisso. Esse era o hotel:
Ele é super bem localizado, fica na 51 (ou seja, dá pra ir andando até a 42). Eu não sei quanto custa porque o meu combinado era dar $60 pelos três primeiros dias (que era o preço que eu ia pagar no albergue antigo que simplesmente fechou antes de chegarmos lá!) mas tinha cara de ser meio carinho (até mesmo que o Johnny, um amigo nosso da Disney, acabou ficando uns dias lá pra ajudá-la).
Jogamos nossas malas no chão. Primeira coisa que eu fiz foi tirar da bolsa o porta retrato com a foto de Loren e Cody e colocar em cima da bancada. Depois mostrei pra Ra o vídeo que eles fizeram, eu chorando novamente, ela provavelmente com uma cara de “errr, quê?”. Fomos então atrás do hotel onde a mãe dela havia ficado uns dias atrás para pegarmos umas coisas pra Ra. Eu devia tá com jet lag, todo fodido, mas queria andar pra espairecer. Fui com ela andando pelas ruas, observando tudo. Não tava frio como todo mundo falou que estaria. Detalhe, eu ainda estava com a blusa do Goofy do dia anterior. Não tive nem a decência de trocar. Andamos até o hotel, pegamos as coisas e nem fomos de volta ao nosso hotel, fomos logo para Times Square. Nesse momento já estava escuro. Nos perdemos, óbvio, e fomos perguntando. Ainda pegamos o metrô para nos aventurarmos. Maior erro. Eu tava completamente sem cabeça de tentar entender aquilo e ninguém tava sabendo explicar direito, então perdemos um bom tempo ali. Juro que eu olhava o mapa do metrô e só via pontinhos e mais pontinhos. Desistimos, descemos numa estação qualquer e uma moça falou “segue em frente, logo ali é a 42 com a Broadway”. Eu ouvi isso e fiquei meio descrente. Antes disso eu já estava cantando “Empire State of Mind” pra tentar me animar. Não tava funcionando muito. Depois que ouvi isso comecei a cantar “Broadway, Broadway, agora eu vou” com “Come and meet those dancing feet, on the avenue I’m taking you to, 42nd Street”. Era uma forma de tentar me animar, porque lá dentro, nada acontecia.
Chegamos. Eu só lembro de andar um pedaço e o primeiro teatro que eu vejo bem na esquina ao lado era o Nederlander. Eu como bom RENThead, fiz questão de chegar perto. Coloquei minha mão nele e tirei. Olhei para ela que estava preta, suja de poeira. Mas era a poeira do Nederlander. Abri um sorriso. Olhei em volta vendo fotos do Million Dollar Quartet e pensando “não sei se verei isso, mas acho que vou só pra entrar nesse teatro” até que escuto Raissa “vem Charles!”. Continuamos andando. Quando me dei conta, já estava na frente do St. James com American Idiot me iluminando. Eu travei. Juro. Na minha mente antes da viagem eu me imaginava correndo pra dentro do teatro, perguntando na bilheteria como era o esquema de loteria, student, etc, etc. Só que ali, realidade, era eu travado. Parei a ponto da Raissa gritar de novo e eu continuar andando, sendo que na minha cabeça eu queria entrar ali. Mas vozes vinham com “é caro, você não vai conseguir, vai embora”. E eu fui.
Quando me dei conta de novo já estava na escadaria da TKTS, olhando tudo aquilo em minha volta. Era estranho. Eu queria estar vivo, pulando de um lado pro outro, batendo fotos, mas eu estava simplesmente inerte. Encontramos Carina e Johnny, ficamos admirando ao redor. É complicado explicar o que eu sentia ali. Dava tempo de correr, ver um musical, mas não tinha forças, coragem, não tinha nada. Então fiquei só admirando mesmo.
Meu sorriso diz muita coisa se você prestar atenção. É um sorriso amarelo, de quem quer ser feliz, mas não consegue. Raissa ainda foi em alguma loja pra olhar roupa, eu já estava quase caindo de sono e sem entender direito o que se passava comigo. Pior que eu tinha dinheiro pra ver a peça que eu quisesse naquele momento, mas enfim, voltamos pra casa. Só fiz jogar minha roupa no chão, pegar o Stitch e abraça-lo como nunca. Mandei uma mensagem para o Cody do tipo “essa vai ser a noite mais difícil da minha vida” da qual recebo a resposta quase que imediata “a minha também, já estou com a Loren me entupindo de sorvete”. Pensei em chorar, mas o sono falou mais alto.
19 de Fevereiro 2011
Acordei super cedo. Eu dormi, mas é como se não tivesse. Meu corpo ainda estava meio mole. O mais incrível era o cérebro exigindo que eu me levantasse, que eu fosse aproveitar, afinal, eu estava em NYC! Não podia me dar ao prazer de ficar triste. Então acordei a Raissa que falou “então vai logo tomar banho!”, fui. Eu arrastava meu corpo. Até ligar o chuveiro, passar sabão no corpo, tudo era tarefa pesada. Minha mala tava uma zona, o que me estressava horrores. Eu queria arrumar, mas não tinha força nem de tomar banho, quem dirá arrumar duas malas. Só troquei a blusa, fiquei com a mesma calça, sapato, casaco, tudo. E me fodi lindamente. O frio estava bizarro. Saindo do hotel já quase voei com o vento. Não dava nem pra andar direito. Entramos rapidamente no metrô, dessa vez já tendo uma base maiorzinha que a Raissa tinha visto na internet. Eu ainda sem nem saber por onde estava andando. Perdidão, depressivo e com frio, que aumenta ainda mais a tristeza de qualquer um. Se você acha que gosta de frio por conta do nosso calor, viaja pra NYC no inverno e vem me contar como foi.
Fomos tentar a loteria do American Idiot. Tinha um grupo enorme de pessoas estranhas, roupas estranhas, cabelos estranhos, no maior estilo wannabe punk. Perguntei se ali era a loteria, não, elas só estavam esperando o Billy Joe chegar. Fomos pra loteria, tentamos. Nem filmei, nem tirei foto, nada. Tava frio, eu só queria ganhar aquela porra. E claro, perdemos. Só que infelizmente eu nem me dei ao trabalho de entrar, ver se tinha como comprar estudante, se os ingressos dos perdedores eram muito ruins, nada. Eu aceitei o fato de que já era, virei pra Raissa e falei que ela podia fazer o que quisesse. Fomos então ao Met, passando antes pelo Central Park. Estava muito frio, então só pisamos mesmo, tiramos poucas fotos e já fomos correndo pro Met (entrada de $1, calorzinho, me gusta).
A Raissa tava encantada, vendo tudo, analisando tudo. Eu tava mais vendo meu celular do que qualquer coisa. Eu fiquei sim trocando SMS com o Cody. Ela me condenava, me xingava, e com razão. Eu devia tá aproveitando aquilo, mas não, tava trocando mensagens. Agora o que eu posso fazer? Eu gosto de visitar museu, ver artes, mas pra isso você precisa estar no mood. Mood esse que eu não me encontrava. E confesso também, gosto muito, mas não amo. Não fico analisando pinturas com embasamento nenhum. Sou um ignorante do caralho no assunto. Acho bonito, acho legal de ver, mas só. De preferência ouvindo músicas relaxantes no Ipod (que agora é Ipod, antes era MP3). Naquele momento mesmo o que eu queria era estar assistindo um musical, passeando, mas tava frio, tava ali né. Me animei mesmo quando vi o quadro do Sunday in the Park with George e o auto-retrato do van Gogh. Eu tirei foto, mas a Ra perdeu.
Mas também foi bater a foto, ficar felizinho e voltar pro celular. Também gostei de ver marinheiros visitando o museu bem ao estilo On the Town, tirando isso, fui uma péssima companhia para Raissa. Ela cansou de ficar andando também e falou “quer tentar a loteria do American Idiot da sessão da noite?” eu disse que sim, óbvio. Fomos. Nos perdemos no metrô, perdemos o horário. Andamos um pouco pela rua, voltamos pra casa. Eu pensei em arrumar a mala, quem disse? Deixei lá jogadas e fiquei deitado. Mesmo sem dormir, ficar deitado era tudo que eu queria. E mensagem atrás de mensagem. Eram besteirinhas sabe, mas aquilo me deixava feliz no momento. Eu sentia que ele tava triste, mas ele tava em Orlando. Eu tava em NYC, podendo realizar o sonho da minha vida, e tava lá, trocando mensagens bobinhas. O mais engraçado é que da vida na Disney em si, eu já tava meio cansado mesmo. Já tava em overdose de Disney. Foi o tempo necessário. O trabalho era muito divertido, mas bem cansativo. Eu no fundo já queria ir pra NYC mas não contava com esse apego enorme a uma pessoa já tão na reta final. E assim foi mais um dia de derrota. O pior era o cérebro cobrando uma coisa, o coração dizendo outra e o corpo não correspondendo a nenhum dos dois.
20 de Fevereiro 2011
Esse seria o dia que iria mudar tudo. Finalmente iria ao teatro! Já havia comprado ainda no Brasil os ingressos para assistir Angels in America. Minha esperança era entrar, assistir algo fantasticamente foda (que é o caso dessa peça) e pronto, voltar ao normal. Voltar ao meu eu de sempre. Voltar a ser Charles Fouquet. Fui tomar banho (me sentido exatamente como no dia anterior), peguei os papéis que precisava para retirar os ingressos e fui. Raissa foi comigo porque eu ainda não sabia andar direito, e ela via o estado deplorável em que eu me encontrava, logo, ela foi me deixar na porta mas antes passando perto do Hudson River e num mercadão de coisas usadas que tinha perto.
Andando pela rua já era engraçado de ver os teatros com altas pecinhas Off-Broadway. Teatros esses minúsculos que se alguém me falasse, eu não acreditaria. Peças e mais peças das quais eu não fazia ideia do que se tratavam, quem estava no elenco, etc. Um fato até então novo para mim. Até que quando menos espero, passo por outro teatro pequeno e opa, é aqui? Sim, era ali. Signature Theatre Company, o teatro de Angels in America. Mais que depressa fui tirar fotos na frente, fazendo a linha Charles Fouquet total. Ou tentando. Raissa também perdeu essas fotos, mas era eu na frente do teatro fazendo pose de anjo, essas coisas bregas e felizes que eu costumava fazer. Exemplo:
Fui super cedo pra garantir, detalhe que só fiz falar o nome mesmo da Carol (que comprou no cartão dela), sem apresentar nada, e a moça me deu o ingresso. Depois ainda fui fazer hora ali por perto, fui numa pizzaria que um pedaço de pizza gigante era $1, comi logo duas pra encher e assistir bem o primeiro ato que por si só já é enorme. Raissa falou “Você não tá feliz de ver seu primeiro musical na Broadway?” eu respondi “Não é musical, é peça. E não é na Broadway, é Off-Broadway”. E ela com uma cara de “Mas você não comprou o ingresso pra ver caralho? Você não gosta disso? Tá triste por quê?” e eu forçando estar bem, mas aparentemente, deixando suspeitas.
Angels in America é uma peça genial que não tem como resumir muito (afinal são quase 7 horas de duração) mas mostra uma visão dos EUA em meados dos anos 80, Aids atacando loucamente, nada se fazia para combatê-la e tudo isso tendo como perspectiva a visão gay e num ambiente apocalíptico. Ou seja, péssima escolha para meu momento. É dividida em duas partes, a primeira parte tem 3 atos e a segunda 5. Ela é enorme, mas é fantástica e eu amo. Quem puder assistir (e acho que super deveria) existe a série da HBO. Tem pra baixar, tem o DVD pra comprar e bem, só sente o elenco: Justin Kirk, Patrick Wilson, Meryl Streep, Al Pacino, Mary-Louise Parker, etc, tá boa? Dispensa mais comentários. Pois bem, vamos a peça.
Eu fiquei fazendo hora como já disse, e faltando uma hora pra entrar, eu resolvo fazer o quê? Ligar para o Cody. Por que eu fiz isso meu Deus? Não sei, mas fiz. Liguei, fiquei lá conversando com ele, nem lembro sobre o quê, mas ouvir a voz dele me deixou feliz. Ficávamos provavelmente lembrando de coisinhas idiotas que fazíamos, como sentiamos falta disso, etc. Faltando 20 minutos pra começar, desliguei. Entrei. Peguei o playbill, sentei. Teatro mega pequeno, tava a poucos metros do palco. Era tão pequeno que até da última fileira você veria perfeitamente bem. Eu tava no meio. Abri o playbill pra descobrir que o elenco era diferente. Eu comprei esse dia pois seria o closing da peça, mas não era mais. Foi estendido com um elenco novo. Só não entendi porque mudaram o elenco antes dessa data, mas eu tava tão foda-se que isso era o de menos. Antes tinha o Christian Borle (Emmet do Legally Blonde) e o Zachary Quinto (Sylar do Heroes) que eu conhecia, dessa vez só tinha no lugar do Borle, o Michael Urie (Marc de Ugly Betty). Eu tava meio away. Sentei na cadeira como quem vai assistir uma palestra chata da UERJ. E aí a peça começou.
Começa com um velho judeu discursando sobre alguém que acabou de falecer. E eu lá, tentando entender o que diabos ele estava falando. Na verdade era uma atriz fazendo o papel do velho. Mas foda-se, não tava entendo nada. Não lembrava quase nada da série, e de qualquer forma, naquele momento eu não lembrava era quase nada da minha vida em si. A peça prosseguiu e eu só queria entender o que eles estavam falando. Aquilo não era pra ser em inglês? Só lembro de passar mais um tempinho, ter um velho gritando no telefone (e na minha memória vir o Al Pacino) e depois entrar em cena o Michael Urie e eu “uau, meu primeiro famoso na Broadway… digo, Off-Broadway”. Contentamento que durou 3 segundos, e aí ele voltou a ser “normal”. Estava ele sentado no banco, falando sobre uma tal de little Sheba. O que diabos era isso gente? Eu bem lembrava e agora não tava entendendo… Pois bem, mais um pouco depois apareceu a equivalente a Mary-Louise Parker, amo/sou. Ela é incrível. O elenco inteiro era, mas ela me cativou mesmo dada todas as circunstâncias que eu me encontrava. Quando eu me dou conta de mim, havia acabado a primeira parte. É sério isso gente? Eu não senti nada e já acabou a primeira parte? Socorro, simplesmente socorro.
Levantei e dei uma saída como querendo acordar. Comprei M&Ms, mastigava com vontade e pensando “o que foi isso que aconteceu?”. Voltei. Ao meu lado uma velhinha, quase perguntei pra ela “isso aqui é a vida real?” mas ela tava muito entretida lendo seu playbill. Voltou com a segunda parte, eu comecei a entender mais a língua falada, era inglês sim. Só que por algum motivo eu foquei nas transições. Amava como eles mudavam o cenário, a música de transição, a iluminação. Era incrível, uma peça a parte. Tão a parte que tirando a cena do banheiro onde o equivalente ao Patrick Wilson conhece o (ex)namorado do Aidético Urie, e quando o mesmo Aidético Urie conhece a equivalente a Mary Louise-Parker ambos em suas alucinações, que aliás, eu acho que era nesse ato, o resto nada mais me lembro.
Fui comprar Coca, sim, uma Coca ia me acordar. Terceira e última parte, aqui vamos nós. As alucinações que o “Urie” estava sentindo, eu também estava. Só podia. Umas ceninhas aqui, outras ali, se duvidar dei uma cochilada mas não esqueço da entrada do anjo. A sensação de tudo estar tremendo, a iluminação linda, e um anjo descendo do teto com as asas abrindo lentamente e deixando o “Urie” perplexado. Fim do primeiro ato.
Saí de lá meio sei lá. Impactado com a cena do anjo, mas tipo, era basicamente tudo que eu tinha pra falar caso me perguntassem da peça. Eu realmente não tinha absorvido nada, absolutamente nada. Fui parar num Subway que tinha ali perto, enquanto comia alguma coisa, liguei para Leo Polo e Laisoca. Dois amigos de São Paulo e eu só falei que tava triste, eles tentaram me animar, mas no fundo não adiantou muito. Eu tava triste. Triste por tudo que antecedeu minha ida ao teatro e agora ainda mais por estar perdendo algo tão incrível, que eu sabia que era incrível, e por alguma razão não estava fluindo. Fiquei olhando o Hudson River até dar a hora do segundo ato. Acho que foram duas horas, não lembro, mas passou rápido. Claro que eu liguei pro Cody novamente, dessa vez falando que nem o teatro tava tão legal e que queria estar com ele. Ele respondeu que mal havia chegado lá, mas já sabia que nada seria igual aquilo que tivemos. Eu pensei em chorar, mas tava muito frio pra isso. Fiquei esperando no hall do teatro. Não tinha ninguém da minha idade ali. Só haviam velhinhos super bem vestidos, tinham tantos que eu tive que levantar pra oferecer meu lugar. Nesse lance, o carinha responsável dos playbills puxou assunto comigo. Um fofo. Ele também era mega fã de teatro e acabou conseguindo por intermédio de um amigo ficar ali responsável pelos playbills, dar informações, etc. Foi até que eu perguntei se não tinha programa, ele só fez apontar pra uma mesinha que tava na minha frente e eu sei lá como, não vi. Levantei e tinha lá uma caixinha pra colocar o valor e pegar o programa. Na hora eu achei que era sei lá, doação, então só fiz pegar dois de graça e voltei. Ele ficou com uma cara meio errada, e só bem depois eu me toquei que provavelmente eu deveria ter pago mesmo.
Deu a hora pro segundo ato. Eu tentei bravamente assistir, mas meu cérebro já ficava me perturbando lembrando que eu já havia perdido o começo, que eu não ia entender nada mesmo, que não adiantava lutar e, assim, eu acabei sucumbindo. Assisti algumas cenas, mas não tenho mais como falar direitinho porque não lembro. Eram 5 atos, só levantei num dos intervalos pra comprar mais M&M e o que eu lembro é de acordar, ver alguma cena, lembrar mais ou menos da cena na série, e apagar. Eu vi a equivalente a Meryl Streep perdida, vi a cena que os manequins ganham vida (nessa eu fiquei “wtf?” até lembrar), duas cenas de nudismo (uma com o “Patrick Wilson” que era super bonitinho e outra com o Urie) por aí vai, até a belíssima cena final da Keira Keeley (a equivalente da Mary Louise-Parker). Ela estava num cubo, voando, eu sem entender nada mas me forcei a ouvir o discurso dela. Pra quê? Baldes de choro. Baldes. As alucinações dela eu lembro de todas, ela é realmente foda pois eu até acordava nas suas cenas. Imagina escrever uma crítica de uma peça e falar “sei lá quem é tão incrível que eu até acordava nas suas cenas”. Se a peça for muito ruim, seria um elogio. Mas aqui eu que tava fodido mesmo. E essa cena final dela acabou comigo. Logo em seguida tem a última cena do Central Park, e eu mais uma vez chorando. Chorando porque essa parte eu lembrava, chorando pelo contexto, chorando por ter perdido essa experiência linda, chorando porque não entendia o que tava acontecendo, enfim, tava chorando sem parar.
Saí de lá tão atordoado que o menino dos playbills veio falar comigo, eu falei que tava muito tocado e que era normal, dai ele me deixou. Sempre me imaginei na saída dos teatros de lá falando com os atores, pedindo autógrafo, foto, coisas básicas. O mais incrível é que eles saem muito rápido. Eles saem com um minuto da peça tendo acabado e a maioria ainda pega o metrô. Todo o elenco já estava saindo. A própria Keira e o Urie passaram do meu lado e eu não fiz absolutamente nada. Não consigo mentir, então dar parabéns pela peça não era a coisa certa. Por mais que as poucas cenas que eu tenha visto tenham sido incríveis, e eu já sabia que eles eram incríveis, mas não consigo. Simplesmente sai de lá. A Bianca de Fortaleza tinha chamado pra uma balada depois, mas que clima que eu teria? Nenhum. Fui pra casa no metrô chorando, me perdi, cheguei tardão em casa, morrendo de frio e sem entender nada ainda. Raissa pergunta como foi a peça, eu digo “foda” e deito. Minha cabeça tava girando, eu realmente não acreditava que tudo que eu tinha pra falar da minha experiência assistindo fuckin’ Angels in America era que eu vi o Michael Urie pelado, o anjo lindo descendo do teto e uma atriz foda que eu não conhecia voando num cubo. Mesmo. Eu, que sempre abominei pessoas que dormem em teatro, havia dormido. Eu que abomino pessoas que reparam nesses detalhes idiotas e óbvios, havia reparado mais neles do que tudo. Eu que sempre tive o pesadelo de não entender uma peça ou perdê-la pelo motivo que fosse, havia não entendido e perdido. Eu, que sabia que aquela peça era o máximo e contava com ela para voltar a ser o Charles de antes, havia achado a experiência fria e só piorado mais ainda a situação. Era pra ter sido um dia perfeito, eu passei o dia fazendo o que eu mais amava, no teatro, e tinha sido errado. Tudo errado. Eu, que provavelmente pensei mais coisas e apaguei no sono, agora partindo pro próximo dia.
21 de Fevereiro 2011
Acordei e Raissa nem estava mais no quarto. De qualquer forma eu iria me mudar para casa da minha outra amiga que tá morando lá. Com muita coragem eu fechei a mala, organizei o pouco que tinha que organizar e fiquei esperando dar a hora de sair. Raissa voltou da rua, falou que tinha ido passear, que tava nevando, e que pra não perder o dia dela, não dava pra me ajudar a levar as malas. Porque super dava pra ir de metrô, mas tranquilo, fui de táxi. Juro que nem fiquei triste nem nada, não por isso. Eu já tinha outros motivos para estar triste. Peguei o táxi segurando duas malas, uma mochila nas costas e um Stitch gigante nos braços. O taxista não tava entendendo minhas anotações, mas depois de um tempo ele descobriu e chegou no endereço certo. Passei o cartão pra pagar, bem coisa de filme mesmo. O divisor da parte da traseira para a dianteira feita vidro, no vidro o leitor do cartão de crédito, tv, ficaria deslumbrado se não estivesse deprimido. Paguei com a taxa mais barata porque lá você é obrigado a pagar taxa de tudo, e pronto, estava lá. Muita neve na rua, a porta do prédio dela parecendo a entrada do dormitório da Elle Woods. Pensei “tá na hora de mudar o rumo dessa viagem!”
Subi e lá estava minha amiga me esperando. Eu a conheci tem um tempo, ela morava em SP e eu a ajudei quando ela tava produzindo uma montagem de escola do Drowsy Chaperone. Na verdade seria Legally Blonde, rolou babados e confusões por conta da Vendramini que jurava que tinha os direitos, não tinha, blá blá blá, dei a ideia do Drowsy que vingou. Ajudei em altas paradas e até emprestei meu LP. Ela me passou as regras da casa, me deu a chave com chaveirinho do Wicked e tudo, sério, uma linda. Devo muito a ela e um dia hei de pagar. Ela falou que não teria tempo de sair comigo e eu, óbvio, disse que não precisava. E não precisava mesmo, eu estava ali mais para não pagar hotel ou albergue, só precisava de um canto para dormir a noite.
Dava tempo de assistir uma peça ainda, e Re Pluto Luz mandou mensagem me chamando que ela iria assistir Avenue Q. Pra quem não leu as aventuras da Disney, uma amiga que fiz lá que também era doida por musicais. Fui correndo. Sim, já assisti no Brasil. Sim, poderia ter ido ver qualquer outra coisa. Sim, ainda fui na TKTS, gastei $60 e isso é caro pra um ingresso que dava pra comprar mais barato por student rush. Mas eu já não sabia o que era pensar. E ver a Re, que eu gostava, sentar com ela na platéia e tudo mais, talvez fizesse uma diferença. Eu me animei antes da peça, conversei com ela, seu ex-namorado (atual na época), tinha mais duas amigas dela que eu conhecia de vista da Disney, fomos todos assistir. O ex-atual na época ainda pagou uma bebida pra mim. Lá eles vendem uns drinks com os nomes dos personagens que você pode beber durante a peça, a minha era a Kate Monster.
Começou, tava feliz, amo Avenue Q, tava bebendo, com pessoas que eu gosto. Não tinha como dar errado. Pois deu errado. A sensação que eu tinha era de que eu estava assistindo, mas não estava. Não era a bebida, ela nem era tão forte a esse ponto (estamos falando de Kate Monster, não Bad Idea Bears!). Era eu mesmo. Meu cérebro me lembrando que eu já tinha feito merda. Que nada iria barrar aquilo. Que enquanto eu pensava isso, eu já estava perdendo mais e mais, e assim foi indo. Quando me dei conta, já tinha até acabado e estávamos saindo. Mais uma vez sem stage door (muito embora só conhecesse a Kate que já havia feito ensemble em Xanadu), autógrafo, nada. Estava eu no metrô voltando pra casa triste. O que eu lembro era que o palco era minúsculo, que no Brasil era tudo muito maior e o tal “tudo há de passar” parecia cada vez mais longe.
22 de Fevereiro 2011
Marquei de ir com a Raissa no Central Park dar uma passeada. Fui buscá-la no hotel dela. Eu tentei explicar pra ela que eu tava triste, que tava tudo dando errado, mas eu devia estar tão perturbado que ela não conseguia entender. Ela chegou até a falar no metrô “talvez você não ligue tanto mais assim pros musicais” e eu olhei com cara de “bitch, please!” e ela falou “ué, pode ser e isso é bom!”. Não era isso, claro que não. Era o contrário. Era por eu ter assistido de forma errada que eu tava mal, só que eu não sabia direito na época, além de misturar tudo com o Cody e por aí vai. Tirei uma foto antes de sair e olhando eu me indago:
Sério gente, olha minha cara que destruição. Mesmo assim sorrindo, tentando ser feliz. Sem nem entender direito o que se passava. Demos uma passeada maior que a outra vez, e quando me dei conta, pá, estava na parte do Angels in America.
Não bastasse meu cérebro me torturar, ir nesses lugares era a lembrança daquele episódio. Mas ignorei, e fui curtindo o parque. Ria por dentro em como eu já fui super feliz no Ibirapuera por exemplo, e ali, Central Fuckin’ Park, eu infeliz. Tiramos mais algumas fotos e percebam que só fiz colocar um casaco preto velho que eu tinha por cima do outro pra ver se conseguia ficar mais quente:
Comemos na rua, andamos pela 5ª avenida, fui em algumas lojas com ela, liguei pra Carol pra tentar explicar o que acontecia comigo e ela super entendeu e ainda me deu mais dicas de como arranjar os ingressos (como o lance do horário das loterias que variam de peça pra peça), tentamos então a loteria de American Idiot e Wicked, não ganhamos em nenhuma das duas. Nisso o Fabinho (também Goofy) queria porque queria me ver. Marquei com ele na porta do Wicked. Foi bacana vê-lo, fiquei feliz que ele se deu ao trabalho de correr atrás pra ver como eu estava. Claro que eu menti, mas enfim. Faz parte da doença. Então ele falou que ia no show da Lady Gaga no Madison Square Garden que era em frente ao hotel dele, que ainda tinha ingressos, se eu queria ir. Recusei. Sim Little Monters, me odeim nesse momento. Claro que da lista dos arrependimentos, esse tá bem no fim da lista até. Mas eu normal teria ido só pela experiência nova.
O Fabinho também ficou deprê nos dois primeiros dias, mas superou. E ironicamente, eu dava força pra ele via celular. Quando perdemos a loteria ainda fomos até a Times Square, passamos na Toys R’ Us, a loja de brinquedos enorme que tem até uma roda gigante dentro, conversando e eu querendo me sentir bem por estar conversando com ele, mas nada. Me despedi e fui com a Ra, Carina, Johnny e um amigo gringo deles Ben comer na Chinatown.
O próprio Ben ficava falando coisas do tipo “Dude, you’re in NYC” então eu devia estar um saco mesmo. Eles estavam felizes de estar conhecendo um restaurante em Chinatown, comendo aquilo e eu tava super foda-se né. Na volta o Fabinho me chamou para ir em uma balada e eu falei que iria. Minha amiga me ligou falando que tinha acabado a luz lá, logo, fui pro hotel da Raissa que iria pegar alguma roupa emprestada do Johnny e iria direto. Quem disse? Depressão bateu no momento que pisei lá e dormi. Dormi no chão, mas dormi. Deitado naquele chão, morrendo de frio pois não tinha cobertor, ignorando as ligações do Fabio que tadinho, só queria me ajudar, foi ali que eu vi que eu tinha que mudar aquilo. Dormi muito mal, mas dormi. E no que acordei fui tentar virar o jogo.
23 de Fevereiro 2011
Peguei o laptop da Raissa e fiz a lista dos musicais que iria assistir. Sai cedo e fui logo tentar os students que poderia. Fui no teatro de La Cage aux Folles e comprei pra matinê, ingresso de estudante por acho que $30. Depois fui no Spider-Man que como estava em preview, era só chegar cedo e ficar numa fila que arranjava também por $30. Dava pra comprar dois e iria dar de presente pra Raissa. Estou eu, na fila, morrendo de frio e rindo de duas japonesas na minha frente que estavam tirando foto no orelhão e quem passa na minha frente? Kerry Butler. Simplesmente Kerry Butler. Irei falar mais sobre ela futuramente, mas pra quem não sabe quem é, ela é simplesmente a atriz que eu mais admirava no mundo inteiro. Ela era tipo meu Jesus particular. E ela passou na minha frente. Linda como eu sempre imaginei. Pequenininha. Eu fiquei tão em choque que nem pensei em sair da fila, ir abordar, pedir foto, nada. Fiquei estático. Quando voltei a mim mesmo, fui olhar e ela já havia sumido na multidão. Essa foi a primeira vez que eu voltei a ser eu mesmo. Foi como uma luz. Melhor, uma #luzluzluz. Por mais que eu estivesse arrependido de não ter ido atrás dela, era ela. E ela era humana! E passou na minha frente! Fiquei abobado que o frio passou, eu queria pular, queria cantar, queria tudo. Comprei os ingressos e saí feliz. Minha vida seria outra.
Voltei pra casa da minha amiga, mesmo que faltasse só questão de horas pra La Cage começar. No caminho de casa (para chegar tinha que descer numa estação e andar umas 9 quadras) eu vi uma loja de casacos usados por tipo $10, $20. Claro que deviam ser roubados ou sei lá, lembrei do Collins em RENT, mas entrei. Comprei um lindo que tinha super minha cara. Cheguei em casa e foi o tempo de ligar pro Cody, comer uma coisinha e me tocar que o casaco não ficava bom em mim. Sim, eu devia ter experimentado na loja, mas enfim, na volta fui lá trocar. Procurei, procurei e não tinha nenhum legal. Eu ia me atrasar, então acabei pegando um azul horrendo mas que tinha gorro, ou seja, me protegeria de tudo. Ainda comprei uma luva super pesada. Só que depois eu me toquei que a luva era luva de gente que escala montanha! Ela era incrivelmente quentinha, mas eu também não podia nem pegar as coisas do meu bolso porque eu não sentia mais nada. Só que preferi assim. O frio que as mãos sentem é bizarro, parece até que os dedos vão quebrar. Eu me sentia um robô com tanta roupa, mas era necessário. O frio infernal que eu sentia antes agora não era tão ruim assim já que eu tinha um casaco horrendo, porém quentinho. Fui feliz pro La Cage.
Na porta do teatro ficava um dos atores todo montado fazendo altas piadinhas com o pessoal na porta. Ele estrategicamente me pulou, afinal, meu casaco não precisa de que ninguém faça piadas. Ele por si só já era uma piada. Entrei, o lugar era numa espécie de camarote no canto esquerdo. Local perfeito. Antes da peça começar, a mesma drag sentada no palco ficava contando milhões de piadas engraçadíssimas. Me acabei de rir e naquele momento esqueci de tudo, realmente entrei na vibe. A peça começou e eu tava super feliz, as drags lindas, poderosas, maravilhosas, pernas fantásticas, toda uma vibe de descontração. Uma bola de plástico voava pela platéia, um detalhe tão simples mas tão engraçado e que super dava pra ter tido aqui no Brasil. No elenco havia Harvey Fierstein e Wilson Jermaine Heredia (Angel de RENT), o mais engraçado era descobrir isso pelo playbill. Eu fiquei dois meses e meio longe da internet, tava me sentindo essas pessoas normais que vão ao teatro sem saber nada e confesso, era engraçado me sentir assim. Lembro da primeira entrada do Harvey, meu coração batendo super rápido e eu pensando “É o Harvey Fierstein a alguns metros de mim!”. Minha primeira lenda da Broadway ao vivo. Junto com o Wilson, que eu também amo. Foi lindo.
O primeiro ato inteiro foi incrível. Eu realmente entrei na vibe gostosa que o musical tem. Fiquei pasmo com “I Am What I Am” do Harvey. Incrível como aquela voz rouca do cacete conseguiu me arrepiar. Foi quando eu relembrei o que assisti no Brasil e dei uma leve gargalhada. No intervalo conversei com um carinha que tava do meu lado, ele era fã de musicais também e falou que tava lá porque já tinha visto com o elenco antigo e queria ver com o novo. Eu falei rapidamente que eu era do Brasil, primeiro musical na Broadway, que até então era tudo Off-Broadway ou no Brasil e tava amando. Ele disse que preferia o elenco antigo, eu disse que só de ouvir e ver pelo youtube já concordava com ele. Recomeçou o segundo ato e foi em “The Best of Times” que eu tive a primeira sensação de Broadway na veia. Essa música é sensacional, e a energia do elenco, as vozes, me arrepiou e fiquei feliz. Era isso que me faltava e eu finalmente estava tendo.
Acabou, aplaudi, fiquei feliz e sai feliz. Só que resolvi que não queria stage door. Já tinha perdido tantas fotos, pra quê né? Então fui andando até o Mc Donalds da Times Square mas ai resolvi voltar. Poxa, perdi umas fotos, mas pra quê perder todas? E tinha o Harvey, o Wilson. Voltei. No meio do caminho, parei, e aí fiquei nessa bipolaridade até falar “não, agora eu vou!”. No que eu tô voltando passa por mim Michael Riedel. Ele é crítico do NY Post, odiado por todos, nível Barbara Heliodora levado ao extremo. Juro que queria correr nele e falar que era fã, que no Brasil eu era tão odiado quanto ele lá, se duvidar até mais porque nem profissional eu era, e quando me dou conta ele já passou e, óbvio, resmungando. Ele postou sobre aqui na coluna dele. Perceba como ele não tem papas nas língua, fala mesmo e ainda mescla bafão de backstage com a crítica. Não é à toa que a galera odeia.
Voltando ao stage door eu fiquei lá esperando e já tinha saído boa parte do elenco. Ainda vi uns mais principais saindo e falando com as pessoas, ai avisaram que o Harvey não iria sair, então só queria foto com o Wilson mesmo. Ele super fofo falou com todo mundo, tirou foto com todo mundo, realmente ficou só ele lá no fim das contas e depois voltou porque ainda tinha a sessão da noite. Ele foi meu primeiro autógrafo e minha primeira foto na Broadway:
Foto essa muito da bizarra, eu sei. Espinha na cara, com esse casaco nojento, cachecol super mal colocado, eu estava tão mal por fora quanto por dentro. Meu exterior só fazia refletir, mas enfim, meu primeiro registro. Depois disso fui no Mc Donalds mesmo, jantei e fui encontrar a Raissa para assistirmos Spider-Man: Turn off the Dark. Eu achava que estava bem, tava feliz, mas não adiantava. Meu cérebro me recriminava por tudo de antes. Mesmo. Eu tentava não pensar no lado negativo e focar no lado positivo das coisas, mas só vinha os negativos. E tava controlando, até ver a Raissa. No que ela me viu com aquele casaco e toda situação que vocês já viram na foto, ela fez uma cara do tipo “que porra é essa?” e mesmo sem falar uma palavra, eu caí num transe fodido. Entramos, sentamos e eu tava mal. Não adiantava, eu tava tremendo, querendo sair correndo dali, mas a peça começou e eu tinha que me forçar a assistir.
A peça só me piorou porque ô coisa ruim. Como falei , era época de previews, hoje em dia já é completamente diferente do que era (não assisti vídeo ainda e pretendo, mas só de ler no Wikipédia já mudaram tudo) porque olha, na época era patético e vergonhoso. Mesmo doente eu tenho propriedade em dizer que era muito ruim. A própria Raissa olhava pra trás com uma cara de “quê?” nas cenas mais tensas. Como por exemplo na cena que o Peter Parker sofre bullying com uma música que era algo com bullying with numbers. Eles iam batendo e contando. Sério. Ou quando o avô dele morre sem você nem ter criado um afeto por ele, e o próprio Peter nem chora por 30 segundos. Ele pensa em chorar e pronto, sai correndo. Ou o estopim que é a vilã principal, uma aranha deusa lá que tem nos quadrinhos, se indagar “por que ele gosta da Mary Jane e não de mim? Claro, ela tem pés! Preciso de sapatos!”. E aí entrava uma música sobre sapatos com outras aranhas (ou eram pessoas? nem lembro) colocando sapatos nas patinhas dela e cantando sobre as marcas. Sim, nesse nível. Eu não sabia se gargalhava ou se sentia vergonha alheia. Deve ter no youtube ao menos áudio disso. Se alguém quiser se dar ao trabalho de procurar, garanto risadas fáceis.
No intervalo uma moça ao meu lado viu que eu tava mal (agora só piorado) e perguntou se eu estava gostando. Falei que não e ela “é, nem eu. Só os efeitos mesmo que são legais”. Eu respondi “Pois é, o povo tá aplaudindo porque eles estão voando. Grande coisa, vão assistir um Cirque Du Soleil”. Ela riu e pronto, fim de papo. O segundo ato continuou com absurdo atrás de absurdo, eu desisti de querer prestar atenção e até fechei os olhos em algumas cenas. Tem uma música bonita com a Jennifer Damiano, mas mérito da voz dela, somente. Outra cena absurda foi quando ela tá toda pilhada dançando na boate ao som de “Elevation”. Sério U2? Sério que vocês fizeram isso? Isso com certeza cortaram, é o cúmulo do abuso. O cenário é realmente bem inteligente, tem umas sacadas muito boas para os objetos, mas o roteiro era horrível, os figurinos idem, e não sei quem achou a ideia engraçada do Duende Verde tocar piano numa das cenas. A peça acabou, eu tava podre, minha cabeça queria explodir, Raissa não entendia nada. Ela puxou papo falando mal da peça, eu respondia algumas coisas, saímos e fomos em alguma loja que não lembro (sim, sem stage door de novo) e foi quando eu falei “Raissa, eu tô mal” e ela “o que é?” “eu não sei, tá tudo estranho, tô muito mal”. Ela me olhou como quem não poderia ajudar e continuamos andando. Não esqueço de quando dei tchau no metrô. Ela pegava um que não servia pra mim. Então dei tchau. Ela deu tchau como quem sente pena, mas que não sabe o que fazer. Não a vi mais desde então.
Fui pra casa sabe se lá como. Cheguei em casa, deitei no sofá. Minhas pernas tremiam, eu coçava sem parar. Coçava minhas pernas sem entender o que era aquilo. Coçava meus pés. Coçava minhas pernas. Era como se tivesse alguma coisa ali. Coçava com muita raiva. Fiquei nisso até adormecer por algumas horas. Acordei desesperado, me dando conta que aquilo não era um sonho, e continuei a coçar. A partir daqui por mais que eu quisesse, não dava mais pra lutar. Eu não tinha mais jeito mesmo.
24 de Fevereiro 2011
Acordei e fiquei andando de um lado pro outro. Eu gostava de pensar andando, então nesse caso o meu martírio também tinha que ser assim. Eu levantava do sofá, ia até a cozinha, olhava o calendário e percebia que já havia gasto uma semana em NYC e não tinha feito nada produtivo, além de ter destruído os momentos bons. Queria voltar no tempo. Mentalizava dia 18 com todas as forças. Ficava andando de um lado pro outro, até cansar e voltar pro sofá. Devo ter ficado nisso por algumas horas. Me toquei que já era, não tinha jeito. Só havia uma solução. Eu ia morrer. Peguei uma faca e tentei cortar meu pescoço. Doía demais e não tinha coragem. Cheguei a fazer uns cortes, mas desisti. Não ia rolar. Prendi a respiração. Desisti umas duas vezes até que pensei “É agora!”, segurei e mesmo quando o desespero final bateu, não sucumbi. Continuei segurando. Fui perdendo as forças, fechando os olhos e cai no chão. E foi assim que eu morri.
Continua…
Diário de um Deprimido – Pt II: Os musicais na minha vida
“So it’s times like these I wonder how I take it. And if other families live the way we do. If they love each other or if they just fake it, and if other daughters feel like I feel too. Cause some days I think I’m dying, but I’m really only trying to get through (…) Every day is just another, and another, and another…”.
- Next to Normal
O ano é 2004. Eu tinha 14 anos e estava estudando no Colégio Militar de Manaus no 1º ano do Ensino Médio. Era tranquilo, eu me divertia bastante, gostava de algumas poucas pessoas apesar de me dar bem com a grande maioria. Só odiava mesmo ter que obedecer as regras estupidas (das quais eu quase sempre quebrava) tipo cortar o cabelo de 15 em 15 dias, ter que ficar em pé no sol as 06 e pouca da manhã as vezes por nada e as vezes para ouvir informações das quais eu não poderia cagar mais, e principalmente, a farda. Ela é horrível, ela pinica, ela é nojenta. Odeio mortalmente e não esqueço a sensação do último dia em que a tirei sabendo que nunca mais a usaria.
Conseguia ser ainda pior nos dias de educação física. Ter que vestir aquilo depois de tomar um banho muito mal tomado no vestiário e ir para aula. Socorro. Mas tá, tirando isso e outros poréns, dava pra sobreviver e tenho histórias engraçadas e algumas boas recordações pra contar. Só havia um problema crucial: eu era o viado da classe. Nessa época ninguém levava a sério bullying, ser chamado de viado era só uma brincadeira de criança. Eles faziam, eu fingia não levar a sério e negava, e ficava por isso mesmo. Se tivesse sido só isso, tudo bem, mas foi um pouquinho longe demais uns meses depois do começo das aulas. Esse ano já estava sendo difícil por estar no 1º ano. Toda aquela preocupação com o processo seletivo da faculdade, não sabia nem que curso iria fazer, as matérias do colégio haviam dobrado, não entendia física, química, filosofia, minha melhor amiga da época havia viajado de volta pro Rio e fiquei absurdamente triste. Isso já bastava para deixar qualquer criança wannabe pré-adolescente triste, mas agora vem a transição da tristeza pra depressão.
Exatamente uma semana antes das primeiras provas do bimestre, saindo de uma aula de educação física (tinha que ser né), eu estava no banheiro me trocando. Quando já tava saindo, um garoto forçou a entrada. Eu fraco como era, cai sentado no vaso. Ele agarrou meu pescoço e falou “quieto!”. Eu estava chocado e juro que nem sabia o que ele queria. Eu era bem inocente, isso até ele botar o pau pra fora e me forçar a fazer sexo oral. O resto dispensa detalhes. Ele acabou, eu completamente chocado e com nojo, ele vira e fala “se você contar pra alguém eu digo que foi você que queria”. E foi embora. Eu fiquei lá por horas. Não tive coragem nem de sair, nem fui pra aula. Eu esperei dar o hora da saída e aí sim fui embora. Por mais que eu já fosse gay mesmo, eu não me aceitava. Na minha mente aquilo era algo errado. Eu cresci frequentando a Igreja Universal do Reino de Deus. Lá quem é homossexual tem um encosto no corpo, mais precisamente uma pombagira da qual deve ser expulsa. Sente o climão.
Eu, criança inocente, morria de medo de incorporar na frente do meu pai. Portanto, nas partes que deveria expulsar o demônio, eu ficava mentalmente bloqueando aquilo. Eu tremia de medo, e quando acabava, suspirava aliviado. Só que em casa, as vezes, me vinha o arrependimento. Ficava pensando que era preferível meu pai ver que saiu um demônio que existia ali do que de fato continuar com ele e ir pro inferno. Mas não dava, não tinha coragem. Eu me condenava, de vez em quando via fotos de homens de cueca na internet (não via nem pelado porque até então achava o pênis algo feio, juro) mas logo em seguida fechava tudo e negava mentalmente. Eu sempre fui gay, vendo fotos de homens de cueca eu achava “injusto” o fato da mulher, de calcinha, não ter nada ali. Faltava alguma coisa, faltava o volume. Então imagina. Uma criança que não se aceitava, que ainda achava pênis algo feio, ser forçado a fazer uma coisa dessas e claro, o garoto nem bonito era. Tem hétero que acha que por você ser gay, você vai querer qualquer um. Mas não queridos, temos muito bom gosto. Mesmo que eu já me aceitasse, eu nunca iria olhar pra aquele infeliz.
Eu não tinha ninguém pra contar isso. Isso implicava puxar o assunto da homossexualidade do qual eu não estava preparado a lidar ainda. Eu entrei em depressão profunda. Eu não conseguia comer direito, dormir, estudar, nada. Eu virei um nada que andava e respirava, isso ainda com muito pesar. Como eu disse, isso uma semana antes das provas. Claro que eu não consegui estudar direito, me sentia mal por isso, me ferrei em quase todas elas, e foi só piorando. Eu cheguei a ficar uma semana inteira sem dormir, eu deitava e não conseguia. Sabe aquele pesadelo de que você tá na escola pra apresentar um trabalho e esquece tudo que deveria falar? Aconteceu comigo. Eu decorei tudo, aprendi tudo, mas na hora veio o branco. Só fiz chorar e chorar e ninguém do meu grupo entendendo aquela cena. A partir dai foi piorando, piorando, e depois de muito sofrer, eu tive que tomar uma atitude. Escolhi o dia errado, num domingo, mas não tava dando mais. Meus pais estavam acordando e eu chorando falei que precisava ir no médico, que não tava bem.
Na TV da sala estava passando programa da igreja com aqueles anúncios “se você tá mal, tá com problemas, blá blá blá, venha agora buscar a libertação” e eu, no nível doentio, falei “mudei de ideia, vamos pra igreja!”. Minha mãe puta grita “nãããão, vamos ao hospital!” e meu pai nem um pouco feliz com aquilo tudo, nos levou. Só tinha a emergência aberta. Óbvio. O médico em 5 minutos falou que era depressão receitando “ele deve ir ao psicólogo e tomar esses remédios”. Remédios tarja preta, dos quais tomei assim que cheguei em casa e depois de tanto tempo sem dormir, apaguei. Eu nem lembro o que falei pro médico pra ele saber do que se tratava, mas quando você tá depressivo, você não pensa direito. Então acho que a falta de conexão nos fatos já mostra mais ou menos por onde seguir.
Eu fui tomando o remédio por um tempo, mas não durou muito. Os remédios antidepressivos dão sono e eu tinha que tomar um deles ao acordar, ou seja, ficava com sono no colégio. Meu pai, muito espertamente, me alertou sobre isso, o quanto iria afetar meu desempenho escolar, que tarja preta é viciante e eu não ia querer parar mais, então sabiamente, decidimos parar de tomar o remédio. Ir a igreja ainda era o melhor remédio. Quanto ao psicólogo, também não era necessário. Afinal, eles nunca se deram ao trabalho de procurar um. E eu que não ia ficar reclamando, né? Eu em, psicólogo é coisa de gente doente. E eu não era doente. E tinha dias que dava pra conter, tinha dias que eu só queria morrer. Eu não tinha coragem de me matar, mas o pensamento era constante. Na igreja, pensamento suicida também é coisa de encosto. Basicamente, tudo que é de errado na vida, é encosto. Portanto, se eu já tinha certeza que tinha um dentro pelo fato de ser gay, depois disso tudo eu sabia que existia era uma legião. Com o passar do tempo eu fui melhorando mesmo, afinal, a gente tem que viver né.
O mais engraçado é que eu não esqueço do meu professor de História na época, Cap. Samuel. Ele era super foda, severo, logo eu tirei na prova 0,8. Sim, 0,8 de 10. Isso conseguia me deixar mais mal ainda. Eu eventualmente melhorei a nota, mas mérito também de um trabalho que era basicamente assistir A Noviça Rebelde e falar sobre o pano de fundo do nazismo. Na época eu até falei “ué, tinha nazismo nesse filme? não é o da negona que vira freira?” (sim, achava que A Noviça Rebelde era Mudança de Hábito). Eu assisti com umas amigas (viado nesse idade definitivamente não tem amigos homens) que cometeram o pecado de pular as músicas, logo, o filme era um saco. Quando eu cheguei em casa, assisti novamente sozinho. No dia seguinte, claro. Não tinha nada pra fazer mesmo. Detalhe: VHS duplo! Tinha amado, mas não iria contar pro grupo né. Fiz o trabalho e comentei também sobre a importância da música na história. O professor amou e me deu 10. Pediu até pra ficar com o meu trabalho e de mais duas amigas do mesmo grupo. Depois de tanta tristeza, esse foi o primeiro momento que eu fiquei mais felizinho.
O tempo foi passando, superei aquilo, apesar de achar minha vida vazia. No fundo eu ainda queria morrer. Todos os meus amigos estudando para o processo seletivo e eu jogando Pokémon para ocupar minha cabeça e não pensar besteira. O ano era 2006, 3º ano do Ensino Médio. Foi quando comecei a dar uma pesquisada bem de leve sobre musicais depois de relembrar de A Noviça Rebelde no cursinho de inglês. A gente estava assistindo algum Shrek, acho que o 2, apareceu Julie Andrews nos créditos e eu pensei “De onde conheço ela mesmo? Ah, a Noviça!”. Lembrei de como eu tinha gostado do filme e fui pra pesquisa de outros. Comecei no básico e clichê, Moulin Rouge, O Fantasma da Ópera (viciei de cantar todas as músicas sem parar), Cats, esses DVDs fáceis de se arrumar, e da forma mais aleatória, cheguei no que mudaria e finalmente daria sentido para minha vida. O nome do musical? RENT.
O post do download tinha essa foto. Era musical, achei a capa colorida, baixei. Não esqueço que um dos motivos de ter baixado era por ter achado a capa colorida. O nome disso é marketing visual, e claro, uma criança retardada. Mas ainda assim, foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido naquele momento. Era tudo que eu precisava. O filme acabou e eu estava aos prantos, mas com uma sensação tão boa dentro de mim. Sensação essa que se repetiria sempre que eu assistisse, ouvisse as músicas. Eu respirava aquilo, só falava disso para meus amigos. O mais engraçado é que tava todo mundo estudando para o processo seletivo já sabendo o que iria cursar, sem tempo de pensar em outra coisa ou respirar e eu lá, só assistindo RENT como querendo absorver a mensagem do filme e assim, finalmente me aceitar.
O filme realmente me fez ficar bem comigo mesmo, então tomei o primeiro passo que todo homossexual deveria tomar: me aceitei. E fiquei feliz, como nunca havia ficado antes. Não contei pra ninguém, não era necessário ainda. Só de estar bem comigo mesmo já bastava. Comecei a assistir mais e mais musicais. Fiquei viciado. Era um caminho sem volta. A cada musical bom que eu assistia, eu ficava melhor. Eu ia pra aula e ansiava voltar pra casa para assistir. Depois dos filmes, veio Broadway. Foi pesquisando sobre RENT que eu vi que era baseado numa peça, só que não encontrava pra baixar. Então comecei com os que encontrava. Claro, clichês também. Wicked, Avenue Q, com qualidades péssimas e baixados no Emule. Emule! Quanto ódio eu sentia daquele burrinho idiota. Vocês que reclamam quando um vídeo treme muito não fazem ideia do que era assistir os vídeos do Emule. Como não encontrei o de RENT, baixei ao menos a trilha.
Ouvindo aquilo eu conseguia visualizar tudo em minha mente. O que era diálogo no filme, ali era música. Cenas que não existiam, ali presentes em músicas. Músicas maravilhosas, vivas. O que já era muito bom, chegou num nível absurdo de perfeição. Hoje com Youtube, bootlegs e o escambal, a gente pode assistir praticamente tudo numa boa. Naquela época não era tão de fácil acesso, então rolava um pouco de imaginação. Eu ia ouvindo tudo e criando um mundo mágico na minha mente. Era incrível. E agora, mais do que nunca, eu respirava aquilo. Só vivia para aquilo. Eventualmente baixei o vídeo, amei ainda mais. Caçava vídeos de outros elencos, me apaixonei pelo elenco original, todo aquele processo natural e a cada dia que passava eu agradecia mentalmente Jonathan Larson.
Minha família se mudou para Manaus porque meu pai é militar, tinha umas dívidas aí e quando militar muda assim de estado, ganha um dinheiro bem bacana por conta disso. A ideia era ele ir, ficar lá por dois anos e voltar. Ele foi, se empolgou e queria colocar meu irmão no Colégio Militar (sendo que tem um aqui no Rio, nunca entendi, nunca entenderei) e minha mãe não quis me separar dele, disse que eu ia jogar isso na cara um dia (aham, tá) então fomos todos. Eu era criança, não entendia dessas coisas direito, se não teria falado que não precisava. Mas enfim, eles quem mandavam na época. Fomos em 1999, eu entrei num colégio Batista (dá pra acreditar?), depois fui pro Militar em 2000 (lá só pode a partir da 5ª série) e me formei em 2006. Meu pai se aposentou não lembro em que ano e voltou pro interior de São Paulo, onde ele nasceu e está trabalhando até hoje. Eu, meu irmão e minha mãe continuamos em Manaus. Motivo? Não sei, só sei que eu aparentemente era o único que não queria ficar lá.
Além de achar que ali minha vida não mudaria muito, ainda existiam agora os musicais. Os musicais estavam bombando no Rio e em São Paulo. Eu via os vídeos na internet, áudios, eu precisava daquilo na minha vida. Eu cheguei a ir assistir O Fantasma da Ópera, meu primeiro musical brasileiro ao vivo, e fiquei deslumbrado. Eu considerava na época o melhor musical do mundo (sem nem conhecer os outros – sim, eu era realmente um típico fã do Fantasma) e depois fui assistir My Fair Lady (onde fiquei na casa da minha ex-namorada virtual atual amiga que amo horrores – e sim, pode dar risada) só que era tenso ficar viajando de Manaus para esses lugares, sem contar que eu já poderia estar na minha cidade natal, por que não estar lá que deveria ser a pergunta. Eu cheguei a passar no vestibular lá em Ciências da Computação, mas larguei. Se eu cursasse, significaria ficar pelo menos mais 4 anos por lá e eu não queria isso. Enchi o saco da minha mãe e finalmente em 2008 nós viemos ao Rio enquanto meu irmão ficou na casa de um amigo-irmão nosso. Ele também namorava (e ainda namora) uma menina de lá, ainda dos tempos de colégio, então dá pra entender a razão dele querer ficar. Além da faculdade, é claro (só que não porque ele eventualmente largou pra ter que trabalhar). Eu queria vir porque eu necessitava uma vida nova e eu sentia que vindo pra cá, isso iria acontecer.
Aconteceu. Sair de uma cidade como Manaus e voltar ao Rio é uma mudança brusca. Chegando aqui eu já sai do armário pra minha mãe, que ficou chocadinha (não sei como) mas levou de boa. Essa vida nova seria assim, eu seria eu mesmo com todos que conhecesse, sem ter que me esconder nem nada. Ela pediu pra ao menos não ser tão assim com nossos parentes, respeitei e se eles tocassem no assunto, eu ignorava. Infelizmente nem pude sair ao vivo para minhas poucas amigas de Manaus, a viagem foi completamente de última hora e nem deu pra ter uma despedida. Foi tenso ter que encaixotar tudo que eu tinha de um dia pro outro assim, do nada, sem nem poder dar tchau. Mas era o jeito. Nós tentamos vir pela aeronáutica, o nome da minha mãe saiu, o meu não. Ela veio, eu vim de avião normal sozinho e detalhe, com o LP do Drowsy na mão. Tava com medo de quebrarem. O coitado do meu irmão teve que ficar mandando nossas coisas pelo correio, uma caixa por mês, isso até sei lá quando. Ele teve que começar a trabalhar pra poder pagar isso. Enquanto meu pai não faz nem ideia do que é fazer uma mudança. É muito fácil se mudar sozinho com umas mudas de roupas pra um lugar, cansar, ir pra outro. Agora mudança mesmo ele nunca esteve presente.
Se vocês estão acompanhando bem, 2007 eu não fiz nada em Manaus (me formei em 2006) e 2008 foi quando eu voltei ao Rio. Tecnicamente seria o ano em que eu estudaria horrores para o vestibular, mas não tinha nem como. Eu não tinha computador, eu não tinha livros, nem dinheiro para um cursinho. Na verdade eu não tinha dinheiro nem pra pegar ônibus na rua. Nós viemos sem nada, aqui em casa morava um tio, uma tia e seus 4 filhos (um casal da minha idade, um casal de menores) e morei com eles esse ano inteiro porque eram eles que compravam a comida. Todo dinheiro que minha mãe recebia, era pra pagar o apartamento. Aliás, esse apartamento daqui é quase um membro da nossa família também. Metade das brigas que já houveram entre minha mãe e meu pai envolvem essa porra. O lance é, nós fomos para Manaus para assim pagar as dívidas daqui. Chegando lá, meu pai já havia gasto todo o dinheiro sabe se lá com o quê. Até hoje não sabemos. E com o passar do tempo, ele simplesmente deixou de pagar. Ou seja, foram 9 anos de dívidas. O apartamento chegou a ir em leilão e tudo mais, mas depois de muito correr atrás, conseguimos recuperar. Só que hoje em dia tem que pagar uma mensalidade nova e uma antiga, e isso até sabe se lá quando né. Na época o dinheiro só dava pra isso, não sobrava pra mais nada. Ainda estávamos pagando minha passagem por fora. Então eu simplesmente não tinha como estudar muito, mas eu dei meu jeito.
Primeiro eu vi as opções que eu tinha. Eu gostaria de ter tentado Artes Cênicas, Publicidade e Marketing, mas as vagas eram mega concorridas e eu sabia que não tinha chances sem estudar. Achei a solução dos meus problemas: Letras em Inglês/Literaturas na UERJ. É a universidade mais próxima da minha casa, não é um curso tão concorrido e se eu não passasse nela, não passaria em nenhuma outra. Passei. Passei na 3ª reclassificação, mas passei.
As aulas só começariam no segundo semestre de 2009, então para me ocupar inventava o que fazer. Minha mãe viu no jornal um curso de teatro gratuito num SESC aqui perto de casa. De graça, por que não? Fui lá. Eu ia a pé, 40 minutos andando, mas ia. Era um curso intensivo, quase todos os dias de Janeiro. No final dele, tínhamos que criar uma peça e encenar. O diretor/ator/organizador da porra toda do curso gostou do nosso grupo então acabou nos dando uma peça pronta, de sua própria autoria, baseado no projeto que a gente tinha apresentado. Segundo ele, ele se empolgou numa madrugada e botou tudo ali. Ele no mínimo fumou, recebeu alguma entidade, porque ele escreveu uma peça assim, tensa. Nem me darei ao trabalho de explicar, mas o meu personagem não falava durante a peça toda, a não ser quando a menina morta tocava no meu ombro e eu gritava numa língua que não existe. Eu lembro até hoje do começo. “Tumabalai acande saiz saiz saiz pelami…”. Eu achava aquilo patético, mas me joguei. Era a proposta do autor né, me dei ao trabalho ainda de decorar bonitinho e fiz.
Deles eu sinto saudade e guardo a boa memória. Nós ficamos bem amigos e íamos na onda juntos. Posso dizer que eles foram meus primeiros amigos do Rio sem ser de Orkut. Claro que eventualmente eu saí do curso, alguns continuaram, fui assisti-los em outra peça mas na saída só alguns me deram bola, outros nem tanto, e ai morreu assim como a Anna, personagem da peça. A velhinha faz teatro na UERJ então já esbarrei com ela umas duas vezes depois e ela é uma figura. Os outros, espero que eles estejam bem d felizes. E claro, como esquecer? Para coroar essa minha atuação, eu ainda tinha que voltar para a cena final usando uma cabeça de boi.
Aquilo, pelo menos pra mim, não era teatro. Eu entendo que é pra galera que não tem outra saída, que é pra eles terem uma noção, terem esse toque com a magia que infelizmente é de pouco acesso para todos. Eu tenho plena noção disso e por isso mesmo saí. Eu pensei que pelo menos no dia da apresentação eu saberia o que é usar uma maquiagem especial, um aquecimento especial, uma preparação, mas nada, foi super jogado. Quando me toquei já estava num palco, a platéia toda preta e flashes e mais flashes. Não sabia nem pra que direção eu tinha que focar meu olhar. As pessoas me elogiaram depois, eu agradecia com sorriso amarelo e foi isso. Existe filmagem disso, mas eu não tenho e nem faço questão de ter. A minha concepção de teatro era diferente, e por isso saí. Eu ainda preferia peças lineares, que você entende sabe? Não gosto de loucuras que supostamente são inteligentes, mas não, são babaquices. Eu cheguei a ir assistir outras peças de lá, mas chegou num nível que não dava mais. Quando a pessoa extrapola no “ah, a arte, o amor, elevação da alma, bullshit, blá blá blá” é porque é pra dar um fim mesmo.
Relembrando. Basicamente eu tive 2007 em Manaus parado, 2008 e o inicio de 2009 de nada no Rio de Janeiro. 2 anos e meio em que eu poderia ter feito muitas coisas, mas não tinha dinheiro nem pra sair de casa. Eu não morri de tédio graças novamente a eles, os musicais. Eu entrei num vício a ponto de assistir um por dia. Eu não tinha como sair mesmo, tinha poucos amigos (aliás, parte deles que conheci no Orkut e por conta dos musicais), então essa era a minha diversão. Falando em Orkut, foi onde encontrei várias pessoas tão viciadas quanto eu. E rolava cada discussão calorosa por lá, e a gente, criança ainda, fazia a festa. Eu sinceramente não sei como atores renomados, já trabalhando no ramo com um tempo considerável, se davam ao trabalho de brigar com a gente. Mas eles brigavam, a gente continuava brigando e bem, hoje em dia acho patético, mas na época me divertia. São fases da vida. E novamente, atores que brigam com crianças seja onde for, bora acordar!
Muita gente me fala “nossa, como você conhece musicais!” e bem, tá ai a resposta disso. Aposto que vocês não tiveram dois anos e meio de puro ócio para assistir tudo. Eu tive. Eu conheço todos os musicais que já passaram no Tony Awards entre 2003 até 2010, e a partir de 2007 até 2010 eu vi todos que já estiveram em cartaz e possuem vídeo. Isso sem contar os clássicos e os outros aleatórios que eu ia assistindo. Outro detalhe que hoje em dia é diferente e vocês devem agradecer muito ao meu amiguinho Leonardo Polo (na época, moderador da comunidade mais badalada, Wicked – Brasil) foi que ele quem ensinou os gringos a uparem os VOBs dos DVDs. Eles burramente achavam que isso tirava a qualidade do vídeo e até a gente de fato mostrar que não tirava levou um tempo. Naquela época, a troca era pelo correio. Tinha que mandar e esperar um mês pra chegar, muitas das vezes o correio entrando em greve ou simplesmente perdendo as encomendas. Hoje em dia todo mundo só troca upando os VOBs. Aliás, nem troca, tem quem compartilha, tem quem só baixa. E fim. Vale lembrar que a internet naquela época ainda era lenta e a ansiedade fazia parte do negócio, mas quando completava, era uma felicidade só.
Dedico agora um espaço especial para Kerry Butler. Dentro de muitos atores/atrizes que admiro, e são muitas mesmo, ela é minha favorita. Caso já tenham esquecido, foi ela que eu mencionei que passou na minha frente no Spider-Man. Pois bem, nessas assistidas todas de musicais, cheguei em Hairspray. O filme atual não chega aos pés do musical original. O que é uma tristeza, mas enfim, foi por ele que conheci o talento da Kerry. Impossível não amar sua Penny. Mas ainda assim, normal. Isso até eu assistir Little Shop of Horrors. Foi ali que eu tive certeza que ela seria minha diva. A personagem dela apanha do namorado sadomasoquista e tem um sonho simples que pode ser escutado aqui:
A atriz do filme é sensacional, mesmo, choro de rir com ela. Mas a voz dela beira pro cômico, o que deixa mais engraçado do que triste. Aqui com a Kerry não, é triste e ponto. É levado a sério e admiro isso porque é como eu vejo a cena. Pode ser um sonho simples, até beirar pro patético para alguns, mas é o sonho da personagem e ninguém tem que se meter com isso. Assistindo esse vídeo então eu morro. Ela canta sem figurino, sem cenário, nada, e se emociona. Não sei explicar direito, mas senti arrepios vendo esse vídeo como nunca antes e desde então assisto tudo que tem seu nome no meio. Até leituras, demos, workshops, caço tudo. No fundo sei que existem melhores, sei que ela derrapa em certas ocasiões, mas o nome disso é afeto. Uma vez que você adquire, fica difícil de perder. Eu sinto algo diferente quando é com ela. Quem é fã de musical, sempre terá aquela pessoa especial. Aquela que você fica feliz mesmo de ver fazendo figuração seja onde for, e a minha é ela. Ironia do destino ou não, ela possui um CD solo inteiramente com músicas da Disney. Recomendo para quem interessar “Part of Your World” e “Bare Necessities”, tem no youtube, é lindo.
Eu não era muito ligado aos musicais daqui, eu assistia, mas eles não me tocavam tanto quanto aos que eu assistia em vídeo. Meu primeiro musical depois de voltar a morar aqui foi Beatles num Céu de Diamantes. Eu vi do balcão (único lugar que poderia pagar), tinha acabado de sair do SESC então a iluminação ainda tava meio ruim lá na sala Fernanda Montenegro, então a experiência foi OK. Claro que eu vi depois mais umas várias vezes e amei, mas de primeira foi só OK. Mas lembro de ter saído de lá impactado com Marya Bravo e pensando “sim, vale a pena conhecer mais os talentos brasileiros”. Minha perspectiva foi mudar mesmo com Avenida Q. Foi a primeira adaptação que eu realmente paguei pau loucamente, tanto que fui zilhões de vezes, fui fã freak total e nem preciso falar muito se você acompanha o blog desde sua criação. Claro que antes disso eu assisti outras peças (não tantas quanto gostaria pelo dinheiro) mas essa foi a primeira mesmo que eu pirei.
Depois dela viriam outras, não dá pra citar muito, mas vamos pular pro O Despertar da Primavera. Impossível não se emocionar horrores com aquilo. Até pela temática que né, não vivi tão hardcoramente quanto eles porque não tem comparação, mas me identifiquei como todo jovem. O mais engraçado é que não esqueço, na saída da estreia, estava cumprimentando Charles Möeller e a própria diva Marya Bravo vem falar comigo “você é o Charles Fouquet? Nossa, amo seus textos! Eu e o Gualda até te chamamos de Charles Fuck It”. Cristiano Gualda é outro que né, pago pau. Mas voltando a cena. Eu sem resposta ainda, aí o Möeller responde “Né? Ele é incrível e…” bem, não escutei mais nada. Eu estava com a primeira atriz que me fez querer buscar conhecer melhor os atores-cantores brasileiros com o diretor das peças que me fizeram sentir o que eu até então só sentia nos vídeos. Os dois, ali, na minha frente, me elogiando. Aquilo me fez pensar muito. Eu fiquei “Nossa, eu quase morri quando na verdade tudo que eu precisava era me achar. Encontrar um lugar onde eu me encaixasse, onde as coisas fizessem sentido”. E no fundo, foi isso mesmo. Os musicais me trouxeram muitas coisas boas. Naquele público eu me sentia normal. Eles falavam a mesma língua que eu. Eles me entendiam. Eu os entendia.
Quando o Despertar estreou, as aulas na UERJ já haviam começado, que aliás, não poderia ter sido mais feliz. Eu estava com saudade de estudar, saudade de conhecer pessoas não-fãs de musicais também, saudades de ter uma vida né. Foi incrível porque bem, é Letras né. O que mais tem lá é mulher e viado, então eu sabia que eu poderia chegar chegando e não foi pra menos. Na semana do trote eu já era o calouro sensação. No dia do show de calouros eu simplesmente cantei Toxic da Ms. Spears e ganhei uma standing ovation. Eu fiquei famosinho por conta disso, me sentia prefeito ao chegar porque dava tchau para todos. Foi tudo incrível. Inclusive, aproveitei disso para ficar panfletando sobre o Despertar lá. Tinha gente que me odiava por conta disso, mas eu nem ligava. Eu sentia que eu tinha e precisava mostrar pra todo mundo o quão incrível aquilo era. Isso tudo até um fatídico dia.
Combinamos um encontro dos fãs pelo Orkut (que favela que isso soa agora) e foi muita, muita gente. Acredito que umas 30. O dia em si foi lindo, tava tudo ocorrendo bem, até momentos antes do 2º ato que eu reparei que minha máquina fotográfica havia desaparecido. Procurei desesperado, mas nada. Alguém roubou. O mais triste da história toda é saber que a pessoa que levou, era do nosso grupo. Eu era meio bobinho, acreditava no melhor das pessoas mesmo sem as conhecer direito. Isso só fez me lembrar que existem pessoas escrotas em todos os lugares mesmo. Fiquei depressivo novamente. Eu sei, agora eu mesmo acho patético o fato de ter ficado depressivo por conta de uma máquina, mas a depressão é algo que a gente não tem controle. Eu explicarei mais sobre isso futuramente, mas na época eu realmente fiquei muito mal. Eu cheguei a ganhar uma câmera nova pela minha linda Marcia Parenti, da qual formei uma família de coração só com viciados em musicais e eles sim, amo mesmo. Mas ainda assim eu continuei meio mal. A partir daqui não enchia mais o saco de ninguém para ir ao teatro. Eles que se fodessem sem saber o que estavam perdendo. Fiquei chateado de ter perdido as fotos, mesmo com uma máquina nova não sentia mais vontade de ficar tirando foto, e assim foi indo.
Em 2010 eu consegui superar e foi quando eu criei o Ano Fouquet. Meu aniversário é dia 20 de Outubro, então seria 20/10/2010. Ainda depressivo, vi o vídeo de Caroline Figueiredo no Jardim Botânico. Chorei de rir, óbvio, mas dali eu tirei o empurrão que precisava pra superar de fato e ficar bem. Ficava me desejando luz, luz, luz, caminhos abertos, positividade e o escambal. A mesma ficava twittando sempre que a hora se repetia nos minutos, tipo 09:09 #luzluzluz, 10:10 #luzluzluz, etc. Foi dai que nasceu o Ano Fouquet e ele não poderia ter sido melhor. Na verdade verdadeira, a ideia do Ano Fouquet era perder a virgindade. Eu já tinha 20 anos, tava na hora, né? Não perdi antes por falta de oportunidade dado todas as circunstâncias que vocês viram aqui, mas daquele ano não passaria. A brincadeira acabou ganhando níveis muito mais interessantes além de ser só perder a virgindade. Foi o ano que eu passei inteiramente bem, sem recaída nenhuma. Tive momentos ruins, óbvio, mas nada de depressão profunda. Comecei a trabalhar, ganhar meu próprio dinheiro, fui pra São Paulo duas vezes ver os musicais de lá e rever meus amigos, além de ter me dado a oportunidade de fazer o intercâmbio pra Disney do qual já relatei aqui e foi incrível, melhor experiência da minha vida até agora.
Confesso que não foi fácil. Eu comecei trabalhando como monitor do CNA, ficava tirando dúvidas e tinha dia que nem ia ninguém e ai eu ficava estudando, ou lotava horrores a ponto de nem perceber o tempo passando. Eu sou uma pessoa paciente, lido bem com pessoas. Tinha casos extremos de burrice, mas eu ria mentalmente, respirava fundo e tava ótimo. Eventualmente virei professor. Eu aceitei porque significava mais dinheiro que eu precisava, mas foi meio tenso porque foi repentino. Eu nunca havia dado aula na vida e pá, já tinha uma turma, já estava dando aula, sem supervisão, sem nada. Com o tempo ganhei o auxílio, mas lembro de chegar em casa depois de dar minha primeira aula querendo nunca mais pisar naquela sala, chorando. Por mais patético que seja, eu encarei aquela sala como um palco. Eu, quando professor, era um personagem. E funcionou. Os alunos passaram a gostar de mim, e eu deles. Eu tinha o respeito até do mais fortão da sala, que aliás, um querido. Eu agora me acho um bom professor, foi só o susto do começo que aliás, foi uma experiência incrível. Suei muito pra chegar lá, mas consegui. E sim, também perdi minha virgindade. Mas comparado com tudo que eu vivi, isso foi o de menos. E não é que valeu a pena esperar? Agora ao menos posso falar que foi com o Buzz Lightyear.
Mas, vale lembrar que muita gente faz o intercâmbio da Disney pra aproveitar lá, fazer altas putarias, botar os pais de graça no parque. E eu, nem preciso dizer que tinha um objetivo diferente. Meu objetivo era apenas ganhar muito dinheiro para gastar tudo em NYC com ingressos. Era isso que eu queria. Só que chegando lá você eventualmente aproveita tudo ao máximo. Eu estava na Disney, revivendo minha infância tão linda. Se parar pra pensar, meus primeiros musicais foram os filmes da Disney e eu nem sentia que eles eram musicais. Meu trabalho era de personagem, personagens que eu amava brincar de ser, me divertia horrores, sentia que estava ganhando pra me divertir. Fiz amizades fantásticas e ainda tive um summer lovin’. Em Orlando foi tudo, tudo perfeito. Mesmo os momentos ruins foram bons. Foi a primeira vez que eu me senti vivo. Eu mal entrei na internet e quando isso acontece, é sinal claro de que você está usufruindo 100% da experiência.
Assim como expliquei meu amor por Kerry Butler, acho que devo aqui voltar um pouco em 2010. Ainda no Brasil. Preciso falar de Giulia Nadruz. Foi no Ano Fouquet também que conheci minha diva brasileira. E foi quase da mesma forma da Kerry. Antes de estrear Gypsy, assistindo os vídeos dos ensaios, tem um que a Renata Ricci aparecia cantando um trechinho da música da vaquinha. Eu fiquei em choque em como a voz dela havia melhorado horrores! Melhorou mesmo agora que vi Bruxas, mas bem, não era a voz dela no vídeo. Ela teve algum problema com a voz, resfriado, algo do tipo durante os ensaios e quem cantava era Giulia Nadruz, sua sub. Descobri isso pelos comentários no site M&B. Uma pessoa que cantando um trechinho de 10 segundos e olhe lá, da música da vaquinha, e já chamando minha atenção assim estava pedindo para ser stalkeada. Joguei o nome no youtube e apareceu isso:
E, novamente, mesma coisa. É só ela, num ensaio, e você já vê o grande talento que ela possui. Pronto, virei fã eterno. Terá sempre meu afeto. Ano que vem ela fará sua primeira protagonista em Fame. Primeira protagonista de muitas, com certeza. Aliás, se eu fosse diretor, montava uma peça pra ela e o Beto Sargentelli. Esse é o casal top da nova geração que irão arrasar horrores. Assim como avisei pra Giulia que ela seria protagonista mais cedo mais tarde, disse a ao Beto. Não deu outra, ele é o Lucas na Família Addams. E voltando a Giulia, o mais engraçado é que ela estudava Direito com uma amiga minha que fazia UERJ. Não sei se eu acho mais engraçado o fato dela ser humana gente como a gente, ou de fato, ela ter pensado em fazer Direito. Tipo, oi?
Inclusive, meu último musical antes da viagem, de despedida, foi o Hair. Olha quem estava lá (reparem minha camisa):
Muito resumidamente, esse é o panorama da minha vida até a viagem. Achei necessário voltar no tempo para mostrar a importância dos musicais na minha vida. Vocês sabiam que eu os amava, mas não sabiam o motivo. E agora sabem. Antes deles, minha vida nem tinha sentido. E claro, gostaria também de mostrar que eu já havia tido depressão um dia e exatamente por não ter tratado, ela voltaria sem dúvidas. Eu não tentei me matar porque não vi uma pecinha, fiquei triste, sou dramático, fim. Não. É psicológico. Mesmo sem motivo, isso poderia voltar. Só não esperava que fosse voltar logo no lugar que eu mais almejei ir na vida. Mas foi, e por conta disso tudo que eu vivenciei lá conseguiu ser mais cruel do que qualquer outra coisa que eu já passei até então.
Continua…
Diário de um Deprimido – Pt III: O restante de NYC
“Problem is the subject, there’s no pleasant way to treat it. Problem is the author’s lost control. How I wish it didn’t have to be so, but we cut the losses starting now. (…) Find another genius, I can’t be one or become one. I can’t even tell how I’d begin. Help Luisa, help me, help me mama, help me someone. Here’s a place where I have never been. Guido out in space with no direction, Guido at a loss for what to say, Guido with no intervening actors, Guido at the mercy of detractors, Guido here with no one else but Guido!”
- Nine
24 de Fevereiro 2011
Prendi a respiração. Desisti umas duas vezes até que pensei “É agora!”, segurei e mesmo quando o desespero final bateu, não sucumbi. Continuei segurando. Fui perdendo as forças, fechando os olhos e cai no chão. E foi assim que eu morri. Fui levantando pensando “Ué, não morri?” até que o otário aqui lembrou que ao cair no chão, minha mão obviamente saiu do meu nariz, logo, voltei a respirar involuntariamente. Na hora eu fiquei puto, agora dou risada da burrice. De qualquer forma continuei tentando o dia inteiro de todas as formas possíveis. Não comentarei pra não dar ideia, até mesmo que são ideias estupidas de como você não conseguiria morrer nem com muita força de vontade. Depois de desistir, continuei andando de um lado pro outro feito louco e me forcei a dormir o dia inteiro. De vez em quando eu ficava mais triste ainda vendo na internet ou no celular o que as pessoas mandavam. Mari Rio e São Paulo estavam em Miami e me mandaram uma foto delas lindas por lá e falando “Aposto que você está arrasando em NYC! XOXO”. Rob, meu attendant favorito, mandando “Espero que esteja tirando muitas fotos!”. No Facebook, algumas pessoas que já haviam voltado ao Brasil dizendo que estavam com saudades. Mensagem toda hora do Cody. E por aí ia, e eu ignorando tudo e triste, em como queria de fato estar correspondendo aquilo.
25 de Fevereiro 2011
Acordei e estava chovendo. Pensei “hoje seria um dia de preguiça se eu tivesse vivendo essa porra da forma correta”. Quando você viaja, precisa aproveitar todos os dias. Mas chuva é desculpa pra curtir algo mais light e relaxar. Só que ai resolvi dar um fim de uma vez. Na janela da casa da minha amiga tem aquelas escadinhas de ferro tipo West Side Story, sabe? Subi e fui até o telhado. Sim, na chuva. E ah, eu estava vestindo apenas uma camisa branca e de cueca, também branca. Cheguei lá no telhado e o chão era todo branco. Me senti Britney Spears em “Everytime”. Tinha um pombo morto na escada e eu falei “já já te encontro amigo”. Fiquei encarando o chão da rua várias vezes, querendo me jogar, mas no fundo vinham as lembranças da Disney. Como tinha sido bom, como queria rever as pessoas no Brasil e não iria mais, então antes que alguém me visse, desci. Dai depois eu subi de novo, fiquei mais um tempo, dai desci. Devo ter feito isso umas três vezes. Na última pensei “bora pra rua que lá eu encontro outro lugar”. Vesti meu casacão azul nojento e fui.
Estava chovendo mas eu nem sentia graças a ele. Ele é horrível mesmo visualmente, mas nesse quesito de conforto ele é perfeito. Só depois que eu fui sentir frio porque ele já estava todo molhado, mas ainda assim, eu com roupas normais ali iria congelar vivo. Aliás, podia ter morrido assim, né? Nem pensei. Mas eu tive outra ideia ”genial”, morrer de fome. Por tanto a partir daquele dia não iria mais comer nada. Eu passei o dia inteiro andando. Minha amiga morava na 151, eu fui andando até a 42. Dei uma sentada na escadaria da TKTs e depois continuei andando até nem saber mais onde eu estava. Eu passei na frente do albergue da Raissa, do hotel da Carina, restaurantes brasileiros, passei numa rua que tava tendo gravação de um filme, vi cachorrinhos fofos e madames passeando com eles. Eu me sentia em um filme e bem, eu andei tanto que todos os filmes que eu assisto hoje que se passam em NYC, eu acabo reconhecendo o lugar. Depois de andar todo o lado East, eu andei todo o lado West. Foi um dia andando em Manhattan. Seria legal se eu estivesse bem né, só que não. Eu andava sei lá com que intuito, parecia que pra pensar eu precisava andar. Só que pensar doente = pensar merda. Então só vinha porcaria. Eu tentei me jogar na frente de carros, eu encarava os negões do rap pra vê se eles partiam pra cima. Eu entrava até em becos que eu nunca pensei que seria possível sair vivo andando por eles, e nada. Eu passei por lugares que eu teria que procurar no mapa pra chegar porque eu super iria visitar, mas acabei simplesmente esbarrando. O Lincoln Center belíssimo que estava com War Horse em cartaz, o Bryant Park que vive tendo apresentações da Broadway por lá. Tinha um mini-carrossel também, paguei e fui chorando, relembrando da minha felicidade na Disney e pensando que ali já pisaram tantas pessoas que eu admiro, mas que naquela hora não me diziam mais tanto quanto antes. Vi museus, o touro da Wall Street, eu vi tanta coisa que nem sei.
Depois de passar o dia inteiro na chuva, com fome, andando já com as pernas doendo, resolvi voltar. Só que ai eu ainda estava lá pelos 30 e poucos do lado West, tive que andar até o 151 e migrar pro lado East. Cheguei em casa e apaguei.
26 de Fevereiro 2011
Segundo dia da greve de fome e contando. Foi quando eu resolvi consultar meu cartão de pagamento da Disney e eu ainda tinha bem uns $900. Pensei “se é pra morrer, vou morrer feliz”. Sai e comprei ingresso pra Mary Poppins e American Idiot, duas peças que eu queria muito assistir. Fiquei passado com a facilidade que consegui os ingressos. Comprei ambos student por menos de $40. Fiquei mais revoltado ainda comigo pensando que eu poderia simplesmente ter perguntado no primeiro dia e nada, nada daquilo estaria acontecendo. Eu teria visto American Idiot mega bem, teria voltado ao meu eu e pronto, nada de ter que morrer. A Raissa iria voltar para o Brasil naquele dia, ou eu teria dado pra ela um dos ingressos. Eles também não cobram a carteirinha na hora de entrar. Fui pra escadaria da TKTS e fiquei lá até dar a hora do Mary Poppins. Devo ter ficado na internet. Quando deu a hora, fui ao teatro. Ele é imenso, o meu setor era no penúltimo. Lojinhas em todos os andares vendendo vários produtos lindos dos quais tenho certeza que teria comprado metade. A bonequinha, o livro bíblia, a bolsa, guarda-chuva, etc, etc, etc. Mas não né, morto não leva nada disso mesmo.
Entrando no meu setor eu já comecei a chorar. Eu olhei pro palco e aquele fundo azul com a foto da casa e escrito “Number 17 Cherry Tree Lane” bem ali. Chorei por uns 10 minutos. Mary Poppins foi um dos primeiros vídeos que eu assisti em bootleg e viciei bastante de assistir quase todo dia. Naquela época nem sonhava em assistir ao vivo e agora eu estava ali. Só quando sentei peguei o playbill, pra quê? Mais baldes de choro. O elenco principal era o mesmo do vídeo! Laura Michelle Kelly e Gavin Lee. Eles são sensacionais e tipo, o vídeo é mega antigo do musical ainda em Londres com elenco original! Eu sinceramente não sei como eles aguentam fazer o mesmo papel por tanto tempo, mas ali estavam os dois. Tinha também o Andrew Keenan-Bolger que eu amo, tem um blog foda. A Ms. Andrew também era a mesma do original só que da Broadway. Acho que só eles mesmo, mas super já me bastavam.
Começou e eu chorei do inicio ao fim, com picos maiores em “Jolly Holiday” que é minha música favorita e me remeteu aos passeios no Ibirapuera em que eu era feliz e nem sabia. “Feed the Birds” porque ela por si só já me fazia chorar mas consegui me superar em “Anything Can Happen” que inclusive, tinha essa frase na capa do meu diário da Disney. Mas não dá né, você querendo se matar e vem uma música positiva falando que “anything can happen if you let it”. Eu ficava chorando e fazendo não com a cabeça. Dou até risada do quão patético isso deve ter sido pra quem tava do meu lado e viu. O musical é lindo, uma puta superprodução. Maravilhoso mesmo. Mesmo doente eu reparei que eles trocaram uma canção. O que era “Temper Temper”, a cena assustadora (para as crianças) dos brinquedos virou “Playing the Game”. Tem no youtube, mas é um saco. Conseguiram colocar algo para eu odiar. Mas olha, Laura Michelle Kelly merece baldes de amor. Ela é melhor que a Julie Andrews, pelo menos eu achei. Ela flutua no palco, nunca vi ninguém fazer nada parecido. É sério, ela não anda, ela flutua.
No final eu não tinha nem forças pra levantar de tanto que chorei. A moça dos playbills veio falar comigo (que nem o do Angels in America) pra perguntar se eu tava bem. Não ia responder “não moça, eu queria me matar mas essa maldita peça fica aí dando mensagem positiva, fico puto” então respondi que havia trabalhado na Disney a pouco tempo e aquilo só fez me lembrar os bons tempos que tive lá, blá blá blá. Ela falou que também já foi CP (olha a coincidência) e que entendia, uma fofa. Só que não era bem essa razão pra eu estar daquele jeito, mas enfim. Ela me ajudou e me levou até o elevador pelo menos.
Na saída tinha um grupo de pessoas protestando por alguma coisa. NYC é assim né, a cada momento acontece alguma coisa e você não faz ideia do que seja, mas fica parado assistindo. Depois fui pro stage door que fica atrás do teatro. Fiquei analisando de longe já que não pretendia tirar foto. Mas eu vi o Gavin Lee e não resisti, fui falar. Eu quando era super fã mandei carta pra ele, ele respondeu com foto autografada dizendo “Hope you get to watch Mary P. one day!”. Super lindo. Comentei isso com ele, ele sorriu e falou “See? Dreams really do come true!”. Eu respondi que sim, pensando “nem sempre”. Saiu o Kenan-Bolger, falei que era fã dele pelo Battery’s Down, mas depois cheguei no blog dele e o admirava mais ainda. Ele ficou muito, muito feliz de saber isso. Ele disse que nunca ninguém do Brasil falou que o conhecia assim. Eu comentei que eu e mais uma amiga assistimos todos os episódios do Battery’s Down e amávamos ele. Ele ficou mais feliz do que eu de conhecê-lo. Ele até perguntou “quer uma foto então?” e eu falei que tinha esquecido minha câmera, mas que eu assistiria de novo e super iria tirar uma foto com ele. Ele apertou minha mão agradecendo e foi cumprimentar as outras pessoas. A Laura Michelle Kelly eu não aguentei, sai de perto e fiquei vendo de longe, chorando. Não sei nem o que falaria normal pra ela, quem dirá doente.
Voltei a escadaria da TKTs e ficava me martirizando mentalmente, entrando na internet e postando porcarias (teve uma época que eu postei que tava feliz mas é porque eu queria que as pessoas pensassem que eu havia ao menos morrido feliz) mas o tempo passava rápido até e quando me dei conta, já faltavam 15 minutos pra American Idiot.
O teatro lotado de coisas escritas nas paredes total wannabe RENT sendo que fato que aquela porra nem teria uma vida muito longa em cartaz, garotas punk mal vestidas e de cabelo roxo e eu pensando que iria rir tanto daquilo se eu não tivesse numa situação pior que elas. Olhei a lojinha e vi que tinha o programa vendendo. Lembrei da Carol que assistiu na época que nem tinha programa ainda e super daria pra ela de presente, mas né, não tinha mais como já que não voltaria pro Brasil. Então resolvi beber. Lá tinha um bar lindo e eu pedi a bebida “American Idiot”. Sou tão original. Não faço ideia do que era, mas era bem forte. Gastei $30 só nela. Bebi metade e já tava altinho, afinal, dois dias sem comer né. Quando eu terminei já tava bêbado mesmo, gritando junto das meninas do punk no final de cada cena e até quando aparecia o John Gallagher Jr. (Moritz original do Spring Awakening) e o Billy Joe. Fiquei amiguinho de umas doidas lá e só dava a gente na vibe linda. Nem chorei porque tava muito animado. Sempre me imaginei chorando com “Boulevard of Broken Dreams” porque eu normalmente chorava já ouvindo o CD mas ao vivo, nada. Sendo que mais na Boulevard of Broken Dreams que eu ali, não dava.
Foi incrível, eu amei e fiquei alucinado. Bêbado a gente ama tudo, óbvio, mas American Idiot era um musical que eu já amava. Eu voltava do trabalho escutando no ônibus e fazendo bateria imaginária e cantando super empolgado. Quando a cortina subiu e eu vi aqueles televisores, pirei loucamente. A cada música eu ficava mais e mais empolgado e pensando “caralho, como eu queria que a Raissa tivesse visto isso!”. Quando acabou eu pulei stage door, tava sem condições de enfrentar minhas ex-amigas (sim, não queria mais papo com elas depois – foi coisa de momento) para conseguir foto com Billy Joe. Até mesmo que ele não tava bom de St. Jimmy. E se você consegue ser ruim comigo bêbado e depressivo na platéia, é porque realmente tá braba a situação. Pulei também porque era capaz de oferecer favores sexuais para o Gallagher Jr. Não dava né.
Sai cambaleando e fui pra casa. Detalhe, meu ticket do metrô tinha expirado. Comprei um não sei como porque né, trêbado, e fui. Poderia ter sido assaltado fácil nesse dia, passando o meu cartão várias vezes e não conseguindo o ticket, mas foi tudo tranquilo. Em casa apaguei, mas antes pensando em como eu teria amado aquele dia se eu estivesse bem. “Se”. Palavra constante dos meus dias.
27 de Fevereiro 2011
Acordei e fui tentar dar um fim definitivo logo nessa história toda. Tava sofrendo muito, era melhor agilizar o processo. Fui na farmácia comprar algo que eu pudesse tomar e morrer. Só que eu sou tão burro que a única coisa que vinha a cabeça era arsênico e por conta de Chicago, não sabia mais nada que pudesse matar logo. E né, você não encontra arsênico assim pra vender. Procurei, procurei, e o mais perto que eu achei eram pílulas pra pessoas com insônia. Comprei umas 200 junto de bebida alcoólica. Eu tomei umas 50 de começo. Falava que não podia tomar mais de uma, então tomar mais 49 deveria dar alguma merda. Depois de engolir muito você cansa também. Tomei com cerveja porque dizia que não era recomendável misturar, logo, pensei que piorava ainda mais o efeito. Vim descobrir aqui no Brasil que cerveja tira o efeito de qualquer remédio. Quédizê… Mal sabia que estava sendo salvo de coisas piores pela minha ignorância. Obviamente não funcionou direito.
Minha amiga chegou em casa cedo porque era domingo. Perguntou o que eu ia almoçar e não dava pra responder “nada, tô morrendo de fome” então falei que ia no Mc Donald’s. Ela pediu pra eu comprar o almoço dela também então lá fui eu. Não teve jeito, tinha que comer também. Almoçamos juntos, é o tipo de coisa que eu teria amado de fazer se estivesse bem. Eu prezo por essas coisas, esses pequenos momentos juntos. Nós conversamos relembrando algumas coisas do passado, eu contei pra ela sobre os musicais no Brasil, ela me contou sobre a escola de musicais lá e o quanto ela tá aprendendo, essas coisas. Isso até ela perceber os cortes no meu pescoço, perguntar o que era aquilo e eu inventar algo que nem lembro mas que deve ter funcionado porque ela não tocou mais no assunto. Ficamos vendo TV.
Fabinho cansado de tentar me chamar pra balada e eu só recusando, ligou perguntando se eu não queria ir no hotel dele que ele iria embora no dia seguinte, dai tava todo mundo arrumando mala, conversando. Fui né. Não tava fazendo nada mesmo. Ele tava hospedado no hotel com as lindas das gêmeas que amo, entre outras pessoas bacanas que eu conheci muito por cima durante o programa, mas acabei conhecendo mais aqui no Brasil e são super bacanas. Saímos pra passear, conversar, ele viu os cortes e eu inventei alguma desculpas que não lembro. Conversando com alguém (que agora eu não lembro também) que havia ido no Tussauds ele falou “nossa, eu queria muito ir lá. Meu sonho, mas não tenho mais dinheiro”. Eu já havia destruido todos os meus sonhos, mas dinheiro eu tinha. Falei “Quer? Eu tenho dinheiro, te dou de presente”. Ele ficou meio sem jeito de começo, mas aceitou e ficou todo feliz. Fomos no Mc onde ele ainda levou o laptop pra roubar Wi-Fi e ficar no Skype com a mãe dele. Nem preciso dizer o quanto eu me senti um lixo nessa hora.
Voltei pra casa, minha amiga estava assistindo o Oscar. Não fazia ideia de que era dia do Oscar. Fiquei lá com ela, assistindo muito por cima já que normalmente já odeio o Oscar, dada as circunstâncias então. Fui dormir.
28 de Fevereiro 2011
Fomos no tal Museu de Cera. Na verdade eu só queria dar o dinheiro pra ele ir, mas ele não tinha ninguém pra acompanhar e ficar tirando foto sozinho lá dentro é tenso. Eu normalmente já acharia idiota, depressivo então achei a coisa mais besta do mundo. Eu não estava tirando fotos nem com pessoas reais das quais eu admiro em formas que palavras não expressam direito e agora estava indo tirar fotos com bonecos de cera de pessoas famosas que em sua maioria não me dizem muito e bem, pra quê eu iria querer essas fotos se eu ia morrer mesmo? Mas enfim, fui por ele. Ele amou, e ficava me empurrando pra tirar algumas e eu ia de qualquer jeito só pra não dar muito na cara.
Sim, mesma roupa desde do dia do Spider-Man. Repare no canto da calça ela já toda desgastada e suja. Não tinha coragem nem de mudar. Mas enfim. No meio do museu tinha um cineminha 4D do Mágico de Oz. Antes de entrar no cineminha tinha a Dorothy linda na estrada de tijolos amarelos. Existiam uns bonecos que eu tiraria foto com certeza tipo o dos Produtores, Judy Garland, da “Rafiki” do Rei Leão, mas bem, naquele momento não poderia cagar mais. O cineminha foi lindo, é patético, mas eu chorei baldes. Assisti de mãos dadas com ele e bem, ele tava indo pra casa. Eu não iria. Quando ela falou “there’s no place like home”, pronto, desabei. Ele pensou que eu tava chorando porque ele ia embora, mas né, tadinho, não. Eu nem lembrava mais como era minha casa, mas eu sabia que eu não iria voltar.
Saímos de lá e ele já tinha que ir embora, se não eu teria o levado em algum musical. Nisso eu comecei a passar mal, minha barriga doía muito. Eram as pílulas fazendo efeito tardio. Tomei um negócio lá que o Fabinho me deu, me despedi e foi isso. Fui encontrar uma outra pessoa. Essa pessoa eu conheci no Lastfm há uns anos atrás. Lastfm é um site que registra o que você escuta no computador, dai você acaba conhecendo pessoas que têm gosto parecido, essas coisas. Nem uso mais, mas na época ele veio me pedir uns CDs de musicais raros, falando que estudava musical em NYC, eu ajudei, claro. Nos falamos por um tempo, adicionei no Facebook, ficou por isso mesmo. Ele viu que iria pra lá em Orlando e queria me conhecer. Eu até comentei no dia que fui no Blizzard Beach que ele disse que eu até poderia ficar na casa dele. Nunca nem esperava que fosse o conhecer ao vivo, mas marcamos e eu fui.
Ele é um querido. Ele mora lá tem um tempão já, aprendeu inglês lá, então tem o sotaque fofo quando fala português. Ele falou que poderiamos tentar assistir alguma peça, eu falei que sim, mas antes ele queria jantar. No que a gente tava no Mc comecei a passar muito mal. Tentei segurar, mas não deu. Eu precisava vomitar. Fui no banheiro, forcei vômito mas não ia. O coitado ficou me esperando do lado de fora com uma cara do tipo “não se preocupa, é normal”. Eu já causando uma péssima primeira impressão. Mas tá, fomos tentar loterias. Eu não lembro quantas tentamos, mas a última foi de Book of Mormon. Perdemos em todas, eu falei que ia pra casa que tava quase morrendo. Eu ficava sentando em todos os cantos, até na rua eu sentava enquanto eles anunciavam os nomes. Detalhe que passou na minha frente a Nina do Battery’s Down e eu fui atrás pra tirar foto e ele “pra isso tu tá bem, né?”. Sendo que pensando agora, nem eu entendo porque eu queria foto com ela! Eu não tirei nem com quem eu pagava pau loucamente, pra quê eu queria uma sub-celebridade de uma web-série musical que nem sucesso fez? Coisas de uma mente doente.
Fui correndo pra casa muito mal. Nem tinha coragem de olhar para cima pra ver as pessoas me olhando feio. Deitei porque a sensação de querer vomitar passava assim. Fui algumas vezes ao banheiro tentar vomitar, não adiantava. Não conseguia. Então me forcei a dormir e acordei no meio da madrugada. Acordei chorando sem entender porque aquilo tudo tava acontecendo, e ainda mais revoltado comigo mesmo porque o fofo desse menino falou que eu podia sim ficar na casa dele. Ele só queria me conhecer ao vivo, falar comigo direito, que eu poderia ficar lá. Foi ai que peguei meu diário e fui ler tudo que eu escrevi da Disney até aquele momento. Chorei mais ainda relembrando tudo de bom que eu vivi e ai pensei “nossa, já vivi tanta coisa bonita, por que eu tô fazendo isso? como assim? não, bora virar esse jogo!” e pronto, estava disposto a viver bem. Era tempo de esquecer que eu já havia desperdiçado duas semanas (duas semanas!) e viver bem as próximas duas.
01 de Março 2011
A Nat Teco antes de ir pra NYC estava fazendo um tour com a fofa da mãe dela por outros estados e nesse dia ela iria pra lá. Combinei de encontrá-las, já disposto a tal virada. Deu tudo certo, as encontrei no Mc, comemos, passeamos, conversamos e fomos já garantir o musical do dia. Com a maior facilidade do mundo, conseguimos para Billy Elliot. Detalhe, estudante podia comprar para dois. Mais uma vez, me senti mal de não saber isso e não ter levado a Raissa (único musical que ela viu na Broadway foi Spider-Man, tenso).
Não irei repetir que é a mesma roupa porque bem, eu só usava ela mesmo. Eu nem me dava ao trabalho de abrir a mala. Nesse dia eu ainda mudei a camisa de baixo para a que tem “luz luz luz” que minha amiga me deu no meu aniversário, pra ver se dava algum efeito. Antes eu estava usando uma branca cheia de buraquinhos de faca e manchinhas de sangue. Eu não abria o casaco mesmo, ninguém iria ver. Passamos o dia passeando, elas compraram umas coisinhas, eu ia acompanhando. Cheguei a passar mal de novo, mas de leve, tomei um negócio da mãe da Nat e passou. Fomos ao Billy Elliot.
Eu considero que esse foi o primeiro musical que eu realmente assisti. Todos os outros como vocês repararam, eu tava todo errado. La Cage nem tanto, mas ainda estava indo na esperança da salvação. Nesse eu fui porque eu queria ver a obra e ponto. Por mais que eu ainda estivesse doente, óbvio, eu estava me forçando a não ser e funcionou temporariamente. Faz parte da doença achar que você está bem, e se você acha, você está. Fim. Nesse dia eu assisti a peça como deveria. E que bom que eu fiz isso, porque foi a melhor coisa que eu assisti ao vivo até agora. Uma pena que tenha fechado recentemente, merecia muito mais tempo em cartaz.
É o que uma verdadeira adaptação deveria ser. O filme é ótimo, mas a peça não é só ele jogado no palco. Os dois por si só são fantásticos. Me arrepiei diversas vezes, as músicas são perfeitas, o elenco era incrível. O pai ainda era o Gregory Jbara (elenco original). Tinha a Carole Shelley (Madame Morrible original), Emily Skinner (de Side Show, etc) e o Will Chase (último Roger de RENT). Sério, foi incrível. A coreografia, iluminação, atuações, fiquei encantado com tudo. Só perdi algumas piadas por conta do sotaque, mas nem me importei.
Eu estava tão eu que me revoltei com a moça que deveria auxiliar o pessoal onde era o local de se sentar, entregar playbills, etc. No balcão tem setor esquerdo e direito, só que no ingresso não dizia. Eu perguntei e ela fazia com a mão “é por ali”. Eu não entendi e perguntei de novo, ela super grossa “é por ali, só ver a numeração”. Eu fui falar de novo e ela começou a falar em espanhol comigo, pensando que eu era burro e não tava entendo o inglês dela. Pra quê? Respondi “Você não precisa falar espanhol comigo, eu entendo perfeitamente bem inglês. Só gostaria de saber se é no setor esquerdo ou direito”. Ela falou “Esquerdo”. Pronto, era tudo que eu precisava. “Era só isso. E só pra você saber, no Brasil se fala português, não espanhol. E você não está me fazendo um favor, é o seu trabalho me dar as direções. Boa noite”. Sério, não tem coisa que me revolta mais que isso. Favor é uma coisa, fazer o seu trabalho obrigatório é outra.
Na saída fomos fazer stage door mas metade já tinha ido embora. Eles saem voando e a Nat foi comprar o programa, nesse meio tempo eles já tinham ido pra casa. Fica a dica pra quem pretende um dia fazer stage door bonitinho, tem que correr! Deu só pra tirar foto com o “Billy” e com o Will Chase. O mais engraçado é que as crianças saem e as mães já vão colocando no carro, na van, onde for. O Billy saiu e ninguém sabia se podia tirar foto com ele ou não. Todo mundo querendo mas sem jeito, até que a mãe falou “pode sim gente” e ai foi geral.
Momentos depois sai o Will Chase todo lindo, arrumado, de terno, com a mulher dele e já vai indo embora. Eu quase deixei ele ir, mas pensei “que se foda” e corri atrás pra pedir foto. Cheguei e falei “Hi, could we take a picture?”, ele falou que claro, dai eu pegando fôlego penso alto “wow, I just chased Will Chase”. Ele fez uma risada de tuberculoso, aquela para piadas idiotas sabe. Falei que ele tava incrível em RENT, ele agradeceu e foi embora. Não tinha como eu falar que ele tava incrível no Billy Elliot porque o papel do irmão, no musical, é muito ingrato. Ele só canta uma música, as cenas são intensas e tudo mais, e ele realmente é foda, mas eu quis falar de RENT meio que pra falar que eu sei que ele é mais foda ainda que aquilo. Deve ter soado idiota, tipo ir assistir Kiara Sasso no Mamma Mia! e falar que ela era uma ótima Christine, mas enfim, nem me toquei na hora.
E falando em Kiara, o elenco de Mamma Mia! tava por lá nesse período. Pessoas me twittando isso e eu pensando “por que eu estaria interessado nisso estando aqui?”. Eu cheguei a ver a Ki de longe, mas se ela me visse, daria umas gargalhadas. No dia que eu a vi tava sentado no chão, todo sujo e ferrado. Mas bem, voltando. Saindo de lá ainda fizemos horinha na Times Square.
Fui com elas até o hotel, comemos miojo e ficamos conversando. Conversamos tanto que acabei ficando por lá. Assistimos na TV Selena, o que acredito ser o primeiro filme da carreira da Jennifer Lopez ainda criança. Chorei baldes de rir com a tosquice e, antes de dormir, ouvi a mãe da Nat roncando. Ela avisou que roncava e eu falei que não me importava. E não me importo mesmo. Vocês acreditam que o ronco dela me fez sentir mais saudades do Cody? Ele também roncava e eu raramente ouvia (quem ouvia mais era meu roomie que até já foi dormir na sala por isso, tadinho) mas quando ouvia, eu gostava. E chorei de saudade, da forma mais bizarra possível.
02 de Março 2011
Acordei e fui pra casa. Fiquei pensando em como o dia anterior tinha sido incrível. Até a Nat reclamando do hotel, falando que fedia, que era sujo, a gente comendo miojo pra se esquentar, tudo isso fazia parte do que eu imaginava ser a experiência NYC. Fiquei passeando depois que acordei e resolvi ir patinar no Rockafella Center. Foi lindo. Quem quer que tenha escolhido o repertório parece que tinha feito pra mim. Só tocou músicas que eu amo, incluindo, é claro, Xanadu. Teria filmado esse momento lindo se meu cérebro tivesse funcionando da forma certa. Eu amo patinar, naquele ambiente foi mais lindo ainda.
Saindo de lá fui tentar a loteria de Wicked. A Nat já havia comprado pra aquele dia, eu falei que ia tentar a loteria, se não ganhasse eu assistia outra coisa. Fui super sem vontade, coloquei meu nome e tá, fiquei esperando. Enquanto o cara lia os nomes eu tava tão descrente que comecei a mandar mensagem pro Cody no celular. “For Good” estava tocando na minha cabeça, então tava escrevendo “because I knew you, I have been changed for good”. Breguice define. Cheguei a pensar “vai Deus, me dá um sinal que você existe. Se eu ganhar essa porra, eu não me mato mais”. No que eu tô mandando a mensagem escuto meu nome. Ele ainda acertou meu sobrenome, falou direitinho. Eu fiquei paralisado. Ele repetiu. Só levantei o braço e fui andando. Todo mundo me olhando com cara de “que porra é essa? ele nem gritou!”. Enquanto todos os asiáticos continuavam ganhando e gritando. Porque é, tentar loteria de Wicked é ver todos os japocas ganhando e rindo com aquela risadinha típica que cansei de ouvir na Disney.
Fui no Mc lá perto esperar a Nat e roubar Wi-Fi. Nisso entrou um mendigo pedindo dinheiro. Um cara do Mc já ia expulsá-lo mas eu simpatizei com ele, chamei até minha mesa e perguntei se ele queria um lanche. Ele falou que aceitava. Comprei e fiquei comendo com ele. Umas pessoas me olharam feio, mas não podia ligar menos. De quebra dei pra ele $30 que estavam no meu bolso. Ele falou “nossa, você vai pro céu” e eu ri respondendo “pode ter certeza absoluta que não”. Acho engraçado analisar isso agora. Eu tinha dinheiro adoidado já que só estava gastando com comida e ingresso, não tava comprando programa, roupa, nada. E ainda assim eu tentava loteria. Não comprava o ingresso de uma vez. Ainda dava meu dinheiro pra mendigo. Senso, cadê? Depois sai, dei uma volta, voltei lá só pra encontrar a Nat e fomos juntos pro teatro. Ele é provavelmente o maior e mais lindo em termos de decoração que eu fui lá. Da entrada ao último andar tudo customizado, lojinhas com zilhões de coisas, era tanta coisa que eu não vi nem metade. Teria tirado foto de tudo, se… Bom, vou parar de falar isso né. Acho que vocês já entenderam. Mas sério, incrível de ponta a ponta. Eu estava na primeira fileira central. Nem acreditava. Não dava nem pra ver o mapa todo de tão perto.
Eu amava Wicked como a maioria. Foi um dos primeiros que vi da Broadway em vídeo, aquele famoso vídeo horrível com Idina/Kristin. Passei por todas as fases. Achar o elenco original melhor que todos, ai assistir com vários outros elencos e continuar achando isso, até você se deixar levar por outras e ver que existem sim melhores. Ai você percebe que a Idina puxa ar a cada oportunidade que tem, a magia é quebrada. Eu particulamente prefiro Eden Espinosa e Megan Hilty, foi o vídeo que eu mais vi. Mas tem Julia Murney, Shoshana Bean, entre zilhões de muito boas. E ai cheguei na fase de só achar bacaninha, não tão foda quanto antes. Até chegar a fase de achar mediano até, e pronto, fica na memória. Eu mesmo nem lembrava que o segundo ato é tão chato, só lembrei na hora. Eu entendo a vibe de quem ama, mas a minha passou. Curto algumas músicas só, mas já deu.
Eu ficava reparando nos detalhes do cenário, na iluminação fantástica, no ensemble. A parte técnica é dar inveja em qualquer um. Dá pra ver cada coisinha, cada engrenagem, a cor das coisas. Eu prestei atenção em tudo, menos na peça em si. Prestei em algumas partes, nas músicas que gosto, mas a maioria eu tava nos detalhes. Assisti com duas subs de Elphaba e a Glinda. A Glinda era sensacional, a Elphaba era meio ok. Queria até saber o nome da Glinda, mas já me livrei do playbill. Só o Fiyero que eu conhecia, o lindo gostoso tudo nessa vida Kyle Dean Massey. Nele eu reparei e muito. O mais curioso que eu pensava, além de desejar o Kyle na minha cama, era como o ensemble tava presente. A maioria deles deve tá nessa peça há anos, mas foda-se, eles dão 100% deles a ponto de cada um fazer uma caretinha específica, um trejeito aqui e ali, eu vi um comprometimento muito lindo. Na primeira fila você pode reparar bem nesses detalhes e olha que eu não conhecia nenhum deles. Aqui no Brasil a gente conhece até quem é o pit singer, e as vezes reparo e vejo a cara de “preferia tá em casa coçando o saco”, meio chato mas vai de cada um.
A Nat não conhecia a peça ainda (sim, ainda tem gente que não conhece) então expliquei pra ela o que ela não entendeu, as referências, etc, enquanto comíamos pizza. Nem fomos no stage door porque tava um frio dos infernos. Deixei passar um picolé de Kyle. Fui embora pra casa. A depressão tava voltando sei lá com que razão. Mas eu estava disposto a lutar contra.
03 de Março 2011
A merda é, disposição você pode ter, mas é uma doença. Você pode ter toda boa vontade do mundo de querer ficar feliz, mas sozinho, sem ajuda, não dá. Iriamos no Mamma Mia! nesse dia, mas como disse, perdi a luta. A depressão havia voltado e eu queria morrer de novo. Sim, nem eu acreditava, mas não tinha controle. Então resolvi sair na rua em busca de uma loja que eu tinha visto vendendo o DVD do RENT Live da última performance na Broadway. Ia mandar de presente pra Loren (minha amiga australiana que ainda tava na Disney). Eu ainda tinha muito dinheiro, sai gastando. Penei mas achei a lojinha. Ironicamente, era perto do teatro do Mamma Mia! e nossa, inflação fodida. O DVD tava uns $50, mas foda-se né, comprei. Preço pra enganar turista idiota, mas não me importava mais. Fui ao correio, tava fechado. Iria mandar no dia seguinte (só que não). O mais engraçado foi antes que eu entrei numa loja que era de vídeos pornográficos, dai tava entrando e o cara “ID”. Eu “oops, I thought this was a normal store”. Ele “this is normal, you idiot”. Me expressei mal, e ele tinha razão. Passei no Walgreens e comprei veneno de barata pra mais tarde, além de coisas inúteis como post-it (até hoje não entenderei porque comprei isso) e um cartão de aniversário do Toy Story que tocava “You’ve got a Friend in Me”. Também não sei porque comprei, mas acabei dando pra Biancão no aniversário dela. Pois bem, fiquei perambulando pela rua mais uma vez e quando cansei (algumas horas depois) fui pra casa. Detalhe, isso ignorando as mensagens da Nat e da mãe dela que estavam desesperadas atrás de mim, achando que eu tinha sido sequestrado e o escambal, a própria mãe dela falou que quase foi na polícia mas nem sabia o que falar, como me encontrar, nada. Me dói o coração pensar que ainda as deixei preocupadas, mas infelizmente não querer falar com ninguém também faz parte da depressão.
04 de Março 2011
Esse era o último dia que eu tinha pra ficar na casa da minha amiga, teria que ir embora no dia seguinte. Então pronto, esse era o dia de morrer. Fui pegar o veneno e surpresa, era em pó. Sério, queria ver a cara que eu fiz ao ver aquele pó branco do caralho. Mas enfim, fui no mercadinho, comprei sorvete, misturei o tal pó com o sorvete e fui comer. Nem preciso dizer que foi a coisa mais nojenta que eu já comi na vida. Nem sei dizer que sabor tinha, mas comi o sorvete inteiro com ânsia de vômito. Feito isso, fui andar pela rua. Eu pensei que ia surtir efeito, morria pela rua, fim da minha história. Mas fui andando e nada, e nada. Cheguei a passar mal, mas não perto de morrer. Comecei a ficar desesperado, não sabia o que fazer. E numa dessas loucuras mentais que eu tinha, voltei a cair em mim. Lembrei que havia esquecido no congelador da minha amiga o resto do sorvete. Que ela poderia pegar, comer e se ferrar também. Perceba o que escrevi no meu último registro no diário, que foi exatamente o que eu pensei:
Era exatamente o que eu era. Um monstro. Gelei horrores e voltei correndo. Cheguei e ela nem tinha voltado pra casa ainda. Joguei tudo fora, arrumei minhas malas e não sabia ainda o que faria, mas teria que fazer alguma coisa. Sai na rua, mais uma vez tentando me jogar na frente dos carros, encarando os negões, nada. O remédio de barata também não fez efeito nenhum. Meus amigos depois que eu voltei e contei riram disso dizendo que não mata. Gente, como é que eu ia saber? Barata é o bicho que você pisando, esmagando, fazendo o cacete, não morre. Só morre com veneno. Como pode esse veneno não ser poderoso a ponto de matar um ser humano também? Me indago. Mas bem, voltei pra casa, deitei e fiquei pensando o que faria. Não tinha muita solução, mas eu teria que inventar alguma.
05 de Março 2011
Sai de lá super cedo. O irmão dela tava chegando do Brasil e por isso eu tinha que sair. Sem contar que nessa brincadeira foram mais de duas semanas, tempo mais que suficiente pra conhecer a cidade toda, ver todos os musicais e ir embora mesmo. Ela foi incrível em me hospedar, teria realmente realizado o maior sonho da minha vida. Eu agradeci muito de mal jeito e fui embora. Eu fui um péssimo, péssimo hóspede. Por mais que ela não tivesse tempo pra ver a situação que eu me encontrava, eu no meu estado normal teria dado um dinheiro pra ela, uns presentinhos, uns mimos como deixar uns bombons na mesa, recadinhos bonitinhos, essas coisas sabe. Ela tava me proporcionando o sonho da minha vida, mas não, fui um cuzão suicida. Um dia hei de retribuir, isso com certeza.
Tive uma ideia. Falar com o menino do lastfm se eu poderia ficar na casa dele. Peguei o táxi e fui pro hotel da Nat pra pelo menos deixar as malas lá. Ela nem estava então perguntei no saguão se eu poderia deixar minhas malas, ele falou que não. Só se o hóspede estivesse. Mandei mensagem, elas estavam no tour do backstage do Wicked. Eu fiquei umas duas horas pesando no que fazer, escrevendo no diário e tal e tá, ai ela chegou. Chegou meio puta, totalmente compreensível, pois ela tinha planejado passar o dia na rua e teve que voltar. Eu nem lembro o que eu inventei, mas falei que iria dar um jeito de encontrar um outro lugar logo. Então subimos, deixei minhas malas, tomei um banho rápido pois tava podre e saí.
Esse menino trabalhava no restaurante atrás da escadaria da TKTs. Fui lá. Ele segurando 5 bandejas e equilibrando feito ninja me olhou assustado do tipo “que stalker do caralho é esse?”, eu falei que queria falar com ele, ele falou que já tava pra sair e que me encontrava na escada. Eu fiquei lá pensando “gente, que porra é essa que eu tô fazendo?”. Era bizarro, era o Charles antigo brigando com o Charles depressivo. Sempre. Mas o mais forte era a dor no peito. Dor metafórica junto da dor literal do veneno e todo o junk food acumulado. Ele saiu, eu expliquei que tava na rua, sem rumo, não havia conseguido mudar as passagens (eu cheguei a tentar mesmo com a STB mas eles nem responderam), se ele podia me abrigar. Até mesmo que dia 11 seria a primeira preview do Catch Me If You Can e eu queria muito ver minha diva Kerry Butler. Ele ficou meio assim, mas no final falou “fazer o quê, né?” e combinamos de nos encontrar no dia seguinte que eu iria pra lá.
Eu me senti mal porque no fundo eu sabia que se eu o tivesse conhecido antes, e normal, não depressivo, eu super ficaria na casa dele de boa e até virariamos bons amigos. Ele mesmo havia falado isso no nosso primeiro encontro que eu sai correndo pra casa na tentativa de vomitar. Mas enfim, era mais tempo que eu tinha. Nos despedimos e eu resolvi tentar assistir alguma coisa. Tentei umas três loterias. Book of Mormon, American Idiot e Priscilla. Perdi todas, logo fui comprar Chicago em pé que a Carol havia recomendado e falou que era bom. Indo pro teatro quem eu encontro na rua? Mari Rio! Pra quem não leu a saga da Disney, ela também era personagem, Minnie, uma fofa, e eu a conheci perdida na rua. Ela queria ir na Best Buy e eu queria ir pro Florida Mall. Ela estava com uma amiga Raissa, eu estava com uma amiga Raissa. Eu era perfomer, eu também. E ela queria ir de onde eu havia saído e querendo ir para onde ela havia saído, eu idem. Foi super engraçado e a gente sempre comenta como foi lindo o nosso primeiro encontro, super ao acaso. E agora, mais uma vez, nos encontrando ao acaso. Ela havia acabado de chegar em NYC e só ficaria dois dias (teriam sido três se o voo não tivesse atrasado) dai falei “tô indo pro Chicago, ingresso baratinho em pé, vamos?” e acabamos indo num grupo de 4 ou 5, também de pessoas da Disney mas que eu não conhecia. Conheci pouquíssimas pessoas dessa última data (eles foram depois, logo, voltam depois). Eu nem ficaria perto dela, mas ela pediu de uma menina lá também brasileira que trocou comigo e ficamos perto.
Chicago é tudo nessa vida. O elenco era de total desconhecidos pra mim, e no fundo não muito bom. Só a Mama mesmo era boa, o resto era mediano. No que acabou “All that Jazz” a usher falou “tem uns lugares ali vazios, vocês podem sentar mas se chegar o dono, vocês saem”. Perfeito. Pagamos super barato pra ver em pé e assistimos sentados praticamente do inicio. Valeu a experiência porque bem, é Chicago e não era com a Danielle Winits. Já tava mais do que ótimo. Sem contar que estava com minha amiga linda ali do lado. Depois que acabou ela falou “vem visitar minha casa!”, eles haviam alugado uma casa mesmo e tinha bem umas 10 pessoas lá dentro. Loucura total. Ligamos pra Mari SP que foi lá nos ver. Eu amo essas duas, a gente se divertiu muito na Disney e bem, foi com elas que eu passei as últimas semanas que foram, sem dúvidas, as melhores. Mesmo sem o Cody, tenho certeza que as coisas que nós passamos já me bastaria pra ficar bem, bem feliz.
A casa deles ficava do ladinho do teatro do Avenue Q e onde seria (e agora já é) o revival de RENT. Pedi pra Mari Rio tirar uma foto que mandaria pra Loren e ela “ai, eu tô toda apertada pra ir ao banheiro e você ainda pede foto, tá, vou fazer só por você” e eu rindo (e realmente, nunca vi fila tão grande quanto a do banheiro feminino em Chicago!).
Na verdade a dediquei porque ela havia me dedicado na Disney com essa foto e a mesma legenda que coloquei, só mudando o nome, é claro.
Ela é incrivelmente linda e fofa, não dou conta. E lá, ainda mais de saber que não a veria mais. E quanto as minhas fotos postadas aqui, a maioria eu tirei com o celular de lá, nem sabia como ficaria a resolução mas gostei bastante do resultado vendo agora. Melhor que do Ipod.
Voltei para o hotel da Nat. Ele era do ladinho do teatro do Spider-Man e adivinhem quem tava bem ali no stage-door? Jennifer Damiano. Fui falar com ela super por falar. Elogiei, disse que a amava desde Next to Normal, dai ela perguntou se eu gostei da peça e eu óbvio, disse que não. Ela riu e falou “bem, está em previews, tem muita coisa que ainda pode mudar, mas obrigada pelos elogios”. Sério, uma fofa. Depois saiu o ensemble que tem uns integrantes do elenco original de Spring Awakening, a galera cagando pra eles e a maioria fumando. Dei uma risada e fui embora. A Nat e sua mãe haviam assistido La Cage por indicação minha e haviam adorado também. E assim mais um miojo, conversa e dormir.
06 de Março 2011
Fui de manhã encontrar a Mari e o seu grupo em alguma avenida ai, mas detalhe, debaixo de muita chuva. Acho que foi o dia que mais choveu lá, ainda mais que no dia que eu andei Manhattan inteira. Como era o único dia de alguns deles lá (que né, deram super azar, coitados) eles saíram mesmo assim e eu acompanhei. Foi basicamente Central Park, a Apple Store e a loja de brinquedos famosa por conta daquele filme Quero Ser Grande com o Tom Hanks.

NOW THAT IS RAININ' MORE THAN EVER, KNOW THAT WE STILL HAVE EACH OTHER, YOU CAN STAY UNDER MY UMBRELLA <3
Minha cara diz tudo, a Mari bem disse que me achou estranho lá e realmente, era visível. Que cara horrível. Mas bem, feito isso me despedi porque tinha que fazer a mudança para a casa do menino. Ela lindamente “te vejo no Rio!” e eu “é, é…” pensando “não”. É engraçado porque na Disney ela falou que iriamos ver um musical juntos e eu disse que iriamos, mas pensando negativamente, e acabou que fomos. Dessa vez ela falou que me veria no Rio, eu pensei negativamente, e já saímos várias vezes. Mari, meu bem, pense que eu ficarei rico que a resposta vai ser “tá, tá” pensando um não bem lindo.
E aí, é claro que tinha que chover logo nesse dia. É claro. O menino saiu do trabalho, passou lá no hotel e eu falei que podia pagar o táxi, mas o coitado falou “não, dá pra ir de metrô”. Fomos. Pegamos uma chuva linda, carregando duas malas gigantes na chuva, aquela coisa. Ele ficava rindo da minha mala rosa e falando “não tinha pra homem não?” e eu só falava “depois te explico”. Eu tava morrendo. Novamente, uma pessoa depressiva fica fraca, sem coragem nem de andar. Carregar mala não é lá uma coisa legal de se fazer, e na chuva, e no metrô, só piora. Lembro que passou um cara gordo negão e mendigo, vestido de James do Pokémon e ele falou “engraçado pensar que isso é um ser humano né. Que ele tem sentimentos como você. E no seu caso, quase você fica que nem ele, na rua”. E realmente.
Ele mora no Brooklyn, eu falava isso e todo mundo ficava “oh meu Deus, que longe!”. Bitch, please. Eu moro em Piedade, fuckin’ Mercy. Eu levo uma hora e meia pra chegar em qualquer lugar decente do Rio de Janeiro. Lá pegando o metrô não dava nem meia hora da Times Squares. A casa dele é super bonitinha. Eu cheguei e o ajudei a limpar a sala, mas eu tava forçando tanto a barra de querer ser legal que ele falou “não precisa, eu te aceitei aqui em casa porque eu quis” e ficava cantando a música da Cinderela do Into the Woods. Eu no meu estado normal adoro arrumar as coisas, tenho um certo TOC quando a pessoa em si está incomodada, então eu arrumo pra ajudar e fico bem. Tenho isso também com louça dos outros, se eles reclamam, eu lavo e gosto de lavar. Agora a minha mesma eu não gosto. E juro que não é pra agradar, eu realmente sinto prazer em lavar quando ela é desejada por alguém. Bizarro, né? Mas enfim, depois que arrumamos fomos num japonês ali perto, conversamos, ele me contou a história da vida dele (linda por sinal mas né, não irei compartilhar – nem o nome dele eu tô divulgando), eu contei a minha (provavelmente muito mal contada), foi bacana.
Voltamos e ele me mostrou uns vídeos super legais dele em apresentações, vídeos de amigos, tudo bem amador, mas ele é incrivelmente talentoso e os amigos dele (em sua maioria) também. Fiquei passado. Foi quando eu comecei a pensar o quanto eu gostava daquilo quando ia na Carol. Ela me mostrando vídeos, falando sobre musicais. Eu tava ali com alguém que me entendia e tinha tudo pra ser um puta amigo meu. Sem contar que ele morava em NYC, ele poderia me mostrar a cidade na visão de um morador. Ele ainda me convidou para assistir a apresentação de uma amiga dela não sei que dia, falei que ia amar. Eventualmente eu falei “nossa, você é muito bom” e comentei que havia assistido Chicago e gostei de ver que tinha gente de todas as idades, todos os jeitos, que tinha a cara dele. Ele riu feliz. Eu falei “eu não costumo errar, já tô te vendo em cartaz em Chicago e eu vou baixar o vídeo e te assistir” dai ele respondeu “não, você vem e fica na minha casa de novo”. Meu coração chorou nessa hora. Ele pelo visto tinha simpatizado comigo, pra já estar me chamando para ir pra lá de novo. Sério, chorei muito dormindo pensando o quanto queria ser amigo dele e me divertir. Só que já era tarde. Eu já tinha que morrer mesmo.
07 de Março 2011
Ele não me deu uma cópia da chave da casa, logo, se ele saísse, eu tinha que sair junto. Eu tava muito acabado, falei pra ele que queria arrumar minha mala e que não me importava de passar o dia trancado em casa. Ele questionou, mas eu falei que tava tranquilo, ele deixou e foi. Eu dormi. Dormi o dia inteiro e quando não tava dormindo, tava apenas deitado. Vi um pouco de TV, altas programas lixo, mas tava adorando. O sofá dele era maravilhoso. Eu me indago se era a doença tão agravada que ficar deitado ali parecia o paraíso ou se realmente o sofá dele é coisa de outro mundo. Ele chegou e viu que não tinha arrumado. Falei que passei o dia dormindo. Ele riu e ficou por isso mesmo.
08 de Março 2011
Dessa vez pedi pra ficar de novo, mas arrumei a mala. Muito mal arrumada, mas arrumei. Enquanto ele almoçava eu fui num mercadinho e comprei altos pacotes de M&Ms, Ferrero Rocher, o cacete de chocolate. Quando voltei ele falou “nossa, você é tão americano”. Na verdade eu não sou de ficar comendo essas coisas, mas tava obcecado com chocolate. E se era pra morrer, tinha que comer o que gostava antes pra despedida. A merda é que eu não sabia que chocolate deixa a pessoa feliz. Sim, eu sei, já tá mais que atestada a minha burrice com informações que deveriam ser importante na vida de qualquer um. Fiquei vendo TV de novo. Foi exatamente nessa época que o Charlie Sheen ficou doidão. Mostrava ele falando umas coisas nonsense pra câmera, eu não tava entendo nada, juro que nem sabia que era drogas, mas senti a conexão. Ficava falando com ele “sim cara, também tô nessa vibe”. Dou risada agora, mas na época era sério. Eu realmente sentia que havia feito um contato com ele ali. Eu me via naquela TV. Fiquei vendo uns programas toscos também, adorava. “Qual é a Música?” internacional, “Casos de Família”, etc. Consegue ser mais engraçado ainda lá. Os comerciais por si só também são completamente sem noção. Conseguia de vez em quando esquecer o quadro lastimável que me encontrava e me divertia com eles.
Antes de ir dormir, tomei as pílulas pra dormir que sobraram. Tomei 100 dessa vez. Nas últimas já cansado de engolir, mas forcei a barra e fui. E dessa vez não tinha bebida alcoólica, então elas fizeram o que tinham que fazer. De madrugada aconteceu uma coisa muito bizarra. Eu achei mesmo que estava morrendo. Eu via claramente vultos, sombras negras, com umas orelhas pontudas, vindo me buscar. Me tremia de medo, levantava cambaleando pra tentar passar a mão e ver se era ilusão ou realidade, chorando, desesperado. Eu não conseguia nem levantar direito, tava tudo dormente. Anestesiado. Levantei e era como se não soubesse mais andar. Não consegui dar mais que três passos, desisti e voltei a deitar. Deve ter sido só delírio mesmo, mas na hora foi bizarramente assustador.
09 de Março 2011
Falei que ia ficar de novo, ele falou “não vai mesmo! sai! vai ser feliz!” e me expulsou. Eu não queria sair por um simples motivo: eu não tinha forças para andar! Meu corpo tava todo mole ainda por conta das pílulas. Foram 100 pílulas pra dormir. Meu corpo inteiro estava dormindo, menos minha cabeça. Eu pisava no chão e não sentia. Era bizarro, mas enfim, tive que sair. Eu acabei indo pro Central Park. Dormi lá nas pedras, acordei horas depois então fiquei andando por lá. Incrível como é um parque completamente diferente sem a neve e o frio. É lindo demais. Não que eu tenha aproveitado muito dada minhas circunstâncias, mas era o típico momento “estaria amando se não fosse a depressão”. Eu sentava nas folhas e ficava tentando lembrar o motivo disso tudo ter começado, tentando fazer meu cérebro aceitar que tava tudo bem, que tinha coisas erradas mas que dava pra ter jeito, mas embolava tudo. Eu lembro que tinha hora que eu achava que tava super bem e do nada voltava a tremer, me culpar por tudo e ficar terrivelmente mal.
Não tem mais como eu ficar colocando as datas a partir daqui porque eu não fiz registro nenhum, consegui lembrar de cabeça só até aqui. O resto eu lembro de eventos paralelos, mas o dia exato não tenho como ter certeza. Falarei por alto os pontos mais marcantes que são impossíveis de esquecer, mas foi muito mais tenso que tudo. Principalmente porque o menino me expulsava de casa e já queria que eu fosse embora o quanto antes. Eu esquecia o chuveiro pingando (tinha que fechar muito pra não pingar e quase sempre eu esquecia), acabava me perdendo e chegava em casa tarde então ele reclamava que trabalhava, que queria dormir cedo, tudo compreensível. Eu era super relapso com as coisas, não fazia de maldade, eu não tinha mais controle. Eu era também uma presença ruim, ele queria que eu fosse embora e ponto. Eu chorava, ele deixava eu ficar mais um pouco e dizia “você é fã de musical mesmo em, dramááático”. Depois voltava atrás e assim foi indo até chegar o ponto crítico dele me expulsar mesmo. Falou que eu tinha que encontrar um lugar. Eu realmente estava num nível lastimável.
Era engraçado que enquanto ele achava que eu ainda era normal, ele me chamava pra assistir uns vídeos e ele que me apresentou Jessie J antes dela ficar mais conhecida. Dai eu ouvia “there’s nothing wrong with being who you are”, “I’m sorry that I let you down, blá blá blá, nobody’s perfect” e eu só queria chorar com aquela positividade toda no momento errado. Ele ficava dançando Britney, aliás, Britney é a diva dele. O CD novo foi lançado quando eu estava lá e ele só escutava isso. Não me incomodava, óbvio, eu gosto. Mas até quando ela falava “I can’t take it take it take it no more” eu falava “é Britney, nem eu”. E ele dançava as coreografias pra tentar me animar e eu ficava rindo. Ele é muito fofo e querido, dá um aperto lembrar todas as merdas que eu fiz com ele.
Esses são os episódios que lembro sem saber a ordem cronológica exata:
Cheguei a assistir novamente Mary Poppins (com uma sub de Mary que era ok só) porque a Nat foi ver e acabei indo de novo. Também repeti American Idiot (o último elenco antes de fechar, mas com sub do Johnny). Foi bacana ver American Idiot sóbrio, mas eu já tava tão ruim também que “normal” eu não me encontrava ali. Bêbado ao menos eu me diverti com as punkettes. Depois disso não vi mais nada porque a) consegui perder minha carteirinha de estudante numa dessas viagens andando pela rua b) assistir as peças me lembrava do Charles antigo, então ficava pior ainda c) tava muito ocupado com coisas mais pertinentes, tipo tentar me matar. Lembro de passar na frente do teatro do How to Succeed, ver uma foto linda do Christopher J. Hanke e ficar “ai caralho, ele tá no elenco, argh” e sair gritando, xingando, me batendo. Ele foi um dos meus Marks favoritos de RENT, e Mark é o meu personagem favorito de todos os tempos. Então é. Também passei na frente do teatro do Anything Goes e acenei pro cartaz da Sutton Foster. Passei no do Catch Me If You Can e conversei com a Kerry que dava entrevista no telão. Coisa que só gente normal faz. Agora passar pela cabeça que eu estava ali sofrendo até então exclusivamente pra ver essa porra de peça que atrasou e ficou pro dia 11 não vinha né?
Num dos dias resolvi me jogar na frente do metrô. Fui no Mc Donald’s, comi pensando “essa será minha última refeição”. Queria morrer feliz né, um Big Mac pra compensar pelo menos. Só que mesmo sendo um Big Mac, claro que o gosto era ruim. É a pior sensação que existe você saber que em alguns momentos tudo irá acabar e aquilo ali, de fato, é a última coisa que você vai experienciar na sua vida. Não acabou, claro, mas na minha mente era claro que iria. Era como se eu estivesse no corredor da morte, esperando a cadeira elétrica que inclusive, se fosse me dada a alternativa de usar, naquele momento, eu iria. Mas não tinha, logo fui ao metrô. Era uma forma de ter certeza absoluta que iria morrer e ninguém se daria ao trabalho de ver quem eu era. Não andava com meu passaporte mesmo, seria indigente lindamente. Fui. E ficava naquela “no próximo eu me jogo”, e passava um, passava outro, e mais outro. Eu naquela aflição querendo, mas quando vinha a luz lá no fundo, tremia na base e não conseguia. Pisei firme. “É agora!”, tava indo quando olho pro lado e vejo o Jeejay. Sim, mais um amigo da Disney. Mas ele era da família Fortaleza, queridos que eu amo demais e convivi quase que diariamente lá. Levei um susto e fui falar com ele. Ele estava indo visitar o prédio do Friends, dai falei “ah tá, vou com você então”. Fomos.
Sim, isso é o prédio de Friends. Eu olhei e fiz “pft”, mas né, pra quem é fã deve ser legal dizer que foi. O que não é o meu caso. Fiquei mais feliz de ver que ali pertinho existia uma rua de um cara extremamente foda. Apesar de depressivo tá gente, acontece, mas ele é foda sim.
Esse já era o último dia dele lá, então era só fazer isso mesmo que era perto do hotel dele. Fui, ajudei a carregar as malas e tal, e pronto, me despedi do meu amiguinho que achei que nem veria mais. Ainda não vi mesmo, mas pelo menos sei que agora eu posso!
Num dos outros dias eu fui gastar mesmo todo o dinheiro. Ficar sem dinheiro algum seria a forma de morrer, porque não teria pra onde correr, ficaria desesperado e pronto, a coragem viria. Como gastar o dinheiro que sobrou? Andando na rua eu descobri. Sardi’s.
É um restaurante famoso por ser frequentado por atores da Broadway, com caricaturas autografadas dos mais famosos nas paredes. Engraçado que eu pensei “duvido que vou chegar lá e vai ter mesmo algum ator por lá” e no que eu tô chegando perto, sai o Robin de Jesus (Sonny do In the Heights). Então tá né. Entrei e tinha mesmo mais um, o Matt Cavenaugh (falarei Grey Gardens porque é a melhor coisa que ele já fez, mas era o Tony do revival lixo de West Side Story, entre outras coisas ruins que ele fez mas foda-se que ele é lindo) e se tinha mais, nem reconheci. Mas era horário de almoço também. Nem liguei, me revoltei mais com outra coisa. Era “barato”! Eu jurava que era mega chique, com pratos impossíveis de serem pagos e tinha até sanduíche naquela porra! Mais que prontamente, eu, com meu belíssimo casaco azul nojento, cara de doente mendigo, provavelmente fedendo e o escambal, pensei “vinho, vinho é sempre caro”. Não deu outra. Pedi um que nem sabia pronunciar o nome, mas custava $99 enquanto comia um prato X que custava uns $33 ou $44, não lembro agora mas era número repetido também. Tava ótimo, eu fico altinho super rápido com vinho então funcionou que uma beleza. Passei o cartão e pronto, conta praticamente zerada. O melhor era a cara dos garçons, quando eu entrei todo mundo meio “quê que essa porra quer aqui?” e no que eu pedi o vinho, pronto, só sorrisos e bons tratos. Cheguei a dar gorjeta de $25. O que sobrou eu saquei e fui distribuindo entre mendigos e artistas de rua/metrô. Eu acho que ainda tinha uns $100 e quebradinhos, saquei os $100, fiz a felicidade da galera e deixei os quebradinhos na conta.
Pronto, agora dava, chegou o momento. Já tava noite, fui lá perto da casa do menino mesmo no Brooklyn. Procurei um lugar alto pra me jogar. Encontrei uma estação de metrô aberta. Três lances de escada de ferro pra pegar o metrô. Subi até a última e fiquei me segurando. Isso já era bem de noite, não tinha ninguém pra me impedir. Pensei por meia hora, naquele vou não vou, mas acabei indo. Me joguei. Dizem que quando você quase morre, você vê sua vida toda num flash. Eu não vi isso, eu na verdade vi tudo que eu poderia ter vivido mas não iria mais. Pois bem, agora o momento risada: eu cai em cima dos sacos de lixo! Eu me machuquei, claro, mas foi tão estupido que eu nem senti e eu mesmo fiquei rindo. Fiquei lá deitado nos sacos de lixo por um tempo, até um carro de polícia passar por perto e eu sair correndo pra não perguntarem o que eu tava fazendo ali (e detalhe, sem documentos). Continuei andando, meio que mancando por conta da pancada, mas rindo. Rindo da burrice. Eu pensei que só tinha sei lá, uns dois sacos, mas era uma pilha que suavizou a porra da queda. Nisso eu fiquei vagando a noite adentro, rua mega deserta, deitei num banco de praça e apaguei.
Acordei no dia seguinte com o sol na minha cara. Como havia tido a coragem de me jogar ali, pensei que agora dava pra ir no metrô. Eu até lembrei que teve um dia que a mãe da Nat e ela foram assistir Priscilla e eu fiquei no quarto deitado olhando pela janela. De lá eu morreria com certeza que era mais de 10 andares, mas não dava pra traumatizar as duas assim né. Então eu fui pro metrô. Ainda pensei assim “agora não deve aparecer outra pessoa da Disney né, seria o cúmulo da coincidência”. Não, não apareceu ninguém da Disney. Mas olha quem deu as caras:
Lin-Manuel Miranda. Simplesmente o gênio Lin-Manuel Miranda. Compositor de In the Heights (além de ser ~le Usnavi~), Bring It On, melhor participação da história de House e desenvolvendo um musical sobre Alexander Hamilton que vai ser foda demais.
Ele ficou me olhando de canto de olho, como quem diz “sei que você sabe quem eu sou” mas enfim, o segui até a estação que ele desceu. Depois disso fui saindo de metrô e entrando em outro, e em outro, e em outro. Não sabia onde estava, até que desci em Cone Island. Né, simples assim. Só fiz rir que ainda fui parar num lugar musical-related (onde se passa Love Never Dies, a continuação do Fantasma). Eu teria visitado muitos lugares assim. Como o Jeejay visitou o prédio de Friends, eu teria ido a Avenue B fazer pole dancing no poste em homenagem a Mimi, entre tantos lugares que eu poderia ter visitado. A parte de Coney Island que eu visitei era meio macabra, parecia filme de terror pós ataque zumbi. Então voltei no metrô, continuei migrando, migrando, migrando, quando vi já tava perto da Times Square de novo. Fui pra lá e virei a noite com uma mulher que tava com um cachorro na escadaria. Ela não era mendiga, só tinha encontrado o cachorro perdido e não sabia o que fazer. O albergue dela não aceitava, não tinha ninguém pra perguntar, entregar, dai fiquei fazendo companhia até amanhecer. Só que eu acho que ela era tapada, se ela levasse pra policia, eles não dariam conta? Enfim, nem tive a ideia na hora também. E não sei se ajudariam, mas fiquei lá “viajando” naqueles degraus vermelhos.
Eu ficava visitando lojas de musicais também pra sofrer mais ainda vendo o que eu provavelmente compraria, mas não iria mais. Tinha uma cheia de partitura que sei que a maioria do povo morreria pra ter:
Já estava com uma carinha de garoto de rua mesmo. Nessa dai também tinha playbills raros, LPs, é maravilhosa. Se não me falha a memória, o nome é Colony. Mas é perto da escadaria da TKTs é tem um letreiro enorme. Também fui ao Top of the Rock no Rockafella. Que vista linda! Só me senti insignificante no meio de tantos pontinhos, e com maior vontade de me jogar lá de cima, mas tudo bem.
Depois do veneno de barata em pó, comprei um em líquido. Peguei e coloquei num copo. Tomei ainda com a espuminha e apesar do gosto horrível, pior era a ardência nos olhos. Pensei que ficaria cego porque queimava muito, tomei um copo inteiro e não deu pra tomar mais. Mas foi só a ardência, não passei mal nem nada. Não sei se tivesse tomado o tubo inteiro teria sido diferente, mas cego eu com certeza ficaria. Depois eu fiz pior. Peguei sabão líquido, removedor de manchas, tudo que tinha na área de limpeza e misturei num copo e foi. Só de lembrar meu estômago embrulha, o gosto é muito forte e isso foi pior que tudo. Eu não posso nem sentir cheiro de produto de limpeza que eu passo mal. Eu fiquei com uma ânsia de vômito horrível, meu estômago ficava se embrulhando e eu caguei horrores (no sentido literal) e sim, meu cocô era azul. Depois disso eu desisti de ingerir qualquer coisa porque já tava sendo idiota demais.
Eu não lembro mais, além de ficar andando pelas ruas falando sozinho, tentando entender aquilo tudo, ficava voltando no tempo mentalmente pra analisar e só piorava. Eu cheguei a passar na frente do teatro do Angels in America e ficava falando sozinho “foi aqui que tudo começou, mas por quê?” e continuava a pensar sem entender. Pior foi quando comecei a ligar pra minha mãe/pai falando que ia morrer. Claro que eles ficaram desesperados sem entender nada, falando pra eu voltar pra casa logo e eu falava que não. Eu cheguei a ficar horas com eles no telefone só falando besteira. Minha mãe na primeira vez que eu liguei de NYC falando que tava meio triste falou “volta pra casa logo” e eu “não, eu vou ficar bem”. É, não fiquei. Eu cheguei a ligar pra Raissa também antes disso, ela me aconselhou e tudo mais, mas na hora você fica surdo. Não adianta. Quando eu liguei pra ela eu estava na cozinha, de cueca, com uma faca apontada pro peito e segurando o celular. Desliguei e fui tentar, Cody ligou. Eu ignorei pensando “filho da puta cretino viado de merda escroto olha a hora que ele liga e é tudo culpa dele!” mas eventualmente, não fiz nada. E falei com ele momentos depois como se estivesse bem. O lado foda dessa doença é isso, a pessoa nunca vai assumir que está mal. Cabe aos outros verem, o que dificulta muito o processo de recuperação.
Meu último dia eu lembro perfeitamente. Eu havia combinado de ir pegar minhas malas na casa do menino, mas não fui. Já tinha colocado na cabeça que ia morrer mesmo, ele que jogasse as malas fora. Não ligava mais. Fiquei vagando pelos parques que tinham ali perto. Aliás, ele mora na rua Lafayette. Eu sempre imaginava o negão viado do True Blood quando chegava. Comecei a ficar com fome e só tinha $1 no bolso. Fui numa lojinha e tinha um mini Cheetos de 40 cents. Comprei dois e comi como se fosse o melhor prato que já comi na vida. Eu lambia os dedos e foi a primeira vez que eu me senti homeless mesmo. Já havia dormido na rua e tudo, mas lamber os dedos de Cheetos é definitivamente o ápice da pobreza. Sentei num desses parques e fiquei lá agonizando, me martirizando, pensando mil maneiras de como finalmente terminar aquilo, ai me vem um cara e perguntar “posso tirar uma foto?” e eu “whatever”. Ele tirou, me deu um cartãozinho e foi embora. O site é Humans of NY. Ele tem esse projeto de tirar fotos de pessoas aleatórias na rua. Olha o resultado da minha:
A palavra depressão vem na hora. É o retrato da depressão. É o retrato de uma fase nebulosa da minha vida. Eu sinto calafrios se eu encarar bem o meu rosto. Depois disso começou a chover. Eu fiquei a madrugada na chuva. Eu cheguei a entrar numa loja e o cara falou “vai comprar o quê?” e eu “não, eu tô aqui pelo frio e…” “não, você não pode ficar aqui”. E lá voltei pra chuva. Eventualmente sentei no chão numa cobertura de uma lojinha, chorando. Um outro homeless me viu e falou que tinha uma igreja ali aberta. Fomos os dois e tinham vários, vários outros lá. O frio é tanto que eles abrem as igrejas pra acolher o pessoal que mora na rua. Eu me comovi ficando ali, porque aquelas pessoas faziam piadas, ficavam rindo. Era uma forma de tentar esquecer aquela forma lamentável que elas viviam. Alguns com cachorros fofos, outros com a pele tão ruim de dar pena, e outros que nem eu, que nem pareciam que eram moradores de rua.
No que vai amanhecendo vai todo mundo indo embora, e os mais preguiçosos podem ficar até o culto começar. Eu fui um desses, dai veio um padre ou sei lá o quê e falou que eu poderia assistir, mas ficar deitado ali não mais. Eu acabei ficando pra assistir e fiquei ainda mais comovido. As negonas cantando música gospel bem no estilo que a gente vê nos filmes mesmo, sério. Elas gritam, te arrepiam, é incrível. Foi ali que eu falei “ah caralho, foda-se, vou voltar pro Brasil que ao menos deixo minhas roupas e coisas pro meu irmão”. Eu iria voltar no dia 18, mas a tensão foi tanta que acabei voltando dia 16. Eu lembro de ligar pra American Airlines, mudar minha passagem, o menino ficar resmungando “é, não dava pra mudar a passagem, sei” sendo que eu só tinha visto com a STB, nem pensei em ligar diretamente pra American. Então pedi um táxi pra lá e comecei a chorar como nunca. Fiquei com as malas na rua, chorando, andando de um lado pro outro. O menino sai e fala “para de agir feito louco! não na minha rua! até agora tinha te achado normal, mas agora…” e eu falei “tá, vou ali pra outra rua” e ele “não foi isso que eu quis dizer! Só calma, relaxa”. Tava no celular chorando com minha mãe, dei o celular pra ele que ficou falando com ela (momento akward total), o táxi chegou, fui pro aeroporto.
Eu tinha dinheiro ainda na carteira, que deu pro táxi e ainda sobrou uns trocados dos quais comprei tudo em M&Ms na lojinha do aeroporto e comia como se não houvesse amanhã. Na hora de passar com a bagagem de mão o cara jogou fora altas paradas que eu tinha colocado lá dentro. Protetor solar, tudo que era líquido e eu “pode jogar” com cara de que se foda. O único que me fez refletir foi meu KY. Quando eu vi ele caindo na lata de lixo foi em slow motion enquanto lembrava os bons momentos que tivemos. Mas tá, passado isso fiquei ligando pra minha mãe, pai, enchia o saco a ponto da minha mãe falar “tá, chega, amanhã a gente se vê e conversa!”. Pra ela fazer isso é porque realmente… Eu cheguei cedo no aeroporto, devo ter ficado lá por umas 8 horas e não parava quieto. Andando de um lado pro outro, os guardinhas até ficavam me olhando estranho, talvez pensando que eu era um homem-bomba ou sei lá o quê. Mas eventualmente chegou a hora e lá fui eu pro avião.
Continua…
Diário de um Deprimido – Pt IV: Voltando ao Brasil
“Suddenly my world has gone and changed it’s face, but I still know where I’m going. I have had my mind spun around in space yet I’ve watched it growing. If you’re listening God please don’t make it hard to know if we should believe in the things that we see. Tell us, should we try and stay, or should we run away, or would it be better just to let things be? Living here in this brand new world might be a fantasy. But it taught me to love. So it’s real, real, real to me. And I’ve learned we must look, look inside our hearts to find. A world full of love, like yours like mine, like home”.
- The Wiz
É, voltar foi muito mais difícil que tudo. Eu nem me imaginava voltando, então estar ali era a coisa mais estranha do mundo. No avião um cara muito simpático sentou do meu lado. Engraçado que isso normalmente não acontece, só quando eu tô chato querendo morrer pra acontecer né. Ele puxou maior assunto, falando que era estranho voltar pra casa porque ele ficou 6 meses sei lá onde, eu falei que entendia, que trabalhei na Disney, ele achou o máximo, puxou um papo mas eu não dei muita bola. No fundo agora pensando eu acho que ele viu meu estado lamentável e quis suavizar, porque ele foi muito, muito gente boa. Eu devia estar fedendo de quem não tomava banho fazia tempo, uma barba nojenta, a cara toda marcada. Eu fui ao banheiro, me olhei no espelho e comecei a tremer de medo. Eu não reconhecia aquele ser na minha frente. Eu tava muito, muito mal. O rosto todo seco, lábios rasgados, os olhos quase pulando pra fora, espinhas, cortes, sujeira. Sério, era muito triste. Lembro de estar na casa da minha amiga olhando no espelho e, mesmo sem entender o que se passava e o motivo de querer morrer, me achava lindo. Eu ganhei músculo trabalhando na Disney, tava pela primeira vez na vida me achando atraente. E agora eu estava ali, a própria destruição. Eu voltei ao meu assento desejando com todas as forças que aquele avião caísse. Fiquei horas pedindo pra isso, mas é, não funcionou.
Cheguei no aeroporto, peguei minhas malas e fui andando. O cara ainda se despediu de mim e eu ignorei. Eu tava alguns passos do portão e não queria ir. Meu corpo travou. Dava um passo parava, dava outro, parava. Mas fui. E lá estava minha mãe. Já quase chorando me abraçou e falou “Graças a Deus” e eu falando “me perdoa, me perdoa, me perdoa” e ela “a gente conversa sobre isso depois, vamos pegar seu irmão”. Coincidência do destino, meu irmão tava chegando de Manaus no mesmo dia pra morar de vez aqui em casa. Acabou que voltamos todos e eu tremendo, querendo falar merda e minha mãe me segurando pro carona (amigo nosso) não ouvir. Cheguei em casa, joguei minhas malas no chão e já fui tentar me jogar da varanda. Minha mãe me empurrou, trancou a varanda e me colocou no sofá e falou pra eu falar tudo. Eu tentei explicar, falei tudo meio desconexo, acredito eu, e eles tentaram me acalmar. Falando que a gente ia ver isso, que é experiência, riram quando eu falei do sabão, do veneno, porque realmente, é pra rir. E aí eles falaram “todo mundo vai pra NYC e volta com as mesmas histórias, a sua pelo menos foi diferente!”. Esse é o argumento mais patético que eu já ouvi na vida. Viver bem NYC como todo mundo ou quase morrer? Hm, que difícil decisão. Mas, por incrível que pareça, na hora funcionou. E fui dormir porque minha mãe insistia que tudo era só estafa. Que eu tava estafado e precisando dormir. Dormi.
Acordei e ela nos levou ao centro, ou sei lá como se chama aquilo, mas na parada do não sei o quê Bezerra de Menezes. É uma das variações do Espiritismo. Foi uma porrada na cara ir nesse lugar. Tanto em Orlando quanto em NYC só tem gente bonita. É raro ver gente feia, só aqueles gordos e tal, mas ainda assim não chega perto das pessoas feias daqui. E ali, bem, só tinha gente feia. Gente feia, pobre, mal vestida e buscando uma cura para as vidas infelizes delas. Sei que é terrível falar isso, mas é a verdade. Você não vê gente bonita ou bem de vida ali, só vê gente fodida querendo curar doenças por métodos fora da medicina (o que não concordo, mas vai de cada um). Eu fiquei chocado. Mais chocado ainda com o que eles pregam. Eu fui porque né, minha mãe jurava que podia ser espiritual. É a ignorância que rodeia minha família, não tem jeito. Óbvio, não aconteceu nada. Mas ela jurava que tinha me feito um bem incrível. Então voltei pra casa, falei no Facebook com Leo Polo e Laisoca, eles falaram que eu precisava procurar uma psicóloga, eu falei que ia, e tá. Ficou por isso mesmo. Inclusive imagino agora o choque deles ao ler as barbaridades que eu possa ter escrito. Fui dormir de novo, até ai tranquilo. Parecia que tudo foi só um pesadelo e pronto, ia ficar bem.
No dia seguinte foi como se eu acordasse pra realidade. Eu fiquei “gente, o quê foi que eu fiz? Eu estava em NYC, podendo realizar o sonho da minha vida, de férias! Por que eu não aproveitei? Porque eu me torturei? Como assim? Eu tava de férias gente!”. É que vendo meu quarto, minhas coisas, entrando na Broadway.com e vendo os musicais que não vi, sabendo que tinha que voltar pra UERJ, procurar um emprego, o choque de realidade faz você voltar a si. Foi horrível. Se antes eu queria morrer, agora eu tinha certeza absoluta que eu tinha que morrer. Minha mãe quis sair, fomos os três. Antes de chegar ao shopping que iriamos, esperando um semáforo, eu fugi pelos cantos. Saí correndo e eles nem perceberam, só depois que meu irmão eventualmente me encontrou. Eu tentei correr, ele correu atrás e começou a me encher de porrada. Ele falava alguma coisa, eu respondia alguma coisa e soco na cabeça. Era algo do tipo “vai continuar fugindo?” e eu “vou” e pá, soco. Eu não sentia dor. A dor por dentro era maior que qualquer outra coisa. Ele me batendo e minha mãe gritando. Cena deprimente. Dali fomos direto pro hospital. Na emergência eu contei minha história pra médica. Por coincidência do destino, ela era psiquiatra (e seria a vir a minha psiquiatra mesmo). Eu não podia ficar internado porque tinha um problema no meu cadastro. Futuramente iriamos descobrir que por eu ter trabalhado com carteira assinada, tinha perdido o direito do hospital. Mas ela falou pra me trancar dentro de casa, esconder os remédios e receitou como deveria fazer. Ela falou que tinha que marcar psiquiatra o mais urgente porque o remédio demora a fazer efeito e eu poderia fazer mais besteiras. Que eu fiz, óbvio.
Eu não lembro exatamente a ordem cronológica das coisas, mas foi foda demais. Eu realmente tentava morrer todos os dias. Era acordar, passar o dia inteiro tentado me matar, ir dormir pensando em como morrer no dia seguinte. Eu tentava me afogar na pia, amarrava um saco plástico na cabeça e prendia a respiração até ficar roxo, tentei me enforcar na varanda, todas elas davam errado. Seria mais prático me jogar, mas aí todos os amigos da minha mãe ficariam sabendo, e não queria isso pra ela. O fato é que o corpo humano preza pela sobrevivência. Existe o reflexo, que na hora H acaba arrancando o saco da cabeça, puxa a cabeça pra fora da pia, e na varanda foi sorte mesmo, a corda tava velha e arrebentou. Como eu não conseguia morrer de forma alguma, minha nova alternativa era fugir de casa e morrer eventualmente na rua. Só sabia que eu não queria mais ser o Charles, podia fugir e começar uma vida nova. Eu não poderia ser o Charles antigo. Era inconcebível eu, Charles Fouquet, ter ficado depressivo em NYC. Então eu fugia.
A primeira fuga eu fiquei perto da estação de trem daqui de casa. Eu tentei me jogar. Eu fechei os olhos, levantei as mãos e tava só esperando vir o impulso e cair, mas na hora que eu quase tava indo, apareceu um velhinho falando “faça isso não meu jovem”. Eu saí. Ele vira e fala “quer uma maça?”, eu rindo digo que não. Ele “tá, mas não faz mais isso”. Ironia né gente, saí da Disney onde dar maças não é algo muito legal e aqui, um velhinho, querendo me salvar com uma. Eu andava, andava, cheguei a cair no chão de um bar que tinha um pedaço de garrafa quebrado, tentei cortar meus pulsos com aquilo mas não era afiado o suficiente. Dei uns cortes mesmo assim pensando que poderia infectar, sei lá, tava doido. Ficava pensando em como eu era um tempo atrás e minha situação agora. Eu tinha sido o fuckin’ Goofy na Disney, todo mundo me amava, e agora eu tava no chão de um bar tentando me cortar com uma porra de garrafa de cerveja. Quem me visse na rua, nem diria. Continuei andando, dormi num banco que tinha e quando acordei, meu irmão tava passando bem na hora e me levou pra casa. Ele ficava falando, tadinho “por que você faz isso? para, para com isso!”. As pessoas me olhando na rua sendo carregado por ele. Ele “viu? tá todo mundo olhando”. Eu completamente louco “quero mais é que vejam, sou eu, a estrela que chegou de NYC!”. Ele “é assim que eu gosto de ver!”. Eu tinha chegado no nível que falar asneira “feliz” era melhor que fugir. Depois disso, claro, fui trancado completamente e fiquei sob vigilância.
Eu cheguei a achar os remédios e tomar todas as pílulas, o que resultou num coma em que dormi três dias direto, mas só. Os remédios basicamente só te dão muito sono e agem em partes do cérebro que causam a depressão, só que requer muito tempo pra funcionar. É coisa de meses. E a pessoa precisa querer se curar, o que não era meu caso. Eu queria morrer mesmo. Eu só conseguia pensar que eu estive em NYC e não assisti os musicais, não tirei foto com os atores, não peguei autógrafos, etc. Eu acho que mesmo que eu não documentasse minha história aqui, vocês saberiam que eu estava doente por lá. Eu só assisti coisa de turista idiota. Eu não assisti Catch Me If You Can, How to Succeed in Bussiness, Anything Goes, Book of Mormon, entre tantos outros que eu sem dúvidas faria questão de assistir e sim, todos eles estrearam enquanto eu ainda estava lá! Em vez disso ainda repeti dois musicais que nem precisava tanto repetir sabe, eu não entendia, e não conseguia imaginar mesmo eu vivendo com esse peso nas costas. Os arrependimentos eram vários. Uma amiga minha de Manaus me viu vagando pelas ruas de NYC e mandou mensagem no Facebook me chamando pra sair, recusei as baladas com Fabinho, deixei de rever a Sara da Disney que morava lá, deixei de conhecer uma brasileira fã de musicais que mora lá, perdi a amizade do menino do lastfm, deixei de conhecer pessoas legais (lá como vocês perceberam, o pessoal na platéia puxa assunto), quando fiquei na rua cheguei a twitter e um amigo falou que eu podia ficar na casa de uns conhecidos dele super fofo, meus amores do Rio iam me pegar no aeroporto e eu não vim no dia certo, tudo e muito mais pesava na minha cabeça.
Muita gente pode achar essa parte idiota. “Nossa, como assim por ele não ter assistido peças ele quis morrer?” e bem, agora eu também acho isso. Mas antes de tudo depressão é uma doença. Não precisa de motivo, a pessoa fica mal por qualquer motivo que seja, e se algo assim acontece, só agrava. Quem leu o segundo capítulo viu o quanto isso era a minha vida. Sonho a gente não julga, cada um tem o seu. Tem gente que mora no interior da puta que o pariu e o sonho é um dia ver o mar. Tem gente que sonha em casar, ter filhos, blá blá blá, tem quem ache legal, tem quem ache patético. Mas cada um faz o que bem quer da sua vida. O meu maior sonho havia sido destruído e eu fui o responsável em destruir. Eu poderia ter vivido tudo que sonhei e não vivi. Qual era o sentido de continuar a viver se eu não tinha mais nenhum sonho? Nada que me fizesse acordar de manhã e ter um propósito em continuar? Dinheiro pra quê? Estudar pra quê? Nada mais importava. Eu pelo menos sou sincero comigo mesmo. Eu acho errado você viver por viver sem ter um objetivo de vida, algo a ser alcançado. Ser só mais um que nem vive né, sobrevive. Então se eu achava que já era, que não tinha mais jeito, eu tentei fazer o que estava ao meu alcance que era partir pra outra vida. Essa já era. Nessa eu já havia falhado e não tinha mais jeito.
Não conseguia me matar, não dava pra fugir, foi aí que parti pra parte mais estúpida ainda da história. Comecei a procurar na internet formas de voltar no tempo. Acreditem, tem sites com bruxarias ensinando como voltar. Se você procurar no google encontrará algumas e sim, fiz todas. Claro que na magia eu ainda pedia pra voltar pra novembro que ai eu viveria tudo da Disney de novo, ainda melhor, e ai teria um NYC lindo. Esse é o nível que minha doença atingiu gente. Eu fazia com toda fé do mundo todas essas magias, ficava horas repetindo alto, escrevendo, acendendo vela, patético patético. Mas só mostra o quanto sua mente consegue fazer idiotices quando se tem algo a afetando. Eu passava madrugadas andando de um lado da cozinha pro outro desejando voltar no tempo. Eu fechava os olhos, clamava, eu precisava disso. Viver como estou vivendo agora não dava. Eu perdi toda a noção de tempo que eu tinha. As horas voavam. Eu olhava no relógio e rapidinho passava uma hora. E nada de voltar. Eu estava perdendo a faculdade e isso me entristecia, mas depois vinha o foda-se de quem pensa “o que é a faculdade comparado com tudo que eu já perdi?”.
Minha mãe jogava na minha cara “viaja e fica doido! odeio NYC, odeio Disney” só que ela não entendia que eu sempre fui “doido”. Não foram os lugares que me deixaram assim. A única forma de eu não ficar do jeito que fiquei, era não saindo de casa. Não vivendo. Ela achou que fiquei assim porque comi mal, não me cuidei. Eu realmente comi muito mal, mas não acho que falta de comida te dê vontade de querer se matar. Ela ficava “sabia que você não tava pronto pra viver sozinho” sendo que eu vivi por dois meses e meio muito bem. Inclusive, eu aprendi a valorizar o trabalho dela. Na Disney eu não jogava minhas roupas no chão e elas apareciam magicamente limpas, eu não tinha comida no prato quentinha, comida de graça, moradia de graça, eu tava por conta própria e me virei muito bem. Eu aprendi a dar o valor, mas ela insiste em continuar querendo fazer tudo. Eu deixo, mas com certeza eu sei que já tenho maturidade suficiente para morar só, mesmo que ela não queira acreditar nisso.
Meu pai veio do interior ajudar, largou o trabalho e veio. Veio com boas intenções e o fato dele largar tudo, mostra que ele é sim um bom pai. Tiveram altas brigas aqui em casa porque minha mãe pensava de um jeito, meu irmão de outro e meu pai de outro. Então era tenso. Meu irmão achava que era charme da minha parte. Fui muito mimado quando criança, logo, porrada era a solução. Minha mãe queria que eu ficasse em casa tomando os remédios e me obrigando a procurar alguma religião, fosse onde fosse, eu precisava. Meu pai concordava com a religião, mas achava que indo pra faculdade eu ia ficar bem com meus amigos e etc. Era briga todo dia, e eu pensava “foda-se, vou voltar no tempo e tudo isso não irá ocorrer no meu futuro”. Eu não sei quanto tempo meu pai ficou, mas eventualmente acabou indo embora. Ele fez coisas boas, devo reconhecer. Foi ele que correu atrás na faculdade pra uma psicóloga. A minha faculdade tem setor de psicologia para casos extremos como o meu, de pessoas que nem conseguem entrar na faculdade seja por síndrome de pânico, depressão, etc. Marcamos um horário e eu só saia de casa pra isso. Meu irmão me levava ainda pra eu não fugir. Eu falava que não precisava, mas ele ia mesmo assim (e óbvio que precisava).
Se existe um lugar horrível de se ir, onde a vibe é uma coisa absurdamente estranha e você se sente mal só de estar lá, esse lugar se chama psiquiatria. Indo lá você vê cada coisa, mas cada coisa. Eu me sentia normal perto dos casos que vi. Minha mãe é um saco, ela se acha o ser mais evoluído do mundo, então ela ficava dando conselhos e falando merda pro pessoal de lá enquanto eu tinha que esperar. Eu morria de raiva porque ela não entende que é uma doença e que palavrinhas positivas não ajudam! Eu me odiava, odiava mortalmente estar naquele lugar. Inclusive, na TV estava passando um desenho do Pateta e meu pai vai e fala “olha o Pateta!” e ri. É, eu realmente fui mais Pateta do que imaginei. A minha psiquiatra era curta e grossa, o que deixava minha mãe puta porque ela queria contar histórias longas e ela cortava sempre. Eu ria por dentro. Ela é curta e grossa porque ela sabe que não adianta ficar de blá blá blá, tem é que tratar. É remédio? Toma. É terapia? Toma. E assim vai indo. No meu caso eram os dois, sendo minha terapia a psicóloga.
Eu odiava mortalmente ir na psicóloga. Era um saco. Eu mentia boa parte do tempo, até mesmo que né, eu ainda pretendia morrer (ou voltar no tempo). Não tinha pra que contar a verdade. Mas de vez em quando eu falava, não mudava nada. O problema é que essa psicóloga é na UERJ. Pra quem não sabe, não existe lugar mais deprimente que a UERJ. É o lugar de maior índice de suicídio do Rio de Janeiro! Pessoas que nem estudam lá, vão lá pra se jogar porque não tem proteção. Ir lá também me lembrava que havia perdido as aulas, me fazia sentir falta dos meus amigos e não bastasse isso, é tudo cinzento e mal frequentado. Eu não sou de julgar muito as pessoas, mas tem gente que pede. Eu tenho poucas roupas, antes da viagem eu só tinha roupa que minha mãe me dava e ela tem um gosto meio duvidoso, mas era o que tinha. Ela ainda me dava em média 5 peças ao ano, ou seja, já repeti e ainda repito muita roupa. Antes da faculdade eu nem me ligava muito nisso, chegando lá que você vira mesmo um ser pensante e conhece amigos que te dão aquele toque esperto. Foi quando eu saí do mundo virtual e ganhei uma vida, logo, comecei a me importar com coisas que antes não. Mesmo com poucas roupas, mesmo repetindo, eu dou meu jeito de ficar aceitável. O problema é que as pessoas lá não se importam com isso. Fazem as combinações mais bizarras do mundo. Shortinho jeans, vestidinho de cortina (não tão boas quanto as da Noviça), é sério. Se não acredita, vai no 11º andar da UERJ. Aquilo é o Apocalipse, é completamente deprimente. Se eu já achava deprimente ir lá pra ter aula, quem dirá ir pra uma psicóloga (diga-se de passagem, estagiária que tem supervisão de outra pessoa).
Meu pai chegou a voltar aqui de novo, e ai me deu aquela forcinha amiga para ir na faculdade. O que ele não entendia é que se eu nem atendia o telefonema dos meus amigos, se eu ignorava todo mundo na internet e meu mural era só pessoas perguntando onde eu estava, é porque eu definitivamente não tava preparado para enfrentá-los. Mas meu pai tinha um poder sobre mim, eu não conseguia dizer não. Não sei explicar, não era medo, mas eu não conseguia dizer não pra ele. Então no primeiro dia que ele me deixou na porta da faculdade, eu simplesmente virei e fui passear pelos arredores. Na verdade eu pretendia fugir de novo mesmo, mas acabei voltando pra casa. Eu rodei o Rio de ônibus. Sabe o que é pior que andar de ônibus? É andar de ônibus sem destino. Sério, que desespero. Fui parar em cantos do Rio que eu nunca havia pisado antes. Mas no final do dia, voltei pra casa. Minha mãe me viu pela varanda e meu irmão foi me buscar. Meu pai achou normal, e no dia seguinte fez questão de entrar comigo até o meu andar. Acho que era difícil pra ele entender que eu não queria estar ali, mas tá. Já que estava, encontrei meus amigos. Eles chocados de me verem lá, mas ao mesmo tempo felizes. O mais engraçado é que eu não tinha noção de tempo mesmo, já faziam dois meses que eu não ia pra lá. 2 meses. Conversei com eles por alto, ainda provavelmente contando coisas desconexas e claro, eles cagaram se eu não vi musical tal, se eu deixei de fazer coisa tal, eles só queriam que eu voltasse pra faculdade. Eu falei pra eles que eventualmente voltaria, inclusive, conversei com alguns professores que falaram que eu podia ainda recuperar o semestre. Alguns não deixaram, mas os que eu já conhecia e gostavam de mim, sim. O que é muita coisa porque dois meses de faculdade já dá pra reprovar, mas eles foram super fofos. Pronto, meu pai tava feliz. Já poderia voltar pro interior de novo.
No dia seguinte eu fui de novo e me senti muito mal. Estar ali me lembrava que eu perdi dois meses da minha vida me torturando. Me lembrava que não tinha pra que ficar estudando, eu não tinha mais propósito de vida. Sem contar que estava todo mundo bem. A doença te faz imaginar se as pessoas vão sentir sua falta quando você morrer. Eu pensava que iriam, mas ali eu tinha certeza que não. Foram dois meses que se passaram, e tava todo mundo bem. Porque é assim mesmo, ninguém para de viver por outra pessoa. A vida continua. Fica o recado pra quem gosta de fazer drama por fazer, não adianta. As pessoas podem até sentir sua falta, mas elas vão continuar vivendo. Não fique imaginando como seria se você não estivesse lá pra se sentir querido, faça a diferença enquanto você pode, somente. Eu estava numa aula, a professora fez chamada (aliás, uma professora super fofa) e falou “você só veio visitar né?” e eu respondi que sim. Ela começou a dar aula, o assunto era Shakespeare e eu amaria estar estudando aquilo, me senti mal e fui pro banheiro com vontade de me afogar naquela privada nojenta. Era horrível. Eu sabia que eu não podia mais voltar naquele lugar tão cedo. Foi quando eu fugi de casa definitivamente. Pra não voltar. Acabei perdendo mesmo o semestre todo, e para mim, que chorava com notas do processo seletivo e tudo mais, era algo muito triste. Eu nunca havia reprovado nenhuma matéria lá, e agora iria em todas que meu amigo querido me inscreveu (quem fez minha inscrição foi um amigo, eu nem sabia que matérias estava cursando mas tava triste da mesma forma).
No primeiro dia da minha fuga definitiva fiquei ali por perto da faculdade mesmo. Dormi no ponto de ônibus e só um grupo de moleques me abordaram mas falei que não tinha nada e eles foram embora. Pior é que eu tinha celular, Ipod, mas nem me revistaram nem nada. Depois até um pastor apareceu me dando papelzinho de igreja. Isso 05 da amanhã, tudo escuro e aquele cara de roupa social na rua dando panfleto de igreja, whathefuck? Na parte da manhã quando a universidade abriu eu dormi no hall de algum andar que não o meu, depois fui dar uma andanda pelos arredores. Encontrei amigos no bar, fiquei bebendo com eles, depois comecei minha saga pelo Rio de Janeiro. Se eu achei que tinha andando muito em NYC, aqui eu quebraria esse recorde. Eu fui andando do Maracanã até Botafogo que foi onde parei e dormi com uns mendigos. Eu cheguei falando que havia sido expulso de casa pra um velho lá, ele perguntou a razão, falei que era gay e minha família não aceitou. Pronto, me aceitou pro “grupo”. Nem pensei na hora que ele podia era comer meu cu né, mas nem, ele até me deu uns jornais pra eu dormir e falei que não precisava. Me lembrei do dia da igreja no Brooklyn, aqui foi mais doloroso porque os nossos mendigos não são tão felizes quantos os de NYC. Não os culpo né, aqui nenhuma igreja nos aceitaria naquelas condições.
No segundo dia fui até o Leblon, já com a roupa toda suja do asfalto. Fiquei andando muito, depois fui pela praia e quando vi já estava em Copa. Fiquei na pedra do arpoador até escurecer. Lá foi mais tenso, tinha muito moleque de rua. Desses que eu sairia correndo no meu estado normal, mas, eu já estava que nem eles. Só faltava cheirar cola mesmo. De qualquer forma eles nem se quer falaram comigo. Voltei a andar e comecei a voltar pra zona norte. O mais triste é que minha memória é bizarra, eu me apego muito aos detalhes então eu passava na frente de lugares que eu gostava de visitar, frequentar, ou já vivi algum momento bacana e ficava lembrando, pensando o quanto eu queria poder voltar a ser eu, o quanto eu sentia falta de ser alguém. Porque quando você mora na rua, você não é ninguém. As pessoas não te olham, você é um nada. Eu acho que mais fundo do poço do que isso não dá. Pelo menos espero porque nossa… que coisa horrível. Dessa vez andei até a Lapa e fiquei por lá na madrugada.
No terceiro dia sem tomar banho, com a mesma roupa suja, imundo e nojento, e, diferente de NYC, aqui é quente. Então você se sente nojento, lá eu não faço ideia de quantos dias fiquei sem tomar banho mas nem sentia direito. Foi ai que eu comecei a quase pensar em voltar pra casa. Eu não sou de sentir fome, mas dois dias sem comer tava foda então acabei mendigando pela Lapa e consegui uns restos de comida. Quase cogitei pegar do lixo, mas lembrei de quando eu era gente e o quanto eu achava aquilo horrível, então fui pedindo mesmo no carão até que um dono de cachorro-quente me deu um. Depois fui fazendo o caminho de volta pra Zona Norte, mas por caminhos que eu não conhecia. Eu ia reconhecendo só depois onde estava. Chegando pela Tijuca eu vi a empregada de uma amiga, que aliás, é uma querida. Conversava muito com ela. Ela me viu, deu tchauzinho e passou. Depois perto da praça Saens Pena eu tô na minha e vem uma menina com uma aparência meio parecida com alguém que eu conhecia “vem cá, você viajou pros Estados Unidos recentemente?” eu disse que sim e ela “eu sou irmã da Mari”, levei um susto. Não bastasse ter conhecido a Mari na rua, conheci a irmã dela da mesma forma. Eu respondi “nossa, que bacana” e ela “poxa, a Mari morre de saudade de você, disse que não consegue falar contigo, liga pra ela” e eu “claro, assim que der eu apareço lá” (sim, pensando negativamente. Sim, já fui lá. Tô dizendo que essa porra funciona!). Fiquei passado com aquilo, mas ainda assim, não voltei pra casa. Lembrei que perto da casa dessa minha amiga (da empregada) tinha uma pracinha, não deu outra, foi meu terceiro local de sono.
O mais bizarro ocorreu no meio da madrugada. Eu acordei e tinha um velho deitado perto de mim. Tá, ignorei. Quando eu olho direito, a camisa dele é de Dreamgirls. Provavelmente algum dono de locadora deu pra ele, sei lá, mas aquilo me fez pensar. De que adiantava eu conhecer tanto os musicais, ter assistido tantos, amar tanto. Olha a situação que eu me encontrava! Eu tava na rua, sozinho, sem perspectiva nenhuma de vida. Mas se eu voltasse a ser eu, eu também não teria nenhuma já que arruinei o único objetivo da minha vida. Mas bem, eu poderia tentar ser uma nova pessoa, não? Eu fiquei pensando muito, mas nada foi mais eficaz que esse velho ter vindo falar comigo. Ele acordou e falou “e aí meu filho?” e eu me assustei. Ele era negão, mas com alguma coisa na pele, alguma doença, que ela era toda manchada de branco. Parecia um pó de tanto que tinha. Eu respondi “oi”. Ele falou “tem como você me dar esse banco? eu costumo dormir ai, te vi e deixei, mas agora queria deitar no meu canto”. Eu “claro, já tava de saída”. Levantei e dei o banco pra ele. Ele respondeu “É bom mesmo você estar de saída”.
Eu vi aquilo como um “volta pra casa moleque idiota”, mas acho que na verdade ele só tava falando “não fica mais na minha área”. Na verdade, pode ser até um “sou da rua, maluco, falo coisas aleatórias”. Quase cantei “It’s All Over” mas resolvi ir embora, até mesmo que precisaríamos de mais mendigos pra música ficar completa. Pensava “minha mãe vai me espancar, fato” mas eu iria voltar. Pior que nem consegui. Chegando perto de casa eu cai no chão. Meus pés começaram a tremer. Desmaiei. Eu acho que foi por falta de comida, mas quando acordei já estava em casa. Depois iria saber que um vizinho meu, que estudou no colégio comigo quando eu era criança, me achou jogado no chão e me carregou pra casa. Meu amiguinho de colégio gente, me carregando nos braços depois de três dias sem tomar banho e vagando pela rua. Já o agradeci, mas não posso vê-lo por aí que me vem a cena na cabeça que deve ter sido lamentável.
Minha mãe quase teve um troço nessa minha saída. Ela tava tomando remédios fortes também pra aguentar, desesperada, não sabia o que fazer. No que eu acordei eu vi meu irmão chorando. Foi provavelmente a coisa mais tensa que eu já vi na vida. Eu nunca, nunca tinha visto meu irmão chorando. E ele tava chorando pedindo pra eu não fazer mais aquilo, que ele também tinha problemas mas não contava pra gente, que dava pra resolver, etc, etc, etc. Pensei “se eu tivesse um coração, ele estaria se quebrando nesse momento”. Tudo foi indo. A partir daqui minha mãe melhorou e passou a me tratar como doente mesmo, que é o que eu era. Eu não tomava banho sozinho, ela que me dava na bacia, como se eu fosse idoso ou criança. Meu cabelo foi raspado porque já tava imenso e nojento, ria por dentro imaginando “minha fase Britney louca”.
Louco, quem? E bem, com o tempo foi indo, mas tiveram decaídas, tiveram melhoras em alguns sentidos. O processo é complicado. Um dia eu entrei no computador e vi o tanto de coisa que eu tava perdendo, inclusive, uma proposta de emprego que eu teria aceito na hora se eu estivesse bem. Era basicamente o sonho de um emprego, salário maravilhoso, enfim, conseguia me imaginar nele lindamente e feliz com tudo. Foi quando eu me revoltei e comecei a quebrar tudo. Peguei a foto da minha família, da Kerry Butler, a impressora, joguei tudo no chão. Minha mãe vem pra me bater, eu pego a caneca do Pateta linda que comprei na Disney, jogo no chão. Pego um caco e começo a cortar o pulso. Dessa vez fundo, de doer mesmo, até que ela pega um cabo de vassoura e começa a quebrar em mim. Eu gritava, ela continuava batendo. Eu pela primeira vez senti uma dor grande. Ela destruiu o cabo inteiro em mim. Eu fiquei na cama imóvel, todo dolorido, chorando. Eu fiquei dolorido por uns dois dias, mas eu tava surtado, ela não tinha outra alternativa. Se ela tivesse sedativo, talvez né. Mas o sedativo dela foi a porrada.
Fomos no psiquiatra de novo, ela dobrou a dosagem. A partir daqui eu virei um vegetal. Eu só queria ficar deitado por conta da medicação. Minha vida era dormir e psicóloga. Nem musicais eu queria assistir. Eu me forçava a ver o programa da Priscila Nocetti, de funk, pra rir da tosquice, mas me recusava a ver musicais. Teve um dia que coloquei no Amaury Jr. e tava falando de Broadway, mudei pra Globo e Hugo Bonemer no Faustão, isso no dia do Tony Awards. Pensava em como iria amar ver aquele Tony pois eu poderia ter assistido todos aqueles musicais ao vivo e bem, não tinha. Então ignorava. No auge da loucura fazia mais vídeos como o que já postei e colocava no Facebook, ou postava alguma coisa por lá falando asneiras. Tinha gente que gostava, mas eles não sabiam a verdadeira história por trás daquilo. Eu não entendia, mas vinha um impulso e dava vontade de me filmar fazendo aquelas merdas. Meu irmão falava “você zoa a Tulla Luana e tá fazendo igual” e eu cagava horrores, mas eu era a própria Tulla. Eu estava doente mesmo, só que infelizmente o caso dela é ainda pior e o marido dela em vez de fato ajudá-la, fica usando pro que faz.
Quando você tá depressivo, tudo que um dia já fez sentido, não faz mais. Até andar do seu quarto pro banheiro não faz sentido. Levantar pra quê? Eu olhava meus dvds, meus objetos pessoais e ficava “quê que eu vou fazer com isso?”. Eu ainda tinha dólares que sobraram, altas moedinhas pra trocar no câmbio e você acha que eu ligava? Minha mãe que eventualmente trocou. Eu tinha $15 só de moeda, tem noção? Eu me imaginava gastando elas por NYC, mas é, não deu. Eu já tinha perdido tanta coisa, que perder mais uma, ou mais outra, não mudava mais nada. Ficar triste com alguma coisa é normal gente, mas não ver sentido em levantar da cama, andar de um canto pro outro, de ter objetos que você gosta, não. Esse é um dos principais sintomas que um depressivo sente, e a partir daqui já deve se procurar um tratamento.
E assim, depois de não conseguir morrer mesmo, nem voltar no tempo, de morar na rua e não ter achado uma saída, e mais o escambal de coisas que eu fiz, vi que não tinha jeito se não viver. Então foi quando eu passei a levar a psicóloga mais a sério. E foi a partir daí que a coisa começou a mudar de cara.
C0ntinua…
Diário de um Deprimido – Pt V: Voltando a vida
“All those days watching from the windows, all those years outside looking in. All that time never even knowing just how blind I’ve been. Now I’m here, blinking in the starlight. Now I’m here, suddenly I see. Standing here, it’s all so clear, I’m where I am meant to be. And at last I see the light, and it’s like the fog has lifted. And at last I see the light and it’s like the sky is new. And it’s warm, and real, and bright, and the world has somehow shifted. All at once everything looks different, now that I see you”
- Tangled
Se você sobreviveu lendo esses quatro capítulos de pura tristeza, vai gostar de saber que a partir daqui começa a ficar mais tranquilo. Não foi fácil ter que relembrar tudo isso e colocar aqui, em diversas partes eu me emocionei, em outras já até ri de mim mesmo, mas enfrentei porque quis e me sinto muito bem tendo feito. Foi muito ruim e eu precisava mostrar isso. Assim como eu contei cada dia lindo da Disney, precisava contar cada dia triste em NYC para que o que irei contar agora faça mais efeito a quem esse texto possa estar sendo de valia. Foi a pior fase da minha vida, mas com certeza jamais passarei por algo parecido. O que eu passei foi necessário. Se isso não acontecesse lá, será que algum dia eu iria de fato me tratar? Qualquer coisa aqui no Brasil seria visto como tristeza e não atingiria o nível extremo que atingiu em NYC, então provavelmente eu nunca iria num psicólogo.
“Psicólogo é coisa de gente doente”, eu pensava. Quando que eu iria num por conta própria? Nunca. Mas eu era forçado, então estava lá. Eu deixava claro pra psicóloga que eu odiava aquilo, que eu me sentia mal, que eu não via como ficar contando meus problemas pra ela de fato iria me ajudar, que a única forma de ficar bem era voltar no tempo e assistir os musicais, e ela simplesmente ia respondendo calmamente pra eu continuar falando. Me irritava muito isso. Ela não deveria me dar conselhos? Mas não, ela mais ouvia do que tudo. Meu pai, mãe e irmão chegaram a ir comigo algumas vezes. Nessas sessões eles eram o alvo. Era engraçado vê-los todos preocupados com o que iriam responder. Eu não me importava porque eu não tinha mais nada a perder. Tudo que eu poderia ter perdido um dia, já tinha ido embora. E na saída, os três me perguntaram a mesma coisa. “Fui bem?”. Como se aquilo fosse um teste em que eles tinham que mostrar alguma coisa pra ela. Eu respondi que sim pros três, mas achando a coisa mais errada do mundo só o fato deles terem me perguntado isso.
Eventualmente a gente melhora. Não tem jeito. Seu corpo cansa de sofrer, você não tem mais nada a perder então pensa que o que vier, será lucro. Então eu fui melhorando sem nem perceber. Minha mãe ficava até feliz quando eu inventava de cantar e me filmar, ficar fazendo os vídeos que mencionei. Pra quem viu o filho só dormindo por meses, realmente devia ser algo bacana de se ver. A merda que eu inventasse, ela me apoiava. Foi ai que resolvi que queria ir na UERJ visitar meus amiguinhos. Só que não queria ir normal, queria ir de Character. Simplesmente levantei da cama, comecei a me arrumar e fiquei o mais parecido de cowboy que eu poderia e pronto, peguei o Woody e fui. Ela quando me viu pensou que eu tava louco, eu falei que não, que eu não ia fugir. Ela não acreditou. Eu falei que voltava. Ela não acreditou. Eu olhei no fundo do olho dela e repeti “eu vou voltar!” dai ela “mas as pessoas vão te ver assim e…” e respondi “e você se importa com o que elas pensam? eu quero sair assim! que pensem que é festa junina, o que for!” e eventualmente ela até me ajudou a me arrumar. E assim sai.
Cheguei na UERJ e óbvio, todo mundo me olhando mas rindo. Teve uma garota que me olhou bem mesmo e deu uma risada linda. Eu ainda tava meio doente mesmo, mas achei aquilo o máximo. Eu tava fazendo as pessoas felizes. Era tipo a Disney, só que no lugar mais depressivo do Rio de Janeiro, e sem brinquedos, sem felicidade, sem amor, sem… é, já deu pra entender a diferença. Entrei na sala e tava todo mundo virado pra frente. Eu falei alguma coisa, todo mundo virou rindo, falando que estavam com saudades, sério. Só uma pessoa achou aquilo ridículo e eu simplesmente ignorei. Hoje em dia entendo que ela sabia que eu tava doente e que não deveria estar fazendo aquilo, mas eu queria. E por incrível que pareça, fazer isso me ajudou. Eu consegui ver que as pessoas de lá gostavam mesmo de mim (mesmo me vestindo de cowboy e saindo pela rua feito louco), eu vi pessoas rindo de mim, tava com saudades disso. Ainda acompanhei uma amiga até a casa dela em Botafogo.
Perceba pela minha cara que sim, eu não estava bem. Eu tenho ciência disso, mas estava no processo de ficar. Eu fui pra encontrar a Raissa que fazia cursinho ali perto, mas pensei “caralho, ela vai me ver assim”, me achei ridículo e voltei pra casa. Menti falando que meu irmão tinha me achado e tal e voltei pra casa. Foi como se a magia tivesse sido quebrada, e eu tinha voltado a ser “normal” e achei aquilo tudo patético. Mas bem, enfrentar os amigos da faculdade foi o primeiro passo. Agora precisava agora dar o próximo passo: ir ao teatro.
Foi aí que eu cometi o pecado de ir assistir Baby. O problema não foi ter ido, foi a data que eu fui. Estreia VIP. De graça a gente vai em tudo né, mas eu não esperava que fosse ser tão difícil. Cheguei lá e caiu a ficha. “O que diabos eu estou fazendo aqui?”. Alguns atores dos quais eu dou um oi básico vinha falar comigo e eu super “hehehe”, outros que eu já sou mais colega e eles vinham perguntar da viagem, perguntar o que eu assisti e eu respondia “incrível, assisti muitos” e mudava o assunto. Eu não sei mentir, então ficava forçado. E eu tava meio mal ainda fisicamente, acho que transparecia, não sei. Pior que isso foi assistir a peça. Eu chorei a primeira meia hora inteira só pensando em como eu sentia falta daquilo, em como eu estaria amando aquilo se fosse antes, pensei zilhões de coisas mas depois me segurei e assisti numa boa. Depois se chorei, foi mérito da peça mesmo. Eu vi com minha mãe, ou seja, pirei ainda mais com tudo pela temática dela. Eu voltei pra casa chorando, fui dormir chorando, complicado o negócio. Depois eu fui assistir de novo já mais estabilizado e encarando o teatro de uma forma nova na minha vida. Como qualquer pessoa normal o encara, como entretenimento.
Até convidei Biancão pra ir comigo. Depois de meses sem a ver, eu a vi pela primeira vez ali no João Caetano. Dei um abraço apertado, ela me xingando por ter a abandonado, foi incrível revê-la depois de tudo que passei. Ela nem tinha muita noção do que aconteceu, digo, ela também ficou depressiva. É normal ficar um pouco assim depois de uma viagem dessas, mas ela não chegou no nível alarmante e doentio que o meu chegou. Se tem uma pessoa que me entende e viveu tudo que eu vivi na Disney, é ela. Disso eu não tenho dúvidas. O mais incrível é que agora ela está noiva e irá casar em breve com o cara que ela conheceu lá. Não tem história mais linda que a dela e fico muito, muito feliz por tudo que aconteceu com ela. Ela mais do que merece e um dia irei visitá-la na Califórnia já com seus filhinhos fofos e passear com eles na Disney de lá. O futuro marido dela também é incrível, já veio ao Brasil duas vezes, um fofo do caralho. Não existem mais homens como ele, mesmo. Isso é só uma amostra de como esse programa muda a vida de qualquer um e que não, nem tudo que começa lá precisa acabar. Eu aposto que se eu ou o Cody tivéssemos dinheiro, ainda estaríamos juntos. Mas o que tem de ser, será.
Depois disso foi quando eu vi que sim, dava pra ir no Violinista no Telhado. Charles Möeller, o grande, sabia que eu estava mal por conta do meu querido Leo Ladeira (só acho que ele não sabia exatamente o que era) e me convidou. Fui e dessa vez chorei, mas chorei de felicidade. Essa peça por si só já é incrível, e a montagem brasileira foi a melhor coisa que eu já vi no Brasil. A mensagem da peça também era tudo que eu precisava. Me arrepiei como nunca. Eu tinha saudade daquele sentimento, de me deixar levar pelo teatro, me arrepiar da forma que só ele sabe fazer. Eu não fui esperando que ele me salvasse, eu fui por ir, mal sabendo que sairia em êxtase. Acho que só falei na saída com Diva Giulia (óbvio) e Marya Bravo, e ambas falaram “dessa vez você demorou pra vir, né?” e eu “é, é”. Eu assisti três vezes (uma delas com Mari Rio linda) e cheguei a fazer um desabafo na época juntando o contexto tanto de Baby quanto Violinista, mas por favor, não voltem pra ler. Eu não vou apagar porque acho que uma vez postado, tá postado. Mas eu ainda tava meio voltando ao mundo, devo ter escrito coisas das quais não concordo hoje em dia. Eu só precisava gritar pro mundo que tava mal, pro povo parar de perguntar como foi a viagem e tal, precisava de um tempo para mim.
Pronto. Feito isso já me achava apto também a voltar as aulas, mas teria que esperar. Só faltavam duas semanas para as férias. Noção de tempo, cadê? Tudo isso aconteceu durante um semestre., então eu não tinha muita opção a não ser continuar fazendo nada. Eu aproveitava esse tempo para fazer coisas das quais eu normalmente não faria. Eu comecei a me sentir vivo, e queria me provar isso. Eu tava na vibe “eu posso tudo que eu quiser” e de fato, eu conseguia. Eu pensei “quero namorar alguém” e consegui. Eu sou um grande de um filho da puta, essa é a verdade. Eu entrava no Facebook e postava uns absurdos, puxava assunto com pessoas aleatórias, mas isso era pra me sentir vivo. Sentir que eu poderia ainda influenciar algumas coisas, causar algum impacto em algum lugar, e foi assim que eu dei em cima do meu ex-namorado que também estuda na UERJ. Ele era calouro de português/literaturas, e na época do trote foi o viado mais feliz e ganhou a faixa de Charles II. Descobriria depois que ele além de depressão, também tem TOC. Achei tranquilo, na verdade ele me deu muita força e me ajudou bastante. Ele aparentava ser tão feliz, mas eu também antes disso tudo né. Não é porque você vê alguém aparentemente feliz que isso seja uma verdade, e a cada pessoa que eu falava do meu caso de depressão, eu via o quanto isso era verdade e como muitas daquelas pessoas já passaram por situações parecidas com a minha.
Nessas de ficar vivo eu fiz muita coisa que eu normalmente não faria, algumas das quais nem lembro mais, mas uma dela foi ir num meeting da Disney aqui no Rio. O povo se junta pra beber, conversar, essas coisas. Antes da viagem em si o povo faz, dai já forma um grupinho antes mesmo de ir. Eu não fui em nenhum e não me arrependo. Acho que faz parte da experiência ir conhecendo ao natural. Eu pensava “talvez eu nem veja essas pessoas por lá” e no fundo, foi verdade. Conheci muitos brasileiros, mas ainda assim é impossível conhecer todos. No meeting eu acabei conhecendo alguns que conhecia só de vista, assim como vi pessoas chatas e idiotas (que antes da viagem, pensei que a maioria fosse assim, mas ainda bem que não). Eu fiz muita merda nesse meeting, novamente, eu não ligava mais pra reputação, minha vida, nada. Eu tava sob medicamente e bebi horrores, cagando baldes pra isso, e de uma coisa eu sei. Sai daquele lugar com pessoas me amando e pessoas me odiando. Não teve meio termo.
Perceba que minha pele ainda tava ruim, mas eu ligava? Não. Se por ventura vocês, pessoas desse meeting, chegaram aqui (a gente nunca sabe), desculpa se os ofendi. Principalmente o falso hétero da namorada. Eu dei em cima dele horrores, sendo que nem ficaria com ele (tava namorando já), só queria causar o desconforto mesmo. E aliás, fica a dica que todo mundo já sabe. Precisa fingir não. Eu ficava falando pra todo mundo e eles só faziam falar “é né…”. E bem, quem gostou mesmo do jeito que eu tava, amo vocês também. Quem não, peço desculpas, mas ainda assim é provável que eu não goste de você (nem sóbrio e saudável). Quem só sabe falar sobre Disney e vai pra um meeting que é um churrasco toda arrumadinha pra mostrar alguma coisa, não merece meu respeito.
Falando em Disney, meu querido roomie de Fortaleza veio ao Rio com o namorado e foi quando marcamos de sair com todos que moravam no nosso apartamento. Foi a primeira vez que todos se viram depois de lá, ninguém tinha se encontrado até então e foi lindo demais a emoção de abraça-los, poder conversar, relembrar as palhaçadas que aconteceram lá. Todo mundo concordou que lá a gente pensa diferente, é tudo muito intenso, que depois que a gente volta, vemos o quanto não precisava ser tão mão de vaca (sério, rolou porrada lá por conta de pão!), essas coisas. E o mais importante, morremos de rir.
Faltou só o Flávio, falamos nele direto porque foram deles as melhores pérolas. Pelo menos eu pude revê-lo pois ele estuda na UERJ também. Esbarrei com ele lá por muita sorte, o que foi ótimo porque assim peguei minhas fotos que ficaram no laptop dele. Ele deletou o Facebook por conta da namorada então se não fosse essa coincidência, eu nem teria as recordações de lá. Mas é uma pena que eu não possa vê-los sempre. É engraçado, a gente convive intensamente com as mesmas pessoas por dois meses e meio, e aí tem que lembrar que você as verá com uma frequência bem reduzida depois. Mesmo com metade deles morando aqui no Rio, todo mundo tem uma vida a parte né. Estudo, trabalho, uma pena, porém necessário. Pelo menos podemos marcar uma saída dessa de vez em quando e criar novos momentos bons. E ah, falando em Ana Claudia e a Wandinha, Fabinho me deu um presente lindo:
Ana Claudia fez um show na boate que ele trabalha. Ao ser questionada sobre a Wandinha, respondeu: “a Wandinha parou”. Um minuto de silêncio por favor. E após esse minuto, vamos relembrar o sucesso da dupla que foi música tema do nosso programa:
Tecnicamente eu nem podia estar saindo ainda, porque eu podia beber e tal (e claro, eu bebia mesmo) mas minha mãe deixava e meu irmão ficava puto. Ele era bem mais intolerante que ela. Quando eu inventava de fazer alguma coisa ele ficava puto, me batia e achava que assim ele estava me dando a lição de vida dele. Ele é muito bruto, estupido. É o típico hétero otário, sabe? Ele tem suas qualidades, mas com certeza o tipo de pessoa que eu não conviveria se não fosse obrigado. Ele nunca me vence em discussão. Ele não tem argumento pra isso. Eu, doente, sou melhor que ele. Numa dessas discussões, ele jogou na minha cara que eu não tinha dinheiro. Que ele trabalhou muito mais que eu, que ele tinha poupança, podia muito bem fazer o que quisesse e tava morando com a gente por opção. Mandei ele enfiar o dinheiro no cu e falei que arranjaria se quisesse a ponto até de viajar pra São Paulo. Ele duvidou.
Eu realmente não tinha dinheiro, mas pra quem mendigou na rua, por que não na internet também? Em São Paulo tinha Evita e Mamma Mia!, mas Evita era o único que eu de fato fazia questão de assistir. Se não desse, claro, não ficaria deprimido por isso. Mas tentaria assistir só pra humilhar meu irmão. Então foquei nele e assim, acabei inventando isso:
Eu fiz em questão de minutos, até forcei rimas e tudo. Não precisei esperar muito, no mesmo dia que postei e divulguei, Jorge Takla, o próprio, me manda mensagem falando que ele pagaria minha passagem e me daria os ingressos. Eu, doente, consegui chamar a atenção de Jorge Takla. Eu nem agradeci direito, digo, eu agradeci mandando o link da crítica. Eu amei mas fiz algumas pequenas ressalvas que comentei, não sei como ele levou isso. É que seria considerado “falta de educação” falar mal seja do que for (e por menor que seja) se tratando de convite, né? Isso nunca funcionou muito bem comigo, e doente então que eu não iria pensar diferente. Mas de qualquer forma espero um dia poder retribuir um gesto bonito desse, tanto pra ele quanto pro Möeller (pelo o do Violinista). Sem contar que dei a sorte de ver duas vezes, uma delas com Bianca Tadini de Evita (que além de ter arrasado horrores, ainda me deu o programa com autógrafo do elenco – eu nem tinha pedido!)
Essa viagem foi incrível principalmente porque pude ver a Carol. Ela é provavelmente a pessoa que eu mais amo no mundo depois de mim mesmo. Isso agora, até o momento ela devia ser a primeira mesmo. Eu a considero uma irmã porque tem hora que nem preciso terminar a sentença, ela já entendeu. Eu também acabo terminando algumas dela. Eu brincava que a gente era alma gêmea e depois disso tudo, tenho certeza absoluta disso. Ela também tem problemas até mais tensos que o meu e confesso, falava que entendia sem entender. Hoje em dia entendo plenamente e não poderia amá-la mais. Foi ela que me ligou e falou “Charles, você está doente!”. Foi a primeira pessoa que me deu essa porrada na cara, e via telefone. Tanta gente que se diz sua amiga e nem se dá ao trabalho de ver como você está, e ela, em outro estado, percebeu minha ausência na internet (sendo que ela mesmo é super ausente, mas sabe que eu não) e ligou. Antigamente se eu ficasse rico, minha primeira meta seria ir pra NYC gastar horrores. Hoje em dia eu sem dúvidas iria quitar todas as dívidas dos meus pais e em seguida pagar um tratamento pra ela. Na viagem também revi pessoas que eu amo, performes da Disney que moram lá, assisti Evita e Mamma Mia!, tudo na loucura porque eu não tinha dinheiro e no fim, deu tudo mais que certo. Ainda estou devendo no cartão, mas que seja. Foi fundamental pra mim, viajar é sempre bom. Você se esquece dos problemas, se diverte, conhece coisa nova, vê coisa diferente, amo/sou.
Não foi a única vez, eu fui novamente a São Paulo e assisti A Bruxas de Eastwick (peguei um vício inexplicável por ele – estou escutando nesse exato momento), Cabaret, Luis Antônio-Gabriela e Ensina-me a Viver (desnecessário dizer o quanto eu chorei nessa e um dia escreverei aqui sobre, mesmo que a peça já tenha até acabado). Tudo sem dinheiro. Estou devendo alguns amigos, alguns convites aqui e ali, fui de improviso, e ainda assim conseguindo ser mais incrível do que as que eu planejava. Eu fui super por ir. Era feriado, eu tinha somente o dinheiro da ida e volta (na verdade limite no cartão que eu ainda tô devendo), o aniversário da Carol era naquela semana, e olha, foi sensacional. Conheci também a Jessica Cracco linda, que comentei na saga da Disney que era o tipo de pessoa que eu conhecia de vista, nos falamos muito pouco, mas sabia que ela era foda. E ela é mesmo, passamos um dia conversando e ela ainda partiu numa aventura comigo da caça ao wi-fi para usar o Grindr (digo sobre isso daqui a pouco) que foi concluída na faculdade dela. Eu não podia entrar, mas sentamos perto do muro e o sinal atingia. Vitória.
E o mais importante que fechou 2011 com chave de ouro, Carol veio ao Rio!
Eu não lembro mais tudo que eu assisti durante esse ano, mas de significante lembro do Tommy na UniRio, Judy Garland que foi a última do ano e em algum desses meses Outside. Tommy eu fui por ir com novos amigos da UERJ que falarei daqui a pouco e fiquei chocado em como uma montagem universitária estava tão boa, num nível tão alto e muito melhor que muita montagem profissional que já assisti. Eu me arrepiei ali. Eu me arrepio assistindo algo muito bom que me faz lembrar porque eu amo tanto musicais. É um arrepio diferente de qualquer outra coisa, nem o de sexo é igual. Judy Garland foi ótimo porque a peça trata sobre isso né, uma doença, um vício, e o quanto isso pode ser doloroso. Chorei baldes, escrevi a crítica aqui tentando expor o máximo e espero ter conseguido. Agora Outside, bem, me lembrou como também existem peças extremamente ruins. Eu queria sair gritando na rua, arrancando minhas roupas e pele fora, de tão ruim que aquilo era. Nem me dei ao trabalho de escrever sobre mas explico mais sobre isso no último capítulo. E claro, pude ver a evolução das queridas Sadomusicistas. Como elas melhoraram! (o que já era muito bom) Em especial minha Sado-lesbo favorita.
Estou seguindo uma ordem cronológica jogada já que eu não tinha noção de tempo, mas nessas idas ao teatro já haviam começado as aulas. Foi mais difícil do que eu imaginei, tanto que eu acabei abandonando duas matérias porque não tava dando. Uma a professora tratava os alunos como se fossemos de maternal, enchendo o saco se chegasse 5 minutos atrasados e eu ficava “bitch, please! o tempo que você reclama já foi mais que os 5 minutos!” e o outro era um velho dementador que foi dali que eu tive certeza que sim, nós temos uma alma e devemos prezar por ela. Preferível reprovar na matéria dele do que perder a minha. E tirando isso, passei no resto. Eu faltei muito, matei muita aula, mas isso eu já fazia antes e assim como antes, deu tudo certo no final. Dessa vez eu só tive que fazer mais ainda porque minha meta era não me estressar, e funcionou.
O que me deu forças também foi conhecer dois calouros de português, Júlia e Armando. Eles eram calouros com vibe de veterano. Eles já ficavam matando aula, já repetiram e tudo mais ainda no primeiro período! Mas eles me deram uma força incrível. Morria de rir com as conversas, eles têm uma cabeça muito boa e eu me sentia melhor conversando com eles do que com a psicóloga. Perdi as contas de quantas vezes me forcei ir pra faculdade só por eles. E até hoje somos ótimos amigos e a gente morre de rir da minha fase depressiva. A Júlia na época quando viu foto do Cody falou “ih amigo, entendi tudo! pode ter certeza que valeu a pena a depressão!” e eu me acabano de rir. No começo eu também me forçava a ir pelo meu ex-namorado, eu gostava dele, mas é, ex. Não deu certo porque o fato era que eu o estava usando para superar o Cody. Eu tentei mesmo me envolver, mas não deu. Quando completou dois meses a gente terminou. Eu me senti muito, muito mal. Mal por ele, pela situação, tudo na verdade. Ele gostava mesmo de mim. Eu fui o primeiro dele né, e eu bem sei o que é isso. Ele, coitado, falava que achava que ia morrer sozinho, culpa da doença né. Eu espero pelo menos que ele tenha visto que não, ele tem potencial de ter alguém. Eu só não era a pessoa certa. Não falo mais com ele depois de tudo isso (por vontade dele) então não sei como ele está, mas espero que bem. Ele merece e muito ser feliz com alguém que ame ele de verdade.
Entrando no quesito relacionamentos, depois de terminar esse meu namoro, eu tive a fase piranha. Agora entra também outro fator que me ajudou a superar mais ainda a depressão. Descobri um aplicativo pro Ipod chamado Grindr. Ele simplesmente rastreia os viados perto da sua região e você conversa com eles. Simples assim. É um bate papo UOL made easier. Eu não tinha nada a perder, então me joguei. Tinha amigos que falavam “mas ele pode te matar, te sequestrar” e eu “Gente, caguei. Eu tentei tanto morrer, se for pra morrer agora, dá no mesmo!”. O primeiro que eu sai foi um Irlândes de 40 anos:
Ele não parece ter 40 anos porque se cuida e muito, aliás, todo gringo se cuida muito bem. Ele morava em Copa na época, do lado do Arpoador. Fui na loucura. Cheguei lá ele me ofereceu vinho, dei um gole e pronto, me atacou. Quando eu vi ele já tava me chupando. Confesso que nem foi bom. Eu tava meio desconfortável. Ele gozou e falou “você não tá gostando?”, eu falei que tava bêbado mas que tinha sido bom. Foi ai que ele falou que tinha acabado de voltar de viagem, que tava com saudade dos garotinhos brasileiros e soltou um “thank you”. Me senti uma puta. E antes que isso me fizesse mal, eu me senti bem. Depois de tanto tempo sem sentir nada, se sentir uma puta era sentir algo. Então liguei o foda-se e fui mesmo uma puta. Ele é louco, eu poderia ter levado o Mac, Ipod, Iphone, celular, dinheiro, tudo dele. Eu acordei de manhã, fui ao banheiro, vi tudo isso na sala. Poderia ter pego e sair correndo, mas eu não sou isso. Então continuamos a sair de vez em quando.
Ele pagava tudo pra mim. Almoço, jantar, bebidas. Eu pensava em me sentir mal e ai lembrava que ele além de rico estava me comendo, então né. Eu fui nesses lugares de gente rica tipo Casa Cor (ele é designer de apartamentos), jóquei e achei tudo muito estupido. Eu só me divertia porque eu realmente me sentia a própria Julia Roberts em Uma Linda Mulher. Ele era o Richard Gere mesmo, velho e atraente e me fazendo uma “dama” da alta sociedade. A última vez que a gente ficou foi em dezembro, ele viajou pra Paris, Londres, tá sei lá onde e nem sei quando volta. Mas acho que eu já estou bem o suficiente agora pra não sair mais com ele. A não ser que dê vontade. Que mal tem num sexo bacana com meu amigo com benefícios, não é mesmo? O mais engraçado é que ele, bêbado uma vez, me pediu em namoro. Eu aceitei e tudo, mas fui perceber só depois que ele realmente nem se lembrava de ter pedido. Me senti mais idiota ainda de ter pensado que ele realmente me namoraria, mas hoje dou risada de como eu possa ter aceito uma coisa dessas. Não por ele ser velho, nem rico, nem gringo, mas porque ele não mora no Brasil sempre e eu jamais namoraria a distância se eu não amasse verdadeiramente (o que não é, e nunca foi o caso).
Eu tive várias experiências dessas com outros caras. Parte delas boas, parte delas normais, e só uma ruim. Eu sai com um colombiano uó. Foi mais nojento do que dormir na rua. Juro. Ele tinha feito lipo, tava usando tipo um colan e eu sinceramente não sei o que ele queria comigo. Eu sei que eu fiquei lá, deitado, com ele brincando com meu pau enquanto eu contava os segundos pra ir embora. Eu estava em São Conrado, não é como se eu pudesse sair e ir embora do nada. Ele falando em espanhol do meu lado, argh, que nojo. Depois dessa eu comecei a só marcar encontros casuais, conhecer a pessoa e ai se fosse bacana, sexo, se não, ia embora mesmo. Eu confesso que nem sei ainda se sou ativo ou passivo, eu fazia os dois com o Cody, e gostava dos dois. Quando se tem amor, o sexo é só uma parte do processo. Até só sexo oral com ele eu já ficava feliz. Aqui no Brasil já fiz os dois, mas com algumas pessoas eu prefiro ser ativo, com outras passivo. Espero um dia entender, que essa é uma das poucas coisas que ainda me incomodam em não ter tanta certeza.
As pessoas têm vergonha de falar que usam esse aplicativo, o que eu não entendo. Se você tá solteiro, tá afim de encontrar alguém seja só pra sexo ou pra algo a mais, a tecnologia tá ai mesmo pra ajudar. Sem contar que pra alguém te ver lá online, essa pessoa também precisa ter o aplicativo. Eu acho preferível do que ficar por exemplo na Farme de Amoedo. Eu tenho nojo, nojo daquele “Tô nem Aí”. Pra quem não mora no Rio, é um bar gay. Até ai tudo bem, mas a rua fica lotada de bichas que te analisam da cabeça aos pés. Em sua maioria bichas velhas com regata, shortinho e havaianas. Eles te secam, te analisam como um produto e se você passar no teste, eles vão falar contigo. É vergonhoso. Sabe quando você sente vergonha de ser um ser humano assistindo BBB? Então, ali você sente vergonha de ser gay. Sem contar nos que ficam fazendo quase que sexo explícito na parede. Depois ainda vem falar que rola preconceito, minha gente, não dá. Tem coisa que nem hétero fazendo na rua é bonito! Mas bem, minha fase Grindr passou também. Antes eu entrava direto, agora dou uma entradinha de vez em quando mas não saio com ninguém desde novembro.
Aliás, falei do Grindr, mas o Ipod em si ajudou muito. Meu computador chegou a dar problema e eu caguei baldes, porque ali eu tinha tudo que precisava. Nem me estressei. E também, quando eu tava muito ruim, eu precisava ouvir música. Era forma de esquecer, forçar a esquecer. Colocava o volume no máximo pra não pensar. Era triste ouvir por necessidade, e não por prazer como deve ser. Mas funcionava. E eu ficava direto no chat do Facebook, e um dia vi uma pessoa que eu não sabia quem era. Fui falar. Era um cara que a gente se conheceu numa boate lá em Orlando, não ficamos nem nada, eu queria na verdade o amigo dele, mas dançamos Britney juntos e tudo mais. Eu como ainda tava meio doentinho, fiz um charme falando que eu teria ficado com ele, ele ficou todo feliz, coitado. Eu acho que ele tem baixa auto-estima também, aliás, ô coisa ruim. Isso é pior que de fato ser feio porque se a pessoa se acha inferior, é difícil de alguém provar o contrário. De vez em quando a gente se fala no Skype e ele fala que se algum dia eu voltar a Orlando, a gente vai sair muito (e bem, ele tem carro). E sim, agora sairemos como amigos. Ele começou a namorar finalmente, depois de tanto eu perturbar falando “você é bonito porra!”.
O ano foi tão ruim, mas tão ruim, que eu decidi que nem queria comemorar meu aniversário. Eu acho o aniversário uma data importante, a mais importante do ano. É o seu dia, dia de comemorar mais um ano de sobrevivência, de celebrar com amigos a grande dádiva da vida! Mas não, eu fui muito ruim, não merecia. Eu me privaria disso. Mas meus amigos são tão incríveis, mas tão incríveis que eles me deram uma festa. E foi linda.
Eles sabiam de tudo que eu passei, não tão detalhado como está aqui, mas sabiam uma parte importante. E me ajudaram muito. Se tem algo bom que eu vou tirar daquela universidade é a amizade de alguns. Eu sei que boa parte depois que a gente se formar vai sumir, tenho ciência disso. Mas existem os poucos que importam e a gente sente quando vai continuar ou não. A festa foi tão linda que agora as vezes damos umas parecidas até sem razão aparente, só pra reunir o povo mesmo.
Tudo isso que eu tô contando pra vocês, eu contei pra minha psicóloga. Ela morria de rir, mas, no final do ano passado eu finalmente entendi porque ela foi fundamental na minha recuperação. Indo ao psicólogo você se força a botar pra fora tudo. Chega uma hora que acaba assunto atual, então você cava o passado. E uma coisa é você pensar, outra é falar pra alguém. Você precisa organizar as ideias, fazer daquilo compreensível, coeso. Mesmo que nem seja, você vai dar um jeito de ser. E ela não é seu amigo que vai dar conselhinhos, ela é uma profissional que estudou e sabe muito bem onde focar. Quando ela dava conselho, era sempre aquela coisa genial que você se sente burro depois de não ter pensado sozinho. É mais do que aconselhável fazer análise, é uma necessidade para quem tem depressão ou algo do tipo. Só contando pra ela que eu pude perceber o quanto eu passei por cima de mim mesmo, dos meus sentimentos. Isso desde sempre. Eu passei por coisas ruins, coisas péssimas, mas passava por cima seja por medo, por não entender direito. Minha fixação com musicais tinha uma explicação. Num musical, a música pode ser diálogo, mas na maioria das vezes é a externação de um sentimento. Um sentimento tão forte que não dá pra ser dito em palavras, então é cantado. Eu admirava tanto isso, admirava os personagens, chorava por eles, mas a mim mesmo, personagem mais importante da minha vida, eu passava por cima. É muito fácil assistir Next to Normal e chorar com a Diana, ou ainda ter a audácia de achar patético ela não conseguir superar a perda do filho. Difícil é você compreender aquilo verdadeiramente. Difícil é você se tocar que você pode ser que nem ela e aceitar isso.
Meus textos aqui no blog até então foram todas externações de sentimentos. Eu falarei mais sobre isso no último capítulo, mas a necessidade de escrever era a mesma de falar com o psicólogo. Escrever para pessoas que poderão eventualmente te ler é diferente de imaginar ou contar para um amigo. Você precisa ter tato, saber que qualquer pessoa pode ler aquilo, saber que irão te julgar, então você realmente precisa explicar tudo que você está querendo transmitir ali. Por isso que eu sempre gostei de escrever, e nem sabia direito a razão. No auge da minha doença, eu pegava o boneco do Woody e ficava falando com ele. Eu falava “então Woody, eu sou doente” e ele “my name is Woody”. Eu “você me julga por isso?” e ele “you’re my favorite deputy”. O Woody é o melhor amigo de qualquer pessoa doente. Você pode falar o que quiser, você continuará sendo amado por ele, e mais, será o xerife favorito dele. Quer mais que isso? Mas queridos que precisam de ajuda, isso é algo muito infeliz. É preferível ter amigos de verdade. Ser amigo não é dizer o que você quer ouvir, e sim bater de frente com você quando necessário for. Depois você pode ver que estava mesmo sem a razão, e deve agradecer ao seu amigo por isso. Psicólogo serve como uma espécie de amigo, mas antes de tudo é um profissional que vai sempre focar onde você precisa.
Em algum lugar por essa história, eu me forcei também a conhecer outras religiões. Fui na Cabalah, Católica, Batista, Espírita, mas não deu certo em nenhuma. A Cabalah até parecia interessante, mas jamais entraria para uma religião (seita, o que aquilo seja) que você precisa pagar pra aprender. Se eles possuem a resposta para um mundo melhor, ela deveria ser passada de graça e com o maior prazer e felicidade! Eu poderia ter dinheiro, eu não faria. Acho errado. Pretendo ir no Budismo, acho que tirando ela, não tem nenhuma outra que eu teria interesse em conhecer. Mas agora não vou por necessidade, mas acho que se não faz mal, que mal tem? Talvez goste de fazer as meditações, eu ando numa fase super zen mesmo. Se lá não der certo, tranquilo. Tenho a melhor religião de todas: o teatro musical. E que Sondheim continue me abençoando, amém.
Como eu bem documentei, eu ficava me martirizando em vários momentos que eu poderia estar vivendo. Sabe o que eu mais martirizava de tudo? Ter ficado com o Cody. Eu pensava que ter ficado com ele tinha destruído tudo. Se eu não tivesse ficado, eu teria ido pra NYC feliz, teria vivido bem, e tudo seria mil maravilhas. Mas não, não seria. Eu continuaria com essa doença dentro de mim que um dia iria explodir. Se isso não tivesse acontecido lá, aqui no Brasil com certeza meus pais pensariam que eu estava triste por estar triste, e jamais, jamais faria o tratamento. Então eu me condenava por ter sido feliz com ele, achava que era melhor ter visto os musicais do que ter sido feliz com ele, mas agora vejo que o ter conhecido foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida até agora.
Continua…
Diário de um Deprimido – Pt VI: Desmistificando a Depressão
“Do you wake up in the morning and need help to lift your head? Do you read obituaries and feel jealous of the dead? It’s like living on a cliffside not knowing when you’ll dive. Do you know, do you know what it’s like to die alive? When the world that once had color fades to white and gray and black. When tomorrow terrifies you, but you’ll die if you look back. You don’t know. I know you don’t know. You say that you’re hurting, it sure doesn’t show. You don’t know. You tell me let go. And you may say so, but I say you don’t know”.
- Next to Normal
Achei mais do que necessário um capítulo dedicado especificamente para explicar a depressão em si. Existe quem saiba do que se trata, mas existe também a parte ignorante que jura que sabe. Não é tão simples quanto se pensa, afinal, eu passei 22 anos com ela sem de fato saber que a possuía. Na minha mente todos eram como eu, só que não é assim. Tristeza faz parte da vida sim, agora você deitar na cama, não ter forças para se quer levantar, e o maior objetivo da sua vida ser tentar suicídio, não. Isso é uma doença. E como qualquer doença psicológica, o mais difícil é a parte da aceitação de que você precisa se tratar. Eu demorei bastante como vocês viram, mas do momento que você encara isso e passa a querer a recuperação, o tratamento tem o seu resultado esperado.
Um breve momento Wikipédia: Depressão é um transtorno psiquiátrico que afeta pessoas de todas as idades e caracteriza-se pela perda de prazer nas atividades diárias, apatia, alterações cognitivas (diminuição da capacidade de raciocinar adequadamente, de se concentrar ou/e de tomar decisões), psicomotoras (lentidão, fadiga e sensação de fraqueza), alterações do sono (mais frequentemente insônia, podendo ocorrer também hipersonolência), alterações do apetite (mais comumente perda do apetite, podendo ocorrer também aumento do apetite), redução do interesse sexual, retraimento social, ideação suicida e prejuízo funcional significativo (como faltar muito ao trabalho ou piorar o desempenho escolar). As causas da depressão são inúmeras e controversas. Acredita-se que a genética, stress, estilo de vida, separação dos pais, rejeição, problemas na escola e outros fatores estão relacionados com o surgimento ou agravamento da doença. Sabe-se hoje que a depressão é associada a um desequilíbrio em certas substâncias químicas no cérebro e os principais medicamentos antidepressivos têm por função principal agir no restabelecimento dos níveis normais destas substâncias, principalmente a serotonina.
No meu caso por exemplo nunca saberei se a minha é genética ou se foi pelo episódio na minha adolescência/emoções afloradas na Disney, mas sinceramente, hoje em dia nem penso mais nisso. Agora é tarde pra ficar me indagando sobre a origem, o que importa é que me tratei e continuarei sempre em tratamento porque não quero nunca mais passar nem pela metade das coisas que passei. Eu não sei se digo que sou deprimido ou se tive uma fase depressiva, mas por via das dúvidas, prefiro ficar com a primeira opção em eterno tratamento. Os sintomas, geralmente associados ao quadro depressivo são:
- Humor persistentemente rebaixado, apresentando-se como tristeza, angústia ou sensação de vazio.
- Diminuição do interesse e prazer em atividades que antes eram prazerosas.
- Problemas de auto-confiança e baixa auto-estima.
- Ansiedade.
- Afastamento de amigos ou pessoas.
- Cansaço e perda de energia.
- Falta de vontade de realizar uma determinada tarefa que progressivamente se alastra ou pode alastrar a muitas outras atividades.
- Crises de choro.
- Maus resultados escolares.
- Dificuldade de concentração e relembrar as coisas.
- Dificuldade de tomar decisões.
- Inquietação e irritabilidade.
- Vontade de ficar só. Afasta-se de tudo e todos.
- Não querer ouvir barulhos ou ouvir música alta (é uma forma de se alhear e afastar do que se passa à sua volta).
- Falta de objetivos na vida.
- Não conseguir encontrar algo que anime ou que desperte interesse.
- Sentimentos de culpa, desespero, desamparo, solidão, ansiedade, vazio, impotência ou inutilidade.
- Alterações no sono (insônias ou excesso de sonolência).
- Alterações na alimentação (perda de apetite com diminuição do peso ou compulsão alimentar).
- Medo de executar determinadas tarefas.
- Preocupação sobre o sentido da vida e a morte.
- Pensamentos de suicídio e morte.
- Auto- agressão.
- Mudanças na percepção do tempo.
- Medo ou sensação de ser ou estar sendo abandonado.
- Desleixo com o vestir ou com a sua apresentação.
- Manifestação de sintomas físicos, como dor muscular, de cabeça, abdominal.
Pessoas deprimidas têm frequentemente pensamentos mórbidos e a taxa de suicídio entre depressivos é 30 vezes maior do que a média da população em geral. A depressão é considerada em várias partes do mundo como uma das doenças com mais alta taxa de mortalidade. E pronto, fim do momento Wikipédia.
Como vocês devem ter percebido, eu preenchi mais da metade dessa lista. Então por experiência própria eu digo: se por algum acaso vocês já passaram por uma situação parecida, superou com o passar do tempo pensando que era tristeza normal, não. Procurem um psiquiatra! É ele que irá falar se foi só uma crise ou se pode ser genética. Se foi só uma crise, que maravilha, mas só terá certeza indo lá. Quando eu tive criança/adolescente, eu só tinha pensamentos suicidas mas não cheguei a tentar cometer o ato. Nessa foi mais forte pela situação toda e por mais que faltasse uma coragem definitiva, eu tentei de algumas formas e poderia ter conseguido e nem estaria mais aqui dando esse relato. Por isso que acho fundamental a prevenção. Não percam um sonho da vida de vocês, algo que poderia ter sido fantástico, ou chegar novamente perto de quase morrer, sendo que você já pode muito bem evitar.
Ter depressão não quer dizer que você fica chorando o tempo todo, fica mal o tempo todo, enchendo o saco dos seus amigos, etc. Não. É só durante a crise. Depois que ela passa, você volta a viver sua vida normalmente. Até de forma mais intensa porque você sabe o que é ficar ruim, então passa a dar valor para os momentos felizes e aproveita ao máximo. Meus amigos até se espantaram de logo eu ter essa doença. Eu, modéstia a parte, sou uma pessoa engraçada. Eu sou aquele que faz todo mundo rir. Eu gosto de ouvir risadas, sejam rindo comigo ou de mim. Eu mesmo já uso dessa minha desgraça para algumas piadas. Deve ser um método de auto-defesa, mas eu gosto. Perco o amigo, mas não perco a piada. Sou animado, pra cima, adoro agitar. Mas quando depressivo não dá pois se trata de uma doença, simples assim. Ela toma conta do seu cérebro e você, a pessoa engraçada, perde as rédeas da sua vida. Você fica sendo tudo isso que as características deram e não quem você realmente é.
Eu odeio Glee agora, mas assisti a segunda temporada toda quando não tinha nada pra fazer. Inclusive eu vi episódio de natal, Valentine’s Day, cenas com “Firework”, “I’ve Had the Time of My Life” e só queria morrer de saudade da Disney (pois passei por essas fases quando estava lá). Existe um episódio que focam no TOC da Emma. Uma pena que não façam mais episódios assim, mas é quando a doença agrava e ela procura tratamento. O Mr. Schue fala pra ela “você não é a sua doença, você é o que ela esconde”. É a mais pura verdade. Você não precisa ter vergonha de ter isso, acontece. Eu não pedi pra ser gay, acontece. Eu não pedi pra ser deprimido, acontece. Mas pra tudo se dá um jeito, só não para morte.
Eu sei que é muito fácil ler as histórias dos outros e ficar “mas comigo não vai ser assim”, acreditem. Eu mesmo quando tive não ligava pra nenhuma historinha com mensagem positiva, mas eu espero que vocês deem pelo menos um mínimo de importância para a minha. No caso agora estou falando diretamente a quem possa estar lendo isso por ter a doença e achou o blog no Google ou sei lá, leiam tudo e vejam que eu entendo muito bem o que é ter isso, e consegui me curar perfeitamente. Como vocês perceberam, nem eu mesmo queria estar daquela forma. Eu lutava das maneiras que eu podia para ficar feliz, mas sem ajuda não dá. Imaginem uma pessoa diabética. Ela não pode falar “vai cérebro, cria insulina”. Não dá, ela precisa injetar aquilo no corpo. Mesma coisa é um deprimido sem antidepressivos durante a crise. Não vai funcionar com pensamentos positivos, boa vontade, nada. E existem vários tipos de depressão, por exemplo o pós-parto. Você realmente acha normal uma mãe ficar assim depois de dar a luz a uma criança? A não ser que seja uma gravidez indesejável (e ainda assim uma mãe normal iria ficar feliz no momento), isso só mostra que é uma doença.
Isso é mais normal do que se imagina. Muitas pessoas famosas possuem doenças do tipo. Hugh Laurie tem depressão, Zeta-Jones é bipolar, entre tantos outros que se vocês procurarem no Google, irão achar. O problema é que eu não fui criado com uma mente muito aberta. A minha mente foi obrigada a se abrir por tudo que eu sou. Se eu não fosse gay, talvez eu fosse um crente chato que acha isso errado. Eu fui criado naquela igreja maldita, não seria minha culpa. Meu cérebro seria moldado daquela forma. Graças a Deus, o próprio, ele resolveu que eu fosse gay. Se eu não tivesse depressão, nunca entenderia direito do que se trata. Seria uma pessoa sem sentimentos (como fui por um bom tempo). Então se eu sou o que sou hoje, foi graças a esses fatores. Espero eu que sua mente seja mais aberta do que a minha era, para então dar os primeiros passos mais rapidamente.
O melhor exemplo aqui é Amy Winehouse. Eu não sei exatamente o que ela tinha, mas era algum problema que a própria não queria tratar. Quando ela morreu, muita gente ficou fazendo piadinhas de péssimo gosto sobre o fato dela usar drogas, que óbvio que ela ia morrer, blá blá blá. As pessoas só não pensam que se ela se jogava nas drogas, era pra tentar sair dela mesma, esquecer por alguns momentos a dor que ela sentia. Alguns ainda falavam “poxa, acabou com a carreira dela, tinha um futuro brilhante”. Pensar assim é babaquice. Ela conseguiu o que queria. Uma pessoa passando por problemas não pensa em ganhar o Grammy, vender discos, etc, ela só quer se sentir bem. Ela fez o que estava ao alcance dela. É uma pena que não quis procurar tratamento porque teria jeito, mas viveu da forma que ela pensou ser a melhor. Eu dei foi sorte de não ter seguido esse caminho, mas muita gente acaba caindo nessa e não, não os julgo.
Partindo agora pra depressão propriamente dita, o próprio Van Gogh também tinha. Naquela época era mais complicado por motivos óbvios, então ele cometeu suicídio. Ele chegou a pintar esse quadro em 1890 que emblematiza o desespero e falta de esperança sentida na depressão:
Em 23 de Dezembro de 1888, véspera de Natal, após uma discussão com Paul Gauguin, Vincent cortou um pedaço do lóbulo da sua orelha esquerda e fez dois auto-retratos. Depois, embrulhou o pedaço da orelha num lenço e levou-o para uma prostituta de Arles – com a qual mantinha uma relação – com um bilhete que dizia: “Guarde com cuidado”. Esse é o nível que a depressão dele (e possivelmente até mesmo outras doenças) chegou. E aí me deparo com uma foto dessas e simplesmente morro:
Não preciso dizer mais nada. Acho até engraçado o fato de ter tirado logo uma foto com o retrato dele no Met. Não bastasse isso, lembro da época que tudo que eu queria era voltar no tempo. E um dos melhores episódios de Doctor Who é quando eles conhecem o próprio van Gogh! É lindo demais. O episódio acaba com eles o levando para o futuro e mostrando-o o sucesso que suas pinturas iriam fazer.
Fui assistir novamente agora, pra quê? Claro que estou chorando. É comovente demais. Infelizmente viajar no tempo não é uma opção que temos, mas acredite, tem solução. A vida é linda, e quando você se tratar, poderá enxergar isso como nunca enxergou antes. Coloco, mais uma vez, agora, o meu retrato da depressão.
Pretendo procurar esse parque (acredito ser pelo Brooklyn) para tirar uma foto nova, comigo feliz, que quero guardar de recordação. Inclusive mandei a foto para o fotógrafo, expliquei a história bem resumida, ele agradeceu a história e perguntou se poderia compartilhar. Eu disse que sim. Resultado: postou no grupo do Facebook do site dele e até o momento já possuem 398 likes, 80 comentários e 28 compartilhamentos. Os comentários me desejando melhoras, dando força, elogiando a fotografia, repercussão essa que não esperava mas essas sim são pessoas que entendem mesmo o que é isso.
Eu não tenho orgulho de ser deprimido, mas também não tenho vergonha. Me entristece pensar no tanto de coisas ruins que eu fiz, mas eu tenho que ver que não fui eu. Foi uma doença. Ela tomou conta de mim. Eu estive num lugar sombrio por muito tempo. É você ver esse lado triste da vida, ver essa escuridão que existe, é isso que dá medo a ponto de você se isolar do mundo. Nós infelizmente não damos valor ao controle que temos do nosso corpo. Quem acha que isso é besteira, deveria fumar maconha pela menos uma vez na vida. Fume e fique extremamente chapado. No dia seguinte (dependendo, só depois de dois dias) você irá ver o que é não ter controle do seu corpo. No caso sua reação provavelmente será feliz, mas tem casos de pessoas que ficam chatas, entre outras reações. Mas é só um exemplo, a ideia é não ter controle próprio. A depressão é a mesma coisa, você pensa que é você ali, mas não é. Ficar bêbado não conta que é muito provável você ficar muito feliz, e a depressão é o total contrário.
Aproveito disso que vivi para possivelmente ajudar quem precisa. Ter sobrevivido isso me deixou mais humano, mais compreensível, mais sensível. Se por ventura você está numa situação parecida e precisa de alguém pra conversar, me mande um email. Eu respondo numa boa. Tem também o CVV, tem seus amigos que você confia mais. E pessoas que acham que conhecem alguém numa situação dessas, tente ajudar. Mesmo que ela te ignore, você ficando ali enchendo o saco ajuda também. Eu não atendia ninguém, eu não recebia ninguém, eu não respondia ninguém, mas eu entrava no Facebook. E foi numa dessas que eu vi isso:
Meus queridos amigos no palco de Hair (incluindo Charles Möeller e Igor Rickli), no último dia de apresentação aqui no Rio, me mandando paz e amor. No caso eu até quase fui nessa sessão, mas pirei antes de sair e tive recaída. Mas ver essa foto no dia seguinte me emocionou completamente. Nem lembro se respondi ou não, mas me tocou. Como me tocou.
Se a gente for analisar o suicídio de forma friamente, é idiotice se matar. Se tem uma coisa que todos nós vamos com certeza passar é pela morte, então pra quê adiantar um processo natural? Mas não tem jeito gente, quando o desespero bate, é a primeira “solução” a ser pensada. Uma pessoa deprimida tem que lutar muito pra conseguir vencer isso. É quase um teste pra ver se você é digno da vida. Que até então eu não sabia, mas como ela é maravilhosa!
Se você não leu os capítulos anteriores e chegou aqui via Google ou alguma outra via, volte e leia para perceber o nível que minha doença atingiu. Talvez isso intensifique tudo que eu falei aqui. E se você ainda tem alguma dúvida de que eu estou agora ainda melhor do que eu já fui um dia, leia o próximo (e finalmente último) capítulo.
Continua…
Diário de um Deprimido – Pt VII: Agora
“Day after day, wishing all our cares away. Trying to fight the things we feel, but some hurts never heal. Some ghost are never gone, but we go on, we still go on. And you find some way to survive, and you find out you don’t have to be happy at all, to be happy you’re alive. Day after day, give me clouds, and rain and gray. Give me pain if that’s what’s real, it’s the price we pay to feel. The price of love is loss, but still we pay. We love anyway. And when the night has finally gone and when we see the new day dawn. We’ll wonder how we wandered for so long, so blind. The wasted world we thought we knew, the light will make it look brand new. So let it, let it. Let it shine, shine, shine. Day after day, we’ll find the will to find our way. Knowing that the darkest skies will someday see the sun. When our long night is done, there will be light”.
- Next to Normal
“Depois da tempestade vem a bonança”, “No fim tudo dá certo e se não deu certo ainda é porque não chegou ao fim”, etc. Odeio essas frases mortalmente. Odeio. Acho que as pessoas que falam isso não conhecem o gênero drama! Existem histórias que terminam tristes sim. Tragédias é o que a gente mais vê na TV, lê nas notícias, etc. Então por favor, me poupe disso. Eu poderia muito bem ter morrido, muita coisa poderia ter dado mais errado do que já deu, e na verdade, se for analisar houve uma morte sim. O pobre do Charles adolescente que só tinha o sonho de chegar na Broadway e assistir todos os musicais. Pobre Charles, tão inocente. Esse morreu, coitado. Mas fica a memória dele no meu coração. Então dica para as pessoas que gostam de confortar as pessoas (e devem tentar ajudar mesmo), usar essas citações não ajudam. Dependendo do caso, tem que levar pra tratar mesmo.
É preferível ser sincero, ninguém gosta de ouvir blá blá blá. A vida é difícil sim, mas tem seu lado prazeroso. Eu cresci depois disso tudo, fui obrigado a crescer. É o efeito Black Swan, você morre pra poder virar o que sempre almejou. Esse é o preço. Eu estou bem comigo mesmo e isso que importa. Eu finalmente me compreendo. Eu levei 17 anos para me aceitar como homossexual, só que mais doloroso que isso foi aos 22, achando que já sabia tudo que tinha pra saber, ter que me aceitar como deprimido. Mas me aceitei e estou aqui. E se aos 30 eu descobrir que na verdade sou um E.T, tô preparado já. Eu posso ter câncer, AIDS, ficar cego, surdo, mudo, perder uma perna, braço, ser capado, o que for, eu juro pra vocês que nada, nada irá me afetar tanto quanto essa fase que eu tive. Posso ir morar na rua de novo também, mas morarei com um sorriso no rosto e dando meu jeito de sair daquela situação.
Eu não vou ser hipócrita e falar que “ainda bem que vivi tudo isso, melhor do que ter vivido como eu queria”. No fundo, até é, mas só quem sente a dor sabe que não é nada legal. Mas já aconteceu, é algo que não tem como mudar, então você tem que pegar os pontos positivos. Se eu pudesse escolher, eu teria descoberto isso quando fui ao médico pela primeira vez quando sofri o abuso, por algum conselho de amigo quando perdi a câmera, tudo, menos em NYC onde tudo foi mais doloroso por ser NYC. Mas já que foi, ao menos eu tive uma lição de vida fundamental. Eu vi o quanto a vida é curta. Eu vi o que realmente importa. Eu vi que você pode cair quando se menos espera. Quando você tá na rua, sozinho, passando frio, fome, sem nem ter onde deitar a noite, não tem como você não dar valor para tudo que você já teve um dia e nem ligava. Nós somos assim, só damos valor depois que perdemos. Por isso eu vivo de forma diferente agora. Eu sei o que importa e dou valor a isso.
Se eu tivesse feito a viagem como eu planejava, eu voltaria pro Brasil e bem provável de ficar meio depressivo da mesma forma porque não tem como. Morar fora por um tempo e voltar é um choque cultural muito grande. Todo mundo que faz o programa da Disney volta com DPD (Depressão Pós-Disney) e alguns ficam com isso pro resto da vida. Só conseguem falar de Disney a ponto dos amigos se irritarem. É uma vida perfeita que a gente não pode viver, é compreensível até. Eu estava num lugar mágico, onde sonhos se realizam, e aí volto pra cá que né, nem preciso comentar. Se eu segurasse a porta para alguém lá, ela olhava no meu olho e agradecia como se eu tivesse salvo a vida dela. E aí, do nada, eu volto a morar num prédio que as pessoas entram no elevador, nem olham na sua cara, batem a porta e saem como se você nem estivesse ali. Entre tantos outros detalhes, mas não tem jeito. Provavelmente ficaria só triste pra caramba, não tentaria me matar por isso. Mas viria o dia que eu iria tentar, isso com certeza. Sem contar que minha vida seria em prol de uma única coisa: voltar pra NYC para assistir tudo de novo e poder sentir a felicidade novamente.
Por mais que eu até queira voltar para viver da forma correta, e já tenho inclusive planos que acredito que darão certo, essa não é a prioridade na minha vida. Minha prioridade é ser feliz aqui, e eu estou sendo como nunca fui. Pela primeira vez na vida eu estou bem comigo mesmo pelo simples fato de estar. Eu deito na minha cama e durmo bem, acordo bem, e assim vou indo. Já passei por coisas ruins, óbvio, a vida é isso. Mas eu as encarei de forma mais tranquila. Antigamente se algo dava errado, eu ficava me condenando por isso. Hoje em dia eu penso “A merda já foi feita, o que eu posso fazer pra consertar sem me estressar muito?”. Porque sim, também não me estresso. Se não tem jeito mesmo, já foi, fim, próximo assunto. Tem sido tão prático. Pior que descobrir que você tem uma doença, é conviver com ela sem saber que a possui. Você acha que todo mundo é como você, e não, não é. E é reconfortante saber isso.
Depois que você perde tudo é que você tem coragem de fazer tudo. Não faz sentido não tentar. Ou você vai conseguir, ou vai fracassar. Mas adivinhem? Eu já sou um fracassado mesmo. Já fracassei no que mais almejei um dia, logo, não tem importância. E pensando assim, eu já vivi situações que eu realmente não me imaginava vivendo e todas elas foram muito boas. Até as ruins são boas, porque você tá fora de casa, do computador, as vivendo e aprendendo. Eu sinto como se eu tivesse sobrevivido todo esse tempo e agora, pela primeira vez, eu vivo. Posso não ter o dinheiro que gostaria para viver mais, mas tenho tempo e saúde para trabalhar e consegui-lo. Não tenho vergonha de ser pobre, na verdade até gosto de ter nascido assim. Se eu só ganhasse as coisas dos meus pais, não daria valor. Mas eu olho pro meu Ipod e lembro que eu comprei com meu dinheiro, que ele é inteiramente meu, e lembro da felicidade que foi comprá-lo com um salário semanal da Disney. Isso me dá um sorriso bobo de felicidade. E eu sei que quando eu de fato ter minha vida, tudo que eu comprar será exclusivamente meu. Não existe coisa melhor que ser independente e poder fazer o que bem entender.
Isso tudo eu tive que aprender quase que sozinho. Na escola a gente tende a pensar que uma nota baixa é o fim do mundo. Eu queria pais que falassem “isso não é nada” em vez de ouvir que eu tinha que estudar mais enquanto eu só queria chorar me sentindo burro. Eu queria pais que falassem que reprovar uma matéria na faculdade faz parte da vida, e não que isso iria atrasar minha graduação e blá blá blá. Eu queria pais que falassem que mesmo que você se forme em algo que nem goste, você terá um trabalho sim. Gente que não se forma tem, por que você não teria? E principalmente, eu queria pais que me ouvissem. Que se dessem ao trabalho de se importar comigo. E o mais importante, me dessem amor. Amar não é gostar muito, querer que o filho ligue toda hora, dar comida e dar dinheiro, não. Amar é você demonstrar isso sempre. É um abraço, uma conversa, um carinho, sentir que a outra pessoa está mal, não conseguir imaginar sua vida sem aquela pessoa, entre tantas outras coisas que só vim aprender agora.
É, eu fui aprender o que é amor nessa viagem. Amor pela vida, amor pelas coisas simples e o amor por uma pessoa que você faz questão de tê-la ao seu lado. Eu me martirizei muito quando voltei ao Brasil porque pensava que foi tudo culpa dele, e como já falei, ele me fez um bem. Ele me libertou dessa doença maldita. Eu já transei com outros caras depois que voltei ao Brasil, já tentei namorar, mas até agora não senti nada perto do que aquilo foi. Sexo por sexo é bom, mas sexo com amor é a melhor coisa do mundo. Melhor que qualquer musical já encenado, que chocolate, que Kerry Butler, que tudo. Eu não tenho vergonha de falar que eu o amei mesmo tendo sido muito curto, e que no fundo, ainda o amo. Já o deletei, já o readicionei, ainda nos falamos e ele sente o mesmo. O problema é a distância, mas a gente nunca sabe o dia de amanhã. Mesmo que eu não fique nunca mais com ele, fico feliz de ter sentido isso uma vez na vida. E, quem sabe, eu não sinta novamente com outra pessoa se não com ele. Não me fecho a qualquer oportunidade que venha e isso que importa. Inclusive, existem muitas músicas que eu escuto e lembro dele. “Teenage Dream” porque numa das vezes que transamos tava tocando na rua e ele foi fazendo strip-tease enquanto cantava – lindo. “Elephant Love Medley” que cantamos e encenamos juntos mesmo sem filmar, entre tantas, mas essa é a que mais resume:
Ele nem deve conhecer, não tivemos nenhum momento com ela, mas é a letra. Ela diz tudo que eu sinto depois que o conheci. “Maybe it lasted a day, maybe it lasted an hour, but somehow it will never end. In a very unusual way, I think I’m in love with you. In a very unusual way, I want to cry. Something inside me goes weak, something inside me surrenders. And you’re the reason why, you’re the reason why. (…) In a very unusual way, I owe what I am to you. (…) How could I forget you once have touched my soul? In a very unusual way, you’ve made me whole.
Meu pai, depois que eu contei o que aconteceu por alto, focando nos musicais, falando que essa viagem era tudo que eu queria, ele respondeu ”se você tivesse me falado eu teria até te dado apoio”. Ironicamente, ele descobriu o blog enquanto eu tava na Disney e falou “eu li as coisas que você escreve, e você escreve bem!”. Inclusive, ele pode até estar lendo isso agora e eu realmente não me importo. Um dos irmãos dele encontrou pelo Google o meu vídeo no Jardim Botânico e achava que eu usava drogas por ter falado “drogas e rock n’ roll” no vídeo. Pois é, sente o nível. O irmão falou pro meu pai, que viu e avisou minha mãe. Isso nem vem mais ao caso, mas o fato dele falar que teria dado apoio se soubesse. É muito fácil dizer isso depois que tudo aconteceu. Ir no cemitério falar pro morto que você amava ele, não muda o fato de que você não falou pra ele em vida. Inclusive vejo pessoas mandando mensagens para perfis no Facebook de pessoas que já faleceram, gente, isso é errado. Muito errado. O trabalho do pai (ou da mãe/quem cria) é de fato prezar pelo seu filho. Nós nunca tivemos diálogo. O diálogo mais próximo que tinhamos era minha mãe e meu pai brigando. Todo dia. Toda hora. Mesmo assunto. Eles trabalhavam no Colégio Militar também, era um inferno. No carro indo pro colégio era briga. Na volta a mesma coisa. Tudo sobre a maldita Associação de Pais e Mestres em que ambos trabalhavam e esse apartamento maldito do qual vivo. A vida deles era aquilo. Quanto a mim e meu irmão, se as notas eram azuis, nós estávamos ótimos. Nada mais importava. Eu tive depressão, o médico falou que eu tinha que me tratar, e os dois passaram por cima disso de uma forma patética. Meu pai, como o cristão que é, devia pensar mais na bíblia. Se for pensar, é a mesma coisa. É muito fácil assumir Jesus quando já tiver morrido e estiver ardendo no inferno, tem que aceitar que Jesus existe agora. Com vida. Eu nunca li a bíblia também, mas acredito eu que a mensagem principal seja o amor. É, o amor, o que nunca houve nessa casa. Um dia na minha terá. Eu vou formar minha família e a partir dali será só amor. Seja com um marido e/ou um bulldog inglês e/ou adotando uma criança, seja como for, será com amor.
Vocês que lêem o meu blog me conhecem melhor que minha própria família. Meu irmão ainda acha que tudo não passou de um show meu, não aceito perder nada por ter sido mimado (não sei a razão dele achar que eu fui mimado, mas tranquilo). Minha mãe acha que me curou de tanto que ela orou, que era espiritual e um dia eu verei isso. Ele ainda frequenta o tal lugar do Bezerra de Menezes. Ela teve a audácia de falar que tudo isso aconteceu comigo porque eu não agradeci a Deus enquanto estava em Orlando. Se fosse assim, 90% do Vista Way seria deprimido né. Ela não tem tato das coisas que ela fala. Ela também foi sem noção a ponto de me perguntar o nome do infeliz que abusou de mim, pra assim procurar foto nas revistas do colégio. Encontrou, arrancou uma foto e ora por ele. Sim, ora por ele, “porque ele é doente, ele precisa de oração”. Eu sei que essa é a forma dela se sentir bem consigo mesma, mas isso não muda nada o que aconteceu comigo. Meu pai eu nem sei o que acha disso tudo, mas eu não me importo também. Ele descobriu que eu era gay porque fuçou meu Facebook na época que eu tava namorando. Desde então não falei mais com ele e não sinto falta. Ele é uma boa pessoa, eu lembro das coisas que ele falou quando eu liguei doente de NYC, desse suposto apoio que ele teria me dado depois que tudo aconteceu, e sei que ele não fez nada com maldade. Mas não dá. Eu acho que foi uma ajuda tardia, agora não adianta mais. Sem contar que todo o sofrimento da minha adolescência foi por conta da religião dele. Eu não consigo entender como pais acham que seus filhos, crianças, realmente não teriam medo de pessoas gritando, se sacudindo e caindo no chão por conta de demônios. Ainda que eu fosse hétero, eu morreria de medo disso.
Eu gosto da minha família, não tenho outra opção. Família tem uma conotação forte. Mas infelizmente eu não os amo. Espero um dia poder, mas não me dou ao trabalho de forçar mais. Amo mais meus amigos, os próprios musicais, do que minha família. A razão é simples. Quando eu mais precisei deles, eles não estavam lá. Nem na minha recuperação agora eles estiveram 100%. Eles fizeram jogado, me faziam duvidar se eu estava no caminho certo, se não. Minha mãe até hoje se refere a psicóloga como “a putinha” porque ela não gostou de algumas coisas que ouviu numa das sessões. Essa é a forma dela não se sentir mal por tudo que aconteceu comigo. Essa é a realidade. Ela pode ter me criado bem, mas passou por cima do ser humano que eu era. Não só eu, meu irmão, coitado. Ele também deve ter tantos problemas que nem sei. Ainda mais que ele é fechado, e no dia que ele tava chorando, eu vi um lado dele que nunca tinha visto. Eu falo que ele tem que ir na psicóloga, ele não quer. Um dia ele vai pela dor como eu, mas enquanto eu tiver saco, irei falar pra ele ir. Ele não sabe lidar bem com emoções, tanto que fica gaguejando sempre que fica nervoso. E briga todo dia com a namorada, segundo minha psicóloga é porque ele viu nossos pais sempre brigando e acha que isso tem que ter na relação dele também. É uma situação complicada, mas ai também já é com ele.
Quando eu voltei e tentava me matar, minha mãe me chamava de egoísta. “Quanto egoísmo, você não é só você, você tem uma família!”. Engraçado, nessas horas eu tenho uma família. Quando eu tava mal, andando pelos cantos, pedindo pra ir ao hospital, deixando claro que eu não estava bem, eu não tinha. E vamos analisar, egoísmo? O que é uma pessoa egoísta? Não é aquela que só pensa nela mesma? Uma pessoa que tá tentando cometer suicídio tá pensando nela mesma? É claro que não! Egoísmo é a pessoa pensar que a outra que tá numa situação péssima dessas deveria pensar na outra. Isso sim meu bem, isso é egoísmo. Se você nunca passou por uma situação desesperadora dessas e não tem uma doença psicológica que te faz querer morrer, dê graças a Deus, ao destino, ao caralho que você acredite, mas não julgue. Ela também falava “você acha que agindo assim as pessoas vão ter pena de você?”. Porque claro, eu queria mesmo que as pessoas sentissem o sentimento mais desprezível do mundo por mim. Era tudo que eu queria. Eu mesmo não sentia pena de mim, dai eu vou esperar que os outros sintam. É isso mesmo, palmas para minha mãe.
O maior problema dos meus pais além da ignorância, é que eles agem feito criança. Sempre agiram e não crescem. Se eles tivessem sentado pra conversar a situação do apartamento, a nossa estadia em Manaus, nada disso teria acontecido. Eu e meu irmão éramos criança, por isso nem dava pra intervir. Meu pai recebe um salário que dava pra todos nós vivermos bem, mas não, são dívidas atrás de dívidas. Isso tudo que aconteceu comigo já passou, brigaram bastante, eu dei sinal de melhora, pronto. Fingem que nada aconteceu. Preferem ignorar do que aceitar. Mas é a forma deles lidarem, acho errado, mas não posso me meter. Meu pai também não tem tato as vezes. Ele teve a coragem de ir na faculdade comigo e durante o almoço falar “nossa, o almoço aqui é barato” sendo que ele nunca me deu um real para eu levar pro faculdade e sabendo que pra economizar dinheiro pra viagem, eu levava marmita e tinha que ir no setor de artes pra esquentar no microondas deles. É realmente barato, mas pra quem tem dinheiro. Quem não tem, e se eu dependesse dele não teria, passa fome mesmo. É tão fácil falar né, o difícil é pensar antes, fazer.
Admiro muito vocês que falam sem peso na consciência que amam seus pais, irmãos, etc. Mesmo. Lá na Disney eu via amigos ligando pra família, contando as novidades, e terminava com “te amo, saudades”. Achava lindo. Eu ligava pra minha mãe e ela me lembrava porque eu não queria voltar. Eu contava as novidades e ela respondia “ah, e na novela a fulana tá traindo o ciclano” e eu “tá mãe” sendo que né, nem assisto pra saber quem é, e ainda que soubesse, não estava interessado. Eu queria gritar “mãe, hoje eu fui o Woody!” e ela vinha com coisa de vizinha, fofoquinha de parente. Não dava. E a vocês que já amam suas famílias, mas amem, amem mesmo. Não tem coisa melhor. E se você é pai ou mãe lendo aqui, ame muito seus filhos. Incondicionalmente. Perguntem se eles estão bem, fiquem de olho em como se comportam. Ninguém chega falando se não existe um espaço aberto. Nunca teve esse espaço aqui em casa e nunca terá. Eu tô bem, isso que importa. Mas eles não fazem ideia das coisas que estão aqui dentro ainda. Eles nem sonham com a magnitude do quanto NYC era importante pra mim e as mudanças que ocorreram na minha vida por conta disso. Aliás, nunca entendia a Dorothy antes disso. Sempre achei estupidez dela sair de um lugar lindo e feliz como Oz onde ela tinha o Espantalho lindo, música, dança, felicidade, e resolveu voltar pra casa. Uma fazendo nojenta sem cor, uma tia que a ignora, uma velha chata querendo pegar seu cachorro, etc. Ela mesmo desejava ir para um lugar “além do arco-íris” e chegando lá, ela só fala em voltar e voltar e voltar? Mas hoje eu entendo. O “lar” não é a sua casa, ou lugar algum. É o amor. Lar é onde o seu coração está. No caso ela amava a Tia Em, o tio e etc. então era o lugar certo a estar. Meu lar é estar com meus amigos queridos, com os musicais e agora parte desse lar reside no momento em Michigan. Um dia essa parte pode migrar, ou ser completa, só o tempo dirá. Mas eu já sei que meu lar não é essa casa que eu resido agora, é a que eu mesmo criarei com minhas próprias mãos.
Não tenho a família que gostaria de ter, mas os amigos sim. Esses eu tenho sorte de ter. Tudo isso também foi bom para ver quem são os verdadeiros. Tem gente que eu não falo desde da viagem e por mim, permanece assim. Não faço a menor questão. Os poucos amigos, aqueles que eu conto no dedo mesmo, aqueles que ficavam me ligando sempre mesmo quando eu desligava na cara deles, aqueles que chegaram a fazer amizade com minha mãe pra saber como eu estava, aqueles que vieram até aqui em casa mesmo quando eu me tranquei no quarto pra não vê-los, esses sim são meus amigos e o que tiver no meu alcance, o farei por eles. Quem não me faz bem, eu desprezo. Não odeio ninguém, nem desejo mal. Eu só não sou Deus então ainda existem aqueles seres que perturbam e não interessa o quão “evoluido” eu seja, sempre irão perturbar. Mas eu desprezo, ignoro. É a melhor coisa que você pode fazer. Eu sei que algumas pessoas vão ficar felizes em ler minha desgraça, mas eu não me importo. Eu não desejo isso que eu vivi nem pro ser mais desprezível da minha vida, ainda que ele venha a desejar em dobro para mim.
Minha vida mudou, perspectiva de vida também, óbvio que o blog também mudará. Antes eu escrevia sobre todas as peças que eu assistia, agora não. Agora eu escrevo se a vontade vier. Já assisti peças que eu até gostei, mas não veio a vontade, deixei pra lá. Eu pretendo escrever mais sobre peças que me tocarem mesmo. Eu posso até gostar, achar bacana, mas se não me tocar, seja positivamente ou negativamente, pretendo nem escrever. Escrever uma crítica como as que eu escrevo exigem um tempo, não sai em questão de minutinhos, então vou aproveitar e dedicar esse tempo para outras coisas. Também não detono mais, por mais que tivesse gente que gostava e se divertia, eu não vejo mais graça agora. Eu com certeza ofendi muitas pessoas, me queimei com outras, mas peço desculpas. Infelizmente eu não sabia, mas eu sentia a necessidade de escrever, extravasar, e não media minhas palavras. Era a minha forma de superar aquilo. Quando eu vejo algo ruim, eu fico até com dor de cabeça. Mexe muito comigo. Então escrever detonando aqui era uma forma de ficar bem comigo mesmo. Hoje em dia não preciso, tenho psicóloga, tenho amigos que xingo a peça horrores no bar e pronto, só eles precisam saber. Mas na época eu usava esse espaço pra isso. Sem saber, fazia isso por necessidade, usava do blog quase que como terapia. Então novamente, peço desculpas as pessoas que eu possa ter ofendido aqui.
Isso, é claro, não vale pra galera do Por Uma Noite, Miguel Falabella/Chaim em Hairspray, La Cage, e cia. Esses são oportunistas mesmo. O lance é, eu me privo de nem ir mais. Se eu já acho que é ruim, não vou. Pode até ter coisinhas que se salvem, mas não dá mais. Não tenho mais esse saco. Minhas desculpas são mais aos que fazem o que fazem por amor e com um mínimo de bom senso e gosto. Quem é oportunista e faz merda mesmo, tudo que eu falei ainda tá de pé. Aos atores que fazem por amor, vocês podem ser ruins mesmo, desculpa só a forma grossa que eu disse isso. Ao menos vocês têm tempo pra melhorar e eu espero sinceramente que o façam. A arte que vocês representam mudam vidas, a minha mesmo como já expliquei muito bem aqui. Continuem e tentem sempre. Eu vou até confessar que eu não entendo a razão de me levarem tão a sério. As vezes eu me sentia mais ameaçador do que a própria Heliodora, mas não gente, eu não sou um monstro. Eu sou sim muito exigente, e a depressão explica isso também. Uma pessoa depressiva sente tudo de forma mais intensa. Então o que é muito bom, é extremamente foda e eu saia do teatro flutuando. E o que é ruim, é extremamente horrível, e eu saio com dor de cabeça. É uma coisa minha. Opinião é algo relativo, eu tenho a minha, mas muita gente toma como verdade absoluta sendo que não é. Eu não gostar de um musical não faz dele ruim, vocês podem gostar. Mas me levam a sério demais e não entendo. Só que, se eu fosse pra eu chutar um motivo pra vocês me levarem tão a sério, chutaria a minha sinceridade.
Sinceridade é algo que falta e muito no meio teatral. Aliás, ela nem pode existir né. Você não pode ser sincero caso queira sobreviver nessa área. Viu uma peça que não gostou? “Parabéns, que incrível!”. Não gosta daquela pessoa? “Nossa, que talento!”. É assim que você consegue um papel numa peça futura, é assim que você é querido por todos, você realmente não pode ter opinião. Então surge eu, exigente e sincero até demais, falando das coisas que gosto e não gosto sem me importar com o que vão achar. Realmente, acho que isso que deve impressionar. Eu sou tão sincero comigo mesmo que eu podia fingir estar curtindo NYC, mas eu não quis. Eu estava me enganando. Depois de tanto tentar, eu simplesmente desisti. Esse sou eu gente, e continuarei sendo sincero sempre. Eu passei anos escondendo parte do que eu sou, e não faço mais isso. Tudo que eu escrevi nesse blog, no momento que escrevi, estava sendo sincero comigo mesmo. Não falo bem pra agradar e ficar amigo de atores, ganhar convites, nada. Não conseguiria dormir a noite fazendo isso. Tem gente que fala que eu só falo bem de M&B, que eu detono as outras peças e blá blá blá. Pra vocês eu digo: meu cu. Se fuçar os posts antigos, tem muitas críticas de outros diretores também e muito boas. Não é minha culpa se eles são extremamente talentosos. Eu também admiro muito Jorge Takla, João Fonseca, sem contar que eu vou em qualquer musical que tenha, independente de quem seja. Eu acabei de contar pra quem quiser ler que eu tentei suicídio diversas vezes, que eu tenho problemas, que eu sou tão ser humano quanto vocês. Então se vocês realmente acham que eu preciso ficar fazendo média seja pelo o motivo que for, caguei montes. É muito fácil julgar, ficar falando o que quiser, mas a vida é isso.
Essa sinceridade falta também nos próprios fãs de musicais. Eu não procuro mais amizades novas nesse meio. Os que eu tenho, já me bastam. Amizade nesse meio é assim: se você não deu um áudio pro outro, para de falar. Do nada. Não passou vídeo? Fim da amizade. Nossa, isso é patético demais! Sem contar que falam mal de você nas suas costas, você descobre depois, te usam, na hora do interesse surgem. É horrível. Eu tô completamente fora disso. Antigamente eu adorava conhecer pessoas que me entendem, mas não mais. Já se foi o tempo em que se falava da obra, agora são fofocas e especulações. Não me venham com essas, eu não me importo mais. E bem, assim como minha obsessão por musicais escondia uma doença, a de muita gente também pode esconder. Recalque por não ser ator/cantor/talentoso, então fica sendo fã que “conhece” todo mundo e é “conhecido” no meio. Essa é a forma dele brilhar, coitado. Tem a inveja também. Tudo que ele queria era estar ali, mas tenta se contentar com o público. E claro, óbvio que tem os “normais”. Mas eles não são tão obcecadas. Tudo que é exagero, vício, é porque tem alguma coisinha errada. O que as pessoas não sabem é que tudo, tudo nessa vida tem uma razão. A gente pode não entender na hora, mas um dia vem. Fazendo análise vem mais rápido ainda.
E aos atores, diretores, todos que trabalham com teatro, deixo só mais um recado: não levem críticas a sério! Não precisa. A obrigação de vocês é fazer o trabalho de vocês da melhor maneira possível. O público, a crítica, os fãs de musicais, ainda que todos juntos digam que você é horrível, se você tá fazendo o seu trabalho com empenho, dedicação e amor, foda-se. Até mesmo que no caso dos atores, um diretor acreditou em você e te colocou naquela posição. Ele pode ser ruim, é uma possibilidade, mas te colocou lá. E você pode ser famosa, ter nome, não ter talento, e aí o povo cai em cima mesmo. Mas ainda assim tem algum motivo. Nem que seja só bilheteria, tem motivo. Mas não leve a gente a sério. Não tem pra quê se estressar com essas coisas. Ficar discutindo com crianças não vai melhorar nada. A maioria desses blogs mal escritos e que detonam tudo são feito por crianças, podem dar uma pesquisada que vocês verão isso. Eu na minha época de Orkut era a mesma coisa. E novamente, pra quê discutir com pirralho? É preferível procurar análise e falar com a psicóloga que você precisa aprender a lidar com críticas, seja ela de quem seja. Pessoas normais recebem críticas, imaginem vocês num palco, lidando com público.
Claro que irei continuar escrevendo críticas, eu gosto de escrever. Mas só do que eu quiser e quando vier a vontade. Se não vier, não cobrem. Mas se vier, mesmo que pra falar mal, eu falo sim. Nunca escrevi com o intuito de machucar ou ofender, e sim só de expressar da melhor maneira possível o que eu senti. Eu sou fã de musical oras, eu quero é ver coisa boa! Acho também muito fácil um ator querer falar que eu peguei pesado e ofendi, sendo que eles não pensam que as vezes, o péssimo trabalho deles me ofende seriamente. Eu sai completamente ofendido com Outside e Letícia Spiller, eu poderia simplesmente ter escrito tudo aqui, doa a quem doer. Mas não precisei, como disse, tenho outras formas de extravasar o sentimento. Agora me fala se tem como não ficar ofendido com isso:
Vergonha alheia define essas coisas e se uma ofensa dessas chega a mim, eu não posso ofender? Claro que eu posso. Se xingam a sua mãe você não parte pra cima? Poderia dar outros exemplos, mas esses dois já ilustram bem o que é ofender um fã de musical.
Mesmo não sendo tão freak quanto antes, é claro que ainda sou fã de musicais. É onde eu me encontro, a cada peça boa que eu assisto eu aprendo, me envolvo, gosto de pesquisar sobre o assunto abordado, e por aí vai. Agora eu os vejo até de outra forma. Eu não dependo deles pra ser feliz, eu já sou da minha forma. Eu vou agora por prazer, por amor. Inclusive meu amor nunca foi mais puro. Antes eu fazia questão de programa, foto, autógrafo, hoje em dia assistir a peça me basta. Ter acesso a obra e ter o prazer de assisti-la. Eu até dei boa parte da minha coleção para Carol, agora tenho só dos mais marcantes.
Quando eu fui pra Broadway eu queria sim as fotos, autógrafos, mas aqui no Brasil nunca fiz questão. Uma das razões é porque, na minha mente, todos vocês já me odeiam. Eu já postei tanta coisa pela internet afora que eu sei que existem pessoas que eu nem conheço que já me odeiam. E eu não os julgo, respeito até. E por respeitar que eu nem me aproximo. E agora, mais do que nunca, não me importo. Eu realmente não faço mais questão disso. Faço stagedoor apenas com os que já conheço e só pra dar um beijo, elogiar. Aos que eu não falar, é porque não conheço vocês como pessoa, não sei a visão que têm sobre mim (e claro, ainda podem existir os que nem sabem quem eu sou) então prefiro deixar por isso mesmo. Não é por eu me achar melhor nem nada, é só uma forma de respeitar sua opinião. E se a sua atuação for muito muito boa, eu posso até me empolgar e ir falar. Ai se me odeiam, façam jus a profissão e só agradeçam (me condenando mentalmente, claro).
E bem, antes disso tudo, eu gostava de ter pra recordação. Não é pra fazer inveja nem nada, acho isso babaquice. Mas a minha memória é meio bizarra. Se eu pego um programa de um musical que eu vejo e começo a folhear, as memórias começam a pipocar. Então gostava de ter bonitinho, com autógrafo eu ia lembrar de quando falei com o ator, a felicidade que eu sentia naquele momento, a foto ia mostrar meu sorriso bobo, essas coisas. Agora eu desapeguei, foi mais forte do que eu. Mas não condeno vocês que ainda fazem não, viu? Acho super fofo, e o ator gosta de ter o trabalho reconhecido, então vão e tietem mesmo. Eu sou assim agora até com fotos normais, não fico mais tirando foto de tudo, são raros os momentos que eu resolvo tirar foto. Não sei explicar ainda, mas me basta só ver com meus olhos, experienciar aquilo. Deve ser parte do trauma da loucura de NYC, tô de férias da psicóloga, se eu lembrar falo sobre isso com ela.
Devo inclusive dizer que assisti Catch Me If You Can em vídeo e ri, ri do solo da Kerry Butler. A música é linda, mas a atuação dela no final tá completamente amadora.
Coloca em 06:20. É ai que começa a parte que eu fiquei “Kerry, é você?”. O que são esses bracinhos com raiva? E a atuação de novela mexicana? E alguém avisa o figurinista que esse vestido é horrendo? Claro que ao vivo eu teria amado, chorado baldes e o escambal. Mas nossa, fiquei sem palavras com o amadorismo nessa cena. A mesma pessoa que um dia me emocionou pelo simples, tá completamente over. A música é linda, eu já conhecia antes de viajar e tudo, mas nossa, que coisa tensa. Sim, continuo a amando, mas acho que nem depressivo eu deixaria passar esse finalzinho.
Minha visão dos vídeos antes de viajar era “sei que isso não é ao vivo, o teatro foi feito pra ser experienciado ao vivo, mas é a forma que tenho, vou aproveitar”. Agora que já fui lá e já vi como é ao vivo ainda te digo mais. Realmente você não pode analisar termos técnicos. Cenários, iluminação, figurino, tudo é bem diferente. Ganha mais vida, mais cor. O som também fica mais envolvente. O vídeo é só uma amostra do que a peça realmente é. Só que olha, sou mais feliz assistindo os vídeos bem aqui do que fui assistindo ao vivo enquanto estive lá. Claro que a partir de agora, sem a depressão, vai ser bem diferente. E mesmo no Billy Elliot, que naquele momento eu me permiti ficar bem, a sensação é a mesma do que assistir algo ao vivo aqui no Brasil. Um Violinista no Telhado, As Bruxas de Eastwick, Evita, todos e muitos mais já são/foram nível Broadway. Antes de ir a gente tem na cabeça que tudo lá é perfeito, um nível ainda maior que o Brasil. Não é gente, o Brasil só perde no quesito dos teatros. São poucos, estrutura é sempre aquém do que poderia ser e assim não dá pra montar produções tipo Wicked, mas só. Chegamos num nível invejável e aposto que se existisse um ranking mundial o Brasil estaria super bem na fita. Ah, e lá os ingressos também são caríssimos, mas ao menos tem a loteria e os de estudante (que não são que nem aqui) que fazem valer a pena.
Agora, sempre que vejo um vídeo novo, eu sou grato. Grato que alguém fez o favor de filmar ilegalmente (e o terrorismo em cima das filmadoras é enorme, não sei como conseguem). Grato por saber inglês (embora até isso meu pai tenha jogado na minha cara que se não fosse ele, eu não saberia – risos), por entender tudo e poder me envolver com aquilo. Inclusive, aprimorei o inglês nessa viagem também. Antes tinha medo de assistir séries sem legenda, agora só faço isso. E quanto aos musicais, eu sempre prefiro um bom texto e um elenco o executando bem do que qualquer outra coisa, e isso no vídeo dá pra ser analisado muito bem. Só não entra o quesito presença de palco, mas tranquilo. Eu não assisti Book of Mormon ao vivo. Teria amado e seria o melhor que teria assistido sem dúvidas, mas foi o primeiro que vi em vídeo depois que me considerei apto a assistir. A genialidade dessa peça me comove. Eu já assisti mais de 5 vezes. Eu vou assistir ao vivo porque não vai fechar tão cedo, só não será com o elenco original, mas faz parte. Num futuro post eu falo mais sobre a peça, coloco links pra downloads, etc. Essa merece e muito.
Ao assistir uma peça ao vivo, agora eu me sinto abençoado de ainda estar em vida para vivenciar aquilo. Senti isso nas já mencionadas e existe um vídeo que resume bem minha visão sobre os musicais agora (sendo também de um dos musicais que me fizeram sentir isso):
Não depender mais de nada para minha felicidade é algo que não tem preço. Sem contar que os musicais ainda estão ai! Só não são mais minha “droga”. Não faço questão de ir em estreias, de assistir mais de uma vez, ou em alguns casos de se quer ir uma única vez. E essa visão também tenho na vida. Todo momento bom que eu vivo, eu vejo que poderia nem estar vivendo mais aquilo. É bom ver assim porque assim eu só estou sempre ganhando. Como já disse, fiz coisas que nunca pensei que faria. E ainda pretendo fazer mais.
Sempre falei “sou público somente, não trabalho e nem pretendo trabalhar com musicais”. Agora eu digo “por que não tentar?”. Não precisa ser agora, e nem será. Mas um dia no futuro, quem sabe? Seja como for, com quem, em quê, isso não interessa. Mas não descarto mais nada. Se a gente parar pra pensar, tem muita gente talentosa sim que te fazer ver que você não tem condições de se equiparar. Mas também tem tanta gente ruim que chega lá um dia, posso tentar também. Só que eu tenho bom senso, então eu vou estudar muito antes disso. E posso até mudar de ideia já amanhã e falar “é, melhor não”. O que vier, tá ótimo. O lance é que eu não fico mais ditando limites para minha vida. Viverei o que tiver que viver, tentarei fazer o que me der vontade, fracassarei, posso vencer, e por aí vai indo. O importante é que aconteça o que acontecer, não me abalará.
Existem aquelas pessoas que são ruins, todo mundo sabe, tá em todos os cursos, faz aula de canto há mil anos, e tá lá, tentando. Enquanto existir esperança, ela vai acreditar. E ó, palmas. Palmas pra vocês. Ninguém vai dizer pra ele que ele não pode, mesmo que o professor de canto veja que a situação tá tensa, ele vai insistir. E enquanto isso não tiver fazendo mal, tem que ser assim mesmo. Só não pode ser esses cuzões que acham que não tem mais espaço pra gente nova, que é tudo panelinha, blá blá blá. O que falta pra esse povo é bom senso. Se você tem o bom senso de ver que é, você não tá num nível maravilhoso ainda, mas tá chegando lá, já tem mais o meu respeito do que tudo. Juro que eu até faria aulas de canto só pra entender melhor. Eu não sei nada de técnica, eu só sei o que soa bem e o que não soa bem aos meus ouvidos. Gostaria de aprender, me atrever a fazer direitinho, mas agora não dá. Não tenho dinheiro, tenho coisas mais importantes pra me importar, quero me formar logo, conseguir uma estabilidade, mas quando for a hora, eu vejo.
Decidi também levar uma vida melhor a partir de 2012, o ano zero. Farei um esporte físico (apesar de saber que sou sedentário) para assim, cuidar do corpo também. Na Disney eu fiquei super bem de físico, quero ficar melhor que aquilo. Cuidarei da mente, corpo e espírito. A mente é na psicóloga, o corpo será na natação/musculação e o espírito tá bem. Como falei, devo ir ver o Budismo, mas ainda que nem vá, ir ao teatro já eleva meu espírito. Ainda acredito em Deus, mas de uma forma diferente das pessoas no geral.
Eu acho que Deus me fez gay porque ele sabe que eu sou fabuloso demais pra ser hétero (nada contra, mas todo mundo sabe que é verdade). Ele me fez depressivo pra eu viver tudo ainda mais intensamente, e agora, poder dar valor para as coisas que importam. O resto fui eu. Ele não tem planos na minha vida, ele não fica brincando com meu destino, ele não fica me julgando. Eu não sei o que ele faz, mas ele tem coisas mais importantes do que isso. Eu não recorro a ele quando tô mal, nem fico pedindo as coisas. Eu converso com ele às vezes, mas é bem raro, é só um teaser pra quando eu morrer mesmo e aí sim batermos aquele papo esperto. Sei que chegando lá, ele será assim:
Ele falará “Bem-vindo! No momento eu tô meio ocupado, você sabe como é, muita gente sem noção nessa terra, puta que o pariu! Nunca pensei que ia chegar nesse nível, mas enquanto isso, conversa com meu filho Jesus”, e aí Jesus entra:
E pra quem não sabe, Jesus canta. Não é lá grandes coisas, mas canta bonitinho.
Jesus é melhor ator que cantor, mas ele é lindo e bem, ele é Jesus. A gente perdoa tudo de Jesus! Deus vai falar “eu leio seus pensamentos, logo, sei que você tá querendo pegar meu filho” e eu “mas, não, é, quê isso? não, é…” e ele “Acontece, ele puxou a mim, óbvio! Filho, vai dar uma volta com esse recém-chegado, ensina umas parábolas pra ele, canta…” e, de mãos dadas, nós iremos passear pelo paraíso. Eventualmente transaremos atrás de uns arbustos e depois do feito, eu iria pensar “nossa, fiz sexo com Jesus! que coisa mais errada!” e ele responde “aqui nós fazemos isso quando gostamos de alguém, é algo louvável, não precisa ter vergonha” e ai eu falaria “é, realmente chegamos ao paraíso!”. E depois conheceria outros anjos, faríamos mais sexo, mas Jesus ia me adorar e faria mais vezes comigo.
Agora, se Deus existe mesmo, e ele não é Michael C. Hall, ele viu tudo que eu falei até agora como heresia e assim, irei ao inferno. É triste porque eu passei tanto tempo com medo de ir pra lá, mas agora tô preparado também. Já vivi um inferno pessoal, não deve ser tão difícil. Até mesmo que lá eu terei muitos amigos. Metade dos meus amigos que eu amo são gays e/ou ateus, então se é pra sofrer, vamos sofrer juntos. Não me estresso não. Pelo menos vou morrer sabendo que fiz o melhor que pude aqui na terra. Ajudei quem pude, fiz o que eu considerava ser o certo e o mais importante, vivi. Muita gente perde tempo pensando na vida após a morte, e esquece de viver. Do outro lado nós não sabemos como é, mas aqui sim.
Eu paro pra pensar e vejo o quanto eu sempre tive indícios da depressão mesmo. Eu não escovava os dentes quando criança, fiquei anos sem escovar direito. Hoje tenho os dentes amarelados mas tranquilo, um dia faço um branqueamento. Nunca liguei pra minha aparência física, nunca mesmo. Tinha caspa, era cheio de espinha. Aliás, a própria caspa era indício da doença. Caspa não é sujeira, pode ser, mas também é pelo emocional. Problema de nervo, stress. Mas enfim, tudo passado. Agora me acho lindo como sou mesmo, mas sei que posso ficar mais ainda e farei o que estiver ao meu alcance. Isso além de que tinha baixa auto-estima, medo de fracassar, etc. Esse intercâmbio da Disney era o que eu precisava. Eu vivi emoções ali que não sei se teria em outro lugar. Foi minha primeira viagem, primeira experiência sozinho, primeira trepada, primeiro amor, primeiro trabalho que me fez ter prazer em trabalhar, primeira vez que fui feliz vivendo e não na platéia assistindo algo.
Quando eu estava depressivo em NYC, eu ficava indo na loja da Disney da Times Square morrendo de saudade dos tempos felizes por lá. No começo eu ficava me condenando por isso também, porque eu achava que eu havia virado o que eu sempre condenei. Os Disney freaks:
Sério gente, uma pessoa que vai no barbeiro e pede o corte da cabelo do Woody! Ainda tem uma namorada (sendo mais do que evidente que ele é gay), a chama de Disney Princess (como ela não sabe que ele é gay?!), sério, não tenho palavras. E vamos partir agora para um hétero então (pelo menos, acredito eu).
Como descrever isso, me explica? Como? Novamente, não sou Deus, logo, eu posso rir de coisas assim. E acreditem, tem casos piores. Infelizmente o vídeo da minha musa foi removido do Youtube, ela mesma removeu depois do bullying que rolou. Mas era coisa de outro mundo. Ela desejava “bom diasney galera”, queria dar dicas sendo que nunca nem tinha feito o programa ainda, fazia dos vídeos dela superproduções com efeitos e tosquices. É tão lindo que uma conhecida conseguiu salvar e ficou de me passar. Não passou ainda, mas no que ela passar, eu faço questão de criar um post novo aqui porque merece. Merece muito. E aproveito pra falar um pouco mais sobre esse mundo freak.
Foi vendo essas coisas que vi que sou normal. Ainda quando era fã freak de musicais, nunca fui ao barbeiro pedir um corte de cabelo tão específico assim. O barbeiro que esse menino precisava era o Sweeney Todd, né? É, ainda existem as pessoas que eu acho toscas, patéticas, então vocês também podem me achar. Isso é normal. A tal menina que virou minha musa falou no vídeo “xinguem, comente, o importante é isso”. Eu, mais que prontamente, xinguei. Outras pessoas também o fizeram e pronto, ela apagou tudo. Então por que diz, né? Eu digo e mantenho aqui. Quem quiser me xingar, pode a vontade. Quer rir da minha cara, vou adorar. Eu não ligo. Não ligava quando criança, não é agora que eu de fato vou ligar.
Na Disney a gente vive cada dia como se fosse o último, realiza sonhos, faz tudo pelo povo que visita. Lá tem o tal dos “magical moments”, que é criar uma coisa especial pra alguém. É emocionante, a gente chora, enfim. Coisas que a Disney sabe fazer. Mas nós também devemos viver assim sempre! Muito fácil fazer magical moment lá fora, e chegar aqui e tratar todo mundo mal. Não sair, curtir a vida, viver de fato. Quanto a Orlando, não tenho arrependimentos, apesar de saber que o Charles de agora iria curtir ainda mais. Mas serei sempre grato pelas experiências que tive.
NYC no geral foi tudo errado, mas nada barra o meu arrependimento de ter ficado na casa do menino. Não ter ficado, mas ficado da forma que eu estava. Ele viu um monstro. Ele conviveu com um monstro. Ele pode nunca mais querer receber pessoas na casa dele, fico triste pensando nisso. Eu ia gostar que ele lesse isso aqui, mas eu sei que ele não vai. Tá muito longo e ele trabalha muito, mal tem tempo. Mas estou pensando em mandar uma carta bem resumida com uns DVDs de musicais brasileiros que prometi que mandaria. Ainda tenho o endereço, acho que ele vai gostar. Eu acho que ele vai entender tranquilo. Depois que eu voltei, ainda mal, ele puxava uns assuntos aleatórios no chat do Facebook e respondia tudo tranquilamente. Eu o deletei porque sei lá, não queria ele lendo meus status doidos. Mas bem, ele é fã da Britney Spears. Ele deve entender o que é pirar. Não quero que ele me perdoe pra ficar na casa dele, hoje em dia uma semana ou até menos me basta em NYC e eu posso pagar albergue. Se eu fiquei na casa da minha amiga e na dele, é porque na época, eu era freak a ponto de querer ver tudo. E podendo economizar na hospedagem, veria ainda mais. Mas hoje não é mais necessário. É até bom eu ter meu lugar que se eu conhecer algum gringo bacana (seja ao vivo ou no Grindr), tenho local pra um sexo bacana.
Eu conheci a Carol assim. Não tinha dinheiro pra hotel em São Paulo, pedi se podia ficar lá (sendo que tinha acabado de conhecer no Orkut) e fui na loucura. Nem sonhava que ela viraria tão minha amiga. Por isso meio que fico ressentido, posso ter perdido um amigo nesse nível, mas bom, se ele fosse de fato ser amigo desse nível, ele vai entender. Porque isso sim é ser amigo, e aí da próxima vez que eu for em NYC, dessa vez bem, eu converso com ele e fica tudo tranquilo. Se possível, ainda pago um ingresso pra ele e vamos juntos ver um musical. E bem, no aniversário da Carol fomos assistir Cabaret, e melhor que a peça, são as coisas que nós fazemos que me deixa numa vibe tão bacana. A gente correndo pra chegar na hora, passando no Mc Donald’s e pedindo nosso jantar, sentando no chão de uma lojinha perto pra comer, rindo de piadas que só a gente riria mesmo, não sei explicar, mas é uma vibe que eu sempre pensei que sentiria em NYC e não senti muito. Claro, tava doente e sozinho, mas da próxima vez que for, e nos meus planos já tem uma pessoa especial pra me acompanhar, será assim. E eu quero ter pelo menos um dia nesse nível com ele pra tentar compensar.
Como falei em algum capítulo, já escrevi tanto que me perdi, eu cheguei a ter uma pseudo-namorada e hoje em dia ela é muito minha amiga. Nós brigamos, voltamos a nos falar, brigamos, voltamos e agora somos só amor. E sim, ela é a pessoa dos planos pra próxima viagem que se tudo der certo, será linda. E eu muito consigo ver esse menino me perdoando e nos tornando grandes amigos assim também, e mais, rindo dessa época. Ele chegou a fazer uns musicais pequenos depois que eu voltei, um inclusive com Andrea Burns (acho que era Guys and Dolls?) e veio me contar isso, falando que tava feliz, tava aprendendo muito. Até ano que vem ele pode estar em outro, e ai vou assisti-lo. E bem, agora que eu lembrei disso, por algum motivo que eu não sei, ele ainda vinha falar comigo. É, tô acho que vai dar tudo certo mesmo.
Sabem a frase que dizem “dinheiro não traz felicidade, mas te leva pra sofrer em Paris”? Essa frase é ridícula. Sofrer não é legal em lugar nenhum, ainda mais em um lugar onde você se encontre sozinho. Em Paris eu teria ido tentar me jogar da Torre Eiffel, certeza. Dinheiro facilita muito a nossa vida sim, mas eu prefiro me sentir como me sinto agora sendo pobre do que de fato ser rico. Recentemente eu descobri quanto eu ganhei na Disney. Em dois meses e meio, me divertindo (apesar de um pouco de sofrimento também) ganhei $2457. Dólares. Isso daria sei lá, uns R$4400 no mínimo. Eu paguei minha viagem e sobrou. Comprei celular, Ipod, roupas, ingresso pro Busch Gardens, Sea World, Universal, fui pra Tampa, assisti the Color Purple, Wonderland, paguei os alugueis semanais da Disney, comprei comida (apesar de ter passado uma certa fome com intuito de economizar), entre outros, e ainda sobrou $1300 pra NYC. Sou ou não sou econômico? Só que claro, em NYC deu no que deu porque estava doente, não tinha cabeça. Mas teria dado pra assistir tudo que eu queria, comprado todos os programas, e ainda sobraria muito. Dava pra pagar uma hospedagem sim, mas é, uma mente doente não pensa. Eu queria muito ter voltado bem, com histórias lindas pra contar, ter realizado meu sonho, mas não deu. Eu levei um tempão pra superar, mas superei. Na época era inconcebível eu ter trabalhado tanto pra chegar lá, e não ter vivido da forma que eu queria. Sem contar que teatro é momento, peças que eu não vi já fecharam e agora já era.
Eu ia comentar que no momento me encontro desempregado, devendo amigos, banco, e tudo mais, mas que prefiro isso do que ficar mal como estava. Só que já recebi um email e voltarei a trabalhar no CNA. Me sinto meio Mark Cohen ligando pra Buzzline, mas bora lá. Agora eu vou tirar de letra com certeza e vou juntar esse dinheiro para mais alguma nova aventura. Também estou dando aulas particulares, vou vender algumas coisas que não uso mais (se alguém quiser uma filmadora avisa), vender empada com meu amigo da UERJ por lá que ele sabe fazer e tava precisando de ajuda, e também posso vender dvds de musicais. A maioria você encontra na internet viu gente, vocês podem conseguir de graça (e se vocês são meus amigos mesmo, me peçam que eu dou). Mas pra quem eu não conheço, tem preguiça de baixar ou uma conexão ruim, e quer me fazer um favor se fazendo um favor, eu vendo cópias. Cliquem aqui para acessar minha lista. Tá desatualizado desde de quando eu viajei. Eu já tenho os novos. Anything Goes, Book of Mormon, How to Succeed, etc, quando der eu atualizo. E se eu começar a ignorar sobre isso, é porque resolvi parar ou estava ocupado.
Finalizando o assunto de musicais, há poucos dias fui conferir o novo elenco de Beatles num Céu de Diamantes. É, o primeiro musical que assisti quando voltei ao Rio. E agora, estava vendo o mesmo musical, mas como um Charles mudado. O elenco mudou, a gente muda, a vida é isso. Só fiz começar o ano maravilhosamente bem. Mando um beijo enorme para Malu Rodrigues e Analu Pimenta que são divas e quem puder, vá assistir que ainda tem uma semana e vale muito a pena. Revisei boa parte dos textos que escrevi aqui ouvindo Beatles e não poderia estar numa vibe melhor.
“Life’s a journey, not a destination”. Essa frase ficava no banheiro da minha amiga de NYC, e eu, louco, andando de um lado pro outro na crise, sempre que a via fazia um “argh”. Mas realmente, agora eu vejo o quanto é isso mesmo. Tenho ainda uma longa jornada pela frente e estou disposto a seguir. As vezes tudo isso que eu falei aqui parece um pesadelo. É como se eu não tivesse passado por essas coisas todas. Mas ai eu olho pro meu pulso que eu cortei com a caneca do Pateta e vejo a marca que ficou, dai cai a ficha que sim, tudo aquilo aconteceu mesmo. Eu estou até de barba e pretendo mantê-la por um tempo. Tenho medo de olhar no espelho e ver a mesma feição que tinha antes, daquele Charles inocente, então prefiro ficar com um rosto completamente diferente do que eu era.
Se eu pudesse dar uma dica agora pra alguém nessa situação seria que nunca, nunca subestimem suas emoções. Tudo tem uma razão. Mesmo as coisas que você faz sem saber, existe uma razão ali que você não está vendo com clareza e ir ao psicólogo ajuda. Mesmo não sendo doente, é bom fazer porque você passa a se conhecer e com isso sua vida só melhora. Mudanças ocorrem na sua vida e você precisa estar preparado para enfrentar. Sem esquecer o principal: seja feliz. Faça o que te faz feliz. Desde que isso não machuque ninguém. Se sua felicidade é casar e ter uma família, estudar muito e ter um trabalho foda, viajar o mundo, ser uma piranha, fazer caridade, vender cupcakes mesmo não precisando, o que seja. Se não atrapalha ninguém e você está vivendo de uma forma saudável, faça. Seja feliz. Aos possíveis homossexuais que ainda são enclausurados em pleno séc. XXI, vamos sair! Não sei o motivo de vocês ainda estarem em Nárnia, mas gente, se é religião pense que só o fato de você ser gay, já é razão pra ir ao inferno. Ou seja, aproveite, porque você vai pra lá do mesmo jeito. Se são os pais, eles precisam entender. Se eles não entenderem, eles não te amam de verdade. Não sei outros motivos que possam retrair, mas tudo tem solução. E bem, se você já se aceitar pra você mesmo, já tá ótimo. Não precisa sair espalhando, mas seja feliz. Aproveite. Seus amigos todos já sabem mas fingem que não pra te fazer se sentir melhor. E olha, vou te contar que não tem nada mais lindo que um pau bonito. Tem uns feios, óbvio. Exite gente feia também né. Mas os que são bonitos, vocês não tem ideia do que estão perdendo.
Eu escrevi tudo isso por dois motivos. Primeiro ajudar quem possa precisar de ajuda. Mostrar que é normal, que tem jeito, que eu que nunca fui porra nenhuma mas o povo jurava que eu era, tive. E segundo porque eu tinha me desafiado a escrever isso. No que eu clicar em “publicar”, sei que vai ser o ponto final. Quando superei por completo, virei a página, e nem ficarei mais pensando nisso. Pensarei no futuro, o que está por vir. E mal posso esperar pelas as novas aventuras que virão. Não acho que eu seja exemplo pra ninguém. Não mesmo. Mas se passei por isso tudo e posso ajudar alguém, por que não? Se você chegou aqui porque procurou depressão no Google, ou estava simplesmente vivendo meio triste, espero que isso tenha te tocado. E se não tocou, caguei montes. Leu porque quis.
Meu nome é Charles Fouquet, tenho 22 anos e ainda muito o que aprender.
Vivam. Amem. Sintam. Sejam felizes. Amém.

Fim.
Retiro o que disse.
Minha animação mandou um beijo e foi para Xanacu. Danielle Winits é protagonista, e no agudo final só escuto Sabrina Korgut. É isso mesmo produção? Acho que nossa Kira em vez de inventar um sotaque australiano, preferiu não ter voz. E o geral em si, não parece agradar muito.
Quem assistiu e quiser dar sua opinião, pode usar o espaço dos comentários. Eu tô achando que vou passar mesmo.







































































Comentários